quinta-feira, 25 de maio de 2017

As casas, poema RCF




As casas do campo
moram longe uma da outra,
são baixas, mirradas,
descoloridas,
mal se põem em pé
– as casas se parecem
com seu dono.

O camponês
tem alma de palha
como a cama
e, bambo como uma mesa rústica,
o corpo do camponês
necessita um calço na perna.

As casas vistas do alto
– do alto, as plantações são certinhas
como cabelos cortados –
mostram-se aqui e ali
sempre com o olho piscando
da janela quebrada.
As casas dos camponeses
mais expõem que escondem
mais cansam que repousam
mais doem que alegram
a casa camponesa
é feita de farinha e rapadura
por isso é que na época das cheias,
as casas, subnutridas,
se dissolvem nas águas.
Na prancheta dos arquitetos anônimos
das casas camponesas
só existe o risco da morte.

As casas por fim anoitecem na lamparina
de chama pequena.
É um pouco da alma camponesa
que queima no pavio
empapado
de querosene
                  e vazio.





imagem internet tarsila do amaral

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