sábado, 1 de julho de 2017

A pátria onde a fronteira se move


 
Emigrei da infância
– terra natal e minha língua materna –
para os campos de adulto.
Meu passaporte pela adolescência
está carimbado de desejos.
Ah, o mar morto em que banhei
minhas ambições.
Nunca mais me repatriei
e por isso vivo estrangeiro,
cujas fronteiras se movem
a depender do idioma
em que se fala futuro.
A 3 x 4 me deportam
para uma foto
que documenta minha pátria:
o contrabando dos anos
na última alfândega
lá onde a revista estampa
minha diáspora.
Vou indocumentado pelo anonimato,
atravesso a fronteira das ruas
onde nenhuma guarda meu passado.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

imagem: radu belcin

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