quarta-feira, 5 de julho de 2017

O viúvo 17


          

            Onde ficam as minhas portas da percepção? Nos olhos? Então se fecho os olhos, fecho as minhas portas da percepção? Não posso perceber as coisas de olhos fechados? E mais ainda: a percepção é visual? Tenho que ver as coisas para entendê-las? Onde está o poder da minha abstração? As coisas não existem como conceito, tenho de tocá-las? E se as portas da minha percepção estiverem no tato? Ou em órgão interno? Não precisarei ver as coisas para tê-las comigo. As coisas existem no mundo. Para obtê-las, para ter a percepção delas, não necessito de um olhar.
Essas considerações vieram a partir da minha leitura de As portas da percepção, de Huxley. Mas não li As portas da percepção há pouco tempo. Li já há alguns anos. E minha parceira perceptiva foi D. Benedita.
E voltaram as questões depois de um demorado desmaio. E uma dolorosa recuperação. Uma lenta, paulatina, arrastada e doída volta à realidade ou volta à percepção das coisas. Minha percepção não está nos olhos, embora Huxley fale de olhar para as coisas com novos olhos. Todos os livros de auto-ajuda falam em olhar as coisas com novos olhos. Parece anúncio de ótica. Ou coisa tibetana. Há algo de tibetano no livro de Huxley. Ele estava entusiasmado com a mescalina. Fizera experiências assistido por médicos, fazia aquelas maluquices como se já não fosse suficiente ter escrito o que tinha escrito. E não era só ele, porque a época pedia aquela nova sensibilidade e o relato com experiências com drogas já vinha desde o século de De Quincey e de Baudelaire e os artistas buscavam inusitadas formas de apreensão da realidade a fim de ficarem geniais e descobrirem zonas nãotocadasdamente.
Há algo de tibetano em D. Benedita. Mas ela desconhece que sua mente virgem, ainda não desbravada, só pode alcançar o conhecimento pleno se ela modificar-se e abrir suas portas da percepção. Onde estariam as portas da percepção de D. Benedita? Nos olhos fracos e míopes? nas pernas finas e bambas, no sexo desusado e desbeiçado pelo tempo?
O inglês relatava suas experiências alucinógenas com mescalina e propunha, entre inúmeras outras formas de experimentar o inusitado, que nos deitássemos no chão da sala. Tentei deitar no chão da sala para ver os móveis de outra perspectiva. Não descobri nada novo, nada me foi revelado, a sala aqui tomava outra figuração, mas não apresentava nenhuma descoberta espantosa.
Os objetos pequenos se escondem debaixo do sofá. Eu podia perder outros objetos pequenos debaixo do sofá: a pequena preguiça, o pequeno tédio, o pequeno orgulho. Não sou bobo de acreditar que Huxley falava de modo literal. Queria apenas que a gente visse o mundo de maneira distinta e não a rotineira e habitual.
Também meus objetos pequenos – oh eu não falava de modo literal. O orgulho mesmo é tão pouco, ínfimo, tamanho de botão que não sei se o perdi ou mesmo nunca o tive.
Tornei a deitar no chão da sala. Ali estava eu, estatelado, braços abertos, uma estrela humana, sem brilho, o teto sobre meu espanto. O espanto é a palavra de que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento. Se algo não passa pelo meu espanto, não me afeta. O pasmo é que faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade.
Em vez de tomar mescalina, eu tomo pasmo.
Havia poeira nos móveis, uma cadeira estava com o pé descascado e por aí vai. Não era isso que Huxley chamava de as portas da percepção.
Eu não ia reclamar com D. Benedita, dizer, olhe, deitei aqui pra ver o mundo de forma diferente e descobri que a senhora varre pelos caminhos, não limpa direito os móveis ou coisa parecida. Era uma mistura muito exótica e incompatível entre Huxley e sua mescalina e D. Benedita e seu pano úmido com lustra-móveis.
Nada de nova sensibilidade. Não houve pasmo, não houve descobrimento. De repente tudo sumiu. Anoiteceu na minha porta. Desmaiei. Quando abri os olhos, apareceu o carão velho e vincado de rugas de D. Benedita.
O que faz D. Benedita nas portas da minha percepção?
(do livro O viúvo. Brasília: LGE, 2005)

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