segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Queimada, poema RCF



A queimada
coloca a terra de cabeça
para baixo
deixando à mostra as raízes
retorcidas em seu gozo de fogo.

O fogo vai arando
               com sua foice de línguas,
               foice de lâmina mole
               mais cortante que fio da navalha.

O campo todo é plantação
de navalhas.
Estou só, perdidamente só,
olhos incandescidos,
na visão fervente do inferno na terra.

Olha bem, são as chamas sentinelas
que, esgalgadas,
vão se esmiuçando
na tropa vermelha
da terra arada
            pelos bois
           de morte e fúria
           que são a combustão
           do homem desesperado.

Tudo se amiúda
e cobrem a terra
a coivara
e as sementinhas
negras do nada
das cinzas.
Há silêncio
             e o crepitar atrasado
             do borralho
– é a terra que se asfixia
dos restos de si mesma
com a capa de chuva negra
que desveste
               quando deveria cobrir.




(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasília, 1998)

imagem retirada da internet: frans krajcberg

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