sábado, 4 de fevereiro de 2017

Tormenta dos caminhos, poema RCF




A blasfêmia se alimenta
de criadouro de ouvidos.
O maldizer engorda em cativeiro,
até que se abra a gaiola
e o burburinho inche
seu papo amarelo de intriga.

Não há como arbitrar o limo.
A língua tem lá suas escamas.
Os cabelos das ondas
necessitam de cachos para espumar.
As correntezas são outro
caminho de água
dentro da água.

Preciso de faca para escamar,
de secura para fugir do limo,
de imaginação para ser
um caminho entre caminhos.


(do livro A máquina das mãos, Ed. 7Letras, 2009)


imagem retirada da internet: miró

 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Luzes da cidade, poema RCF






A cidade lambe sua ferida
enquanto se mumifica na seca.

Úmido de meus humores,
caminho neste deserto
onde nenhuma paixão orvalha.

A angústia de quem é vivo
– os pés já não dão frutos,
o tronco desempinado,
as folhas secas das mãos.

A seca reinventa a fisiologia,
evaporo minhas asperezas.

Os pássaros bicam a claridade,
o branco que tudo empalha.




(Eterno passageiro, 2004)


imagem retirada da internet: lagoa seca by ricardo grimm

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Ensinamento, poema de Adélia Prado






Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

(imagem: Chagall)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Lições de bazar e de sebo ou Fábula


Resultado de imagem para vivian maier

Procuro um objeto velho,
empoeirado, em desuso,
que está numa prateleira
no alto que não se alcança,
há muitos anos adormecido
na contabilidade da loja.

Busco o estranho objeto
que um dia fugaz vislumbrei
no bricabraque dos tempos,
escondido dos olhos utilitários
e das mãos ávidas do hoje.

E lá encontro, depois de busca
inquietante, o objeto que a mim
se denuncia e, sob a capa do limo,
ressurge tosco e embrutecido:
é o sublime que se delata
e logo escapa das minhas mãos
excitadas e no chão se arruína.



(O difícil exercício das cinzas. 2014)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A mesinha do escritório, conto RCF







       Com os anos, a mesa foi diminuindo. Tinha admiração exemplar pelas mesas. Não há objeto mais perfeito na humanidade do que a mesa. Seu porte horizontal, o talhe duro e austero, a capacidade infinda de servir sem humilhar-se. A princípio – somente no começo –, aprendi mais com as mesas do que elas comigo. Havia uma cumplicidade muda, tolerância de madeira, silêncio de madeira, sabedoria de madeira.
      Pois bem, dizia eu, por onde mesmo andava? oh bem, minha mesa, a mesmíssima mesa em que sempre trabalhei foi diminuindo. Não aconteceu de modo abrupto, perceptível, inclusive penso que levou anos o processo, lento, maior, mas sem cupim ou bicho destruidor, sem ação externa como o tempo – a não ser que você não considere outro tempo como fato externo, não o tempo das temperaturas, sol e chuva, umidade e calor, mas o tempo cronológico que tem outra forma de nos devorar, sem bicho que o faça pois ele mesmo, o tempo, já é o bicho bastante e interior.
       Quase não posso sentar-me à mesa. Ela se parece a uma mesa de colegial. Meus joelhos alcançam a tampa. Tenho de curvar-me para escrever ou ler os relatórios. São sempre os mesmos relatórios. Carimbo-os, dou vista, o processo segue e retorna um mês depois. Já não posso trazer muitas coisas em cima da mesa. As gavetas não suportam nem mesmo um papel normal. A cadeira também tomou dimensões minúsculas. O que me intriga é que não riem de mim. Sou um homem digno. Não podem rir de mim. O problema é anatômico, ando tão curvado para chegar ao tampo da mesa que minha coluna é pura interrogação.
       Carrego os carimbos no bolso do paletó. Do mesmo jeito trago o grampeador, a borracha, os lápis e outros objetos de trabalho. O paletó já se deformou: duas abas laterais, cheias, polpudas, caem em desalinho e fazem barulho quando ando. As pessoas identificam o barulho de longe.
 As mesas são traiçoeiras, covardes, inermes – aparentemente inermes, porque têm a inteligência, a pose desafiadora, o cálculo de cedro, a petulância do mogno, hum, é porque você não tem intimidade com o mogno para saber o quanto pode ter de intromissão desabrida na vida das pessoas.
      Eis que a surpresa me toma um dia, sim, a surpresa, de ver minha mesa, ou melhor, de não ver minha mesa. Levaram-na. No lugar, apenas a marca de sujeira que ela deixou encardida no chão. Olho apatetado, com desconcerto, onde trabalharei? As mesas são fundamentais para o trabalho, ninguém ainda se deu – oh, desculpe a brincadeira com as palavras – ninguém ainda se deu ao trabalho de escrever um livro sobre a importância da mesa no trabalho, na vida das pessoas, na sociedade e para o capitalismo internacional.
    Começo a trabalhar em pé, os processos chegam, dou vistas, tiro o carimbo do bolso, encosto na parede e lá vai mais um documento com minha assinatura. Estou há mais de uma semana em pé, oito horas em pé, finjo que não acontece nada comigo, não reclamo da mesa. Os companheiros de trabalho há muito que me ignoram, talvez fosse melhor dizer que há muito eles fingem que me ignoram. Riem de mim, falam baixinho, fazem troça. Mas eu os olho e ninguém é capaz de um comentário. Falam comigo como se nada tivesse acontecido.
     Oh Deus, em que mundo estamos, desnudam um homem e todos fingem que nada aconteceu. O contínuo encena uma mesura, abaixa-se e faz o gesto de quem deposita o processo na mesa. O faxineiro, homem por certo rude, mas já comprometido, vem e limpa o tampo da mesa imaginária. Se ao menos tivessem deixado a cadeira, não passaria horas e mais horas em pé, as pernas inchadas.
      De tanto me virem sem mesa, passam a acreditar que nunca tive mesa. Que miserável é a mente humana, os olhos delatam e renunciam, os olhos é o principal culpado dos erros da mente. Aos poucos eu percebo que não é apenas minha mesa que desapareceu. O desaparecimento de uma mesa deveria ser um escândalo, um descaminho, desvario, desbordo. Os homens se acostumam a tudo, até mesmo ao que não é humano. Tive ânsias de mesa, de imobilidade, tânato.
       Não há saída, aliás, para um homem como eu, que vivo como vivo, a saída não é um labirinto, a saída é uma vaga entrada no neutro, um vazio especial, uma maneira morta de viver. Dirijo-me à sala do diretor. Bato na porta. Ele manda entrar.
      – Sente – ele diz.
      Então me horrorizo, jamais poderia imaginar que o velho Dantas, nosso diretor, trabalhava atrás de uma mesa tão pequena. Não se ver é um descaminho, essa coisa exterior, e dentro nos come a vontade de estar onde nossos olhos se põem. Aqui dentro é uma caixa que fala, mas a caixa fala e não deixa que a gente se veja. É meio esquizofrênico. Agora eu tinha diante dos meus olhos a verdadeira cena, era ridículo, então era assim que me viam, sentado diante da mesa de um menino de colégio, as pernas juntas, os joelhos acima do tampo da mesa, ele curvado, ai, Deus, misturava-se a pena que eu tinha do Dantas – e Dantas era para ter pena! – e a visão de mim mesmo, a pena retroativa de mim.
    Não reclamo nada com o Dantas. Não consigo atinar com a diminuição das mesas. Volto ao trabalho, em pé, semanas após semanas. Até que um dia uma revolta dura e concreta, revolta escura e maciça, me faz invadir a sala do Dantas e reivindicar minha mesa. Sou um homem digno e honrado, cumpridor dos horários e freqüentador – principalmente isso – freqüentador das missas rarefeitas que às sextas-feiras o      Dantas promove para os funcionários cristãos da empresa.
     Invado a sala do Dantas, mas sou tomado por uma surpresa absoluta que espanca meu espanto como uma porta fechada de madeira de lei: o Dantas está em pé, abre os braços, olha atônito em volta. Veja só, lamenta-se, agora tenho que trabalhar de pé, a mesa sumiu, ele me sussurra como se alguém pudesse nos ouvir, a mesa sumiu, repete, abandonado, os olhos de madeira estupefata como olhos de boneco. Por que as mesas, ao longo dos anos, nos maltratam tanto, que lhes fizemos, que lhe infligimos, por que essa revolta absurda e despropositada de encolhimento e desaparecimento, por quê?


( de Manual de Tortura)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Horas mortas, poema RCF




Vou para o campo
para ser contemporâneo das flores.
Mas levo a praga da cidade comigo.
Tudo aqui é químico
desde o adubo até as árvores
plantadas para ser papel ou palito
no campo de concentração das fábricas.
Evitar tocar a infecção que é o outro.
O problema é que para certas doenças
e ideias não há vacinas
(e nem mesmo se pode dizer que,
como o sarampo, quem pegou a enfermidade
estará sempre imune).
Quero de volta a moléstia da juventude,
o magazine de descobertas,
em cada balcão a oferta de hormônio,
a vitrine dos desejos
e os elevadores da emoção.


Paris, abril de 2011

(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

imagem retirada da internet: rodtchenko

domingo, 29 de janeiro de 2017

Cemitério, poema RCF



o cemitério
de um homem
não é composto
                    apenas de mortos
                    mas almas verticais
                    que se enterram
                                 na carnificina dos minutos

a memória pesa
– isqueiro de prata no bolso
cada chama
                     não responde
embora queime
                     mais que a lucidez

são almas móbiles
                     de Calder
que se agitam
no espaço
entre ausência
e eternidade

visto-me
– meu terno é violento – ,
não ouso pedir
                       a demissão
                       da telegrafia
                       das lembranças



8.9.98

(do livro Andarilho, 2000)


imagem retirada da internet: andarilho