quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O viúvo, 5º capítulo

Vincent van Gogh [Public domain- Wikimedia Commons

Estava na casa da doutora quando escutei os gritos. Perguntei pra empregada o que era aquilo. A moça disse que não sabia. Não sei do que se trata. A casa aqui, continuou ela, é muito sossegada. Os pacientes são nervosos, mas nunca atacam, gritam ou fazem escândalo. O homem aí deve ser um estranho. Nunca vi ele aqui, disse ela. Olha como estou nervosa. E pegou minha mão e ia colocar no peito, mas recuei, era um gesto muito íntimo, geralmente as mulheres que fizeram isso comigo era para eu tocar os mamilos por cima da blusa, mas a empregada não tinha essa intenção e eu não podia me permitir abusar do nervosismo da mocinha para tocar os seios dela.
A casa tem dois andares. Desperdício. Ali moram apenas duas velhas. Uma, minha psicanalista; a outra, irmã dela. A irmã da minha psicanalista não faz nada na vida. Sempre cuidou da irmã, foi uma secretária, mas hoje nem mesmo cumpre as funções de secretária. Que vida besta. É apenas um vulto vestido de saia que vaga pela casa, dá ordens desconexas para a empregada – vai ao supermercado e compra mamão, a empregada vai e quando volta ela pergunta por que a empregada comprou mamão. Por que comprou mamão? A senhora mesmo pediu... Eu? Você pensa que me engana, que tô gagá, pensa?
O cabelo das duas me impressiona. Os homens se tornam carecas, mas as mulheres vão perdendo cabelo e fica aquela coisa rarefeita, que a gente vê o couro cabeludo quando fica contra a luz. Tenho a teoria de que as mulheres que perdem cabelo também perdem outras substâncias, então os músculos ficam ralos, geralmente são miúdas como minha psicanalista e perdem a força da voz, que saem fracas, tão fracas como as palavras suspiradas num segredo ao pé do ouvido.
Estou na garagem, transformada em consultório. O consultório de vozes encarceradas. Ali sim estão as vozes em seu estado primitivo, porque saem, mas não saem, ficam ali, depositadas, aéreas, esparsas, presas para sempre no ouvido da doutora. A garagem é um ventre de vozes, estão amortecidas, esperam que nós as busquemos, há um repertório também de outras vozes, viciadas, lidas, eruditas, que a doutora recolhe do ar, borboletas rebeldes, que se cruzam, formando outro bando de borboletas.
– Onde está o filho da puta?
– O senhor, por favor, se controle.
– A senhora tem parte da culpa em tudo isso.
– Culpa?
– Se desestimulasse o cretino, ele não ia atrás de minha mulher.
– O senhor está passando dos limites.
– Por que tinha que se meter na vida alheia?
– O senhor está falando de quê?
– Da senhora.
– Se o senhor não se retirar da minha casa, chamo a polícia.
            O nome dele é Manfredo. Esse sujeito me persegue há um bom tempo. Chame a polícia, chame – e tirou o celular do bolso – vamos, liga, liga. Tenho medo de enfrentá-lo porque é um brutamontes. Mas ele não tem certeza de que eu estou ali na casa. Onde está ele? Onde está ele? O sujeito que sabe onde está o desafeto não precisa ficar perguntando onde está o desgraçado que persegue. Encolho-me instintivamente, mas não vou cometer o ridículo de me esconder atrás de cortina ou me abaixar atrás da mesa. Ele não domina a planta da casa, por isso não sabe por onde ir. Sobe até o segundo andar, vasculha o escritório, entra na cozinha e não encontra nada. Jamais vai supor que estou na garagem. Porque é na garagem, transformada em consultório, que a doutora atende.
            Manfredo é judeu. Não conviveu com a família, não herdou hábitos judaicos ainda que tenha feito o bar mitzvah. Mas, mesmo assim, ele tem um pesadelo recorrente: está numa câmara de gás num campo de concentração. Não é fácil você viver com uma lembrança que não é sua, um passado que pertence a sua raça. Se fossem só os pesadelos, ele poderia se livrar deles ao acordar. Mas os pesadelos continuam durante o dia. Aterroriza-o a possibilidade de ser transformado num daqueles seres esquálidos que saem nas fotos e nos documentários sobre a Segunda Guerra. Oh, Deus, foi apenas um pesadelo. Os judeus aparecem em preto-e-branco, barba por fazer, uma barba desamparada, os ossos espetando a carne, que não é função dos ossos fazer parte da parte de fora do corpo. A fila descomunal e desumana, vigiada por cachorros, enfileirados para o absurdo do crime oficial, a foto mostrando os oficiais nazistas tão ferozes quanto seus cães.
            A geografia da casa cria ouvidos. Um homem não pode ser incompleto o tempo todo.
            No banho, me contou a mulher dele, a ameaça era o vapor que subia e se tornava o mesmo gás, passado de geração a geração, que por fim o alcançava, o mesmo gás carrasco, o Zyklon-B, cuspido das torneiras secas. As torneiras vaporizavam o terror. As torneiras expulsavam o genocídio, o crime industrial, a máquina de morte. O vapor do banheiro transformava o boxe num galpão, onde outros homens despidos se banhavam de fumaça.
            A mulher dele era bem mais nova. Não era judia. Não estava preocupada com aquilo que ensandecia o marido.
– Você está suando?
– São os gases.
– Onde você vê os gases?
– Os gases a gente não vê. Os gases a gente sente o cheiro.
– Não havia cheiro no Zyklon-B.
– Como você sabe disso?
– Eu não sei se li ou não li. O que importa é que é infernal viver com um homem que se sente perseguido por algo que nunca viveu.
Cantos, danças, músicas, homens abraçados, Manfredo apenas conhecia o mundo judeu nas festas, não freqüentava sinagoga, não rezava pela mesma Torá, não jejuava o mesmo festim de ritos, de dogmas, de manias, de proibições ancestrais. Por que os gases vinham perturbá-lo como lei divina, castigo do diabo antes que de Deus? Por que os vapores o perseguiam e ele se sentia na fila para o banho? A imaginação, sim, tinha dentes, abocanhava. Era isso que a mulher dele não compreendia. Só quem vive um pavor igual pode compreender o pavor do outro. Você é capaz de entender o horror, hein, me diga, é capaz de entender o horror?
            Sempre esteve fora das minhas cogitações existenciais o sofrimento dos judeus. A gente tem pena, é solidário, se revolta com os crimes dos nazistas. Mas é algo distante, não faz parte do cotidiano. Curioso como a vida nos coloca frente a realidades que nunca imaginamos presenciar. Jamais imaginei que teria que conviver com alguém que vivera os horrores da guerra, mesmo que essa guerra já tivesse acabado há mais de cinqüenta anos e que ele não tivesse ainda nascido quando ela acabou. Então, é capaz?

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