sábado, 31 de dezembro de 2016

Passagem do ano, poema de Carlos Drummond de Andrade




O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejaria viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



(in: A rosa do povo)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A bela da tarde, poema RCF




as tardes
não foram inventadas
apenas para os amores
de unhas roídas

a tarde conspira
para a gravidade dos acertos
mas tem a lascívia do apelo
vigoroso da eleição
                       das sombras

serve a tarde
                        para o cinema das sinecuras
                        o vício das vitrines
                       vitimar o tédio das raízes
ou remover
armadilhas rugosas
que não dão frutos

para quem desistiu de viver
como quem se retira
de um estádio de futebol
antes do término do jogo
resta o quintal
das soberanas
                    imaginações iluminadas

Não, a tarde não foi feita para os suicidas.
                   a tarde
                  com suas nuvens piscosas
                  sugere
                             patos selvagens
                             cavalos de fogo
                             incitações de lobo
                             do poema
                             que se arregimenta
                             tributário
dos grandes desacertos
dos elementos
da demissão

a tarde
não permite o exílio
das causas difusas
e se projeta
embaraçada e sugestiva
sobre nosso rosto
como um beijo
                         na face
                        que por engano
                        roçou a boca da outra.


(do livro Andarilho, 2000)


imagem retirada da internet: acernia, via peppermintteaa

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Poema para os 400 anos de São Luís (inédito)

















Teus rios são feitos de água
mais intestina: a água da terra
revolta que se move num
enorme estômago de areia,
barro e água, um tempero
que nem franceses, nem portugueses,
muito menos holandeses,
puderam acalmar na azia dos tempos.

Tenho em mim um bumba-meu-boi
numa caixinha de música:
a cabeça roda os pinos e os brincantes
bêbados se apresentam mambembes
no pátio da casa do desembargador.

Com os anos, rolei mundo,
esta outra caixa sem música,
que vai silenciando a memória,
e os casarões de pé direito alto
arquitetaram saudades e fotos
nos azulejos da infância
que se despregam fácil
e são substituídos
                        por outros falsos:
são gente de outra época
que se prega na parede dos dias.

Meu patrimônio são duas peças de roupa:
uma de marinheiro
com que posei, na fotografia, de órfão
e outra de índio
para um eterno carnaval
em que ia contra a corrente
de gente e versos,
que são correntes de gosto
e compostas de vazio e tombamento.

Tenho quatrocentos motivos
para ser uma cidade
em constante viagem,
sem paradeiro que a sossegue
e sem destino que a cumpra.

8.09.2012

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Sagrada Família, poema RCF

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A Sagrada Família tem o pai na cabeceira
e um rio de sangue corre pelo leito da mesa.
A Sagrada Família é um quadro torto na parede.
A Sagrada Família tem barulho de helicópteros na varanda
e empresários cujo capital não é pecado,
porque dizem sua gula se alimenta da dieta das hóstias.

Na Sagrada Família
falta o pai e o espírito não é nada santo
e além do mais o filho não arruma emprego.
Na Sagrada Família
o pão se multiplica porque é feito em série
e vem empacotado da fábrica de pecados.
Na Sagrada Família, se consome marijuana
e dança-se não a dança do ventre
mas a dança do fogo eterno.
Na Sagrada Família
o salário do cabeça é trinta dinheiros
e se pressente o naufrágio dos cordeiros
nas águas pouco bentas dos desejos
que são divinos embora venham do baixo ventre.
Minha emoção tem mais pernas que eu.


(do livro Memória dos porcos. 2012)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O AMANUENSE BELMIRO, CYRO DOS ANJOS







            Em 2007, o livro mais importante de Cyro dos Anjos e um dos livros fundamentais da literatura brasileira comemorou setenta anos. A primeira edição é de 1937. Com O amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos ingressa na galeria dos grandes escritores brasileiros. Este é um livro sobre um melancólico funcionário público que resolve escrever não sabe bem se suas memórias ou um diário ou um romance. Pouca coisa acontece no cotidiano rotineiro do funcionário público que registra suas emoções, mais que as ações, de seu mundo muito restrito.
            O amanuense Belmiro pertence ao grupo de romances intimistas e enquadra-se no grupo de romance que, por gosto do paradoxo, chamo de “regionalismo urbano”. A razão de chamar “regionalismo urbano” é devido ao fato de a década de 1930 ser chamada a da Geração de 30 do romance brasileiro, dominada pelo regionalismo rural, social, engajado, tendo como pano de fundo a seca e o sertão nordestinos. Os autores como o mineiro Cyro dos Anjos com seu O amanuense Belmiro, o gaúcho Dyonélio Machado com seu Os ratos e o carioca Marques Rebelo com seu Marafa, mostram as especificidades de suas cidades e o traçado urbanístico e humano da urbe que escolheram para cenário dos seus romances.
            A vida lenta, monótona e melancólica desse amanuense não contém grandes aventuras exteriores. Mas, para compensar, seu universo interior é tão rico que o livro se torna uma das grandes expressões da intimidade e da maneira de ver o mundo. Existe uma melancolia divertida que dá um toque requintado à frase, elimina o tom dramático e trágico, e o volteio que imprime à sentença torna-a não somente original, mas também de um cunho inusitado. A grande aventura do amanuense é interior – que será realmente o grande périplo do homem contemporâneo.
            Cyro tem a influência de dois grandes escritores. De Machado de Assis herdou o gosto pelos capítulos espirituosos e curtos. De Proust, memorialista e solipsista, retira o mesmo tratamento de lembrar de forma lírica e nostálgica a infância perdida (Cyro chega a ponto de em vários momentos parar a narrativa para compará-la e afastá-la do romance prousteano com suas cidades de Combray e  Balbec, além de suas jeunes filles en fleur).

Cyro dos Anjos
            Funcionário público assíduo e solteirão, fantasiando sobre duas mulheres (Carmélia e Camila), Belmiro culpa sua função por esta propensão à reflexão. “Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. No fundo, a culpa é da Seção de Fomento, que não fomenta coisa alguma, senão o meu lirismo. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. Deixem-no folgado, e teremos o anarquista, o poeta, o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho”. Ora, é claro que a ociosidade não é culpada por tantas criatividades literárias ou espíritos especulativos. Belmiro já trazia a veia lírica. E, como um Quixote moderno, não tendo La Mancha para percorrer e enfrentar tantos desafios para salvar sua Dulcinéia, a luta de Belmiro é contra a realidade mesquinha que o envolve e sua veia delicada de observador dolorido de um mundo onde não encontra lugar para estabelecer-se.
            Contudo, Belmiro é sociável, ainda que não tenha namorada. Mantém um círculo muito singular de amigos. Redelvim, que é um revolucionário marxista e se esconde da polícia política; Silviano, filósofo nietzscheano (como Quincas Borba com seu Humanitas, Silviano tem suas teorias sobre o ascetismo e a renúncia à banalidade da vida carnal); Prudêncio, com sua mania de falar inglês e Glicério, esnobe e rico. E a amiga Jandira que congrega o grupo por certo tempo.
            Cyro dos Anjos alimenta a mesma ironia machadiana. E desenvolve também a auto-ironia, embora não com a corrosão da ironia do bruxo do Cosme Velho. Belmiro é um narrador melancólico brando, lírico, ingênuo e, em determinados momentos, sua visão disfórica contém até mesmo certa alegria. O importante na narrativa – e neste ponto a ironia é peça importante – é a capacidade de observação do narrador. O que dá o tom de originalidade é a maneira como o narrador observa fatos ordinários.
            Cyro dos Anjos viveu a vida inteira como servidor público. Formado em Direito, trabalhou como chefe-de-gabinete para o secretário de Finanças e, mais tarde, para o governador de Minas Gerais. Dirigiu a Imprensa Oficial e, transferindo-se para o Rio de Janeiro, ocupou cargos na administração pública do governo Dutra. Trabalhou com Juscelino Kubitschek como conselheiro do Tribunal de Contas. Manteve também uma paralela atividade como professor universitário, em Minas e em Brasília. Cyro pertence à geração de Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, Milton Campos e muitos outros mineiros literatos e políticos.
            Sua ligação com Drummond é mais que de amizade: em O amanuense Belmiro, o narrador cita trechos do poema do autor de A rosa do povo: “Mundo mundo vasto mundo / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução”. Ora, é uma citação no calor da hora modernista. Cyro dos Anjos deste modo constrói seu romance dentro da ótica da nova estética que se impunha: a da Semana da Arte Moderna de 22. Só que Cyro não tem o arrojo formal e cubista de um Oswald de Andrade, com seu Memórias de João Miramar, ou o despojamento cínico e carnavalesco de Macunaíma. Isso em nada invalida sua prosa. Embora elegante, de um português exemplar, O amanuense Belmiro é um romance avançado para a época.
            A solidão amorosa e patética de Belmiro, contudo, não será a solidão urbana dos grandes centros, da massificação e do anonimato das megalópoles. Belmiro vive numa Belo Horizonte ainda provinciana. Sua solidão é traço de personalidade e é ela que permite que seja um observador privilegiado, distante das paixões políticas ou da agitação mundana. A única cena que o atordoa e o pode tirar de sua servidão ao vício da melancolia é a do carnaval em que ele é envolvido num torvelinho de gente e pensamentos. Belíssima cena que, colocada logo de início, poderá levar ao leitor a idéia de um romance mais abrangente e cheio de peripécias. É apenas um hiato, perverso e alucinante hiato, que o retira momentaneamente da realidade mesquinha.
            Esta obra-prima da literatura brasileira contém dois elementos primordiais em toda narrativa: o mundo de dentro e o mundo exterior. Como seus companheiros de escritura, e também mineiros, Lúcio Cardoso e Cornélio Pena, dois atormentados, que escrevem romances dolorosamente intimistas, Cyro dos Anjos, aproxima-se deles ao introjetar o mundo exterior e, internalizado o de fora, transformar as ações em pensamentos. Afasta-se deles pela leveza e auto-ironia e constrói uma narrativa em que as peripécias são pretextos a longas reflexões sobre a natureza humana.
            Fruto de seu tempo, o narrador apresenta no livro alguns pensamentos e até mesmo comentários filosóficos. Mas as “filosofias” contidas no livro como o marxismo de Redelvim ou o idealismo transcendental de Silviano mostram apenas as exacerbações e inquietações político-filosóficas da época, caracterizando mais o personagem de que dando amparo a uma discussão metafísica a que o livro não se propõe. Mostra que o amanuense, celibatário morando com duas tias, embora recolhido, está atento às idéias que pululam em sua volta.
            O amanuense Belmiro não foi o único livro que Cyro dos Anjos publicou. De sua bibliografia constam Abdias (1945), Montanha (1956), A menina do sobrado (1979) e Poemas coronários (1964). Mas nada se compara a O amanuense Belmiro, sua obra maior. Com ela, ingressou definitivamente na história da literatura brasileira. Em 1976, retorna ao Rio de Janeiro e, como professor titular extraordinário, dará na Universidade Federal do Rio de Janeiro o curso “Oficina literária”.
            Há de se distinguir nos processos de construção da narrativa várias expressões da subjetividade como o fluxo de consciência (stream of counsciouness), o monólogo interior, a prosa personalística mas que engloba uma visão geral (o “eu coletivo”, como chamou Silviano Santiago, de Sérgio, personagem-narrador do romance O Ateneu) e, entre outras, a dicção analítica de O amanuense Belmiro, que sobre cada ação tira uma digressão original. Esse personagem misantropo, tímido, recatado e solitário não é um ser que vá contra a sociedade nem dela se isola. Tem família e amigos, mas seu “eu” é tão singular que não consegue ultrapassar a barreira imaginária criada em torno de si.
            A burocracia já deu grandes romances na história da literatura nacional (entre eles, O triste fim de Policarpo Quaresma ou Memórias do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto) e internacional (entre outros, O processo, de Kafka, ou até mesmo, de maneira simbólica, O deserto dos tártaros, de Dino Buzatti, que se passa num quartel onde nada acontece). A burocracia em si, embora não seja o tema desses romances, é o caldo de cultura em que se fomentam não apenas o ócio, mas a grande crise do homem em relação ao trabalho, ao Estado, aos governos e a inutilidade dos gestos humanos que se perdem na repetição esterilizante.
            O ponto de vista de Belmiro não é de desistência da vida, nem mesmo poderia considerar uma acomodação. Belmiro é mais sutil e incisivo: a vida é uma agitação sem sentido (parodiando a frase shakespereana: “a vida é uma história contada por um clown significando nada”). Culto, não consegue participar ativamente dela. Logo, a feroz atividade humana e suas inter-relações, seus intercâmbios sociais e suas trocas simbólicas, só aumentam seu abismo entre sua existência e os outros. Muito se deve, não há dúvida, ao caráter de observador da vida do próprio autor, mas também há de se pensar no momento histórico pelo qual o país passava: ditadura Vargas, tentativas de golpe, uma perspectiva de opressão e desânimo. Não se procure também nem Pascal nem Schopenhauer na obra de Cyro dos Anjos como foram buscados os mesmo filósofos para encontrar a “filosofia” de Machado de Assis. Os romances não são tratados de filosofia, nem seus autores filósofos. O que existe em Belmiro, mesmo citando filósofos, é uma desencantada constatação da solidão humana. De um círculo mínimo e do qual não se pode escapar e que ele, Belmiro, precocemente, percebeu antes daqueles que chegaram à velhice.
            Restam ainda algumas considerações sobre a forma de diário que o autor escolheu para apresentar seu livro. O diário são fatias de vida e, propositalmente, fadadas a um não leitor, ou seja, a um monólogo. É um diálogo entre o ator e o pensador. O ator das ações de um dia e aquele que registra e faz reflexões sobre o ocorrido. O diário é a maneira de recortar a realidade e oferecê-la como fragmento. Além disso, se ele restringe ao propor falar sobre datas, ele se abre à confissão. Dessa forma, o diário é redutor e ao mesmo tempo universal.
            Mário de Andrade condenava a literatura brasileira de sua época que era feita, segundo ele, de personagens perdedores. Mário não procurou entender a razão desta derrota, apenas constatou o modo introspectivo e a desistência da vida. Já apontei em livro (A ideologia do personagem brasileiro) esta derrota – Mário não percebeu que até mesmo o seu anárquico Macunaíma era um personagem derrotado – que advinha de uma derrota externa: a falta de perspectiva de uma nação. Não percebia também que era uma tendência mundial a usufruir a grande descoberta da virada do século XIX para o XX: a descoberta por Freud do inconsciente e os mecanismos de funcionamento da censura na consciência introspectiva.

(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Academia Maranhense de Letras, 2016)


Os mortos, poema Memória dos Porcos


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   A Júlia, in memoriam





Todos os mortos são um único morto,
todo morto são todos os mortos.
Cada morto é uma metonímia enterrada.
O esplendor de ouro das igrejas
me diz que Deus mandou
fazer o paraíso de ouro,
ele que tanto gosta de fazer
as coisas terrenas iguais às divinas.
Ou somente o homem é imagem e semelhança Dele?
E o inferno é que é à imagem e semelhança da terra?
Lá, no esplendor de ouro,
estão meus mortos,
silentes e atônitos,
sem entender que dor
foi essa chamada vida.








Coimbra, 16.10.2009


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Maré dos indigentes, poema RCF






O que indefine a maresia
serão os peixes das vísceras,
a flora marinha dos vermes
ou os corais cortantes da fome?

Não se sabe se é homem de rio
ou se homem de mar aberto
se é de água doce da loucura
se é de água salgada da corrosão.
A pele não se lava
e por isso não se sabe se é de couro ou de escama.

Trazem na boca o anzol
que os suspendem à vida.
O coração finge ser molinete:
ora afrouxa, ora repuxa.
A difícil e insistente pescaria de gente
mesmo na ressaca em que vivem.

Arrulham em hordas – noturnas hordas –
nas filas das sopas universais.

As duras asas que desaprenderam
o aviário ato de sobreviver.


(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)


imagem retirada da internet: maré de mendigos

sábado, 24 de dezembro de 2016

Minha canção do exílio, poema RCF


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Minha terra tem leite condensado de angústia
onde na câmera escura do castigo
se revelam as imagens negativas.
Minha terra tem pernas que, na madrugada,
caminham sem cabeça.
As pernas que tenho já não caminham como lá.

Minha terra tem espelhos com reflexos condicionados
que só sabem multiplicar.
Mas o espelho mostra o mundo
ao contrário que ainda persiste por cá.

Deus, não deixe que antes de morrer
eu volte para minha infância
com pernas sem cabeça,
a imagem negra da câmera escura,
e espelhos matemáticos a me assombrar.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


matisse, a dança

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Meu verbo é um chicote, poema RCF

Tocata







Meu verbo é um chicote
no sadomasoquismo do poema
com sua focinheira de couro de submissão à ideia
– a ideia que por sua vez é uma dor –
e as botas rítmicas das rimas nunca rimadas.

Vivo nesta cidade criada pela circunstância do sol
clave maior
eu inventado pelo horizonte vertical de luz
na verbosidade dos verões sempiternos
cujas manhãs mantêm rígidos preceitos.

Mas, embora com tanta luz,
vago cabra-cega,
no cangaceirismo de sombras traiçoeiras,
a tatear no pique esconde
corpos de formas vadias,
a vida rasteira de capoeiras.

Ao acordar, deparo-me
com a cama desfeita
de natimortos: é o útero
do poema, parindo versos
que se dissolvem
no borralho do sonho.

Dou comigo como quem cruza com um desconhecido
ao estranhar o verso em que me desencontro
e saber que sou eu em forma de letra
que mais me desconhece porque me confronto.



(do livro Andarilho, 2000, Ed. 7Letras)


imagem retirada da internet: jeune.mort.deviant.com

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Buraco, poema RCF



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Jogador que blefa
quero ganhar estrada
perder-me em qualquer canto.
Eu sou o morto, canastra e pervertido,
não escrevo nem recebo cartas
compro o resto de mim que não posso descartar
coringa que não tem jogo
onde se encaixe.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Um homem é muito pouco 4




O senhor está dormindo com uma morta, não é verdade, seu Clemente?, perguntaria o delegado.
Mas ela está viva e é minha mulher, delegado.
O senhor então quer insinuar que a relação de vocês é uma relação entre um homem vivo e uma mulher viva?
É isso, delegado.
Ora, não me faça perder o tempo, o senhor está dormindo com uma morta, seu Clemente. O senhor não tem vergonha de fazer sexo com uma morta, seu Clemente?

O casarão estava cheio de infiltrações e havia perdido as belas cornijas e outros adereços de cimento e gesso que arquitetos e artesãos do princípio do século haviam desenhado na casa como quem grava no papel o que será feito em tijolo. Eriberto não tinha empregada, a casa cheirava a cola de sapateiro que, diga-se a verdade, não vinha da casa de Eriberto, mas da moradia ao lado. O morador do lado era um árabe como havia sido o padrasto de Eriberto que aprendera a fazer sapatos e mantinha pequena oficina nos fundos do casarão. Eriberto não conheceu o pai, se pai havia para conhecer. A mãe de Eriberto chegou grávida na casa do velho Anuar que emigrara com mulher e uma filha para o Brasil, vindo do vale do Bekah. A mulher morrera na viagem, longa, numa terceira classe de porão, de beliches que empilhavam os corpos em sua caixa aberta e tripla de madeira.
Uma terceira classe magra, uns respirando os humores dos outros, parando de porto em porto, descarregando os árabes, turcos e libaneses. Coube a Anuar o porto do Rio de Janeiro. A mulher fora sepultada no mar. O mar é um grande cemitério de água salgada. O que Anuar, católico, não pôde construir foi um túmulo para a mulher. Se fosse em terra que a mulher tivesse morrido teria enterrado num carneiro elegante e de mármore, com anjos retorcidos e de asas, tocando harpas e olhando mirificamente para o céu como devem olhar os anjos de pedra ou sem pedra. Mas o mar não deixava edificação nenhuma. Por isso, o que restava a Anuar, quando estava na praia de Copacabana ou na Urca ou mesmo no passeio público das muradas da praia do Flamengo, era rezar.
          Deus havia lhe construído o maior túmulo do mundo que é túmulo dos marinheiros: o mar. Pois quando a mãe de Eriberto chegou, grávida, no casarão da Rua da Alfândega para pedir emprego de costureira, Anuar não só arrumou emprego, mas deu moradia à moça de olhar claro que lembrava a mulher morta dele e Anuar chorou no escuro, no quarto dos fundos, choro antigo e maronita, choro de saudade e reencontro, Anuar acreditava que ali vinha a mulher morta na viagem, ressuscitada e prenha, como nas histórias da Bíblia.
          Anuar fez a mulher chefe das costureiras já que tinha habilidade para tal e a fez também chefe da casa porque também era habilidosa para o amor, a cozinha e a decoração do lar. Além do mais, Anuar tinha a filha moça e não sabia como educar filha moça. A mãe de Eriberto pariu o menino, cuidou os assuntos de moça da filha de Anuar e ainda à noite tinha forças para receber o patrão e amante que chorava depois de gozar e ela não entendia se chorava de prazer ou de lembrança da mulher morta no mar, porque uma mulher morta no mar é um golpe maior que uma mulher morta em terra, assim pensava a mãe de Eriberto.
          Não demorou muito a febre tomou conta do corpo macio e jovem da moça árabe que ainda mal sabia falar o português. O pai se desesperou. Os negócios começaram a andar mal. Os funcionários passaram a roubá-lo. A mãe de Eriberto via que a vida dele desmoronava junto com a doença da menina e o abatimento do pai.
          Desde então que ela passou a tomar conta não somente das costureiras, mas também da casa e dos negócios. Era ela quem regateava o preço das mercadorias que comprava a atacado, discutia com os fornecedores, fazia o livro-caixa, vigiava os empregados para não ser roubada e ainda suportava o choro de Anuar depois de penetrá-la, o corpo ausente e cansado, o corpo feito beliche de terceira classe. Mas nem toda a devoção e cuidado da mãe de Eriberto fizeram Anuar salvar a filha da febre desconhecida.
         Já quando a mãe morreu, parecia que herdava uma família morta e não o casarão e o negócio do padrasto. Mortos eram os móveis, mortas eram as paredes, morta a freguesia – viciada e envelhecida –, mortos eram os retratos, mortos eram os negócios. Aos poucos foi dando vida ao casarão, mudou de ramo, trocou de fregueses e noivou.
          Mas não podia procriar nem mesmo ter sexo com a noiva e então o casamento também viveu numa fotografia no fundo da gaveta, fotografia também morta.
         Antes não via Anuar como pai.
         Depois de sua morte, Eriberto sentia-se até mesmo árabe. Pegou alguns cacoetes da etnia, a culinária não foi difícil assimilar, a língua já a entendia ao falar com o padrasto. Eriberto nunca se sentiu tão árabe em sua vida. Era um libanês do subúrbio carioca. Era um libanês de ventre nordestino. A casa inteira tinha vozes dos mortos. Não era uma coleção de vozes do além como nos encontros espíritas. Não, Eriberto não acreditava em espírito, mas que a casa estava cheia de passado, ah, lá isso estava.
         Os corrimãos tinham vozes, as paredes contavam histórias de outro tempo, a irmã que morreu de febre aparecia nas noites de insônia e Eriberto não sabia que havia sonhado ou se a vira acordado.
Os sonhos mesmo se modificaram. Eriberto não dormia nunca, mas quando cochilava lá vinham outra vez a mesma paisagem que não conhecia, o mesmo povo que nunca visitara, a mesma vila onde nunca estivera, os parentes todos que nunca vieram ao Brasil e Eriberto que nunca foi até o vale do Bekah. Eriberto sonhava com o vale do Bekah como se tivesse estado nele durante o dia. Andou se consultando com médiuns. Perguntou aqui, perguntou ali, e lhe deram explicações compridas de vidas passadas. Outros diziam que não visitava nos sonhos o passado e, sim, que via nos sonhos o futuro. Mas não estava nos planos de Eriberto visitar o vale do Bekah.
         Eriberto cansou-se de tanto procurar explicação, até mesmo porque nenhuma o convencia e se acostumou a sonhar com o vale do Bekah como sonhava que estava na Gonçalves Dias, na confeitaria Colombo, tomando sorvete de manga.
          De uns tempos para cá passou a sonhar com a guerra.
          Ao voltar da Itália, sofrera bastante.
          Não somente porque não podia cumprir a obrigação matrimonial, como ele mesmo dizia, mas porque os pesadelos da guerra ainda o acompanhavam. Eriberto tomou parte nas batalhas de Monte Della Torracia e de Monte Castelo. A guerra também tem seu expediente. O batalhão em que estava nunca lutava de noite. Certa vez, invadiram um acampamento de alemães e os pegaram dormindo. Mas foi coisa rara. Embora tenham aprisionado sem disparar um tiro um grupo grande de alemães, Eriberto viu que a guerra era coisa brutal e sem sentido quando revistou o soldado alemão e pegou a carteira dele e na carteira havia fotos da família, da mesma maneira que ele e seus companheiros brasileiros tinham a foto da família na carteira. O alemão era apenas outro burocrata da guerra. Podia estar ali como podia estar numa repartição pública carimbando papéis. Eriberto tinha apenas dezoito anos e todos os sonhos que não o deixaram sonhar.
         Os soldados faziam turno de cinco horas. De cinco em cinco horas, vinha outra fileira de soldados e eles voltavam para a retaguarda onde comiam a marmita americana com barra de chocolate, comida enlatada e, de resto, maço de cigarros.
Um dia estava na trincheira e do lado dele se colocara outro soldado que havia ganhado campeonato de tiro ainda quando estavam se preparando para a guerra no quartel do Rio de Janeiro. O companheiro queria acertar o alemão que estava no telhado de uma casa. Só se via o capacete negro andando de um lado para o outro. O companheiro de Eriberto queria apenas posição melhor para acertar o alvo. Ele tinha certeza de que o alemão era alvo fácil. Mas de onde ele estava havia uma árvore que dava intermitência ao aparecimento do capacete negro.
         Ei, Eriberto.
         O quê?
        Vamos trocar de lugar.
        E por quê?
       Quero pegar o alemão lá em cima e daqui não tenho visão. Vem pra cá, disse o companheiro, que eu vou para aí.
        Os dois trocaram de lugar. O companheiro de Eriberto é que parecia alemão. Era louro e gaúcho. Entrara na FEB sem nunca ter ido a Porto Alegre. O companheiro de Eriberto só foi conhecer a capital do seu estado no dia em que embarcou para o Rio de Janeiro.
        Eh, bem.
        Trocaram de lugar.
        E logo veio granada e explodiu na cara do gaúcho. O companheiro de Eriberto morreu na hora. Um braço voou longe. Eriberto viu o braço do companheiro voar longe antes de a vista dele escurecer. Estilhaços não deixaram só Eriberto impotente, mas deixaram também Eriberto cego. Ele ficou seis meses num hospital em Gênova. Eriberto pensou que nunca mais ia enxergar. Seria um árabe cego, na Rua da Alfândega, sem mulher, sem filhos, sem mãe, sem seu Anuar, eterno sonâmbulo a vagar pelas ruas do Centro à noite atrás dos seus bagos perdidos e dos olhos que deixou na Itália. O remorso o atormentava, se sentia culpado pela morte do companheiro gaúcho, campeão de tiro, que fora morto em seu lugar.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Cinematógrafo, poema RCF




A adolescência ficou presa
em algum cinema.
Gastou muito celulóide
dos anos no escuro.
Tem um sentimento arrevesado:
o medo de estar hoje no cinema
e sentar-se ao lado do adolescente
que nunca saiu da sala escura.
Ele tinha uma película muito delicada.
Há um cheiro de desassossego no ar.
As nuvens, desfeitas, tomam o caminho
de outros tetos.
Há teto bastante no seu medo.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: rodney smith)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Os dois portos, poema RCF





I

O porto, deserto, tem vontade de raízes.
Cada calçada estrangeira é um convés arquejante,
navegação de baixo calado, espessa longitude,
a foto que me pedem não cabe numa vida a 3 x 4.


II

O porto afinal não existe:
argamassa feita de partidas de pedra e nervuras dúcteis,
as heras são as amarras indolentes,
as cordas músculos que se distendem.
Irresoluta, a vida se encaixota e espera
na incúria insalubre dos porões.

O porto me afunda em vez de me ancorar.
Sou apenas imagem fugidia
de um cais
que nunca visitei, embora viva nele.

A morte,
ora, a morte
é que é o porto onde o corpo atraca,
sem corda, só com a âncora de madeira.

O porto é a dispersão da pedra,
o mar domado,
lenço exsudante
em forma de borrasca
que nada agita além de nós mesmos.



(imagem retirada da internet: joão camara)

domingo, 18 de dezembro de 2016

A vida tem pés pesados, O difícil exercício das cinzas


radu belcin
 
Tomba o flash do dia,
acende a escuridão da noite.
O elástico da emoção se estira.
A flor mais bonita do meu jardim é venenosa.
E vem o martelo da obsessão
que bate e rebate.
A vida – tem que saber tocá-la
como um chapa
que não se sabe
se queima ou esfria.
Aqui visto meu pijama listrado
e deito no catre
de prisioneiro do pensamento.
O suco gástrico da fome
se alimenta de mim.
O dia retrátil que se
nega quando se deseja,
minando por fora
como um olho d’água.
 
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sábado, 17 de dezembro de 2016

Fauna e flora humanas, poema RCF




Não sabe que bicho é.
Não sabe a que espécie pertence.
Se à imobilidade das árvores
sem frutos, de raízes tortuosas
ou se à categoria das plantas
que se expandem sempre agarradas.

Desconhece se faz parte
dos liquens, dos musgos, dos lodos
e de outros excessos de ruína
ou se sua categoria
se classifica entre os bichos que existem
sem que ninguém os note,
e, sem serem notados,
devastam o homem.

É bem provável que faça parte
dos tubérculos e que rume
para dentro da terra
e finque raízes aéreas
– expostas ao desdém dos outros –
e quanto mais amadurece
mais fundo e incógnito
se enterra vivo.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


 (imagem retirada da internet: El Lissitzky, self-portrait.jpg)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Os hibiscos, poema RCF

o enxame de hibiscos
          povoou a manhã salina

abro a pasta
          a água transformou
          os papéis
                      indissolutos
                      em raízes mortas

chove

meu pai de tropical inglês,
           subindo as escadas,
           vira-se
                    e me pergunta:

                   Por que ainda não me enterraste
                   se já morri faz trinta tortuosos anos?

esta falsa paisagem
                  londrina
                           da janela
                  embora com lagartos
                  que se deslocam
                  e plantas ao vento
                  é fixa
                  quadro cujas cores
                                          se corrompem

no hotel
em Búzios
onde hospedava
humores descarnados
           a fratura dos riscos
           me lembrava
           a cada instante
que a permanência
           é fluida
           e os ares marinhos
trazem
           salsugem e os mortos
como as ondas
           vomitam
           na praia
                     o que não digeriram




(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet: hopstel andarilho

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Fachada, poema de Donizete Galvão




Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
                                       Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.

(do livro O homem inacabado, São Paulo: Portal Literatura, 2010)

PROUST NO THE GUARDIAN


Onde está Proust?


If you haven't read Proust, don't worry. This lacuna in your cultural development you do not need to fill. On the other hand, if you have read all of A la Recherche du Temps Perdu, you should be very worried about yourself. As Proust very well knew, reading his work for as long as it takes is temps perdu, time wasted, time that would be better spent visiting a demented relative, meditating, walking the dog or learning ancient Greek.
In Search of Lost Time, or Remembrance of Things Past, as Proust's "novel" is variously titled in English, is widely touted as one of the favourite books of the 20th century, second only to The Lord of the Rings. Fans of Tolkien can certainly handle a marathon read, as can Harry Potter addicts; but whether they have stayed the distance with Proust seems to me highly doubtful.
ALRDTP is not so much a book as an armful of books. No bookshop can be relied upon to have all the volumes in stock at any one time. The cost of the whole work is likely to be prohibitive – unless you can read it in French, in the one-volume paperback edition of the text established by the Bibliothèque de la Pléiade over five years from 1987. This is a helluva read, being 2,408 pages, 1.25m words, and so heavy that you can't read it in bed let alone in the bath (if you can read it at all, with its crowded, narrow typeface and tiny margins).
This cannot be called the definitive text because, when Proust died in 1922, the last three volumes existed only in typescript, festooned with pasted-in interpolations and additions that Proust's literary executors tried to make sense of; they moved some, ignored others, all the while erasing repetitions and inconsistencies in the belief that Proust would have done as much if he had had the time. Recent editors have restored this momentarily inert mass once more to chaos. Ulysses, too, is an editor's nightmare, and ALRDTP should not be damned solely on that account. But it is damnable in its fake heterosexual voyeurism, and its disparaging and dishonest account of homosexuality.
People who gush over Proust say peculiar things about him. The Observer's Robert McCrum thinks he "redefined the terms of fiction", whatever they may be. Proust would have been surprised to be told he had defined anything. In a momentary lapse into barbarism, Nabokov, himself a consummate stylist, described Proust's prose as "translucid". If Proust did not make such a snobbish to-do about diction, it might be easier to forgive him for his battering of the sentence to rubble and his apparent contempt for the paragraph. He relies on commas and semi-colons to do what should be done by full-stops, of which there are far too few, many of them in the wrong place. Sentences run to thousands of words and scores of subordinate clauses, until the reader has no recollection of the main clause or indeed whether there ever was one.
Until almost the end of the century, CK Scott Moncrieff's was the only English translation. It contained all kinds of howlers, which were tinkered with by various publishers to be presented eventually to the anglophone public as two different translations with separate copyrights. Then Penguin embarked on a genuinely new translation by assorted academics under the general editorship of Christopher Prendergast. This was generally well received, with one desperate reviewer even imagining that it had captured the "cadence" of Proust's French.
Supposing you struggle on as far as the fifth volume, which Scott Moncrieff called The Captive, you will find the following: "Tirant d'un flûtiau, d'une cornemuse, des airs de son pays méridional, dont la lumière s'accordait bien avec les beaux jours, un homme en blouse, tenant à la main un nerf de boeuf, et coiffé d'un béret basque, s'arrêtait devant les maisons." This Scott Moncrieff hilariously renders as: "Drawing from a penny whistle, from a bagpipe, airs of his own southern country whose sunlight harmonised well with these fine days, a man in a blouse, wielding a bull's pizzle in his hand and wearing a Basque beret on his head, stopped before each house in turn." In Carol Clark's version for Penguin we read: "Drawing from a penny-whistle or bagpipes melodies from his southern homeland, whose light the fine morning recalled, a man in a smock with a bludgeon in his hand, and wearing a beret, stopped in front of the houses."
The translators' manifest difficulties stem at first from Proust's own imprecision, and are then compounded by their ignorance. The Pyrenean goatherd carried neither a dried bull's penis nor a bludgeon – what would he be doing with either? He is going to milk his goats and he needs something with which to restrain them: a hobble made of dried bull sinew. But when all is said and done, Scott Moncrieff remains the pleasanter read. Once it is understood that all translation is mistranslation, we are free to realise that Scott Moncrieff (Proust's contemporary) keeps us reading at the right pace and rhythm. Besides, he has no hesitation in using French words that we all understand, while Penguin insists on translating a "concierge" as a "portress", if you please.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A prisão de Homero, conto RCF




Foi inesperadamente, num dia de semana ordinário, que Homero pediu para ser preso. Como não havia cometido nenhum crime, passou por louco dentro da delegacia. E foi motivo de chacotas entre os policiais, ainda que acostumados a malucos e, principalmente, a certos elementos que, sabe-se lá a razão, gostavam de assumir a culpa por um delito que não cometeram.

Mas a história de Homero era diferente. Os doidos que se apresentavam culpando-se eram exibicionistas ou tinham outro tipo de deformação mental. Logo caíam em contradição e o delegado os ameaçava com falso testemunho e aí, diante de uma transgressão verdadeira, como num passe de mágica, os falsos culpados assumiam a mentira.

Homero sempre foi um homem pacato, dono de armarinho, morando em subúrbio, vida reta, nenhuma amante. Nunca cometera deslize: devolvia dinheiro encontrado na rua, se oferecia a depor quando assistia a um acidente de trânsito, enfim, era a virtude em pessoa. De tão virtuoso é que não pôde aceitar o crime que cometera.

O sócio de Homero, companheiro de muitos anos, morrera repentinamente. A viúva não se interessou pelo negócio, pediu sua parte. Homero fez as contas, comprou a parte do amigo morto. Aí é que começaram as angústias de Homero, que enrolou a viúva nas contas. O que mais o incomodava era a viúva, amiga da família, continuar a freqüentar a casa dele. A cada visita a viúva representava a prova viva – e falante – do crime que cometera. Ficara com pouca coisa, reclamava que o marido durante a vida fora unha-de-fome e, morto, lhe deixara sem pensão.

Meses se passaram e Homero imaginou que devolvendo o dinheiro para a viúva conseguiria aliviar a culpa. Inventou uma história intricada.

Que taxa? perguntou a viúva do sócio.

Ora, o importante é que o dinheiro eu vou depositar na sua conta. É melhor nem entender essas coisas financeiras do governo: taxas, multas, cobranças indevidas, ressarcimento. O governo também erra e às vezes corrige o erro. Não está feliz com o dinheiro que vai receber?

A surpresa de Homero foi ver que a devolução do dinheiro não aplacava a consciência pesada. Afinal cometera o delito, o dinheiro que por direito dava à viúva não o inocentava do crime. Tinha que pagar pelo crime que cometera.

Foi tudo isso que Homero contou na delegacia e o delegado não dera bola. Sem tribunal ou juiz que o condenasse, Homero decidiu dar pena para si mesmo.

Confessou-se à esposa que não acreditou no que ouvia.

Bobagem, disse.

E como Homero insistisse, ela reprovou.

Deixa de ser idiota. E, além do mais, reparaste o erro. A viuvinha não está feliz? Então pára de maluquice que temos três filhos pra criar.

A pena que Homero se deu foi fazer de seu quarto uma cela. Mandou construir grade, tirou todos os móveis, colocou um catre e, quando achou que o quarto tinha cara de cadeia, trancou-se nele. Além da televisão, desfez-se de qualquer luxo. E mesmo a televisão, Homero a justificava: tinha direito a prisão especial por ter grau universitário. Estava na lei.

O cotidiano de Homero era desesperador. Comia frugalmente, recusando qualquer tentativa da mulher em oferecer a ele pratos suculentos ou guloseimas. Acordava cedo, fazia ginástica, via um pouco de televisão, lia e quando olhava o relógio eram apenas dez horas da manhã. Como o tempo rendia! Depois ficava olhando para as paredes nuas onde num canto fazia as marcas dos dias – como qualquer prisioneiro – que faltavam para sua liberdade.

Nada o demovia. Nem o pedido dos filhos, dos amigos, dos parentes. Era um preso exemplar. Tinha em mente que assim disciplinado podia ter a pena reduzida como faziam com os presos de bom comportamento. Assim ia vivendo, encarcerado, em paz com a consciência para desespero da esposa que teve que assumir o armarinho em lugar do marido.

Daqui só saio em sete anos, dizia anunciando o tempo da condenação.

Homero já cumprira seis meses de pena, quando teve uma idéia. Hesitou muito antes de definir-se. Afinal de contas, a idéia, embora contraditória, era uma idéia de prisioneiro – ele se justificava. Depois de tanto vacilar, por fim se convenceu. Iria cavar um túnel.

É só cavar com a colher todo dia um pouco, esconder a terra e, mais três meses, consigo chegar do outro lado da rua, arquitetava. E, pronto, liberdade!

(imagem retirada da internet: lala.blog)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O viúvo, análise de Zina Bellodi e outros

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(do livro Memorialística. São Paulo, 2012. Magaly Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino)

            Em O viúvo temos a memória familiar do ângulo de visão do homem que protagonizou uma história, e que nos leva a participar de sua vida interior, não deixando claro o limite entre o sonho e a realidade.
            A obra de Ronaldo Costa Fernandes é uma narrativa feita pelo viúvo de Lídia, que morrera após relativamente longa doença, durante a qual o marido fugira a seu convite para fazer amor, com nojo. Ele é professor na universidade e tem a companhia do jardineiro José e da criada Benedita. Quando José morre, Benedita assume o cuidado das plantas. Durante certo tempo o viúvo mantém um caso com a economista de um banco, Fernanda, que tem dois filhos. É perseguido pelo marido dela com o carro e, numa perigosa manobra, sofre acidente, ficando seis meses em coma, quando Fernanda o abandona. Num certo momento passa a cuidar de Benedita, agora doente, levando-a ao médico. Ao fim pára de trabalhar, em condições não muito claras.
            O grande problema do viúvo é “sentir o corpo”, pois vive em completa dissociação, perdendo até a sensação dos pés como algo seu. É como se o corpo fosse estranho e com ele não se pudesse ligar. Esta sensação, de caráter físico, pode ser interpretada como a contrapartida de seu característico desligamento das pessoas. Realmente, a ideia que se tem é a de que ele não consegue estabelecer com o outro, seja ele quem for, uma relação verdadeiramente significativa.
            Esta incapacidade de relacionamento humano efetivo (traduzida na sensação de não sentir o próprio corpo) é acompanhada de uma certa incapacidade de ver na vida algum sentido.
            É na relação com Lídia que o viúvo conseguia tornar real o próprio corpo, de outra forma estranho:

         Aquele corpo para mim era um corpo inédito. Meu corpo também era inédito. Meu corpo não era inédito com Lídia. O quarto não existe. A gente inventa o quarto. O quarto não é feito de móveis ou de espelhos, cama, console com som. O quarto se resume a dois corpos. Certa vez agarrei Lídia na escada. Ali inventei o quarto.[1]

            O viúvo sente a realidade do próprio corpo e até “inventa” fatos da realidade na relação com Lídia. Esta relação parece, assim, como um possível clarão a iluminar uma vida de outra forma sem sentido. Na fuga ao marido de Fernanda, o viúvo sente mais claramente a falta de sentido que permeia sua experiência:

         (...) Saí correndo, desembalado, o carro rangendo pneu na curva, derrapando. A culpa não foi de Manfredo. Eu sabia muito bem o que estava fazendo. Senti o desejo de me matar, de abandonar não a perseguição de Manfredo, mas uma perseguição maior, a própria vida. (...)[2]

            Fica claro que se trata de alguém cuja luta vital é a busca de um sentido que lhe escapa constantemente, um sentido que talvez pudesse atingir com Fernanda, mas esta é uma relação condenada ao fracasso.
            No hospital, diante de Fernanda, mas sentindo-se mais perto de Lídia, o viúvo admite que perdeu o rumo, o que aparece, metaforicamente, no acidente com o carro.
            Enquanto o viúvo procura ansiosamente um sentido vital que se lhe escapa, sua obsessão volta-se para a ideia de limpeza, fato que é recorrente na narrativa. Não se trata, propriamente, de desejar a limpeza obsessivamente, mas antes de senti-la com intensidade desproporcional. É como se os objetivos se limpassem a si mesmos de maneira ostensiva.

         Duas ou três semanas depois, a casa entra em rotina. E se limpa, se asseia, se higieniza e até quer mostrar vaidade. Não há espelho que baste para a casa que rebrilha de tanto lustra-móvel, limpador de vidro, detergente e sapólios.[3]

            Se as coisas são personificadas, as pessoas, às vezes, aparecem quase que reificadas, como acontece numa menção à D. Benedita:

         D. Benedita não faz supermercado. Cada semana escreve garranchos que viram azeite, arroz e macarrão. As palavras na cabeça de D. Benedita também devem aparecer como garranchos. Difícil decifrar o que a mulher pensa, caso pense, porque a cabeça de D. Benedita deve ser como papel em branco.”[4]

           
A personificação da casa é seguida, em outro contexto, da animalização do narrador:

         Já pensei em mudar-me, mas nunca sairei desta casa. Ela é o bicho hospedeiro, sou o verme que dele se alimenta. Às vezes penso que fui feito para morar aqui. Não questão de destino, quando procurei desabava de velha e inabitável, fiz a casa tanto a meu gosto que desconfio que ela me atraiu para lhe dar a forma que me pediu.[5]

            Ao contrário de outras obras, principalmente a partir do século XX, cuja tônica é a expressão da falta de sentido com que a realidade se apresenta, mas numa imagem que nenhuma tem a acrescentar, aqui temos uma aguda, profundamente sentida, visão de tudo isso, mas numa criação expressiva que não se esgota na simples negação. É do “sem sentido” aparente do real que brota a mensagem mais forte da obra. Isto, desnecessário dizer, pela maneira como ela se organiza e se realiza numa linguagem “buscada” de profunda expressividade. É o contrário de outras obras que se passam por complexas, mas que, na verdade, pouco conseguem construir.

           

            Em primeiro lugar esta é uma obra de 2005, que reflete os males e as dores que marcam a literatura desde o século XX mais claramente (já que desde sempre existiram). A angústia traduz-se neste livro pela sensação de claustrofobia que parece atormentar o herói e que se transfere para o mundo que o cerca, como diz Salomão Sousa:

         Por tratar-se de personagem que padece das doenças da pós-modernidade, o viúvo não se limita a ser doente – ele adoece o mundo ao seu redor. A realidade perde as suas funções inanimadas, assumindo os desastres que ele mesmo vem construindo.[6]     

            Essa sensação é o que problematiza todas as relações humanas na obra. A visão aqui descrita pode ser claramente constatada ao longo do texto, como no que se segue:

         Estou na garagem, transformada em consultório. O consultório de vozes encarceradas. Ali sim estão as vozes em seu estado primitivo, porque saem, mas não saem, ficam ali, depositadas, aéreas, esparsas, presas para sempre no ouvido da doutora. A garagem é um ventre de vozes, estão amortecidas, esperam que nós a busquemos, há um repertório também de outras vozes, viciadas, lidas, eruditas, que a doutora recolhe do ar, borboletas rebeldes, que se cruzam formando outro bando de borboletas.[7]

            Se quisermos escolher uma passagem em que mais claramente aparecem as características aqui arroladas, podemos escolher o capítulo 6 na sua íntegra, onde há uma descrição da casa que exprime poderosamente a sensação de claustrofobia (nos quartos), sensação que não é transmitida pela cozinha, para onde convergem “luminosidade, amplitude e vida”[8] o que, normalmente se esperaria da sala. É na cozinha que ainda existe vida:

         (...) A vida vicejava na cozinha como planta adubada. As paredes porosas exalavam não apenas o cheiro forte dos temperos, exalava ela mesma cheio de existência, coisa viva, poderia suar ou gelar-se.[9]

            Enquanto isso “a sala acabrunhava-se numa soturnidade úmida” [10]
            A sensação de ser o herói alguém desconectado, fica afirmada com a menção ao telefone, como única forma de ligação com o mundo.
            A idéia de vazio a cercar o herói, é enfatizada quando são mencionados meios sonoros e visuais:

         Evitava o silêncio, pelo menos logo depois da morte de Lídia, mas a televisão e o telefone passavam a ser silêncios estentóricos.[11]

            O viúvo vive numa casa onde parece não existir nenhuma imagem, mas apenas penumbra. Num certo momento o herói tenta fugir até da presença semanal da criada, que faz o sol entrar na casa:

         O sol, contudo, teimava em se instalar uma vez por semana. Diabo de rotina. Era quando vinha D. Benedita.
                                                        /.../

         Não sabia em que cômodo ficar, escolhia o dia da semana em que teria de ausentar-me o dia inteiro, mas às vezes coincidíamos e eu me via acuado, incômodo em minha própria casa, quase pedia desculpas a D. Benedita por morar ali, ora que é isso, nhô sim, nhô não, outro tanto envergonhado de ela expor sem limite ou pudor a minha vida mais noturna e escondida.[12]

            Tudo isso se exprime numa linguagem própria que individualiza o romance, ao mesmo tempo em que o coloca numa tradição das grandes narrativas. Adelto Gonçalves exprime bem isto:

         O viúvo, de Ronaldo Costa Fernandes, é um romance surpreendente. As frases curtas, diretas, rápidas e cortantes reconstituem um clima pesado e sombrio (...), em que o estado mental de quem escreve transborda para a palavra.

                                            /.../

(...) É como se Machado de Assis tivesse renascido na segunda metade do século XX e, incorporando todas as conquista literárias das últimas décadas, renovando o idioma e produzido este texto que é o depoimento apurado de um homem atormentado.[13]

            Isto tudo é o que autoriza Adelto a classificar a obra como “uma das poucas obras-primas do romance brasileiro deste início de século XXI,”[14] uma obra que “revisita” os grandes fantasmas da modernidade e pós-modernidade, como acontece com Angústia de Graciliano Ramos, mencionada por Lídia Cadermotori na apresentação para O viúvo, e como se vê em O estrangeiro de Albert Camus.
            Salomão Sousa enfatiza ainda a qualidade da linguagem que marca a obra, junto à maestria com que coloca a relação entre personagem e realidade.
            Esta é uma obra que está a merecer mais fama e estudos críticos do que já recebeu, como se vê em Adelto Gonçalves.

         Que um país periférico não seja capaz de reconhecer os seus melhores autores, isso é sintoma de que a nação já entrou em acelerado processo de desintegração. E por isso seu futuro se desenha duvidoso. Infelizmente.[15]







[1] Ronaldo Costa Fernandes – O viúvo, LGE Editora, Brasília, 2005, p.36.
[2] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p. 95.
[3] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p. 115
[4] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p. 123.


[5] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.150.
[6] Salomão Sousa – Agulha – Revista de Cultura # 49, Fortaleza, São Paulo, janeiro de 2006, acessado em 20/28/2007.
[7] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.24.
[8] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.27.
[9] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.27.
[10] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.27.
[11] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.28.
[12] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.29.
[13] Adelto Gonçalves, O viúvo, um acontecimento literário, Jornal de Poesia, acessado em 20/08/2007, p.1.
[14] Adelto Gonçalves – O.C. p.1.
[15] Adelto Gonçalves – O.C. p.3.