quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Há de se prender o instante, poema RCF


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Há de se prender o instante para que ele permaneça além do instante,
ou que se repita uma e outra vez e faça um rosário de instantes
a fim de que se possa criar um catecismo, um beabá,
uma cartilha que ensine o que não pode ser ensinado,
que fixe o que não pode ser fixado, e o instante mude de lugar
e de instante passe a ser permanente
que é o desejo grávido dos que querem
ser feliz e tornar o que é triste, que o
mais das vezes é permanente, em apenas um
instante, algo esporádico e furtivo
como esporádico e furtivo são os beija-flores
que batem suas asas de instante, nervosas e
mecânicas, para depois sumir e não se saber
se foi um foto que se moveu ou um pássaro
que pousou no ar. Entre o instante e o permanente,
há os interstícios que não explodem
nem são contínuos, apenas vibram
uma corda que ninguém ouve ou vê, tornando
o instante e o eterno categorias fora do tempo e do
homem, esse misto de duas águas que não se
misturam e não se sabe onde nascem nem onde
desembocam como as lagoas, que são rios parados
como se pudessem represar o tempo, o tempo estagnado
e cheio de musgos, profundo e escuro,
sem queda ou comporta que o desafogue.                                              


(Memória dos Porcos, 2012)


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