sábado, 27 de outubro de 2018

A mesa, poema RCF


A mesa, silente,
ignorada e múltipla como um garçom,
não pode gemer seu intestino de cupins.

Art-nouveau, barroca, inglesa, manuelina,
a mesa,
com sua prisão de ventre de madeira,
vara o tempo.

A mesa pasta, por fim, o homem,
principal alimento,
enquanto o homem pensa
que nela se alimenta.



(do livro Andarilho, 7Letras, Rio, 2000)

imagem retirada da internet: botero

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Campo das letras, poema RCF



Oh, espírito de Faulkner no campo de cidadezinhas imaginárias.
Oh, espírito devastado na terra poética de Eliot,
espargindo dull roots.
São cruzes no cemitério
da memória
do campo,
cada letra um grão
e cada palavra um pé de milho
– ali estão os escritores canaviais como Graciliano
na sua imensa plantação de vidas secas,
no latifúndio infindo dos livros,
escutando o violino do vento
afinando as cordas
                    para a sinfonia de som e fúria.



(do livro Terratreme, 1997)

imagem retirada da internet: portinari

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Desclassificado poético, poema RCF

Imagem relacionada

Vende-se, troca-se, empresta-se
alma vazia, uso desmedido,
não necessita de muita manutenção,
um pouco de poesia,
dois dedos de beleza,
um pouco de amor, pelo amor de Deus.
Capaz ainda de espasmos,
lúcida, embora dolorida,
aparência de nova,
perspicaz e dolorosa,
pode ser usada em leitura,
sentimentos nobres permitidos,
outros ignóbeis também presentes.
Quem tiver interesse,
telefonar ou procurar
na portaria do corpo
bater à porta
do corpo que a transporta.
Exige-se sigilo.
E uma profunda humanidade.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

domingo, 21 de outubro de 2018

Poema sobre arames


Há mãos farpadas
que não ouso tocar
assim como algumas
barbas que é o ódio
que escorre
das comissuras da boca.

Há lençóis de arame farpado
na cama de dois
que não são mais um.

Ah coleção de línguas
que ao lamber a carne
abrem feridas.

Já o arame dos teus olhos
são farpas que nada cercam.
Tuas cercas, até mesmo tuas cercas,
são mais vivas que as minhas.

Farpada é minha mente
que me fere quando penso
o que pensar não deveria.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: barbed wire