domingo, 25 de junho de 2017

Vermeer, poema de RCF





Em Vermeer há de se encontrar o sábio e a balança,
a virgem e a viola, a tocadora de cravo
as tentações do vinho ou as mazelas da preguiça.
        Há de se encontrar os pátios e as tabernas
         e nelas habitar a luz que tudo inventa
         e tudo cria realidade, espessura e saturação
         – a luz que faz existir todos os corpos
         que dá a Vermeer a felonia
         de criar o mundo à cruel semelhança
         do seu pincel, anjo decaído,
         dos morcegos de suas janelas
         dos olhares das tintas e
         da insensibilidade das perspectivas que mentem
         inventando um mundo que se nomeia real.

É preciso revistar em Vermeer
o germe da intimidade
o outro lado da paisagem
que não se vislumbra
ou nem ao menos a paisagem
que da janela se vê
mas a paisagem do ciúme
no cozimento dos gêneros
marulhantes mesquinharias ( domésticas )
como o suor dos lençóis
as cólicas menstruais das donzelas
a janela indivisa
que dá para dentro
e não mostra e tudo revela
a janela voraz da paz burguesa
o outro sendo contado na penumbra
do dissídio
as palavras negadas como pão adormecido
ou comida que se dá aos porcos.

Em Vermeer há de se encontrar
o mercador de almas
o apascentamento da subserviência
das mulheres que são naturezas mortas

Em Vermeer há de se descobrir o homem
que vive nos cômodos mais escuros
– esses onde escondemos os loucos
ou os nossos desejos ensandecidos.

Tu, e teu puritanismo que esconde a nudez
mas não podes esconder a cor
da verdadeira arte que não é rubra nem azul
– teu demônio singular e severo
            em vez de condenar elege o féretro de Delft,
            o olhar de quem viu o que os outros homens
não viram:
                que nada vale a pena, nem mesmo a arte.



(do livro Andarilho, Rio:7Letras, 2000)


imagem retirada da internet: vermeer

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