sábado, 22 de dezembro de 2018

Um homem é muito pouco 36




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Os amigos poetas de Alice leram poemas num restaurante em Botafogo. Os poemas de Alice eram poemas bravios, mas ela os dizia de forma vaporosa. Percebi que andávamos devolutos. Minha vida estava devoluta, minha relação com Alice estava devoluta, meu destino era destino devoluto. Não era a maneira de dizer poesia comum em Alice. Aquela que estava ali não era aquela que escrevera os poemas. Eu me perguntava onde estava a mulher que escrevera os poemas. O restaurante tinha pátio interno que servia mais de bar que de restaurante. Era daí que os poetas, num palco minúsculo, diziam as poesias.

Um deles falou das flechas que lançamos desde que acordamos e não alcançam os alvos. Eram poemas raivosos. Eram poemas roucos como quem esgotou a fala no grito. E agora só restava o urro. Estávamos todos insulares ali. Eu havia perdido intensidade.  Alice não era mais vibrante porque acirrada, Alice era a mais vibrante porque a poesia dela era abrasiva.

O outro que lia poemas falava de dias curtos e noites alongadas, que cada dia que passava a noite tomava o dia. Eles tinham em comum algo de Álvaro de Campos, que afinal é o Walt Whitman português. Não era à toa que os três se reuniram ali no bar. Falavam das mesmas coisas, quase no mesmo tom, embora a leitura dos amigos poetas de Alice fosse leitura exaltada.

Havia poucas pessoas jantando, o bar estava cheio. Percebi que um sujeito se acercava. Temi que tivessem por fim juntado alvo e dardo. O dardo era um sujeito que não via há muito tempo. Era Ernesto, um amigo dos tempos de ginásio. Agora era médico, recém-formado.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Tíquete para o futuro, poema RCF









Abandonado tem quase sempre
uma dona no meio da vida móbile.
Aqui não há erro neste desterro.
Busco o certo em todo desconcerto.
Em extensos estão os tensos
– que podem estender o que é curto
transformar pontada em dor crônica
que também é longa como a palavra prolongamento.
Às vezes moro no desmoronamento
e fica difícil habitar o instável.
Viver é curioso: tem dois veres:
um vi passado e um ver contínuo
entre um e outro a vida
escorre como fio de chocolate quente
que de repente pinga e cessa no ar.
A vida – na vida só há ida,
não há retorno no que me torno.




(Memória dos Porcos, 7Letras, 2012)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Águas do remorso, poema RCF







E o homem ali, encharcado,
franzido de tanta imersão:
são as águas que não lavam,
dissolvem, limpam ou apagam.
São águas que criam
o limo das lembranças,
a água estagnada de remorso,
a cada dia mais turva,
até secar o homem
de tanta umidade dos anos
e que não deixam cimentar
o muro do esquecimento.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2014)


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Jogo do bicho, poema RCF




Vale o que está escrito:
deu gato na cabeça,
o pensamento é só gambiarra,
seu jogo de amor
é um bicho que não premia.
O coração dançou.
O mundo vai para um lado,
seu coração para outro.
Está cansado da arritmia
da vida que tem apenas um ritmo:
o baticum do bumbo
no mundo que se fez surdo,
não ouve o reco-reco das suas taquicardias.




(do livro Memória dos porcos.  Rio, 7Letras, 2012)






domingo, 16 de dezembro de 2018

Poema para o esquecimento, RCF




Se tu vês esta porta
é porque teus olhos têm memória.
Se tu não tens a chave
é porque tua memória não tem olhos.

Tudo é um imenso galpão vazio,
não há cômodo ou parede.
Estás imerso no coma
que é um rio sem margens.

Lagoa de sombras
deliquescendo o que já é desfeito,
pescadores de plumas,
incêndios que não queimam,
a maturidade que perdeu seu gume.

Este que não se aloja
em nenhum lugar do cérebro,
máquina de vapor,
está em todo corpo adormecido:
não há memória de outros corpos.

Este que é a permanência
do quarto escuro da infância
não entende porque o parafuso
não se fixa na treva.

É como velar um morto
e não se ver o corpo.

É como brincadeira de esconder,
quem nos procura não quer mais brincar,
ficamos no esconderijo escuro da mente,
não há quem nos venha buscar.

(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: recorte de autoretrato de Lucian Freud

Pardo, poema RCF




Essa gente parda, miúda,
mais parda ainda na alma,
mistura-se com o gasto
da cidade: paredes, fumaça,
fuligem, zinco, asfalto,
e a tristeza que também é parda.

Eu, que sou pardo,
também sou de escrita
apenas sugestão
como sonho ou fracasso
que são coisas
que poderiam ter sido.

A derrota sempre é parda
porque se pensa que passa
por ela impune: coisas pardas
permanecem mais
que emoções vermelhas.

Pardo é meu dia,
pardas são minhas dores alheias
já que, além das minhas,
sofro pela descrença parda
do homem pardo da esquina.

imagem retirada da internet: lucien freud