sábado, 9 de abril de 2016

As ilhas derrotadas, poema RCF




 

No Maranhão, como no Titicaca,
e, dizem, também no México,
há ilhas que frei dos Prazeres
chamou de andantes.
São ilhas desnorteadas,
ilhas sem âncoras.
Vão cansadas de tanto migrar
e nunca chegar a termo,
prontas para invadir o fulcro da surpresa.
As ilhas viajantes são andarilhas de mato,
o desejo submerso de limo,
a busca constante do vício e do único.
Incomodam o homem as ilhas
que vagam além de sua inércia
e, estando um dia aqui,
outro dia acolá, as ilhas flutuantes
lembram-lhes que nem toda terra
é firme, nem toda ilha tem sua localização
exata e que os homens, se não são ilhas,
tampouco têm terra firme
e, flutuantes, andantes e viajantes,
podem dormir num canto de rio pacífico
e acordar na máquina de água
que são as cachoeiras,
trituradoras de homem e terra,
que desabam em si e findam mundo.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Manoel de Barros

 

 

 

 

VII

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
            leituras não era a beleza das frases, mas a doença
            delas.

Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
            esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos nas frases é muito
            saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
            Pode muito que você carregue para o resto da
            vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
            estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
            surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
            agramática.
                                   ( Manoel de Barros )

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A torre e o abismo





Aqui estaremos seguros da vida.
Nada nos atingirá – nem falésia
nem miséria nem a ambição dos homens.

Mais tarde subiremos à torre
e de lá olharemos os homens
e diremos que não fugimos
ao pasmo do abismo,
apenas preferimos o risco do silêncio.



(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)



 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Calunga, conto de Ronaldo Costa Fernandes


(Mudei o final do conto "Calunga". Publicado no livro Manual de tortura, sai aqui postado com outro desenlace)







Todo esporte é bom para o corpo, mas o boxe não é recomendado para quem quer ter boa memória. Faço força pra ser claro: se faltar algum detalhe é que a memória me trai. A memória tem um punho vigoroso, mas às vezes soca o vazio. O que é pra ser lembrado se esquiva. Nada pior que alcançar o queixo do nada. Tudo começou com as minhas duas paixões: o boxe e a música erudita.
Seria contraditório? Sei não. Há muito punho numa nota, muita harmonia num jab. Uma luta de doze assaltos, de peso-pesado, é uma ópera. Uma luta de amadores, três assaltos com protetor na cabeça, uma ária.
Muitos devem estranhar dois prazeres tão disparatados. Mas gosto não é ouriço ou porco espinho: os gostos são animais domésticos. E doméstico deveria continuar meu gosto por ópera. Mantê-lo escondido.
– Deixa de lado essa coisa.
– Que coisa?
– Música clássica.
– Música erudita.
– Como?
– Esquece.
– Não dá certo com boxe.
– Já ouviu um concerto para oboé de Mozart?
– Acaba te tirando a garra.
Se tivesse que fazer alguma comparação, eu escolheria um saco. Toda vez que treino e bato no saco, penso que estou batendo em mim mesmo. É, em mim. Soco soco soco. Tem lutador que imagina o inimigo. É bom para relaxar e, ao mesmo tempo, incitar o sujeito para a luta. Mas eu não. Penso em mim como aquele saco. Porrada porrada porrada. Sem braços pernas cabeça. Um saco de vísceras, apenas. Um saco de vísceras. É uma desgraça você se considerar um saco de vísceras.
Mas não ganhava a vida com luta de boxe. As lutas não davam para sobreviver. Fazendo as contas, acabava pagando as lutas. Não pagava as lutas diretamente, não. Pagava a academia, pagava meu treinador. A gente não ganhava nada ainda porque eu era amador. Um amigo meu dizia que pagava pra levar porrada. Está certo que nem sempre ganhava, mas também não era assim. Não pagava pra levar porrada.
– E então, Calunga, o pastel sai ou não sai?
Esta era outra ironia. Você veja, trabalhava numa pastelaria para ganhar a vida. Também na pastelaria não podia falar que gostava de música erudita. E bem, talvez eu até pudesse falar, mas meu patrão não gostava de música. Nem de clássica, como eles dizem, nem de popular. E coisa e tal. Digo que talvez pudesse falar porque tive um patrão italiano numa lavanderia que o homem gostava de ópera. Mas italiano gosta de ópera. Italiano conhece ópera. Seja ele ignorante, inculto, siciliano de merda, o filho da puta de um mafioso, mas o italiano, mesmo operário, gosta de ópera. Não aqui, na pastelaria, desse china nem dos companheiros de trabalho, gente rude. Bando de nordestino. Também sou nordestino. O nordestino não emigra. O nordestino é eterno retirante. A seca, mesmo que o bicho seja do litoral, está entranhada na alma. Não tem gente apátrida? O nordestino, como eu, é sem-estado. Nem lá nem cá. Um ser que migra pro limbo. Porra, pro limbo.
– Vou vencer, meu camarada, um dia vou vencer – me confessei com um colega de trabalho.
Passava a maior parte do tempo ali, depois chegava na academia para treinar e estava morto de cansaço. Isso é lá vida? Ainda por cima, dormia mal. Os pesadelos.
Meus pesadelos eram estranhos. Todos pesadelos são estranhos. Sonhava com minha mão inchada. Não usava luva para lutar. Lutava de mão nua. Sabe por que lutava de mão nua? Porque elas estavam inchadas e vermelhas. Depois o cheiro de gordura do caldeirão onde fritava os pastéis. Logo minha cama cheirava a gordura, meu corpo cheirava a gordura. Não tinha namorada. Como um sujeito que cheira a gordura pode ter namorada?
– Sabe meu medo?
– Você é cheio de medo, Calunga.
– Meu medo é de que meus nervos fiquem amolecidos.
– E como isso pode acontecer?
– A música não altera em nada, ou melhor, até me põe mais excitado. As óperas me põem louco, fico uma fera. Queria lutar com ópera ao fundo. Já imaginou?
– E por que os nervos vão amolecer?
– A gordura.
– Que tem a gordura?
– A gordura pode entranhar nos nervos.
– Você está falando, como se diz, em forma de metáfora.
– Que metáfora porra nenhuma.
– Então?
– Sonho que o azeite, o óleo, a fritura, tudo isso chegue, fisicamente, lá dentro de mim e amoleça os músculos.
Acabei me profissionalizando e deixando a pastelaria. Moro num quarto sem janela. Às vezes penso que estou num caixão. Um caixão grande. Passarei a eternidade no caixão grande, enterrado vivo. Quem mora num caixão não pode saber se é dia ou se é de noite. O diacho do caixão. Nem dia nem noite.
Me aproximei do meu técnico que tinha o apelido de Cara de tijolo.
– Até ontem você não acreditava em mim.
– Agora acredito.
– Mas sou eu agora que não acredito em você.
– Quer ganhar dinheiro?
– Quem não quer?
– Chegou a hora. Você está preparado.
– Não era o que você pensava até a semana passada.
– Houve um fato novo.
– O único fato novo que eu conheço é que perdi o emprego nessa brincadeira.
– Temos uma empresária.
– Empresária?
– Sim, no feminino, é mulher. A dona quer te patrocinar.
– Não está cheirando bem.
– É um caso complicado, mas eu não quero entender os motivos lá da dona, eu quero é a grana dela. A grana dela deixou você sair do emprego, se dedicar mais aos treinos e já tem luta marcada.
Eu ganhava luta atrás de luta. Lutava com adversários magros, sem bíceps, que caíam feito moscas. Me levantavam o braço. O vencedor é. Palmas minguadas. Auditório de desocupados. A maioria de jogadores, apostadores de tudo: rinha de galo, corrida de cavalo, Fórmula 1, cão atrás do coelho, quantos carros vermelhos passam debaixo de um viaduto do Aterro do Flamengo, quem vai dar o último boa-noite no Jornal Nacional, apostadores de tudo. Quis conhecer minha empresária. Mas Cara de Tijolo adiou. Até que não pôde mais.
– Desculpe a mão suada – eu disse.
– Fazia tempo que gostaria de conhecer você. Mas andava muito ocupada, sem tempo, até que seu treinador falou que você queria me conhecer. Aqui estou, em carne e osso. E, se me permite uma brincadeira, em mais carne que osso.

Eu ri. Gostei dela. Estávamos na academia. Eu ficava meio encabulado de receber D. Violeta ali na academia. O cheiro de suor e poeira, o lugar meio escuro, cheio de homens suados. De vez em quando voava um palavrão. Voava como um soco no ar. (Quem não conhece boxe não imagina o que é dar um soco no ar. O adversário se evaporar. Uma nota dissonante. Algo desafinado, é, algo desafinado.) A academia tinha um cheiro de azinhavre e enxofre que não conseguiam se desprender da gente. Como a gordura quando trabalhava na pastelaria. Só que a gordura enfraquecia. E o cheiro de enxofre me dava força. Era como se eu fosse, mesmo deitado, vinte e quatro horas lutador de boxe, é, o cheiro de azinhavre e enxofre.
Foi ela mesma quem quis me ver treinando.
– Nós temos muita coisa em comum – ela disse.
– Como assim? A senhora luta boxe?
Ela riu.
– Não, não luto boxe.
– Então aprecia o esporte.
– Também não.
– Então?
– Sei que você gosta de ópera. Fui cantora lírica durante anos. Fiz carreira, viajei. Agora, velha, perdi a voz.
– E por que me escolheu para empresariar? Não foi porque temos o mesmo gosto, ou foi?
– Um dia você saberá.
– E por que tanto segredo?
– Não é bem segredo. Enfim, você quer ou não quer o meu dinheiro?
– Claro.
D. Violeta usava dentadura. O som saía chiado. Ela espalhava perdigoto.
Tinha o colo alvíssimo e cheio de jóias. D. Violeta era rica pra chuchu. Mesmo estranhando o interesse dela, aceitei o dinheiro que eu não era bobo. Quem ia deixar de aceitar grana para realizar o grande sonho da vida? Mas algo nela despertava meu lado cínico. Havia nela um colar de suspeição. Se me divertia e lhe era grato, havia o furto de uma verdade escondida. Que queria D. Violeta de mim, hein, que queria ela de mim?
O tempo foi passando e eu, o galinho, ia ganhando luta atrás de luta. Até o dia em que ganhei do Negro Bimba. Ora, o Negro Bimba era conhecido como o Colosso Negro. A nossa profissão está cheia de lugar-comum. Eu não inventei o boxe, logo não inventei os nomes dos lutadores. Mas, bem, dizia eu que o Negro Bimba era o Colosso Negro. Eu não podia, mirrado que sou, derrubar o Negro Bimba. Não, não podia.
Peguei o Cara de Tijolo no canto, apertei o bicho. Que merda tá acontecendo? De que você tá falando?
– Do Negro Bimba.
– Que tem o Negro Bimba?
– Eu não podia vencer o Negro Bimba.
– Mas venceu.
– Tem alguma coisa estranha aí.
– Tem. Você é o azarão. Já ouviu falar de azarão? Você é o azarão.
Apertei mais, mais, mais mais mais e aí Cara de Tijolo abriu o jogo. Eu sabia que apertando Cara de Tijolo, ele acabava confessando. Tem sujeito que não sabe conviver com pergunta. A pergunta arde, é aguda, tem nota alta difícil de alcançar. Cara de Tijolo podia levar um soco, mas não suportava uma pergunta. Uma pergunta dessas, sabe como é que é? Uma pergunta.
– A velha é maluca.
– Que é maluca eu já tinha percebido há muito tempo.
– É ela quem paga para teus adversários perderem.
– Puta merda!
– E não acaba aí.
– Não?
– Você é herdeiro de uma grande fortuna.
– Olha a brincadeira. Fala sério, camarada. Não se brinca com essas coisas.
– Não, não, é verdade. Tua mãe trabalhou na casa dela quando mocinha.
– Como tu sabe tudo isso?
– Ela me contou.
– E por que contou?
– Eu também desconfiei dela, mulher fina, empresariar um pé-rapado como você.
– Não ofende.
– Mas é a verdade. Qual o interesse dela?
– E qual o interesse dela?
– A mulher se apresentou nas maiores casas de espetáculos do mundo. Eu não entendo disso. Só repito. Cantou na Argentina, no Chile, na Espanha, na Venezuela.
– Ela, a branquela?
– E aí descobriu que era tudo uma farsa.
– Farsa?
– É, farsa, que não era boa cantora, que era uma fraude.
– E então por que cantava nesses lugares?
– O marido, um italiano riquíssimo, amante também da ópera. O marido pagava para ela ser contratada.
– O marido.
– Seu pai, meu camarada.
– Não estou entendendo patavina.
– É muita coisa. Deixa eu organizar minha cabeça.
– O marido pagava para ela cantar?
– O marido pagava para ela cantar. Ela tinha voz, mas não era uma voz para todo aquele estardalhaço.
– E aí?
– E aí ela descobriu e ficou uma fera.
– Com razão.
– Mas só descobriu quando o marido morreu.
– E onde entra meu pai?
– A dona Violeta não podia ter filho. Tua mãe trabalhava na casa de D. Violeta. Tua mãe engravidou do italiano. Aí sumiu com o garoto. O garoto era tu. Tua mãe tinha medo de que o italiano e D. Violeta ficassem com o garoto, entendeu?
– Então eu sou herdeiro da fortuna do italiano.
– É.
– E a história acaba aí?
– Não. O velho deixou no testamento que D. Violeta pra receber a maior parte da herança tinha que descobrir onde estava o filho perdido.
– Eu.
– Sim, você.
– Bom, agora eu pego o dinheiro.
– Não, não pega o dinheiro.
– Como assim não pego o dinheiro? Não sou filho do italiano?
– D. Violeta morreu.
– Morreu?
– Morreu faz uma semana.
– E por que você não me contou?
– Eu não podia contar porque você precisava ganhar a luta. Ganhar pelo menos uma luta.
– Mas se ela pagava para eu ganhar. Não entendo.
– Ela pagava para você ganhar enquanto estava viva. No testamento que ela deixou...
– Ela também deixou testamento?
– Ela também deixou testamento.
– E o que diz o testamento?
– Que tu só ganharia a herança se vencesse uma luta.
– Uma luta?
– Uma luta. Vencesse por conta própria uma luta. Sem suborno, sem grana por fora, sem pagar o adversário. Uma luta só. Você só vai receber a herança se vencer uma só luta sem pagar para ganhar.
Esta foi a vingança de D. Violeta. Vingança contra a empregadinha do italiano. Vingança contra o marido, que pagava para ela cantar. E, por fim, vingança contra mim, porque repetia o mesmo método do marido. O bastardinho teria de vencer uma só vez, por conta própria. Era a vingança. A matrona, em ritmo de ópera-bufa, me pregava uma peça.
O testamento é uma luta de boxe em dois tempos. Um lutador que não se vence, porque está morto e sua vontade, que se transforma numa espécie de soco, atinge o outro lutador. Uma luta sem rounds, sem lonas, sem luvas. Mas uma luta atroz, feita de vontade e de genes, de pequenos jabs de letras ou um uppercut na vaidade daquele que, vivo, ainda se agita num ringue vazio.


imagem retirada da internet

domingo, 3 de abril de 2016

Antonio Carlos Secchin, por Edmílson Caminha


SAUDAÇÃO A ANTONIO CARLOS SECCHIN,

NA ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL

 

Começo por agradecer a Fabio de Sousa Coutinho, escritor ilustre e amigo do coração, o privilégio e a honra de saudar, em nome dos que já pertencemos à Academia de Letras do Brasil, o professor, poeta, ensaísta, crítico literário e bibliófilo Antonio Carlos Secchin, que nesta noite se empossa como sucessor do poeta Lêdo Ivo na Cadeira n° XXIII, cujo patrono é o romancista José Lins do Rego. Assento que, por acaso feliz, continua em mão de titular da Academia Brasileira de Letras, pois Lêdo e Secchin por oito anos conviveram sob o teto da Casa de Machado de Assis.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, Antonio viveu até os seis anos em Cachoeiro de Itapemirim, ou Cachoeiro de ItapeSecchin, / esta estrada tropical da Itália / que desemboca em você e em mim, como divertidamente escreve no poema “Reunião”. Cachoeiro em que, lembre-se, nasceu Rubem Braga, cronista maior da literatura brasileira, do que se pode concluir tenha algum misterioso elemento propício à vocação literária. Talvez a água do rio em que se banham os pequenos, alheios aos fados que os destinam à sedução da prosa e ao encanto da poesia.

De volta ao Rio de Janeiro ‒ onde se tornará definitivamente um Homo copacabanensis, como gosta de considerar-se ‒,  Antonio Carlos Secchin ingressa, aos 17 anos, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seis anos depois, ensinará literatura e cultura brasileiras na Universidade de Bordeaux, na França. Aos 27 anos, torna-se mestre em literatura brasileira, e aos 30, recebe o título de doutor em letras, com teses brilhantes sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto, obra em que virá a ser especialista consagrado. Em 1993 é aprovado por unanimidade, com nota máxima, em concurso público para professor titular de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o mais jovem catedrático da disciplina entre os colegas da instituição.

Expoente do magistério universitário brasileiro, ministrou cursos em Roma, Rennes, Mérida, Nápoles e Paris. Proferiu cerca de 400 palestras, no Brasil e em países como Argentina, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Israel, Itália, México, Portugal e Venezuela. Orientou 24 dissertações de mestrado, 13 teses de doutorado e três pesquisas de pós-doutorado. Ministrou 48 cursos e participou de 177 bancas de pós-graduação, no Brasil e no exterior.

Nas poucas horas livres de que dispunha, Secchin escreveu (e continua a criar) uma obra que se recomenda pela riqueza da substância e pelo requinte da forma. No âmbito da crítica e do ensaio, avultam João Cabral: a poesia do menos (1987); Poesia e desordem (1996); Cruz e Sousa, o desterro do corpo (1998); Um mar à margem: o motivo marinho na poesia brasileira do Romantismo (2000); Escritos sobre poesia & alguma ficção (2003); Memórias de um leitor de poesia (2004); João Cabral de Melo Neto: uma fala só lâmina (2014) e Papéis de poesia [Drummond & mais] (2014).

Poeta luminoso, escreveu A ilha (1971); Ária de estação (1973); Elementos (1983); Diga-se de passagem (1988); Poema para 2002 (nesse mesmo ano) e Todos os ventos (também em 2002), com tradução publicada no México em 2004, e Eus & outras (2013). Some-se, a tantos e tão celebrados títulos, o original, interessante e útil Guia dos sebos, lançado em 2001 e já na 5ª edição.      

No prefácio com que apresenta os estudos de Poesia e desordem, o filólogo Antônio Houaiss louva o xará Secchin, entre outras razões, porque “em tudo o que faz há um lastro precioso de elegâncias (na linguagem, nas imagens, no encaminhamento das ideias, no respeito ao leitor, no pudor para com seus criticados) que fazem dele, na fauna em que se inseriu, um exemplar exemplar.” E adiante: “(...) tudo nele é escrito com lastro, com empenho, com seriedade ‒ amena, embora: seu senhorio temático, eixado num esplêndido domínio verbal, faz de tudo o que faz algo que é uma lição e um prazer.”

Sobre a poesia de Todos os ventos, nota Eduardo Portella: “Em Antonio Carlos Secchin nada é irrelevante.” Curioso que a afirmação de Houaiss, relativa à prosa, vale igualmente para a poética secchiniana, assim como a de Portella, quanto aos poemas, é também verdadeira para a produção do ensaísta. Vê-se, portanto, a excelência do autor nas duas áreas, pelo apuro estilístico com que dá grandeza às matérias sobre que trabalha.

Em 1995, elege-se membro titular do PEN Clube do Brasil, e nove anos depois, é empossado na Cadeira n° 19 da Academia Brasileira de Letras, o mais jovem de todos que então a compunham. Juventude que vai além de si mesma, e inicia uma nova era na história da Casa, pelo interesse, pelo dinamismo e pela pertinácia do novo acadêmico, primeiro secretário da diretoria em 2014 e 2015. A ele se deve a excelente coleção “Essencial”, com pequenos mas substanciosos perfis biográficos de nomes que dignificaram as cadeiras de que foram ocupantes. Sou-lhe particularmente grato pela publicação, em 2010, do meu livrinho Rachel de Queiroz, a senhora do Não Me Deixes, comemorativo do centenário do nascimento de minha conterrânea ilustre.     

No discurso com que se empossou, Antonio Carlos Secchin reitera a lucidez e a equidade que lhe orientam a crítica, ao reconhecer a importância de um dos antecessores na cadeira que passa a ocupar, o escritor cearense, conterrâneo de quem me orgulho, Gustavo Barroso. “Quando aderiu ao integralismo, em sua vertente mais áspera, Barroso já se notabilizara por uma série de realizações como homem público e como escritor” ‒ afirma com honestidade e isenção. Diferentemente de tantos (incluídos muitos cearenses) que, dominados pelo preconceito intelectual, pela paixão ideológica e pela intolerância política, negam-se a ler o brilhante criador, o estilista admirável que aos 24 anos escreveu uma obra-prima, Terra de sol, que está para as letras cearenses como Os sertões para a literatura brasileira.

A propósito das fronteiras que há entre países e entre áreas do conhecimento, como a sociologia e a literatura, o orador diz muito mais do que pode parecer ao ouvinte menos arguto, sobre as profundezas misteriosas em que jaz a condição humana: “Não interpreto os limites como região de plácido descompromisso entre o lá e o cá, mas como um tenso território em cujas bordas vivenciamos o risco e o fascínio do duplo. Dissolvida a confortável ilusão da unidade, aprendemos a confrontar-nos com o território do que desconhecemos. Percorrer o intervalo não é abrigar-se entre dois espaços, é expor-se a ambos. É aceitar o assédio e o aceno de tudo aquilo que, em nós ou fora de nós, se recusa à apropriação apaziguadora da identidade.”

Diferentemente do protocolo que se observa na Academia Brasileira de Letras, nosso homenageado foi recebido, com um primoroso discurso, pelo à época presidente da instituição, Ivan Junqueira, grande poeta e crítico de respeito, como o colega e amigo a quem saudava. Não lhe custou, portanto, analisar com agudeza a obra do novo acadêmico, em que o ensaísta, felizmente, não sufoca nem castra o poeta, e na qual a “amorosa obsessão” por João Cabral de Melo Neto ‒ no dizer de Antônio Houaiss ‒ não o reduz a simples imitador do pernambucano. Segundo Junqueira, se Cabral constrói a “poesia do menos” ‒ expressão secchiniana para nomear o famoso livro que a disseca ‒, o próprio Secchin compõe a “poesia do pouco”, no sentido de que nela tudo é essência, nada sobra, não há o que cortar, feita que é por um poeta para poetas, pela superior qualidade do que cria.

Chama-nos Ivan Junqueira a atenção para o humor nos poemas de Secchin, alcançado, às vezes, pela cética ironia com que testemunha o espetáculo dos homens e das coisas. Em “Sagitário”, por exemplo:

 

 

Evite excessos na quarta-feira,

modere a voz, a gula, a ira.

Saturno conjugado a Vênus

abre portas de entrada

e armadilhas de saída.

Evite apostar em si, mas, se quiser,

jogue a ficha em número

próximo do zero. Evite acordar

o incêndio implícito de cada fósforo.

E quando nada mais tiver a evitar

evite todos os horóscopos.

 

Em outros versos, a fonte humorística são as imagens incomuns, as rimas surpreendentes, como em “Concorde com Freud”, de que transcrevemos quatro estrofes:

 

Matou o analista e foi a Miami.

Na fuga, levou a reboque

a série inglesa de Hitchcock.

 

Damas ocultas em jardim sem medo

se ofereciam em zoom

para levá-lo a lugar nenhum.

 

Comparado a seu rosto, dir-se-ia negro

qualquer giz; tal qual surge, intenso,

um osso, no raio-x.

(...)

A tudo respondeu solene e quieto

com minúcias tediosas

de um hemograma completo.

 

Este, o notável escritor que a Academia de Letras do Brasil tem a honra de empossar. Saúdo-o exatamente como o poeta Ivan Junqueira o recebeu na Academia Brasileira de Letras, com a tradição protocolar dos verbos na segunda pessoa do plural, de que tanto gosto:

 

Sr. Antonio Carlos Secchin ‒ o poeta, o ensaísta, o crítico literário, o bibliófilo, o mestre exemplar de nossa literatura ‒ sede bem-vindo ao nosso convívio, que, como sabeis, se estenderá para o resto dos tempos. Per omnia sæcula seculorum, diz a surrada, e talvez por isso mesmo verdadeira, expressão latina. Esta é a Casa que o tempo escolheu para erguer a sua morada, que é também a do ser que se resolve em palavras. É nela que havereis de conquistar aquele tempo que, como diz o poeta, somente através do tempo será conquistado. A isto chamamos memória: a dos que já se foram e ainda doem em nós como eternas cicatrizes, e a dos que, como vós, lograram transpor a soleira da imortalidade. Sede bem-vindo!

 

Muito obrigado.