quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Fruto da paixão



A flor do maracujá é a flor da paixão.
A flor,
exposta à paixão dos olhos
e não ao amoroso da boca,
é fruto exibido.

Flor do maracujá –
vária e diversa – ,
flor utilitária
que fora de seu caule
murcha
como o homem sem a seiva da ambição.

Flor de fruto
fruto do fruto
beleza tímida
horária – vivendo apenas
seu tempo exato
no pé.
Fora dele, a flor da paixão,
passion fruit
ou
fruit de la pasion,
é o avesso de si
e se fecha, negando
aos outros a beleza
que apenas se nutre
e se mostra a si
mesma como a alma
que, embora bela,
não pode se expor sozinha.

Qual o tempo exato
para a fruta madurar?
Sob a bigorna do sol
moldada a ferro e fogo
ou sob a salmoura
dos dias nublados?
Cada fruta: seu forno,
seu tempo e sua temperatura
de andar madura
na cerâmica
do longe.
Ao longe a fruta é natureza morta,
pinceladas abstratas, traços exatos,
sem sabor, unidimensionais.




(Terratreme, 1997)

imagem retirada da internet: miró

A prosa e o verso maranhenses em quatro autores, por Lourival Serejo



Praça Gonçalves Dias

                                                                                                         

Sem a pretensão de fazer crítica literária, venho falar de quatro livros e quatro autores maranhenses. Refiro-me a lançamentos recentes, que confirmaram o talento desses escritores na prosa e na poesia.

O que antes era raridade – a sequência de lançamentos de livros –, nos últimos anos, em São Luís, tornou-se motivo para comemorar. São muitas edições aprimoradas, graças ao avanço técnico de novas gráficas instaladas e o destaque de profissionais que trabalham nesse desafiante artesanato de fazer livros. A Academia Maranhense de Letras tem feito o seu papel, nesse momento de expressividade, promovendo vários lançamentos, muitos deles com o selo da Casa.

Inicio esta digressão banhando-me n´O rio, de Arlete Nogueira da Cruz. A prosa da autora de Litania da velha flui como a correnteza do seu rio: tranquila, leve e envolvente. A magia que emerge da prosa de Arlete tem raízes no sentimento da terra que ela cultiva ainda hoje, mesmo tendo deixado sua aldeia há muito tempo.

A história de Pedro, que Arlete nos conta, em O rio, com muita habilidade, é a angústia que domina todo jovem, principalmente os jovens daqueles tempos, sem a facilidade de comunicação que temos hoje. É a busca de si mesmo e o desejo de conquistar o mundo. De certo modo, Pedro é Arlete, no que ela tinha de jovem inquieta e sonhadora, desejando navegar por outras águas em busca da sua afirmação.

As ilustrações de Péricles embelezam ainda mais o livro da musa do poeta Nauro Machado.

Do rio de Arlete, contemplo o Último sol nascente, de Alex Brasil.  Depois de consagrar-se como poeta, Alex atirou-se ao conto, esse gênero que cativa todos os escritores, tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo. No meio dessa incerteza é que veio a famosa e muito citada frase de Mário de Andrade, dita em tom de desafogo diante de tantos originais para opinar: Conto é tudo aquilo que chamamos de conto.

Propositadamente, o autor deixou o conto cujo título dá nome ao livro, para o final, com o propósito de nocautear o leitor com uma história bem elaborada e bem concluída.

Por coincidência, o prefaciador do livro de Alex é o próximo autor de quem pretendo dizer alguma coisa. Já tive oportunidade de falar sobre a prosa de Ronaldo Costa Fernandes, ao comentar seu romance Um homem é muito pouco. Agora, ele volta à poesia, com a mesma competência que lida com a prosa, apresentando-nos Memórias dos porcos. O denominador comum dessa habilidade, não há dúvida, é a sensibilidade do escritor em sintonizar-se com a matéria-prima dos seus trabalhos.

Chamou-me a atenção o poema “Minha fraqueza é meu único talento”, quando o poeta diz: “Sou apenas um homem/ e um homem é muito pouco”. Nesse excerto, encontrei a chave para explicar o título do seu romance já referido: Um homem é muito pouco.

Para falar dos poemas de Ronaldo, teria que usar todo este espaço, o que ofenderia a isonomia que pretendo dedicar aos quatro escritores aqui mencionados. Destaco, só por ênfase, estes poemas que mais me cativaram: Verso e reverso, Código penal, Prescrição médica, Testamento, Carga pesada e Meu pai tem um calendário. Impossível deixar de me solidarizar com o poeta, quando ele clama: “Não posso viver num mundo/em que tudo se transforma em hipótese”.

Por fim, apraz-me falar do último romance de Waldemiro Viana: O pulha fictício. Usufruindo de sua gentileza, já havia lido os originais desse livro, muito antes de sua publicação.

Waldemiro não é mais calouro no romance. Anteriormente, já nos brindou com outros títulos: Graúna em roça de arroz (1978); A questionável amoralidade de Apolônio Proeza (1990); O mau samaritano (1999); e A toga e a tara (2010).

A receptividade que O pulha fictício está merecendo dos leitores é proporcional à naturalidade como o autor articula o enredo dos seus romances, motivando o leitor a chegar até ao fim para, então, ser compensado com o término da leitura.

Como se vê, essas quatros amostras que acabo de expor dão o toque da qualidade das nossas letras, atualmente, com novas publicações e a demonstração da capacidade desses já conhecidos escritores.


                           (Publicada no jornal O Estado do Maranhão, em 13 de abril de 2013).

Um homem é muito pouco 7





E bem, ali estavam os três, Clemente, Yolanda e Aninha para fazer visita a Juliana. Clemente ficou impressionado com a casa. Não pelo luxo que não havia, Juliana era intelectual e não cuidava muito da casa. Havia livros e papéis por todos os cantos e os móveis pareciam estar fora de lugar por alguma razão desconhecida. E além do mais, em todas as partes havia cavalos de pau.

O marido de Juliana não gostava de ser chamado de marceneiro, acreditava que os móveis que fazia, muitos deles desenhados por ele mesmo, eram obra de arte. Copiava modelos ingleses, franceses e italianos, mas também impunha aos fregueses os traços do seu desenho, que poderia nunca chegar a ser grife, mas que lhe dava a paz de realizar trabalho artístico e não meramente mecânico e operário.

Mas a fascinação do marido de Juliana eram os cavalos. Então havia na sala em que foram recebidos cavalos de todos os tamanhos, pequeninos, médios, grandes. Clemente mesmo se sentou numa cadeira que tinha forma de cavalo. Do mesmo modo, Yolanda e Aninha também sentaram em cadeiras-cavalo, enquanto Juliana se estirava numa chaise-long, depois de recolher pratos jogados sobre a mesma, papéis espalhados em cima do sofá como se tivesse sido pega de surpresa e não ter convidados para o chá. Yolanda já estava acostumada com Juliana e com a casa de Juliana. Aninha sempre gostava de ir à casa de Juliana, que lhe parecia enorme casa de brinquedo que, lamentavelmente, só tinha o brinquedo do cavalo.

Quem estava incomodado era Clemente, que não se sentia à vontade sobre uma cadeira que era cavalo ou sobre um cavalo que era cadeira.

O marido de Juliana era um cavalo. Era um cavalo grande. Homem cinza. Todo ele era cinza. E ainda por cima fazia questão de se vestir de cinza. Horácio era o nome dele. Mas Horácio não é nome de cavalo. Horácio deveria ter nascido com o nome de cavalo. Ele levou Clemente para outra sala com pé-direito alto.

Lá havia outros cavalos. Era a “cocheira” de Horácio. Era ali que ele esculpia e guardava os cavalos, principalmente os cavalos maiores. Horácio devia se chamar Homero e tornar verdade a história do cavalo de Troia. Horácio era o único homem que Clemente conheceu que podia ter construído, nos tempos modernos, o cavalo de Troia. Horácio era um homem espichado, magro de tanto cavalgar seus cavalos, alimentando-se pouco e raramente. A cabeça de Horácio cobria-se de cabelos cinza, as crinas de Horácio comportavam o cinza. Horácio colocou Clemente num cavalo grande e ele também sentou num cavalo grande.

A impressão que Clemente reteve foi não que os cavalos fossem grandes, mas que os dois, Horácio e ele, haviam diminuído. Clemente se sentia um pouco criança, mas não se importava de se sentir um pouco criança. Os cavalos enormes, gigantes, de Troia, os cavalos grandes de Horácio eram estilizados, logo não se sentia cavalgando na madeira da oficina de Horácio. Coerente com os cavalos de pau, não havia capim no chão da oficina, ou melhor, o capim também era de madeira.

Os cavalos ficavam distantes um do outro e Horácio falava alto e espichado, falava magro e cinza. Clemente respondia no mesmo tom e altura.

Era uma conversa desencontrada e magra. Dois meninos se balançando em dois balanços numa praça, de vez em quando as vozes e os ouvidos se cruzavam, mas no resto ele falava uma coisa, mas Clemente não escutava, estava no alto, logo Clemente falava outra que ele não escutava, estava lá embaixo e vice-versa ou versa-vice, como o próprio Horácio gostava de dizer. O versa-vice para Horácio era a conversa secundária. Ele perguntou a Clemente o que ele fazia, Clemente lhe disse e ele confessou que gostaria de ter sido marinheiro, que quando criança pensava em entrar para a Marinha, mas depois tomou gosto de cavalos e no mar não havia cavalos e era besteira de chamar de cavalo-marinho o cavalo-marinho que era marinho mas não era cavalo.

Eu joguei todos os meus livros fora, ele gritou.

E por quê?

Os livros, como aconteceu com Dom Quixote, estavam me enlouquecendo. Eu não gosto de enlouquecer, ele completou.

Clemente não disse para ele que também não gostava de enlouquecer, aliás Clemente não conhecia ninguém que gostasse de enterro e de enlouquecer.

Não, Horário não se parecia com Dom Quixote, embora tivesse o rosto também espigado e cabelo com topete que alongava o rosto dele. Horácio era tão magro que Clemente via não somente as veias dos braços como também os feixes mínimos de tendões e músculos que seguram as carnes.

Sabe quanto custa um cavalo desses?, perguntou apontando para os cavalos em que estavam sentados. Quase um carro popular.

Clemente não sabia a razão de Horácio falar aquilo de os cavalos custarem os olhos da cara. Queria se valorizar, é claro. Mostrava seus laivos de artista e de artista plástico com exposição montada e cavalos vendidos. Clemente, não por maldade, e sim por ingenuidade, perguntou se Horário já vendera algum daqueles cavalos.

Alguns, poucos, respondeu com sinceridade Horácio.

Clemente gostou da sinceridade de Horácio. Se fosse homem rico, somente pela sinceridade de Horácio, compraria o cavalo que valia carro popular embora ninguém ainda tivesse pagado o preço de carro popular para um cavalo daqueles.

Você gosta de amêndoas?, perguntou de súbito Horácio, sem que nada que tivessem conversado antes levasse a tal pergunta.

Gosto, gosto de amêndoas. Clemente pensou que Horácio ia lhe oferecer amêndoas. Mas não. Feita a pergunta, se calou.

E um tempo depois disse: As amêndoas são muito boas.

Clemente não havia escutado direito e pediu que ele repetisse. E Horácio disse: As amêndoas são muito boas. Clemente balançou a cabeça afirmativamente. E pensou que talvez não estivesse ali em Botafogo, na casa de Juliana, conversando com o marido cinza dela, sentado num cavalo gigante, e sim que estava no sanatório em Bremen. Horácio explicou que aquele era seu método mnemônico para guardar os nomes das pessoas. De agora em diante, Clemente se chamaria “Clemente, o que gosta de amêndoas”. Ele, Horácio, já provara o método inclusive numa visita que o casal fizera a amigos dela em Santa Tereza. Horácio se prometeu que sairia de lá sabendo o nome de todos os amigos dela. Eram quase vinte pessoas. Horácio foi apresentado a todos e pediu que Juliana ao apresentá-lo lhe dissesse o nome. Na hora de partir, Horácio se despediu um por um pelo nome.

Boa noite, Otávio. Boa noite, dona Marina. Boa noite, seu Cláudio. Boa noite, seu Antonio Carlos. Horácio, ao ser apresentado, juntava o nome do sujeito ou da mulher com algo aleatório, como Otávio com piano, Mariana com fruta-pão e por aí vai.

Ao sair da festa, Horácio estava se despedindo era do piano, da dona fruta-pão, do seu manteiga, da sua graminha, do seu novato, do doutor capacho, de dona língua grande. Horácio não gostava de associar traços físicos com o nome, para ele era o mais fácil de confundir. Nariz grande servia pra um bando de pessoas ali mesmo na festa.

O método que Horácio consagrara – embora não fosse inventado por ele – se estendia aos amigos de Juliana. Se Clemente era o que gostava de amêndoas, Alexandre era o sujeito que gostava de jogar pôquer. Horácio não gostava muito de Alexandre, pensava que ele dava em cima da mulher dele, o que não era de todo descabido.

Juliana era uma mulher muito bonita. O dinheiro do pai de Yolanda podia comprar qualquer miss, por isso não ia gastar tempo e dinheiro com uma secretária que recitava Le dormeur du val, de Rimbaud. Se fosse feia, poderia discorrer sobre toda a literatura francesa, de Rabelais a Flaubert, que não levaria nenhuma bicota na boca murcha.

O pai de Yolanda conhecia o mundo e o mundo era belo. O mundo não era belo para os pobres, mas o que o dinheiro que o pai de Yolanda comprava era belo. Era bela a literatura do pai de Yolanda, eram belas a mulher e a amante do pai de Yolanda, eram belas a casa e as viagens do pai de Yolanda, era bela a casa com piscina em Palmas de Mallorca, era imensa com quadras de tênis e uma cascata natural a mansão do pai no Alto da Boa Vista. Yolanda não conhecia tudo sobre o pai dela. Havia um lado que o dinheiro não comprava e que ele escondia da família.

O pai de Yolanda tinha muito a ver com o capitão Vaz. Não, não, nunca se encontraram e agora que o pai de Yolanda estava morto só se encontrariam na vida eterna, caso os dois acreditassem na vida eterna e, principalmente, se existisse a vida eterna. O pai de Yolanda foi procurado por um empresário paulista do grupo Ultragás e ele pensou que o empresário fosse convidá-lo para o pai de Yolanda fazer parte da companhia que estava de pernas bambas. Mas o negócio que empresário paulista propôs foi ser sócio do Brasil.

O senhor é um patriota, dr. Macedo.

É claro que sou.

Muito bem, venho lhe propor se associar ao Brasil.

Mas o Brasil não tem dono.

É aí que o senhor se engana, disse o empresário paulista. O país é de todos, mas há uma canalha que pensa que o país é deles e que eles vão tomar o Brasil só para eles.

Meu Deus, exclamou com verdadeira surpresa. O pai de Yolanda era o sujeito mais esperto e safado que se conhecia, mas às vezes deixava passar ingenuidade.

Depois dessa conversa no Golden Room do Copacabana Palace, o pai de Yolanda passou a contribuir para armar a repressão contra os comunistas que queriam o Brasil só pra eles. O que jamais o pai de Yolanda ia imaginar é que a amante querida e que ele cuidava como quem cuida da educação de filha na Suíça fosse casar com comunista que militara antes de conhecer a arte de esculpir cavalos.

Mas voltando à questão mnemônica de Horácio, o homem cinza que vinha a ser Horácio – o rosto apresentava-se macilento, viam-se os pomos da face e até mesmo os olhos apresentavam tonalidade cinza como de certos felinos – contou para Clemente que Juliana tinha um amigo chamado Alfredinho e que ele identificava Alfredinho como corretor da Bolsa. Certa vez chegou mesmo a misturar as coisas e perguntar a Alfredinho como iam as ações na Bolsa e que conselhos Alfredinho dava para quem, como ele inexperiente, quisesse se meter a aplicar na Bolsa e foi quando Alfredinho disse que não era corretor da Bolsa e que trabalhava numa imobiliária como corretor, não da Bolsa, mas de imóveis.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Bandera, poema em espanhol Ronaldo Costa Fernandes





Mi bandera es no izar bandera.
Mi bandera es el toque de silencio,
la muerte del soldado desconocido
que soy.
¿Quién pondrá flores
en este monumento a mi batalla?
Mi orden no tiene progreso.


Traduzido por Alicia y por su grupo de traducción de la Universidade Nacional de Brasília


Bandeira



Minha bandeira é não dar bandeira.
Minha bandeira é o toque de silêncio,
a morte do soldado desconhecido
que sou.
Quem depositará flores
neste monumento à minha batalha?
Minha ordem não tem progresso.


(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Machado de Assis, de Lucia Miguel Pereira



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BIOGRAFIA LAPIDAR, BIOGRAFADO GENIAL,
BIÓGRAFA EXEMPLAR

Fabio de Sousa Coutinho
(Titular  do PEN Clube do Brasil
e da Academia Brasiliense de Letras.
Presidente da Associação Nacional
de Escritores – ANE)

            A paixão e o amor por Octavio Tarquínio de Sousa, intensamente correspondidos, coincidiram, na vida de Lucia Miguel Pereira, naqueles primeiros anos da década de 1930, com uma verdadeira explosão cultural. Assim é que, após período de um lustro dedicado a incansável pesquisa de fontes, saiu, em setembro de 1936,  pela  Companhia Editora Nacional, Machado de Assis (Estudo Crítico e Biográfico). Sua autora tinha, então, precoces, juveníssimos e incompletos trinta e cinco anos, a mesma idade de Machado quando compôs A mão e a luva, um de seus primeiros romances (1874). Tornava-se Lucia, com o livro seminal, uma estrela na constelação das letras nacionais. Um mês antes, em agosto de 1936, viera a lume Angústia, o romance que consagrou o alagoano Graciliano Ramos como o mais completo ficcionista brasileiro depois de Machado de Assis.
            Haviam decorrido, então, exatos vinte e oito anos da morte de Machado, e o inigualável escritor, o maior de todos, ainda não tinha merecido uma obra como a que Lucia Miguel Pereira produziu com mão de refinada esteta, admiração de leitora encantada e perspectiva crítica de superior conhecedora da vida e da obra de seu luminoso personagem.
            Antes do livro pioneiro de Lucia, surgiram diversas manifestações de apologia e louvação machadiana, mas nenhuma que pudesse ostentar a condição de biografia intelectual do gênio literário brasileiro. Em 1899, numa contundente resposta a críticas injustas e preconceituosas a Machado de Assis, Lafayette Rodrigues Pereira, sob o pseudônimo de Labieno, produziu e publicou, nas páginas do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, Vindiciae – o Sr. Sylvio Romero. O impacto da contradita (em português, Vinganças) foi arrasador, a ponto de, morto o Presidente e fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1908, Lafayette ser eleito, no ano seguinte, para sucedê-lo na Cadeira n° 23 da gloriosa instituição. Mas Vindiciae é apenas uma pronta  e firme contestação a um ataque motivado pela importância que Sylvio Romero, em livro de 1897, desejava que tivessem Tobias Barreto e a chamada Escola do Recife em face de Machado. Labieno, com verve e erudição, provou que a pretensão de Romero era infundada,  descabida e parcial.
            Poucos anos após o falecimento de Machado de Assis, em 1912, para ser preciso, seu amigo Alcides Maya, fino escritor gaúcho, dedicou-lhe um precioso ensaio, focado na forte influência inglesa que marcou as principais obras machadianas, mais especificamente o ciclo virtuoso que se iniciou em 1880, com a publicação, inicialmente na Revista Brasileira, das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Intitulado Machado de Assis –algumas notas sobre o humour, o livro de Maya nasceu com o destino selado: seria, para sempre, um clássico dos estudos machadianos, um rigoroso apanhado das decisivas influências que William Shakespeare, Jonathan Swift, Laurence Sterne (mormente este), Charles Dickens e William Thackeray exerceram sobre Machado, diferenciando sua obra de tudo o que existia até então em nossa literatura, precisamente pela força do humor, da ironia, do sarcasmo, do riso castigando os costumes, da observação psicológica, da corrosividade, da ausência de qualquer ilusão sobre os homens. Em 2015, com apresentação do acadêmico e professor Alfredo Bosi, o Machado de Assis de Alcydes Maia foi relançado, em terceira edição (a segunda saíra em 1942), pela ABL, na Coleção Afrânio Peixoto.
            Entretanto, Alcides Maya não escreveu uma biografia. Seu livro é de extração ensaística, de qualidade rara, mas um ensaio. Na mesma categoria se inserem os ensaios críticos de Araripe Júnior, cobrindo o período de 1895 a 1900, em que o cearense analisa e interpreta, com visão de expert, o alcance da obra machadiana, que, naquele momento, já abarcava os três romances que dela fizeram conjunto insuperável de criação romanesca: o mencionado Memórias Póstumas de Brás Cubas, que saiu em livro em 1881, Quincas Borba, de 1891, e Dom Casmurro, de 1899. Mas Araripe, a exemplo de Alcides Maya, não foi biógrafo de Machado de Assis. Interpretou sua obra de modo impecável, teve a nítida percepção de que se estava diante de uma nova estética na Literatura Brasileira, porém não biografou, na medida clássica da expressão, o imenso vulto que marcou nossas letras de modo tão avassalador.
            Quem mais se aproximou de fazê-lo, quem ficou mais próximo de uma biografia de Machado, antes de Lucia Miguel Pereira, foi Alfredo Pujol, numa série de sete conferências, proferidas ao longo de quase três anos, de novembro de 1915, a primeira, a março de 1917, a sétima, na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo. Alguns meses após a última, editou-se o volume reunindo todas elas, com o título de Machado de Assis – Conferências, sob a égide da Typographia Levi. Recentemente, em 2007, o livro de Pujol foi republicado em caprichada coedição da Academia Brasileira de Letras e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
            Advogado e bibliófilo, dono de estupenda biblioteca, Alfredo Pujol se tornara, pela leitura incessante, admirador incondicional da obra machadiana. Suas conferências têm, portanto, as características da paixão, do culto à memória de Machado de Assis, do amor de um autêntico precursor dos biógrafos machadianos. Paciente, determinado e dedicado, Pujol percorreu nas suas célebres sete conferências, livro após livro, toda a produção de Machado, num trabalho sem descanso de divulgação e afirmação, iniciado quando eram decorridos apenas sete anos da morte de Machado de Assis e ainda sob o impacto da crítica destrutiva e negativa de Sylvio Romero, não obstante já ter sido contraditada por Lafayette Rodrigues Pereira, Araripe Júnior e José Veríssimo. Aqui, de novo, não se tratou de uma biografia no sentido técnico, e sim de um preito de reverência, da palavra pronunciada com riqueza de informações concretas e incontida veneração, enfim, das impressões descritivas de um leitor genuinamente apaixonado.
            Por volta  de 1932, surgiram os livros de Fernando Nery, Vianna Moog, Mário Casasanta e a reedição, em Minas Gerais, do Vindiciae, de Lafayette Rodrigues Pereira. Em 1935, outro gaúcho, Augusto Meyer, publicou seu revolucionário ensaio machadiano, livro de alto quilate, reeditado algumas vezes em décadas posteriores. Meyer pôs em relevo o lado demoníaco, subterrâneo, de Machado, traduzido em amargor e ódio à vida, toda uma filosofia niilista e trágica a envolver seus contos e romances de uma atmosfera densa de pessimismo e derrotismo.
            Biografia mesmo, na acepção mais estrita e corrente do termo, foi Lucia quem primeiro fez. Com o subtítulo Estudo Crítico e Biográfico, ela soube mostrar Machado de Assis como um complexo e humaníssimo personagem brasileiro e deu à sua obra uma interpretação de cunho psicológico, social e cultural que até hoje, dezenas de biógrafos, dúzias de biografias e centenas de interpretações depois, permanece como referência inafastável nos estudos machadianos.
            Em uma antológica sucessão de capítulos (vinte e um, no total) e passagens memoráveis, lastreada em longo período investigativo e produzida com absoluto domínio de recursos estilísticos, Lucia Miguel Pereira evidenciou, no seu primeiro grande livro, que não haverá, em nossa literatura, uma biografia dessa natureza – biografia e estudo crítico de um puro homem de letras.
            Lucia fixou, para a eternidade, a vida de um mestiço de origem humilde – filho de um mulato carioca, pintor de paredes, e de uma imigrante lusitana da Ilha dos Açores – que, tendo frequentado apenas a escola primária e sido obrigado a trabalhar desde a infância, alcançou alta posição na burocracia e obteve a consideração social numa época em que o Brasil era ainda uma monarquia escravocrata. É certo, e justo frisar, que, graças às tendências literárias do Imperador Pedro II, o valor intelectual era então mais acatado, em comparação com o econômico e, até mesmo, com os valores hereditários.
            Autodidata, Machado se formou na Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura (localizada na Rua Luís de Camões, n° 30, no centro da cidade do Rio de Janeiro), valendo notar que, na presidência de Machado de Assis (1897-1908), a ABL veio a realizar várias sessões solenes, de posse e de saudade, no Real Gabinete Português de Leitura. Foi a volta triunfal de Machado às suas mais caras origens culturais, ao berço de sua prodigiosa ascensão intelectual e social.
Aprendiz de tipógrafo e, depois, revisor, tudo Machado de Assis aprendeu por si. E pelo esforço próprio foi erguendo o espírito e depurando o gosto de tal modo que aos 42 anos, ao publicar em livro as Memórias Póstumas de Brás Cubas, se apresentou perfeito na forma, sem vestígios do autodidatismo e da falta eventual de um ambiente familiar socialmente elevado. Foi precoce - seu primeiro poema data dos 16 anos  –, triunfou cedo, viu-se consagrado, como poeta, aos 25 anos, com Crisálidas, fez a sua evolução dentro de uma época literariamente convencional, viveu sempre no Brasil, longe dos grandes centros da civilização literária, prodigalizou-se em colaborações jornalísticas, obteve um êxito prematuro em contos ainda balbuciantes e romances sem originalidade, julgou-se, talvez, principalmente poeta – e nenhum desses fatores negativos o prejudicou e nada impediu a eclosão, quase súbita, da obra novelesca de língua portuguesa mais reveladora de genial poder de análise psicológica.
Como demonstra Lucia Miguel Pereira, o poeta parnasiano das Ocidentais não é, sem dúvida, desvalioso, e quem escreve o soneto A Carolina ­– a mulher de Machado, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, que tão beneficamente influiu na sua vida – merece figurar em qualquer antologia da lírica em nosso idioma. Mas é tão excepcional o valor do contista e do romancista que o brilho de sua estrela poética empalidece, aos olhos de sua primeira e mais importante biógrafa. Também o seu teatro ficou na sombra.
Nunca se deu, aliás, é também Lucia quem registra, na Literatura Brasileira, e muito raramente em qualquer literatura, um fenômeno como o de Machado de Assis, que, quase de repente, já na maturidade, se pôs a fulgurar com brilho próprio e tão intenso que passou a ser, e ainda hoje o é, o mais original escritor do Brasil. Antes dos 50 anos, pôde ser celebrado pelos contemporâneos como “o primeiro de todos”, “o único” – e, se não é o único, numa literatura que conta alguns valores absolutos, é, pelo menos, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mais extraordinário contista da língua portuguesa e um dos raros romancistas de interesse universal, como o atestam as traduções das suas obras mais representativas para os principais idiomas cultos, sem que haja influído nessa referência a atualidade dos seus livros, mas, sim, a perenidade de sua quase ferina análise da alma humana.
 Para Lucia Miguel Pereira, as Memórias Póstumas de Brás Cubas e o Dom Casmurro, sem a menor dúvida, mas também Quincas Borba, Esaú e Jacó, de 1904, Memorial de Aires, de 1908, e muitos dos contos de Machado, incluídos em Papéis Avulsos (1882), Histórias Sem Data (1884), Várias Histórias (1896) e Páginas Recolhidas (1899), dão-lhe o direito de ocupar o topo da literatura brasileira, pela originalidade da concepção, pela agudeza dos conceitos, pela penetrante análise dos sentimentos e pela perfeição do estilo sóbrio e conciso numa literatura derramada. Mas, segundo Lucia, só a capacidade criadora, que permitiu a Machado de Assis subtrair as personagens dos seus melhores romances e contos às contingências de tempo e de lugar, tornando-as emblemáticas das paixões humanas, consideradas em absoluto, poderia fazer dele o escritor colossal que é.
            Machado teve em Lucia Miguel Pereira uma biógrafa que o honrou sobejamente, produzindo uma obra notável, uma “pesquisa biográfica e crítica da melhor qualidade”, no dizer abalizado e culto de Astrojildo Pereira, ele mesmo autor de primoroso livro de ensaios machadianos, sob o enfoque próprio de sua visão materialista das relações sociais, saído do prelo em 1959, ano da morte de Lucia.
            Em dezembro de 1936, ao completar 35 anos de idade, Lucia Miguel Pereira acabava de ser consagrada como escritora, circunstância que premiou seu monumental esforço de leitura, interpretação e divulgação da obra machadiana. Exercia, também, em caráter regular, a crítica literária nas páginas do Boletim de Ariel, posição que manteve até 1937.
            No plano pessoal, celebrava o delicioso início de uma relação amorosa e conjugal com Octavio  Tarquínio de Sousa, naquilo que seria o ponto mais alto da existência de dois seres de exceção: vida de paz, de mansidão, de estudo, de recolhimento, “vida de reciprocidade no amor pelos esponsais do sangue”, nas palavras irretocáveis de Alceu Amoroso Lima.
            O reconhecimento público de Lucia, já tratada como ensaísta das mais vigorosas de uma geração de expoentes, veio com a atribuição, à sua formidável biografia machadiana, do maior prêmio literário da época, concedido pela Sociedade Felipe d’Oliveira, fundada em 1933 e composta por quinze intelectuais brasileiros de primeira grandeza, naqueles idos. A última edição revista por Lucia Miguel Pereira foi a quinta, de 1955. Nela, a exemplo das quatro que lhe antecederam, o parágrafo final se manteve intacto, contemplando a síntese das sínteses, jamais superada, sobre o magnífico biografado:
            “À medida que vai recuando para o passado, sentimos melhor o que representa para o Brasil esse mestiço que tanto elevou a sua gente e o seu país, a pureza dessa personalidade que paira sobre a literatura brasileira como um símbolo da nobreza do pensamento e do poder do espírito.”


Para fazer um soneto, poema Carlos Penna Filho


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Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Um homem é muito pouco 38



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Meu primo tinha virado um desconhecido dele mesmo. Fui com minha tia nos hospitais, nas delegacias e no Instituto Médico Legal. O corpo do meu primo era tão pouco que não estava em lugar nenhum. Nunca mais minha tia viu o filho. O filho partiu da mesma maneira que parti da vida de Alice. Sem dar motivo. A gente não precisa de motivo para viver. Mas a existência do corpo morto do meu primo daria a minha tia motivo para ela enterrá-lo em pensamento. Era mais fácil e menos doloroso ter cova no pensamento do que ter ausência onde cabe tudo. Logo eu, cometedor de ausências, recriminava meu primo por não dar o corpo morto dele à vista dela para que minha tia pudesse sair do ônibus, em pé, calorento, ruidoso, de percurso lento e demorado em que ela embarcara fazia anos e nunca mais sairia dele.

Não podia conversar com minha tia, portava muitas vozes dentro dela. Conversava com o corpo morto do filho, conversava com as vizinhas de ônibus, conversava com ela mesma que era a conversa mais demorada e dolorosa. Dolorosa porque ela não tinha respostas para as perguntas que se fazia. Era um diálogo desencontrado e múltiplo como os passageiros demorados e suarentos dos ônibus. Ando com o sentimento índio e carnavalesco de que não pertenço também a casa e à vida de minha tia. Gostaria de ir embora, apertar a mão de um desconhecido e ser levado a um baile do qual nunca mais me lembrarei. A mão do desconhecido nunca mais saiu da minha mão. Por isso ando com as mãos quase cerradas pela rua. Algo ou alguém me segura as mãos e me leva a destinos falsos como um menino fantasiado de índio. Da fantasia me lembro. Sempre lembro das fantasias. Quem sabe dentro de anos lembrarei da fantasia que hoje porto e ninguém percebe, só minha tia que tem pensamento e sensação para corpos que não são mais corpos?
(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo, Nankin: 2010)

domingo, 10 de dezembro de 2017

Noite, pura noite, poema de RCF





Não há carteiros na noite.

Feito só de cabeça,
corpo de luz invertebrada,
o sinal de trânsito
pende gota gorda de vermelho.
As putas dão prazer automóvel.
Na numismática das janelas
o único olho aceso do prédio não pisca.
A noite não tem pés só cabeça
o travesseiro feito de vozes interiores,
fronhas inconscientes,
vigílias sonâmbulas.
Inventar a noite:
abolir sua mania de enigma,
a substância silhueta,
eliminar o hábito de sombra.



(do livro Eterno passageiro, Varanda, 2004)


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O amor perfeito-poema de Ronaldo Costa Fernandes


Aspiro o amor perfeito
ou aspiro ao amor perfeito?
A gramática das flores
exala anacolutos.
O amor perfeito é uma cabala.
Todas as pétalas do idealismo.
Círculo inexato,
triângulo profundo,
número místico
- flor de misterioso aroma,
de forma labiríntica,
que brota em cada pensamento.

A que ramo pertence o amor perfeito?
Às obsessões que são tubérculos?
À submissão que são plantas aéreas?
Ao desejo que é flor que se abre ao toque?
Ao ramo dos exuberantes como os girassóis?

O amor perfeito é planta de laboratório,
rato vegetal,
cobaia pouco humana,
experiência empírica dos sentidos
ou especulação científica das frustrações?

O amor perfeito não existe em flora alguma.
Viceja apenas na botânica humana,
no húmus das delicadezas da alma,
na suprema aspiração das raízes do ser
que brota a flor mais díspare, metafísica,
desarmoniosa e triste.

O amor perfeito é uma abstração
no jardim secreto dos homens crédulos
na serenidade e no círculo da vida.




(do livro Terratreme. Brasília, Secretaria de Cultura do DF, 1998)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Tempestade da carne, poema Memória dos Porcos


 

O que quero saber é a altura
das tuas vertigens horizontais,
a medida dos teus ais.
O que me desvirtua
é a virtude do teu verbo
porque no princípio,
ao contrário do que se diz,
no princípio era o Verbo
e Deus disse:
Fiat Carne e a carne se fez.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: rodney smith)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Café para dois, poema RCF









O café nos une.
Mas as palavras não se diluem
como quem adoça com pó de gesso.
É preciso degustar
o açúcar refinado das relações perigosas.

Sob a luz fria e fluorescente das negações,
a cegueira das mãos
que não sabem por onde andam.
O que nos separa não é uma mesa.
São a tabula rasa do medo,
a toalha dos bons comportamentos
e as quatro pernas do desejo.





(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A torre e o abismo





Aqui estaremos seguros da vida.
Nada nos atingirá – nem falésia
nem miséria nem a ambição dos homens.

Mais tarde subiremos à torre
e de lá olharemos os homens
e diremos que não fugimos
ao pasmo do abismo,
apenas preferimos o risco do silêncio.



(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)



Retrato do artista quando jovem, James Joyce




                Há um movimento circular, giratório, ao início do romance de Joyce, escrito entre 1904-1914, que permanece por várias páginas e leva ao leitor uma sensação de vertigem. Ao fugir do realismo, Joyce ingressa na narrativa do século XX onde predominará o fragmentário, o recorte, a dúvida antes que a onisciência e o personagem, como diria Zeraffa, engolfado por uma “miríades de sensações”, antes que descrição psicológica, coerente e linear do herói.
                Cabe bem aqui a afirmação de Forster: ”Gertrude Stein triturou e pulverizou seu relógio para dispersar seus fragmentos sobre o mundo como os membros de Osíris. Isto porque quis libertar o romance da tirania temporal, fazendo-lhe exprimir somente a vida dos valores.” Stephen Dedalus é puro papel sensível onde a fotografia do mundo vai sendo impressa. Logo não importam datas ou certa cronologia. Embora a narrativa avance desde a infância até a adolescência, não há explicação ou fixação de datas entre uma cena ou outra, o corte é abrupto e Joyce descreve a atuação do jovem Dedalus como se duas ações fossem contíguas e não houvesse intervalo entre elas.
                Joyce utiliza dois procedimentos, grosso modo, que são a narração pura e simples das ações dos personagens e, em vez da análise psicológica, aprofunda o perquirir do comportamento mental de Dedalus ou o seu estado de espírito. O grande drama do personagem adolescente é a luta do pecado dentro do espírito de formação católica e, mais ainda, jesuítica. As emoções tumultuadas do personagem fazem o autor suspender a ação e descrever as impressões do personagem, seja diante da casa da amada, seja no prostíbulo da cidade.
                “Queria pecar com alguém da sua espécie, forçar um outro ser a pecar com ele e exultar juntos no pecado. Sentia qualquer presença mover-se irresistivelmente para ele das trevas, uma presença sutil e murmurosa como uma torrente enchendo-o todo. O seu murmúrio alcançava seus ouvidos como o murmúrio de qualquer multidão em sono.”
                O clima de catolicismo exacerbado me incomoda (alguns dirão que a essência do livro é a discussão teológica, e eu aceito). O que me causa certo tédio não são as discussões teológicas, mas, por exemplo, a exaustiva, longa, desinteressante apresentação do retiro espiritual feita por membro do clero explicando (sem dialética) o que vem a ser aquele momento de religiosidade para os alunos que o ouvem. Não há criatividade, parece que Joyce copiou de algum catecismo as três páginas de lugares-comuns.
                O romance toma outro rumo, mais denso, original e ativo quando o personagem, instado a ser padre, reconhece sua mundanidade e sua opção pela vida não religiosa. O drama que antes era pueril, agora se torna mais adulto e o romance empina-se.
                Desagradam-me um pouco as mudanças de estilo, ou se quiserem, as mudanças de discurso. Há três modalidades de expressão que não se mesclam: uma mesma longa cena pode conter as três, separadas apenas por indicação de parágrafo. São elas: primeiro, as ações mais simples, quando o discurso se torna referencial como a ida ao colégio, as conversas, as descrições de paisagem (poucas). A segunda, num nível outro de construção, estão os pensamentos sobre cultura, feitos de forma mais clara, incluídas aí considerações concretas sobre a realidade do colégio, da vida familiar (observar que elas se tornam mais densas quanto mais o personagem passa da infância à juventude), mas de qualquer maneira são elaboradas como num ensaio. Nesta última podemos citar a seguinte passagem (para os brasileiros curiosa é passagem em que aparece a frase que será título do livro de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, sugerida pelo amigo Lúcio Cardoso):

“Ele estava longe de tudo e de todos, sozinho. Ele estava desligado de tudo, feliz, perto do coração selvagem da vida. Estava sozinho, e era jovem, cheio de vontade, e tinha um coração selvagem.”

                E a terceira refere-se a uma expressão mais nebulosa, típica do impressionismo pelo qual Virginia Woolf advogava, inclusive aproximando a narrativa à pintura, perguntando-se porque a prosa não podia ser prenhe de descrições da desorganizada vida mental submetida às impressões da realidade como nos quadros dos franceses do fim do século XIX. (RCF)


domingo, 3 de dezembro de 2017

Meu pai habita meu corpo, poema RCF





Meu pai vive em mim.
Não sei onde se localiza,
no meu corpo, meu pai morto.
Há anos que trago meu pai
como um apêndice.
Ao meio-dia meu pai está a pino.
De madrugada,
no quarto crescente,
ando de lua,
minguando meu coração.
Depois cresci e meu pai
virou um latido rouco numa garagem vazia.
Pai, estanca o trem do tempo,
há chuva na estação do meu olho,
o cão de madeira do banco
me faz companhia fiel.
Meu pai vive em minhas mãos,
por isso colho ausência.
Meu pai usa meus ouvidos,
abusa dos meus olhos,
repete a mesma frase
na máquina da memória
que, enguiçada,
distorce imagem, som e o filho.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)