segunda-feira, 10 de abril de 2017

Marilyn Monroe, poema RCF



Para quem ligaria Marilyn Monroe
naquela noite aciculada que se vestia nua,
apenas com algumas gotas do perfume
Chanel nº 5:
quem estaria do outro lado da linha?

Marilyn e seu dia de ponto final.
Ali estava ela, deslumbrantemente ácida,
o corpo leitoso cheio de palavras.
O legista, com o cadáver
sobre o granito da morgue,
pesou as vísceras.
Marilyn morreu
asfixiada pelo barbitúrico,
o corpo carregado de não.
Houvesse alguém
do outro lado da linha
e ela vomitaria as palavras.
Os homens e sua forma de dicionário.
Mudos e cerrados,
circunspectos e mecânicos
como a maneira de falar
dos guias turísticos.
Era Kennedy do
outro lado da linha?
Se ela tivesse conseguido falar,
estaria curada da secura
oxidante da alma
e, livre da matéria corruptível
dos homens, dormiria
o espasmo de um hiato.




(Andarilho. Rio: 7Letras, 2000)





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