sábado, 2 de abril de 2011

Cosmos, de Gombrowicz


Gombrowicz







O universo do absurdo ou o absurdo do universo










Ronaldo Costa Fernandes

Cosmos não é um romance convencional. O leitor comum não deve esperar uma história linear com personagens lógicos e atuando diante de um conflito pertinente. A atmosfera de Cosmos (Companhia das Letras, 2007) é a do nonsense, do desconcerto e da hilaridade nervosa. Considerado um dos grandes mestres do século XX, Gombrowicz (1904-1969), em 1939, exilou-se na Argentina, fugindo de sua Polônia natal e do nazismo. Passou 24 anos em Buenos Aires e ali, empregado miseravelmente num banco polonês, conviveu com os escritores argentinos, embora fugindo do grupo de Borges de quem nunca gostou e que pontificava no país portenho.
Ao partir da Polônia, Gombrowicz já publicara, em 1937, seu primeiro romance, chamado Ferdyduke (uma palavra que não significa nada). Ou seja, o ambiente literário de Buenos Aires não o influenciou, pois o autor já tinha um estilo formado mesmo com a pouca idade. Se influência houve foi sobre os argentinos (Ricardo Piglia mesmo declara que um dos seus romances deve muito a Gombrowicz).
Retornando à Europa, fixa-se em Paris e publica, em 1965, Cosmos, que ganha o Prix International de Littérature e o reconhecimento do mundo literário. Sua literatura tem muito de Ionesco e de Beckett, desde o deboche com que trata o tema narrado, mas também a escritura “desencontrada” e que se fixa em pormenores que outros autores desprezariam: o pardal morto, a boca de sapo de uma personagem, uma seta, as conversas triviais sem aparente significado para a trama. Cosmos é um livro para quem gosta de literatura e não um passatempo de leitura. O universo de frases entrecortadas, as longas sentenças com pontuação pouco ortodoxa, a reiterativa descrição de mãos que podem se tocar com luxúria, de bocas de mulheres que ele acredita licenciosas, a obsessão de descobrir e dar nexo a fatos ordinários fazem do livro um conjunto de situações comuns que o autor apresenta de forma exagerada.
Os personagens de Cosmos agem sob a égide da farsa, do burlesco e do riso. Gombrowicz parece não levar a sério a literatura dita “séria”. Ele mesmo se chamou de palhaço, numa entrevista. E o mistério que norteia a narrativa e a tentativa de descobrir quem matou o pardal, o gato e, por fim, um homem, durante um passeio campestre que toma quase metade do livro, apresentam-se em tom de parodia e de escárnio ao romance policial. Gombrowicz também se dá ao luxo de brincar com determinadas palavras como a palavra “berg”. Os personagens bergam, outro quer bergar, outro gosta de berg berg. Não está longe das experiências formais e anarquistas dos vanguardistas europeus do início do século XX.
O romance começa quando o narrador e Fuks chegam a uma pensão. Há apenas dois espaços: o da pensão (fechado) e o da montanha (aberto). Durante o romance inteiro, o narrador busca entender a razão de enforcarem um pardal, um gato (que ele assume a autoria) e um homem. Ainda que alguns críticos queiram ver uma “cosmogonia” e um alto valor filosófico em Cosmos, a narrativa não tem essa pretensão nem mesmo esse tom. Cosmos está mais aparentado ao dadaísmo e se há uma intenção filosófica esta é o velho desconcerto do mundo e a vacuidade das ações humanas.
Há também em Gombrowicz certa afasia, ou, como lembra Piglia: “Gombrowicz trabalha sobre a afasia como condição de estilo. O afásico é uma criança crônica”. Esta afirmação de Piglia retrata bem certa perplexidade do narrador perante fatos absolutamente desprezíveis e observações propositalmente infantilizadas. Este talvez seja o grande charme da literatura de Gombrowicz que também já trabalhara com um personagem em Ferdyduke que, aos trinta anos, retorna à escola.
Aqui estamos diante de um fenômeno que existia entre os escritores de vanguarda do século XX. De forma acintosa, desprezavam o mercado. Mais tarde, incensados pela crítica, alcançavam vendagem comercial. Gombrowicz pagou muito caro por sua atitude diante da vida e da literatura. Viveu numa Buenos Aires de marinheiros, prostitutas e vagabundos e optou pela difícil arte de apresentar uma narrativa renovada e não o requentado romance do século XIX que ainda persiste em escritores de todas as latitudes.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Guadalupe Grande-poesia espanhola contemporânea

Postal I


(Panorama do horizonte visto da Costanilla del Farol)



Nada melhor que ficar distante
e não saber onde nos esconder;
contar os pássaros que emigram,
procurar a areia no asfalto
e nos aconchegar debaixo de um poste de luz
com espichado espírito de álamo
enquanto o tráfego da noite
diz sua palavra de rio
que nunca chegará ao mar.


Uma cidade, hoje, é ficar distante.


imagem retirada da internet

quarta-feira, 30 de março de 2011

O prêmio de Martim, conto de Jádson Barros Neves

Pela terceira vez, Martim sentou-se na cama e sacudiu a cabeça na tentativa de espantar as luminosas borboletas da insônia. Eram quase quatro horas da madrugada, e desde as duas estava acordado. Depois da meia-noite, dormira um sono breve e agitado. Sonhou que entrava num quarto que cheirava a flores machucadas, em cujo centro uma mulher deslumbrante, de pele ambarina e cabelos verdes, penteava-se diante da enorme lua cheia de um espelho. Exatamente no momento em que ele deu o primeiro passo para falar-lhe, ela se despedira com um sorriso vago e distante, esfumando-se com rapidez e intensidade de estrela. Sozinho, Martim compreendeu que tinha de acordar. Viu-se, por um instante, murcho e triste dentro da superfície impenetrável do espelho; disse algumas palavras sem sentido, que se perderam no vazio dos dois quartos, e despertou suado. Desde então não conseguiu mais dormir.

Sentou-se na cama, de frente para a janela, pensando na pacata solteirice que se tornara sua vida. Depois se levantou e acendeu a lâmpada. Andou de um lado para outro, lembrando que seus dias não passavam de uma longa sucessão de manhãs em quartos pobres e contemplações noturnas de corpos femininos cansados e cheirando a sexo. A verdade, porém, é que Martim vivia sozinho e, de tanto viver só, adquirira hábitos estranhos, como falar com os mortos e conhecer o momento em que uma rosa cheira mais. Vindo de longe, do silêncio e da profundidade da noite lá fora, ouviu o canto remoto de um socó. Então pensou: “Amanhã faz dois anos que mamãe morreu”. Sempre que recordava esse fato, ele mergulhava num silêncio profundo e resignado.
Cansado de andar pelo quarto, observando os cantos das paredes, dirigiu-se à janela. Abriu-a. Na linha do horizonte, e através da neblina que envolvia as casas, contemplou os primeiros fulgores do dia. Ouviu mais uma vez o canto distante do pássaro e pensou: “Devem ser mais de cinco horas”. Acendeu um cigarro. Fumou encostado à janela até quando o sol se revelou em sua absoluta extensão. A névoa se dissipou, e os homens saíram de seus casebres miseráveis e úmidos com jamanchins às costas para, em fila indiana, dirigirem-se à floresta.
Pelas dez horas, resolveu deixar o quarto. Quando atravessava o estreito corredor de tábuas, indo para o banheiro, o porteiro perguntou-lhe se ele havia bebido na noite anterior. Martim declarou que não. Diante do espelho, porém, verificou que tinha uma cara de ressaca. Barbeou-se demorada e meticulosamente, tentando dar ao rosto o que ele mesmo chamava de uma expressão menos fatal. Novamente dentro do aposento, vestiu-se.
Ao passar pela portaria, o homem o chamou:
- Há um recado para o senhor sobre a mesa, patrão - disse.
Martim olhou para o porteiro inclinado sobre o caderno de anotações e, em seguida, para a mesa. Havia uma folha de papel amarelada, na qual estava escrito com uma caligrafia regular e redonda: “De qualquer modo, até o final desta noite você estará morto”.
- Quem o deixou?
- Um menino apressado - respondeu o homem, erguendo a cabeça.
- Curioso... aqui diz que vou morrer. - disse Martim com uma espécie de suspiro desiludido.
Era uma manhã tranquila, iluminada por um sol brando. Pouca gente se encontrava na rua do povoado, que era constituído unicamente por duas filas paralelas de casas de tábuas com coberturas de lona.
Andou durante uma hora, procurando algo que não sabia definir com clareza o que fosse, e que de uma forma confusa se assemelhava a uma esquina. Tinha ainda o bilhete esquecido na mão. Quando percebeu que o segurava sem nenhuma razão especial, dobrou-o e o enfiou dentro da carteira, onde também guardava poemas escritos em guardanapos e apostas de loteria.
Depois do meio-dia, entrou no restaurante; sentou-se de costas para a cozinha, de onde podia observar a rua. A proprietária trouxe-lhe a comida num só prato.
- Ligue a tevê; hoje é dia de revelarem os números da loteria - pediu Martim.
- Hoje só falam sobre o novo presidente - disse a mulher. - Desde ontem à noite o povo está nas ruas de todas as cidades festejando sua eleição.
- Menos aqui – disse Martim.
- Aqui não acontece nada – replicou a mulher.
Ela ligou o aparelho. Martim comeu tudo muito devagar. Era um homem pálido e magro, de gestos taciturnos, olhos enormes, meteorizados pelo gelo da solidão e a quem nunca se viu chorando nem cantando nem assobiando, de modo que só podiam recordá-lo pensativo. Toda noite, depois das oito, deitava-se na cama de Angélica, e ali permanecia até as onze, encompridando e complicando a inverossímil, engraçadíssima e triste história do homem que perdera o trem das seis porque prolongara em dois minutos o beijo na noiva, e no dia seguinte o perdera novamente porque o prolongara em três minutos, e no terceiro dia perdera-o para sempre porque decidira morar com a noiva, esquecendo a mãe inválida em outra cidade.
Somente às quatro horas da tarde, quando a mulher já havia recolhido os pratos e Martim fazia a sesta sentado, que o locutor repetiu os números sorteados. Martim não precisou tirar o comprovante de aposta de dentro da carteira - pois conhecia os números de cor, de tanto repeti-lo -, para conferir que desta vez, sim, fora premiado. Deu uma longa e rápida volta pelo passado, com a mão no peito, e voltou ao presente agarrando-se à mesa e sentindo, de repente, que um cântaro de águas tenazes se despedaçara dentro dele e o que era ferruginoso fora lavado. Deixou o dinheiro do almoço sobre a mesa e saiu em silêncio.
Passou sob a chuvinha de flores amarelas, jogadas por um avião da imaginação e, quando ouviu o som da própria voz, já se encontrava batendo à porta de Angélica.
- Abra - gritou.
Por detrás da transparência da camisola e com um ar sonolento, surgiu a amante.
- Puxa, você hoje está com uma cara...
- Veja - disse ele - mostrando-lhe o papel.
- Meu Deus!...- disse ela.
- E então?
Então ela o agarrou pelo braço, puxou-o para o quarto e fechou a porta. Na cama, ele fazia projetos. Pensou em começar a construir, no dia seguinte, uma casa labiríntica, na qual seria possível até o vento se confundir. Foi também nesse instante que se lembrou novamente da mãe morta e do bilhete que o ameaçava. Tirou-o do bolso e o mostrou a Angélica, que o amassou e o jogou fora após lê-lo.
Martim apagou a luz e se esticou na cama. Amaram-se até a exaustão. Depois notou Angélica se levantar. Percebeu quando ela abriu e fechou a porta do quarto, e ele ouviu também os passos dela pela sala.
O vento da porta, outra vez aberta, agitou a cortina da janela. Mesmo embotado de sono, sentiu o vulto se aproximando da cama e até escutou o ruído do cão de uma arma cujo cano se comprimia contra a cabeça dele, ressoando enorme no silêncio do quarto. Martim se virou de lado, suspirando descansadamente. Ao mesmo tempo em que ouvia o canto longínquo do socó, compreendeu que buscara Angélica com fervor durante todas as noites dos últimos dias, como se os caminhos felizes, imaginados nos momentos de solidão e aflição, conduzissem invariavelmente à carne em flor.


Jádson Barros Neves, entre outros concursos de que participou, foi o vencedor do 2º lugar do Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale/Paris em 2000 (Prêmio Maison de l’Amérique Latine); vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003; vencedor do prêmio Domingos Olímpio/2004; vencedor do 12º Concurso de Contos da Região Norte/2004 e, em 2008, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria livro de contos.



imagem retirada da internet

segunda-feira, 28 de março de 2011

Homenagem a Clovis Sena


Foto de Clovis Sena por Salomão Sousa

Queria render homenagem a Clovis Senna, escritor de fina escritura, jornalista de texto acurado, e grande amigo. Nascido no Maranhão, Clovis, com sua voz miúda, ia dissertando aqui e ali sobre cultura, política e literatura, com delicadeza, senso crítico e bom humor.      
Mas eis que o poeta João Carlos Taveira, no site Nosrevista, escreve sobre ele de maneira mais cabal do que eu poderia fazer. Aqui, alguns trechos do texto de Taveira:


"Nascido na cidade de Carutapera, Maranhão, em 4 de março de 1930, esse menino travesso cedo se transferiu para São Luís, onde deu prosseguimento aos estudos e começou a trabalhar como jornalista. Alguns anos mais tarde, por força da profissão, Sena foi para o Rio de Janeiro, onde viveu intensamente, com participação ativa, o processo cultural e político da antiga capital. Ali conviveu com a nata da intelectualidade brasileira, fazendo amigos (como Oswaldo Costa e Neiva Moreira) e admiradores, tanto numa área quanto na outra.
(...)Em abril de 1960, Clovis Sena veio cobrir a inauguração de Brasília, movido pela firmeza de seus propósitos e pela força de seus ideais. E nunca mais voltou.
Nos mais de cinquenta anos que viveu em Brasília, Clovis Sena conquistou uma legião de amigos em todos os setores culturais da cidade. Construiu uma sólida reputação entre professores, jornalistas, políticos, artistas e intelectuais, que poucos, como Cassiano Nunes, puderam e souberam desfrutar, com trânsito livre entre as pessoas. Foi um profissional carismático e contundente, embora manso no gesto e nas palavras.
Trabalhou no Jornal do Povo, como repórter, redator, cronista e crítico de assuntos culturais; no Jornal de Brasília, no Diário de Brasília, no Correio Braziliense e no semanário José. Durante vinte e cinco anos, foi correspondente político-parlamentar do Correio do Povo, de Porto Alegre. Pouco depois, serviu como redator nos Cadernos do Terceiro Mundo, do Rio de Janeiro. Também atuou como redator da Câmara dos Deputados, de onde estava aposentado. Clovis Sena foi tesoureiro da UNE, presidente do Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados, no período da reabertura política (1985-86), presidente do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (1987-88), vice-presidente da Fundação Claudio Santoro, fundador do Clube de Imprensa e do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, membro do Conselho de Cultura do Distrito Federal, do Júri Nacional de Cinema e de diversos júris do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e do Festival de Gramado. Foi crítico de cinema, de teatro e de música erudita. Pertenceu à Academia Maranhense de Letras, à Associação Nacional de Escritores, ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e à Academia Brasiliense de Letras.
(...)Livros como Neiva Moreira: Testemunha de Libertação (Movimento Brasileiro pela Anistia, 1979), Flauta Rústica (Thesaurus Editora, 1981) e Fronteira Centro-Oeste (Editora Kelps, 1999) hão de ficar como vigorosos testemunhos de um homem sábio, que nos deixou uma cristalina percepção de Virgílio e, ao mesmo tempo, traçou, palmo a palmo, o mapa de alguns recantos na imensidão do Planalto Central, viajando por terra e em contato direto com o homem autóctone, antevisto por Paulo Bertran em livro também admirável. E a busca dessa compreensão de seu país, de sua gente, em Clovis Sena, não era exatamente compulsiva, ou obsessiva, mas transcendia sua visão pessoal, ideológica. Em síntese, este homem que amava a música de Beethoven, de Brahms e do amigo Claudio Santoro, tanto no gesto quanto na palavra, há de permanecer vivo e atuante em nossas mentes, em nossos corações.
Fará muita falta. Mais pela mansidão de sua presença física que pela impetuosidade de suas exposições. Tudo o que pensava, graças aos anjos, arcanjos e querubins, ficou bem registrado nos seus livros, nas páginas dos jornais em que trabalhou. E, sobretudo, nos artigos críticos de teatro, música e cinema — que ele tanto amava."