terça-feira, 28 de março de 2017

Considerações finais, poema RCF


 



Esse homem que se passa por mim,
veste meu terno, dirige meu carro
e assina documentos com meu nome,
desconheço quem seja.

Esse homem que se apresenta com meu nome,
se reveste de comiseração para chamar meu obséquio,
é uma fraude dos nervos e uma viagem sem retorno,
aquela que não vivi e sempre em mim
permaneceu como bicho que se incrusta
na pele ou a simbiose submarina
de rocha e sua concha, de arrecife e rêmora,
coisas que se agarram a outras para poderem viver
como um só elemento.

Esse homem que vai ao meu trabalho,
cumprimenta meus colegas e senta-se à minha mesa,
rouba meu tempo sem remorsos ou renúncia,
devorado que está pela voracidade das horas,
inconformado com o serrote do tempo
e o horror de existir entre quatro paredes,
ser pago para escalar o martírio
dos minutos que são degraus
que não se sabe se subimos ou descemos,
quando o expediente finda
como animal que para existir
deve alimentar-se do próprio corpo
e, logo, não haverá corpo,
pois o corpo morto não será alimento do corpo,
mas pasto para outros minúsculos corpos.

Esse homem que entra no supermercado,
graceja numa loja de eletrônicos,
desconhece o perímetro dos acidentes,
a fratura dos erros, o desvio que toda reta
induz, a amargura da servidão da vida
que se impõe necessária e impeditiva,
pois não há como evitar ser humano,
o que é difícil e inexato como a pontaria
dos míopes ou respirar dentro de uma placenta
que, rompida, nos coloca na rota perigosa da vida.





(Memória dos Porcos, Rio: 7Letras, 2012)

(foto: rodney smith)


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