domingo, 25 de junho de 2017

Vermeer, poema de RCF





Em Vermeer há de se encontrar o sábio e a balança,
a virgem e a viola, a tocadora de cravo
as tentações do vinho ou as mazelas da preguiça.
        Há de se encontrar os pátios e as tabernas
         e nelas habitar a luz que tudo inventa
         e tudo cria realidade, espessura e saturação
         – a luz que faz existir todos os corpos
         que dá a Vermeer a felonia
         de criar o mundo à cruel semelhança
         do seu pincel, anjo decaído,
         dos morcegos de suas janelas
         dos olhares das tintas e
         da insensibilidade das perspectivas que mentem
         inventando um mundo que se nomeia real.

É preciso revistar em Vermeer
o germe da intimidade
o outro lado da paisagem
que não se vislumbra
ou nem ao menos a paisagem
que da janela se vê
mas a paisagem do ciúme
no cozimento dos gêneros
marulhantes mesquinharias ( domésticas )
como o suor dos lençóis
as cólicas menstruais das donzelas
a janela indivisa
que dá para dentro
e não mostra e tudo revela
a janela voraz da paz burguesa
o outro sendo contado na penumbra
do dissídio
as palavras negadas como pão adormecido
ou comida que se dá aos porcos.

Em Vermeer há de se encontrar
o mercador de almas
o apascentamento da subserviência
das mulheres que são naturezas mortas

Em Vermeer há de se descobrir o homem
que vive nos cômodos mais escuros
– esses onde escondemos os loucos
ou os nossos desejos ensandecidos.

Tu, e teu puritanismo que esconde a nudez
mas não podes esconder a cor
da verdadeira arte que não é rubra nem azul
– teu demônio singular e severo
            em vez de condenar elege o féretro de Delft,
            o olhar de quem viu o que os outros homens
não viram:
                que nada vale a pena, nem mesmo a arte.



(do livro Andarilho, Rio:7Letras, 2000)


imagem retirada da internet: vermeer

sábado, 24 de junho de 2017

Serial killer, poema RCF



Resultado de imagem para otto dix


Ainda não nasceu de todo.
O pior é andar pela rua,
deserto, morto e tolo.
O que ainda não nasceu
corre o risco de sobreviver.
Só o homem é capaz
de inventar o mundo
e o fez à sua palavra
e dessemelhança.
Não se escapa
quando se persegue.
Serial killer, mata a cada manhã
o mesmo homem
que se preparou para ser.





(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)







sexta-feira, 23 de junho de 2017

Mágoa subalterna, poema RCF




Minha mágoa boia
sobre a superfície
como uma gota de gordura
que, irresoluta, não se mistura
e nem se dissolve.
Minha mágoa é roda de moinho
como o sangue que não se cansa
de sair e voltar para o mesmo lugar.
Minha mágoa, que picota
a pele engelhada do ressentimento,
é insular
mas faz parte de outros arrependimentos:
ardiloso arquipélago:
as ilhas são barcos de remorso.
Não há iodo ou unguento
que cicatrize o que a mágoa abriu.


(do livro Memória dos Porcos. Rio: 7Letras, 2012)


quinta-feira, 22 de junho de 2017

O ônibus do corpo, poema RCF




Resultado de imagem para vivian maier

Todos os órgãos
trazem um cronômetro.
Alguns são apenas passageiros
conduzidos pelo ônibus do corpo.
Eles também têm sua rota,
suas paradas, sua quilometragem.
A pior tormenta
é aquela dos nervos:
a árvore da certeza desaba,
o rádio dos pensamentos emudece,
o quarto das emoções destelhado.
O nascimento é um minuto
de gozo dos pais.
Um jorrar de vida,
um frêmito líquido.
Viver, contudo, não é gozo,
mas, sim, descuido, frêmito seco,
o ciclo se fecha: o escuro pare o ponto final.

(do livro Memória dos porcos. 2012)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Cláudio Manuel da Costa e Abgar Renault

Resultado de imagem para claudio manoel da costa


Estrangeiro foi Cláudio Manuel da Costa. Formado em Portugal, publicou lá seus primeiros livros. Não era sua terra natal. O estilo barroco, no qual se iniciou na literatura, dava sinais de cansaço. Era um cidadão entre dois mundos. De volta ao Brasil, vai enfurnar-se próximo a Vila Rica, hoje Ouro Preto. Cidadão cosmopolita, não encontra interlocutores para sua vasta cultura. O pequeno grupo com quem dialoga é o dos poucos magistrados que também estudaram fora ou fora nasceram como o poeta Tomás Antonio Gonzaga, do qual Cláudio foi uma espécie de mestre. Estrangeiro na Europa, porque brasileiro, estrangeiro no Brasil Colonial porque o meio, embora rico, era tacanho em matéria de cultura. Dirão que ali estavam pululando as ideias libertárias da Revolução Francesa. Nenhum momento da História do Brasil homens que escreveram a História escreveram também a melhor poesia da época. Cláudio Manuel da Costa é herói de dois mundos: o mundo da literatura e o mundo da História.

Cláudio escreveu, para mim, o que de melhor podia se escrever naquele momento no Brasil. Misturou o barroquismo que bebeu na Europa e trouxe ao Brasil. Ingressou na nova escola literária, o neoclassicismo, ainda com herança e restos da angústia barroca. A luta entre a forma límpida e tranquila e o tema desassossegado do amor criam um estranhamento que o difere do barroco de onde vinha e do neoclassicismo puro para onde caminhava. É dele versos de dilaceramento como o amor a duas mulheres e o desejo de romper o peito e lá encontrar dois corações. Do amante que de tanto esperar à beira do rio sua amada se transforma em pedra.

Cláudio foi dos inconfidentes o que mais se abateu. Tinha mais idade, envergonhou-se de participar de uma conjura. Nos Autos da Devassa, há relato de Tomás Antonio Gonzaga sair assoviando após dar declaração. Lembremos que boa parte de Marília de Dirceu foi escrito na prisão. Cláudio, não. Suicidou-se ou suicidaram-no. É estranho que três irmandades mandassem rezar missa pela alma de um suicida. Deixemos o século dezoito, o genial Cláudio Manuel da Costa e aterrizemos no século XX.

Abgar Renault não era estrangeiro. Sempre viveu à sombra da família mineira, árvore de copa frondosa. Aqui se ressalve que não há demérito, no caso da poesia, da vida do poeta ser revolucionária ou burocrática e apascentada.

Abgar Renault, antes de ser poeta édito, foi poeta silencioso e solipsista. Zeloso, como poucos, só irá publicar quando muitos estão em declínio. Abgar faz parte de outra família: a dos que começaram a publicar depois dos sessenta. É da família de Saramago, que, embora tenha publicado antes, apenas após os sessenta anos passará a produzir sua obra que o levará ao prêmio Nobel. É da família de Lampedusa, que produziu além de narrativas curtas, o genial O Leopardo, também sexagenário. Sua obra de iniciante édito, datada de 1958, é quando o poeta já se aproximava dos setenta anos.

É certo que Abgar foi poeta desde sempre. Conviveu e respirou poesia com o grupo modernista de Minas Gerais. Grupo histórico de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Murilo Mendes e tantos outros mais. E foi poeta ao recriar em suas traduções impecáveis dos poetas ingleses, norte-americanos, franceses, espanhóis e alemães uma visão da poesia tão própria e particular que o fez mais que tradutor, fez-se criador de poesia alheia. As traduções que fez dos poemas shakespearianos é digna de nota.

Embora tenha publicado tardiamente, Abgar, como se pode observar em sua Obra poética, reunida pela editora Record, escrevia no silêncio, no ineditismo do livro, mas na segura rota dos poetas que sabem que constroem uma obra permanente. Talvez seja por isso que tanto demorou a aparecer em livro. Ainda que seu primeiro livro, A lápide sob a lua, seja de 1968, podem-se observar vários poemas dos anos quarenta e cinqüenta. O próprio poema de abertura do livro de que falo é datado de 1950. O poema chama-se Prefácio de desculpas e é uma espécie de confissão e profissão de fé. Nele explica porque se transformou em poeta, o que é ser poeta e pede licença para os companheiros a fim de que ingresse no universo privilegiado da poesia. Começa com um “Perdoai-me a soberba de haver-me sonhado vosso irmão” e termina de maneira melancólica e desesperançada, a poesia lhe dói e não encontra eco nem amanhã. Sabe-se que em 1923, já tinha um livro intitulado Poemas antigos, que são poemas ao molde das cantigas de amor medieval, com seu português antigo, a forma cortês e temas obviamente amorosos. Livro que parece permanecer inédito até ser recolhido no já citado Obra Poética, de 1990.

Por sua poesia ter demorado a aparecer em livro é que Abgar Renault pode já surgir maduro e podar ainda no nascedouro aquelas poesias que a pressa em editar muitas vezes faz os poetas, ao reunir suas obras, retirar um ou outro poema ou simplesmente renegar as obras iniciais.

Poeta da busca, de imagens surreais, de construções inusitadas na formação do par substantivo/adjetivo, utilizando-se de imagens recorrentes de sombra e ecos simbolistas atualizados, Abgar Renault se aproxima de Cláudio Manuel da Costa em sua busca existencial e na difícil arte de viver, conciliando uma percepção sensível e aguda da realidade com a exaustiva cotidianidade que o retira da reflexão e do fazer poético. Seus temas não são prosaicos. Abgar Renault, antes de publicar seu primeiro livro, em 1968, opta por temas nobres e eternos como a solidão, o amor, a inquietação metafísica e o mal-estar no mundo. Neste seu primeiro livro, A lápide sob a lua, Renault utiliza o prosaico e se aproxima do modernismo inicial.

Há em Abgar Renault uma sombria configuração de si mesmo. O curioso é que homem tão devotado às causas públicas, tenha se mostrado um poeta intimista, atormentado e “transeunte do fim” como se classifica. Mais curioso é ver como coloca o Outro em sua poesia, principalmente a mulher, vista de forma luminosa, distante, solar e quase incompreensível. Falei em causas públicas e tenho que fazer um breve itinerário do poeta pela vida da burocracia. Abgar Renault teve altos cargos públicos e foi objeto de inúmeras honrarias. Resumirei, buscarei talvez as mais importantes: foi Ministro do Tribunal de Contas da União e Ministro de Educação e Cultura, representante do Brasil na Unesco em diversos momentos na área de Educação, membro de várias Academias, entre elas, a Brasileira de Letras e esta que nos acolhe. As honrarias foram muitas, entre outras, a Legião de Honra da França, Grande Oficial da Ordem de Rio Branco e a inglesa Commander of British Empire.

A obra de Abgar Renault, logo, é uma obra de antologia. De uma estranha antologia, da qual não conhecemos os outros poemas, os excluídos, porque nunca estiveram publicados. O poeta, escrevendo desde cedo, foi selecionando sua antologia pessoal sem que viesse a lume qualquer dos poemas que porventura negou. É uma estratégia estética, diriam uns; é uma idiossincrasia, modo pessoal de encarar a vida e a arte, diriam outros. O resultado, contudo, é essa bela e compacta reunião de poemas, densamente povoada pelos anos e pelo silêncio.

Por tanta convivência e enorme presença de Drummond na poesia brasileira, Abgar Renault, em A outra face da lua, de 1983, traz a influência do poeta de Itabira. Do mesmo humanismo, da dicção do homem em perplexidade, desamparado, do mesmo homem frente ao enigma e ao claro e escuro que Mário Chamie apontou numa análise que coloca Abgar Renault entre Gregório de Matos e Drummond. Mas, apesar da influência, observa-se um poeta singular e ímpar, capaz de reinventar a poesia e criar belezas com simplicidade como em “No alto da montanha”. Diz Abgar Renault, “Já não sinto saudade de mais nada, a não ser do começo da escalada, quando o azul era azul de azul sem fim e Deus criava de novo o mundo em mim.” Ali estão o tempo que passa, a ruína, o homem comum sem amparo, o cidadão perdido no labirinto da grande cidade e, no caso de Abgar Renault, homem que viajou o mundo ao contrário do poeta de A rosa do povo, o homem não só perdido na metrópole mas urbe et orbi.

Já em 1971, publica Sofotulafai, um poema só. O tema do poema é a linguagem, o ato de escrever e a literatura. É um poema longo, com pequenas inserções em inglês e francês, onde revela amor à escrita. “Se a palavra acabasse, um dia, a vida seria despojada de existência”, diz Abgar Renault. Um poema original, com experiências verbais próprias, como, por exemplo, o dos jogos de palavras de Álvaro de Campos ou do cubo-futurismo russo.

É nos sonetos que Abgar Renault consegue melhor resultado a meu ver. Não percebo influência e a construção verbal cresce com inusitadas e encantadoras imagens. A fôrma exata do soneto poderia diluir o vigor do verso, cegar o corte da faca, mas o que encontramos é um poeta que consegue, na concisão de catorze versos, eleger temas de angústia, a passagem do tempo, o efêmero da vida, o abatimento frente à vida difícil, a permanente solidão, o Outro distante, o impossível diálogo, o cansaço da busca. No livro Cristal refratário, mantido inédito por Abgar e só publicado na já citada Poesia Reunida, esta afirmação toma maior vulto. Não que antes não aparecera, apenas aqui se reacende e se afirma.

Em Íntimo Poço, Abgar Renault investe na interlocução, procura em vão o Outro, o aqui há o deslumbramento e medo da descoberta de um ser além dele mesmo – obscuro e recôndito como Abgar Renault buscou ser em sua vida de poeta. As imagens desconcertantes e surreais, a desilusão com o homem e a vida, as metáforas de dor e desamparo criam um clima de desesperança e de grandeza do ser humano perdido num mundo de aparências. A recorrência à palavra poço, que dá título ao livro, não contraria a assertiva. Neste e em outros livros, há de se perguntar se esse tu que o poeta indica e persegue não será ele mesmo, o poeta, e não o Outro, ou seja, aqui teríamos uma interlocução entre o poeta que se dirige a si mesmo como se fosse um outro.

Poeta em surdina, o próprio Abgar Renault define o ato de escrever e sua maneira de encarar a literatura. Diz ele num poema:

“Para que escrever, se eu jamais acontecerei num verso?
Para que escrever, se a verde luz infinita
jamais se reverá no espelho de nenhuma das minhas palavras?
Para que escrever, se meus olhos orvalham, neste preciso momento, esta clara tinta cheia de tantas caladas cousas?
Para que escrever tantas sílabas de sal e terra,
se nenhum grão de terra e sal responderá?”

No livro Thanatos, como o nome mesmo indica, Abgar se rende à temática da morte, que ele, observa-se nos poemas, acredita próxima e só virá aos 90 anos. Drummond viu em Abgar Renault um incurável pessimista. Mas reconhece que, diz Drummond, “o pessimismo, não há dúvida, é um grande gerador de poesia”.

domingo, 18 de junho de 2017

Considerações sobre a vizinhança, RCF


 Resultado de imagem para freud pintor

De quem somos vizinhos?
Mais do que senhor da vacuidade
que mora em frente à dúvida,
somos vizinhos da indefinição das portas
dos elevadores que não se abrem.
Vizinhos das luzes a interrogar o passado,
o quadro sem tela da janela.
Do inquieto permanecer
das coisas em repouso.
Do rumor dos móveis
e da carnagem das paredes.
Somos vizinhos dos rostos anônimos,
principalmente o que vemos ao nos barbear.
As escadas são duas faces do mesmo degrau,
tanto ascende quanto nos leva
ao rés do chão.
Somos vizinhos dos prudentes
e dos pudicos com suas higienes da vida,
o medo de ser contaminado pelos sujos humores,
a aderência do fim, o apelo esponjoso do remorso,
a imundície da liberdade,
afundar-se na lama dos desejos
ou nos dejetos do pensamento.
E aí vem a mania de limpeza:
lavar as mãos 
o Poncio Pilatos dos nossos erros
a crucificação da culpa
a nos pregar as mãos
nos jatos das pias.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Um homem é muito pouco 40


          Resultado de imagem para magritte


           O edifício era tortuoso, mas não lembrava labirinto; era pleno de apartamentos minúsculos,  mas não sugeria colmeia. Era baixo, sem necessariamente ter poucos inquilinos: formava um longo ele, onde os apartamentos de fundos podiam ter a visão da entrada. O edifício ficava na Barão da Torre. Sob os pilotis, criou-se a confusa garagem onde um carro tinha que sair para outro entrar. Berta e José davam festas para gente do Cinema Novo. Nunca vi cineasta importante na casa deles, apenas atrizes iniciantes com cara de drogadas, meninas ingênuas e pálidas enrolando os erres ou starlets que faziam ponta e se acreditavam diva. Havia dois atores menores que frequentavam a casa de Berta, a gorda, e de José, o que mancava. Os dois atores apareciam tanto em cinema brasileiro quanto o José Lewgoy. Vi-os em Macunaíma, vi-os em filmes urbanos de cineastas com narrativa fragmentária, vozes em off, câmara tremida.

            Eram péssimos atores. Berta, a gorda Berta, nunca lera nada até o fim, mas gostava de comentar livros que não leu. Carregava memória do cão e retentiva de dar inveja a concorrentes de O céu é o limite. Os apartamentos eram quase todos de quarto e sala. Eu morava num quarto e sala. Os apartamentos de frente eram maiores, de três quartos. O edifício tinha quatro andares, logo havia apenas quatro apartamentos de três quartos em todo o prédio. Embora José fosse alto funcionário do Instituto do Açúcar e de Álcool, morava naquele apartamento apertado porque era perto da mãe de Berta, uma velha judia que vendia joias e tinha sofrido o diabo na Segunda Guerra. Não vale a pena contar a história da velha Sara com o campo de concentração, a fuga polonesa e a descida intempestiva no cais da Praça Mauá, interrompendo a viagem até a Argentina, seu destino final. Durante o trajeto, muitos comentavam que na primeira classe viajavam famílias nazistas em viagem de férias à Argentina. Ela não ia sair de um inferno de arame farpado para viver um inferno a céu aberto. Engravidou de um sujeito gordo, sujo e que fedia a carne de porco. Era um judeu que odiava os judeus e se transformara num açougueiro. E como açougueiro delatara vários judeus. Teve de fugir da Alemanha.

            Sara deu à luz a uma menina saudável, mas que crescia enormemente e comia feito adulto. Aos seis anos tinha estatura de adolescente e gordura descomunal. Ela mandara reforçar a cama de Berta. Foi a primeira das camas de Berta que tinham sido mandadas fazer com reforço, além do peso ela passava uma noite agitada que aumentava o volume das carnes e a pressão sobre as molas. Vinham-lhe pesadelos terríveis. Num deles ela se afogava. Gritava e se debatia e quando percebia nenhuma água a sufocava. A piscina dava pé e o sufocamento era consequência das enormes cordas vocais que lhe entupiam a garganta. Por isso também o apelo de socorro não era escutado. Ela acordava chorando e a mãe lhe cantava cantigas de ninar em iídiche, pois eram as únicas cantigas de ninar que conhecia. Berta tentou ir ao colégio, chegou a ser alfabetizada, aprendeu as quatro operações e se deu por satisfeita.


(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A plantação de equívocos do meu pai, poema RCF

ônibus



Nas raízes da mais tenra idade,
vi , no quintal, meu pai
cultivar uma plantação de erros.
Era uma beleza de galhos retorcidos,
mais densos e rasteiros
como são os pensamentos
em forma de tubérculos
que vivem com a cabeça e o corpo
enfiados na terra.
Aqui, um pé atrás de desconfiança.
Ali, as folhas mortas do desinteresse
e os cipós do ciúme.
Eu ainda era muito verde para saber
que a vida também é uma fruta:
uns apodrecem ainda no pé,
outros amadurecem enrolados
na quentura dos jornais
enquanto a maioria
segue o ciclo das frutas:
broto, crescimento e
por fim o cárcere dos dentes.
( do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014))

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Recusa vegetal, poema RCF



Resultado de imagem para vivian maier








Aqui se recusam as plantas desidratadas
do sofrimento humilde
que florescem nos origamis da paixão
delicada e jardinesca
                  – qual mato que cobre
                  a paisagem larga da razão.




(do livro Terratreme, 1998)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Flores do mal, Charles Baudelaire (RCF)


                                                               

   


(do livro A cidade na literatura e outros ensaios, 2016)



1857 foi um ano fundamental para a literatura mundial. Nesse ano, dois autores franceses publicavam seus livros. Um de prosa, intitulado Madame Bovary, de Flaubert. Outro, de autoria de Charles Baudelaire, iria mudar a poesia com sua visão maldita do mundo. Era o livro As Flores do Mal. Ambos sofreram processo na justiça. O primeiro por açular a permissividade erótica e o segundo por tratar de temas renegados pela sociedade como, no dizer do crítico francês da época de Baudelaire, F. Dulamon, “o vício frívolo do indivíduo, a corrupção dogmática das sociedades, almas cúpidas que fraudam e caluniam”. Os incestos, lesbianismo, o lado do mais decadente e escondido da sociedade está nas páginas de Baudelaire.

            Flaubert se defendeu com a tese de que não usava nenhum exemplo vivo e da realidade e que Madame Bovary era ele. Ao “incriminar-se”, Flaubert fugia da acusação de denegrir alguém do mundo real ou fazer apologia do adultério com sua visão indulgente e não condenatória. Baudelaire usou a tese de que não aprovava ou desaprovava o que descrevia como “desvio” social. Ele apenas apresentava o que de mal havia na sociedade, mas (argumento desnecessário para a literatura, embora importante para a justiça que não trata de literatura) sua poesia, como conclusão, apontava para um elemento mais puro e não corrompido pelos homens.

            É um pouco constrangedor para os amantes de Baudelaire ver o poeta angustiado e tenso para provar sua inocência. Para alcançar tal fim, ele precisava pousar de homem digno de pertencer à sociedade parisiense, ser um cidadão normal e estar em sua plenitude intelectual e moral. Baudelaire não tinha que prestar contas a ninguém, se seu livro não tivesse ido parar nas mãos e olhos errados. E muito menos seus defensores teriam que argumentar com uma imparcialidade moral do poeta. O poeta apenas registra e não coaduna, não endossa, não aceita o mal que está na sociedade.

            Baudelaire parece ter tido outro problema de ordem literária e humana. Como bem observou Theophile Guatier, o poeta de As flores do mal realmente admirava seus antecessores. Dedicou dois poemas para Victor Hugo, que reconheceu não entender bem a estética de Baudelaire, agradeceu a reverência e recomendou coragem ao poeta diante das adversidades. Hugo e Gauthier, principalmente este último, a quem Baudelaire amava como literato e ser humano, entenderam em parte a nova proposta estética daquele poeta que, curiosamente, não era tão maldito em sua vida social como parecia e que deseja ser aceito na sociedade dos poetas vivos de sua época. Mas Guatiher entreviu muito lucidamente dois movimentos muito comuns na história da literatura. Gauthier percebeu que a nova estética de Baudelaire diminuía seu poder romântico e que apontava para um novo rumo estético, embora ainda preso às convencionais regras do soneto, das rimas e de outras formas fixas.

            Não, Baudelaire não era Rimbaud que mandou tudo às favas. Lucidamente, escreveu sobre paraísos artificiais, mas os condenou, quis entrar para a Academia Francesa, frequentava salões, era um dândi e não um camponês com roupas rústicas, grandalhão, calça pescando siri e sapato grande e usado quando se apresentou na casa da família de Verlaine.

            O curioso é que tanto Madame Bovary e As flores do mal foram publicadas em periódicos. Madame Bovary, em 1856, como folhetim. Causou desconforto, mas não processo penal. As flores do mal também apareceu na imprensa, não o livro inteiro, mas partes dele. A Revue de Paris, a Revue des deux mondes, L’artiste, a Revue française publicaram vários poemas do que viria a ser o livro maldito. Nada disso os levou a corte, a não ser quando enfeixados em livro.

            O livro, já dissemos em O narrador do romance, tem o caráter de documento, mesmo o livro de ficção, mesmo o livro de poesia. A “mentira com sabor de verdade”, impresso em letra de fôrma, é um documento mais impactante do que versos soltos ou páginas avulsas. O primeiro crime de Baudelaire – e de Flaubert – foi publicar em livro as divagações satânicas de um e os devaneios eróticos de outro.

            Um dos seus críticos contemporâneos escreveu longo artigo em que defende Baudelaire com o argumento avant la lettre  do artifício literário da despersonalização que, mais tarde, será teorizada por T.S.Eliot. Jules Barbey D’Aurevilly dirá que


“Baudelaire é um artista de vontade, de reflexão e de combinação antes de tudo.[...] Portanto, como o velho Goethe, que se transformou em turco vendedor de pastilhas em seu Divã, e nos deu assim um livro de poesia, o autor das Flores do Mal se fez celerado, blasfemador, ímpio, pelo pensamento, absolutamente como Goethe se fez turco.”


               Mas eu diria que Baudelaire foi julgado também pela sua proposta estética. Simples, assim. É claro que o juiz da época nem tinha consciência de que estava julgando também um fato estético. Por princípio e hábito, o juiz teria a obrigação de cuidar dos bons costumes e afastar aqueles que porventura pudessem desvirtuar a conduta social. Contudo, a justiça ali, como no caso de Flaubert, se incomodava – e profundamente – não apenas com o que foi dito, mas como foi dito. Incomodava a Nova Forma (embora o próprio D’Aurevilly tenha aproximado o verso baudelairiano do verso de Victor Hugo). Perturbava a ordem também o fato de o que foi apresentado ter sido apresentado dentro de um romance não convencional e dentro de um livro de poemas que ousava introduzir não apenas novos temas das torpezas humanas, mas também com uma linguagem desabrida e contundente e, embora em formas fixas ditas convencionais, com um gosto de um verso atravessado, carnal e vil.




segunda-feira, 12 de junho de 2017

Danação, poema RCF


Na sala de jantar da infância,
havia uma parede de tijolos de vidro.
Como – perguntava o menino –
se pode edificar sobre o que nos fere?
Depois, no útero da rede
tarde e túmulo
o caderno egípcio de caligrafia
sob o peito dormido
silêncio túrgido.

À noite, o castigo escuro do quarto
– a vida inteira pergunta qual o erro –
na bolsa de paredes infindas da memória
que não se enche nem esvazia
o pássaro do remorso que bica insistente.

Estou cansado de pisar na minha sombra.
Oh, tanto que pareço ser dela reflexo,
não ela de mim.

O que visto tem costura
de fio sem meada.
Planto um pé de imobilidade no jardim.
Amanhã colherei os frutos da solidão
que já estão mortos ao nascer.
Por isso preciso de jardineiro.
É difícil podar as plantas aquáticas,
pois essas só sobrevivem
na água amniótica da rotina.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: amarras

domingo, 11 de junho de 2017

A ira, poema RCF




é quando o palheiro
cabe na agulha

é quando não apenas
a camisa é de força

mas de força
           são
                a calça
                os sapatos
               ( de chumbo
               ou cimento )
o terno
              inclusive o corpo
              crispado
              imóvel
              inerme
              no suor dos erros
a violência
nômade
do ciclone
furioso
em seu caminho
de si mesmo
arma de grosso
caribe,
levando
por onde passa
              cancelas
              pára-raios
              e a exatidão
              das palmeiras

intestina
rodopiando
nas tripas do desatino
ou circula
rubicunda
              na montanha-russa
              das veias

forno que se incinera
– combustão espontânea –
                            sem precisar de diesel
                            lenha ou razão


(do livro Andarilho, 7Letras, Rio de Janeiro, 2000)


imagem retirada da internet: anacamaarra


sábado, 10 de junho de 2017

Mar traçado a régua, poema RCF






Aqui só existe o mar
e o horizonte traçado a régua.
Sou apenas um homem
em pé na areia dos anos,
com os pés espumando.
O dia se impõe, morno,
e penso no tempo,
onda contínua,
nela entramos como quem pega jacaré,
até a onda nos largar exauridos
e continuar sua reta até uma praia
a que nunca chegará.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(foto:vivan maier)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um homem é muito pouco 36




Resultado de imagem para vivian maier



Os amigos poetas de Alice leram poemas num restaurante em Botafogo. Os poemas de Alice eram poemas bravios, mas ela os dizia de forma vaporosa. Percebi que andávamos devolutos. Minha vida estava devoluta, minha relação com Alice estava devoluta, meu destino era destino devoluto. Não era a maneira de dizer poesia comum em Alice. Aquela que estava ali não era aquela que escrevera os poemas. Eu me perguntava onde estava a mulher que escrevera os poemas. O restaurante tinha pátio interno que servia mais de bar que de restaurante. Era daí que os poetas, num palco minúsculo, diziam as poesias.

Um deles falou das flechas que lançamos desde que acordamos e não alcançam os alvos. Eram poemas raivosos. Eram poemas roucos como quem esgotou a fala no grito. E agora só restava o urro. Estávamos todos insulares ali. Eu havia perdido intensidade.  Alice não era mais vibrante porque acirrada, Alice era a mais vibrante porque a poesia dela era abrasiva.

O outro que lia poemas falava de dias curtos e noites alongadas, que cada dia que passava a noite tomava o dia. Eles tinham em comum algo de Álvaro de Campos, que afinal é o Walt Whitman português. Não era à toa que os três se reuniram ali no bar. Falavam das mesmas coisas, quase no mesmo tom, embora a leitura dos amigos poetas de Alice fosse leitura exaltada.

Havia poucas pessoas jantando, o bar estava cheio. Percebi que um sujeito se acercava. Temi que tivessem por fim juntado alvo e dardo. O dardo era um sujeito que não via há muito tempo. Era Ernesto, um amigo dos tempos de ginásio. Agora era médico, recém-formado.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Mente roxa, poema RCF




As flores do ipê
são borboletas roxas.
Basta ver que voam
quando bate vento.
Logo, também, as borboletas
são flores que desaprenderam
a ficar presas nos galhos.

Não sei onde se localizam
minhas idéias.
Elas são como as borboletas,
se cansam de ficarem presas
na caixa do cérebro.
Às vezes meus braços
têm idéias
que meu corpo
se recusa a oferecer.

Não gosto de as minhas idéias
florirem fora de hora.
Não sei a botânica
da germinação
do casulo dos meus desejos
que brincam de esconde-esconde
como nos eclipses.
O sol fica em pé
no ônibus do dia,
enquanto a lua
impede a passagem
de quem vai subir
ou quer descer.
O sol às vezes estica
o pescoço para ver
por cima do ombro da lua.

Minhas idéias
também evocam
eclipses lunares
e esticam o pescoço
recurvo para olhar
a sombra que habita
as flores que, noturnas,
só abrem sob oferta.

As borboletas noturnas
da minha imaginação
não precisam de galhos
para se fixarem
nem de caixas
ou orgulho
para se soltarem
ao vento do remorso.
Nada me lastima mais
que não ter caule.



(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)


(imagem internet: degas)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Tíquete para o futuro, poema RCF









Abandonado tem quase sempre
uma dona no meio da vida móbile.
Aqui não há erro neste desterro.
Busco o certo em todo desconcerto.
Em extensos estão os tensos
– que podem estender o que é curto
transformar pontada em dor crônica
que também é longa como a palavra prolongamento.
Às vezes moro no desmoronamento
e fica difícil habitar o instável.
Viver é curioso: tem dois veres:
um vi passado e um ver contínuo
entre um e outro a vida
escorre como fio de chocolate quente
que de repente pinga e cessa no ar.
A vida – na vida só há ida,
não há retorno no que me torno.




(Memória dos Porcos, 7Letras, 2012)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Águas do remorso, poema RCF







E o homem ali, encharcado,
franzido de tanta imersão:
são as águas que não lavam,
dissolvem, limpam ou apagam.
São águas que criam
o limo das lembranças,
a água estagnada de remorso,
a cada dia mais turva,
até secar o homem
de tanta umidade dos anos
e que não deixam cimentar
o muro do esquecimento.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2014)


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Jogo do bicho, poema RCF




Vale o que está escrito:
deu gato na cabeça,
o pensamento é só gambiarra,
seu jogo de amor
é um bicho que não premia.
O coração dançou.
O mundo vai para um lado,
seu coração para outro.
Está cansado da arritmia
da vida que tem apenas um ritmo:
o baticum do bumbo
no mundo que se fez surdo,
não ouve o reco-reco das suas taquicardias.




(do livro Memória dos porcos.  Rio, 7Letras, 2012)






domingo, 4 de junho de 2017

Poema para o esquecimento, RCF




Se tu vês esta porta
é porque teus olhos têm memória.
Se tu não tens a chave
é porque tua memória não tem olhos.

Tudo é um imenso galpão vazio,
não há cômodo ou parede.
Estás imerso no coma
que é um rio sem margens.

Lagoa de sombras
deliquescendo o que já é desfeito,
pescadores de plumas,
incêndios que não queimam,
a maturidade que perdeu seu gume.

Este que não se aloja
em nenhum lugar do cérebro,
máquina de vapor,
está em todo corpo adormecido:
não há memória de outros corpos.

Este que é a permanência
do quarto escuro da infância
não entende porque o parafuso
não se fixa na treva.

É como velar um morto
e não se ver o corpo.

É como brincadeira de esconder,
quem nos procura não quer mais brincar,
ficamos no esconderijo escuro da mente,
não há quem nos venha buscar.

(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: recorte de autoretrato de Lucian Freud

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Pardo, poema RCF




Essa gente parda, miúda,
mais parda ainda na alma,
mistura-se com o gasto
da cidade: paredes, fumaça,
fuligem, zinco, asfalto,
e a tristeza que também é parda.

Eu, que sou pardo,
também sou de escrita
apenas sugestão
como sonho ou fracasso
que são coisas
que poderiam ter sido.

A derrota sempre é parda
porque se pensa que passa
por ela impune: coisas pardas
permanecem mais
que emoções vermelhas.

Pardo é meu dia,
pardas são minhas dores alheias
já que, além das minhas,
sofro pela descrença parda
do homem pardo da esquina.

imagem retirada da internet: lucien freud

terça-feira, 30 de maio de 2017

A doença do mundo, poema O dificil exercício das cinzas




Anda convalescente
e sua doença é o mundo.
Os sintomas de que sofre
do mal do mundo
aparecem no exame
de sangue dos jornais.
Os rins do mundo
urinam o cáustico
e as pedras do caminho.
Sua tosse é seca,
semiárida,
cheia de mandacarus,
zabumbas e mangues.
Há tempo de plantar o estado de sítio
e tempo de colheita dos  redemoinhos.
Seus pés de barro,
suas mãos pesadas,
seus dois braços esquerdos,
seus nervos de aço oxidáveis
sua cabeça mole,
tudo o impede
de se curar do mundo.

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)
can dagarslani

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quiromancia, poema RCF



 Xadrez no espelho photo xadrez-sozinho-espelho.jpg



As linhas da mão são
uma bola de cristal de carne
um tarô com dedos
um baralho com uma única carta.
As linhas da mão
não pintam nem bordam,
são mal traçadas linhas da vida.
As linhas da mão
seguem seus trilhos de pele
e dão a mão à palmatória:
costuram o futuro,
cosem o presente
e alinhavam o que não se pode pesar.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


domingo, 28 de maio de 2017

Doador de tempo, poema RCF


 
Sou doador de tempo.
Uma vez ao ano, estiro o braço
e de mim colhem tempo.
O coração o bombeia
e sinto o tempo subir à cabeça.
Mas quase sempre
entre a nodosa manhã
e o início serpenteante da noite,
mantenho o tempo frio.
Meu tempo segue seu labirinto
que pensa antes apresá-lo no corpo
quando na verdade por ele é prisioneiro.
Meço a pressão:
alta realidade.

(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)