sábado, 5 de novembro de 2016

As putas, poema RCF






Os trapos da garoa
não cobrem nem despem
o amor andarilho das putas.
Que caminho seguem as pernas
                               redundantes
                               das putas?
A vitrine holandesa das gôndolas das calçadas.
Só a noite é pudica,
  com seu véu de sombras.
Os postes amarelando a noite.
Os carros passam trotando os pneus
As mulheres, espantalhos na plantação das calçadas,
atraem os corvos de patas redondas.
A perspectiva triste
dos mitos assombrados.
A língua tremelicando,
obscena, ofídica.
A noite é suave
– rude são os punhais.
Os punhais dos nervos excitados
no veículo solitário.
Os punhais de dois corpos
na obrigação hormonal.
Estreita a lua na vaguidão das árvores.
No bosque, drops e gilete:
a vida cortante como o vento das esquinas.
Subir uma escada sem degraus,
a cada lance um passo atrás.
Escuro e atônito, o medo lajeta nas têmporas.
Ri de si mesmo – o medo não se esvai,
é obsessivo e circular como sangue nas veias.
Não é sorriso. O perigo de falar com lâminas na boca.
Afiado é o gozo.
E os quatro gumes na arma branca das braguilhas
Em preto e branco, na noite,
as cores baças escondem
as estrias da vida.
O medo é melado.
Todos os quartos se movem como automóveis
e o gemido buzina, vaca vulgar,
a vida escorre entre as pernas.
Por fim é dia.
A claridade fixa como película
o desgaste noturno.
De dia não há nuanças e o passageiro
desaparece sem dar lugar ao eterno.



(Estrangeiro. Rio: 7Letras, 1997)


 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Barcelona, poema RCF




Sento-me no café,
a placidez da praça com seus pombos,
a inexatidão do foco das nuvens,
o amargo do adoçante,
e a canção pedinte de um acordeão.
Percebo que não estou no estrangeiro
nem que falam em língua catalã,
aí compreendo que sempre estive sentado num bar
e que a multidão passa, indiferente e pedestre.

Na cidade velha, Cervantes
morou de frente pro mar
– quem sabe não chegou a pensar
em Dom Quixote como marinheiro?
Ruas tortas de Miró e Gaudí
amolecem as molduras das janelas
fechadas para se protegerem
de tanto peixe e dentes solares.
O mapa de papel nunca existe
antes de eu desenhá-lo
com o papel mais fino da memória
e estrias de pés alucinados.
Neste café, estive moído
cada grão de pesar
esmagado na trituração
do bairro velho que me habita.



(A máquina das mãos, 2009)
 
imagem retirada da internet: gaudí

O vento assassinado, Fermando Mendes Vianna

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Invocamos o vento. E o vento veio.
Vivificou nossas vidas sua voragem.

O vento multiplicou a nossa imagem
em espelhos de ar dentro do seio.

Temerosos do despedaçamento
expulsamos o vento. E veio a aragem.

Ah! Perdemos a grandeza da viagem,
a galopada pelo país do vento!

O vento de hoje tem um freio.
Sangra sua boca de tristeza.

Mitologia decepada em sua beleza,
nosso cavalo está partido ao meio.

É mudo o nitrir da sua mensagem.
Sem a fúria da crina, como o campo é feio!

Só velhos ossos do antigo vento
resgatam nosso horizonte da estreiteza.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Depois de tudo, Cassino Ricardo

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Mas tudo passou tão depressa.
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
 nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro
pousado na árvore que eu fui.




(do livro Jeremias sem-chorar, 1967)


Um homem é muito pouco, Euler Belém


Intercalando com outras leituras, como livros de John Gray e “O Sonho do Celta”, de Mario Vargas Llosa, leio, com imenso prazer, o romance “Um Homem É Muito Pouco” (Nankin Editorial), de Ronaldo Costa Fernandes. Fico a pensar: por que um romance tão bem escrito, tão bem arquitetado, com linguagem e história bem conectadas, sem arestas visíveis, o que indica o prosador maduro (o uso da linguagem modernista é tranquilo, sem pedanteria, sem as pegadas de praxe, para gradar o leitor que procura o óbvio, as firulas elaboradas), em alta forma, não merece resenhas críticas nos principais jornais do país?
Não que Costa Fernandes seja desconhecido, mas a crítica de jornal parece voltada para qualquer lançamento de escritor de outro país — não importa a qualidade. (E não estou propondo nenhuma xenofobia.) Há pouco tempo, fiz um levantamento preliminar (estou terminando as anotações) sobre as resenhas da “Veja” durante todo o ano de 2010 e fiquei impressionado: parece que não há uma literatura brasileira. Livros de baixa qualidade, mas publicados no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, merecem páginas e páginas na revista. Para disfarçar, sobretudo porque ampliou o espaço para reportagens e comentários sobre novelas — a TV Globo se tornou anunciante nas páginas da publicação de Roberto Civita —, a “Veja” publica notas sobre livros numa coluna de lançamentos. O último romance de Orhan Pamuk, pelo qual não nutro entusiasmo, exceto como crítico literário (talvez sua verdadeira vocação), mereceu uma nota na “Veja” e uma resenha adequada na “Época”, assinada por Luís Antônio Giron.
Sugiro aos leitores: leiam o romance de Ronaldo Costa Fernandes e, depois, me digam o que acharam. A história pode parecer intrincada, à primeira vista, mas a narrativa cadenciada é um esplendor e, aos poucos, as luzes vão aparecendo, desde que o leitor dê sua contribuição.


(Jornal Opção)


imagem retirada da internet: julien freud

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A máquina das palavras, poema RCF




Quem move as engrenagens da palavra?
Que máquina - moenda ou roldana -
Suspende, fabrica, mói ou lavra
O nascer da rara traquitana?

Não tem peso, volume ou largura.
Esconso e subterrâneo qual minhoca,
Afunda, se alegra ou amargura
Quem é alvo ou dardo da engenhoca.

A máquina é falsa relojoaria:
Quartzo do nome, vírgula da corda,
Pura mecânica da avaria.

Sob a bigorna do verbo, forja
Meu único medo: ser ou estar passivo
Que é a forma de morrer estando vivo.


(do livro Andarilho, Ed. 7Letras, Rio, 2000)



imagem retirada da internet: Igor K Marques


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Fogo fátuo, poema RCF





Que fogo me faz fátuo?
Este músculo retorcido do espírito
é um desembainhar de inventários.
A beleza me fascina,
tempestade de enredos,
remota revelação de que algo
pode ser precioso
sem ser pedra ou metal.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: igor k marques




Domício da Gama, contista e diplomata do Barão


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UM ENCONTRO QUE MUDOU A VIDA DE DOMÍCIO DA GAMA

(Do livro Domício da Gama, por Ronaldo Costa Fernandes, coleção Essencial, da Academia Brasileira de Letras, 2011)



Eça, amigo de Domício


Ponhamo-nos numa saleta de um apartamento em 1889. Um apartamento burguês, noite de verão, na Rue de Rivoli. Na bela e efervescente Paris do fim do século XIX. Dois homens conversam em volta de uma mesa de chá acompanhado de petit fours. O jovem está desconfortável, afinal não tinha ainda tanta intimidade com Paris, nem com a vida intelectual do país de Rimbaud, Baudelaire e Verlaine. O jovem ganhara a sorte grande. Tinha ingressado no jornalismo no Rio de Janeiro, na Gazeta de Notícias, até que um dia o diretor o chamou.
– É sobre algum artigo? – perguntou o rapaz.
Ferreira Júnior, no seu gabinete desarrumado, de vidros foscos, torceu o bigode. O rapaz temeu pelo pior. Fora do jornalismo não havia solução. Já tentara outros afazeres e descobriu que apenas escrevendo poderia ganhar a vida.
– Não, não é sobre nenhum artigo seu ou de ninguém.
– Então por que não me diz logo a razão de ter me chamado?
– Quero que você cubra uma exposição.
– É claro, diretor, é o que faço, é meu trabalho. Que exposição é? No centro da cidade?
– Talvez possa se considerar centro, mas não centro do Rio.
– Não é no centro do Rio?
– Não, é no centro de Paris.
E foi assim que Domício da Gama foi cobrir, como correspondente da Gazeta de Notícias, a Exposição Internacional de Paris, em 1889, ano da proclamação da nossa república. A Exposição Internacional de Paris comemorava os cem anos da Revolução Francesa. O apartamento de que falamos pertencia a Eduardo Prado, monarquista convicto, e que havia publicado poucos anos antes a obra A ilusão americana, livro vociferante contra a presença dos EUA na América Latina.
Tudo deveria ficar do modo como havia sido combinado. O jovem repórter brasileiro entregaria, em Paris, a carta do seu chefe para Eduardo Prado, apresentando-o, o que poderia significar apenas uma recomendação não levada em frente. Curiosamente, Domício percebeu que havia duas xícaras e que o bule de chá ainda estava quente. Eduardo Prado tinha uma companhia que se escondera quando ele chegara.
Mas, após a leitura da carta, Eduardo Prado tranquilizou o homem atrás da porta:
– Juca – disse Prado –, não tenhas medo: é um rapaz amigo do Araújo que chega do Rio.
O homem sai desconfiado de trás da porta e resmunga:
– Pensei que fosse algum cacete...
O jovem repórter, desenvolto, culto, simpático e envolvente cativou não apenas o dono da casa, mas também o homem que se escondera num quarto contíguo. Era o Barão do Rio Branco. O Barão havia desaparecido porque tinha medo das pessoas inconvenientes. Percebeu, contudo, que o jovem repórter era inteligente e grande conversador.
Começava aí uma das grandes e fieis amizades do Barão do Rio Branco que o fez seu secretário particular e, mais tarde, deixou o caminho pronto para que Domício o sucedesse após sua morte.

(...)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez


Gabriel García Márquez

Ronaldo Costa Fernandes


(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Academia Maranhense de Letras, 2016)


Torna-se difícil falar sobre Cem anos de solidão, depois que a bibliografia sobre a obra cresceu vertiginosa e quilometricamente. Nesta edição mesmo de Cem anos de Solidão, temos excelentes estudos. Desde os depoimentos de Carlos Fuentes e Álvaro Mutis até as análises de Vargas Llosa, que vê o livro de forma totalizante, de García de la Concha que estuda o tempo e a repetição, de Claudio Guillén que trata do narrador do conto, do mito e da História até Pedro Luis Barcia, que situa o livro confrontando com as experiências formais da década de 60 e de Gonzalo Celorio que define o realismo mágico frente ao real maravilhoso.
O pacto inicial de García Márquez em Cem anos de solidão é com a memória ancestral da humanidade. Ali estão postos os mecanismos fundamentais de funcionamento de um modelo arquetípico de imaginação transbordada que se associou aos elementos por ele utilizados em sua narrativa. O ponto que queremos abordar é muito simples: lentamente Cem anos de solidão passa do imaginário universal para o universo imaginário pessoal de García Márquez. Esta transmutação se dá aos poucos e suavemente. O imaginário pessoal – ou se quisermos latino-americano – de García Márquez abre e fecha o primeiro capítulo. O gelo é o simbolismo maior dessa transformação mágica da realidade ou ainda dessa magia de transformar a realidade em coisa desbordante de imaginação.
“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.” O gelo ou o acesso ao gelo num clima majoritariamente tropical como o nosso é de um fascínio próprio de climas quentes. Está certo que a simbologia do gelo, de tornar concreto o que é líquido, é uma forma também universal. Mas é, contudo, mais própria ao sonho e a um mundo inalcançável para quem vive nos trópicos do que para aquele que tem o gelo como seu habitat ou tem acesso ao gelo facilmente, durante uma das estações do ano, como no hemisfério norte. Alguns dirão que o gelo que o Coronel Aureliano Buendía lembrou-se quando estava diante do pelotão de fuzilamento é o mesmo gelo que encerra o primeiro capítulo quando José Aureliano Buendía leva seus filhos a uma feira de variedades montada pelos ciganos. O gelo inicial é um gelo terminal: o coronel Aureliano Buendía irá morrer. O gelo do final do primeiro capítulo é um gelo iniciático. É o primeiro contato de Aureliano Buendía com a mágica realidade de Macondo, cidade que até aquele momento tinha poucas casas, trezentos habitantes e o cemitério ainda não fora inaugurado.
Os elementos iniciais e universais são os ciganos, os judeus, os alquimistas e as enumerações exóticas. “Sobrevivió a la pelagra en Pérsia, al escorbuto en el archipiélago de Malasia, a la lepra en Alejandría, al beriberi en el Japón, a la peste bubónica en Madagascar, al terremoto de Sicilia y a un naufragio multitudinario en el estrecho de Magallanes. Aquel ser prodigioso que decía poseer las claves de Nostradamus, era un hombre lúgubre, envuelto en un aura triste, con una mirada asiática que parecía conocer el otro lado de las cosas.” (14) Esses componentes fazem parte do repertório da América Latina, mas também pertencem ao patrimônio das coisas exóticas de todo mundo. A cabala dos judeus, a alquimia medieval e suas transformações múltiplas, o deambular dos ciganos que trariam um conhecimento estranho e fascinante, de pouca utilidade imediata, mas que trabalhariam com elementos transformadores da mentalidade humana ou a transformação dos elementos humanos como o homem voar, uma mulher sobreviver a várias mortes, o ferro se transmutar em ouro, o desaparecimento do corpo. E, por fim, José Arcadio Buendía alimentava talvez o mais exótico e mágico passatempo e crença da humanidade: a ciência. Não a ciência ordinária e mecanicista, mas a ciência salvadora e messiânica, a ciência como panacéia, a ciência como religião.

Capa das primeiras edições
O maravilhoso sempre esteve presente na literatura, seja nos poemas homéricos, seja na literatura milenar dos árabes como As mil e uma noites. Se a prosa é uma continuação de elementos míticos que eram narrados e registrados de geração em geração, o início da prosa é mágico. Borges chegou a dizer que a literatura realista foi uma invenção do século dezenove, porque a literatura sempre havia sido fantástica. Desse ponto de vista, o que García Márquez empreende é uma grande viagem ao início da literatura em prosa. O mágico e o maravilhoso estão nos mitos, nas narrativas milenares e na literatura popular de todos os tempos. A imaginação desbordante dos povos sempre esteve mais perto do deslumbramento de mundos desconhecidos e procedimentos inusitados do que propriamente a descrição dos hábitos e costumes de determinada comunidade. García Márquez encanta por se acercar a este mundo primitivo – tão primitivo como a comunidade mágica, o povoado que vivia numa terra pantanosa chamada Macondo.
Alguns elementos transformam Macondo num lugar singular e os elementos universais do imaginário da cidade passam a ser mais locais e latino-americanos: aí estão Rebecca a comer terra, a peste da insônia que assola o lugarejo, a implantação da companhia bananeira, as borboletas amarelas sobre a cabeça de Mauricio Babilônia e muitos outros traços de um imaginário próprio. Ao traçar de maneira mítica a origem e o desenvolvimento do lugarejo que toma ares de cidade, Macondo quanto mais cresce mais se individualiza. É de se lembrar que García Márquez não é o único a elaborar comunidades fantásticas e nem mesmo deixar de inserir elementos mágicos. Um pouco antes, a geração de Alejo Carpentier havia investido suas energias narrativas no real maravilhoso. Por sua vez, para não fazer um longo inventário da literatura mágica, o século dezenove conheceu o fantástico de Hoffman, de "O Horla", conto de Maupassant, “O pé de múmia”, de Teophile de Gauthier, os contos fantásticos de Edgar Alan Poe. Nós mesmos no Brasil temos uma narrativa fantástica pouco conhecida do grande público, embora seu autor seja muito lido por seus outros livros. Falo de A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, mais conhecido por sua literatura adocicada e romântica de A moreninha.
García Márquez é um construtor de cidades imaginárias como Ítalo Calvino e Faulkner. Nas cidades imaginárias, contudo, se observa um fenômeno muito particular: por mais imaginárias que sejam elas geralmente obedecem a um ordenamento urbanístico e jurídico das cidades reais. Ángel Rama já havia observado que as cidades imaginárias seguem o mesmo procedimento das cidades comuns porque fazem parte do repertório da literatura e, do leitor, só se exige que ele mantenha a suspensão da descrença que é mantida, por sua vez, pela verossimilhança interna do texto. O nascimento, vida e morte de Macondo seguem o mesmo procedimento das cidades ditas reais. Mesmo que a geografia de Macondo seja arbitrária, ao mesmo tempo García Márquez se preocupa em descrever as casas, as ruas, o aparecimento do estado na figura do primeiro corregedor que surge na narrativa.
Amor e guerra são dois temas constantes em Cem anos de solidão. Os dois temas se mesclam e os homens quando não morrem na guerra podem morrer de amor. Ainda no primeiro capítulo, as guerras intestinas da Colômbia ainda não fazem parte do repertório do livro, embora a primeira frase já mostre a atmosfera que dominará o volume. Mais do que as guerras que favorecem o ambiente propício para as imaginações exaltadas, já que os homens perdem a cabeça e a guerra em si é um ato insano, é o amor, desde o primeiro capítulo que catapulta a imaginação dos homens e transformam as mulheres em seres sobre-humanos. Já desde o primeiro capítulo se apontam essas duas vertentes que pertencem não somente a Cem anos de solidão, mas também a outras narrativas curtas e longas de García Márquez.

E desde o primeiro capítulo já aparece o que será outro tom de todo o romance: a delicada linha entre vida e morte em que perambula a maioria dos personagens já está estabelecida. Cem anos de solidão também é a história da tentativa de vencer a morte como fez o velho cigano Melquíades que regressa da morte por fastio. Há um clima constante de morte e de fatalidade que persegue os personagens do livro. Em todos os momentos os personagens parecem estar à beira da morte, ou dela retornam, ou nela ingressam precoce e violentamente ou nela, principalmente as mulheres, imergem, cansadas do ócio, tomadas por ressentimentos e dores de amor e, como o próprio narrador indica: “los Buendía se morían sin enfermedad” (320). Não há sossego para os viventes porque a presença constante da morte também aponta para aqueles personagens como Úrsula que parecem ser eternos e sobreviver a todas as desditas e avatares do destino.

Tudo em Cem anos de solidão é hiperbólico. Desde os 17 filhos assassinados de Aureliano Buendía, os 82 ovos de iguana que comeu numa refeição, os 32 levantamentos armados, todos perdidos, as 73 emboscadas a que escapou, o trem de 200 vagões que levava os 3 000 mortos da rebelião contra a companhia bananeira. O superlativo é uma forma de narrativa fantástica do realismo mágico. García Márquez é por excelência um escritor superlativo, em seu grau mais absoluto. E seu livro Cem anos de Solidão terá a companhia dos seus leitores não apenas por mais outro século, o mais certo é que teremos Mil años de lectura do seu eterno Cien años de la soledad. Que viva García Márquez para sempre na mente e coração dos seus leitores.

domingo, 30 de outubro de 2016

Poema da terra, RCF



I


é preciso revolver
a terra do leito
o leito da terra
na noite bem dormida
              úbere de sêmen
de plantio
os lençóis do pasto
para acordar
no dia seguinte
                  fértil
             – colcha desfeita –
o hálito
ainda no travesseiro
das plantações afofadas

mas o latifúndio tem quatro paredes

onde nenhum quadro se pendura
e para que ninguém
possa habitar
o quarto do campo do latifúndio
construiu-se
uma estreiteza de altura
onde no piso está o teto
e no teto está o piso