sábado, 13 de maio de 2017

O caranguejo, O difícil exercício das cinzas



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A cidade não é uma estrela jogada no deserto,
e, sim, um caranguejo imóvel,
com inúteis garras que se ficam na areia.
A cidade murmureja a vontade quente,
há no mormaço a esquivança dos desejos,
move-se a máquina pouco mercante,
a máquina sem barra e lenta,
aqui não entram navios, embora tenhamos
porto e amarras – o porto é singular,
está em cada porta migrante.
A cidade se recompõe a cada manhã,
mulher sem desjejum, rosto dormido
de pesadelos, cabelos
em desalinho de uma névoa estrangeira.

Ó rotas, ó fugas, todas as saídas são entradas
e não há porta ou círculo que se feche,
a imensidão de árvores deformadas
pela sede voraz das megalópoles
à beira-mar, à beira-vida,
a vida em córrego da infância,
porque cada um traz seu rio da infância
dentro de si, mesmo que nunca tenha
se banhado em rio, mesmo que sua infância
seja negada e seca.

A cidade não se contorce, circense,
no picadeiro dos grandes espetáculos,
é ainda uma província de poderes,
embora seus poderes não sejam provincianos,
o Planalto é um risco de vidro
que insiste em sua pose de guarda britânico.
As esculturas é que me encantam:
Esta é a nossa Pompeia particular
e cada escultura é um candango
petrificado pela larva
da construção desta Atenas armada de cimento.

Os viadutos, que são pontes para o mesmo lugar,
gostam do regime russo da montanha,
e não se esgotam em levantar-se e baixar-se
no exercício de asfalto, geometria e urbanismo,
três poderes sem praça de exercidos
para diminuir o homem e sua estatura de carro.

Ah, Brasília, ao mesmo tempo veneza e andes,
com tuas três pontes sobre a placenta de água doce,
paralisada e muda como um espanto de amantes.
A do Gilberto Salomão é apenas uma ponte vecchia,
plana e regular, como uma rua:
a Costa e Silva é graça e garça, voo flagrado,
asa cortada de pássaro e em mármore branco fixada;
por fim a terceira do Sul, a que um dia se pensou
em chamar de a do Mosteiro,
cobra gigantesca, suspensa por si mesma,
zepellin de ferro, contorcionismo de estruturas,
me liga à vida urbana,
traga-me ordinariamente
quando me sinto atravessando
dois tempos: a vida doméstica
e a vida urbana, dois extremos
que não se ligam,
quanto mais cruzo mais me afasto
os dois polos.
Ó vida futura, que ponte me levará
a  teu útero virtual?

(O difícil exercício das cinzas. 2014)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Cemitério de peixes, poema RCF







Os peixes de aquário
são bichos obsessivos,
de uma obsessão inocente,
em sua prisão de vidro,
em seu oceano de renúncia.
Servem de coloridos brinquedos vivos,
até que um dia
boiam a rigidez do fim.

Os peixes de aquário,
quando não servem para distrair
os olhos ociosos dos homens
ganham o lixo como cemitério.
Ainda haverá tempo para
sair da obsessão inocente
de respirar entre quatro paredes de vidro
que só oferecem um metro quadrado de renúncia
e o cemitério dos peixes de aquário.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

(imagem retirada da internet: blackman)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A poesia de Ronaldo por Eudson e José Neres

RONALDO COSTA FERNANDES, POETA DE IMAGENS


by Igor Marques

Eudson Sousa Menezes
Pesquisador, graduado em História e graduando em Letras
José Neres
Coordenador do projeto O Sistema Literário Maranhense: Hipermídia e Hipertextos






A literatura maranhense vive em constante processo de renovação. Novos poetas, contistas, romancistas e dramaturgos buscam, apesar dos entraves do mercado editorial, manter a tradição do Maranhão como celeiro de grandes homens (e mulheres) de letras. Nessa vereda que procura manter essa tradição, o nome de Ronaldo Costa Fernandes merece destaque no campo da poética maranhense.
Ronaldo Costa Fernandes nasceu em São Luís do Maranhão a 29 de agosto de 1952. Graduou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde concluiu também o mestrado em Literatura Hispano–Americana. Doutorou-se pela UnB com a apresentação da tese A ideologia do personagem brasileiro, que foi publicada em livro pela Editora da UnB em 2007. Residiu por nove anos em Caracas, na Venezuela, onde dirigiu o Centro de Estudos Brasileiro da Embaixada do Brasil. Foi também Coordenador da Funarte de Brasília de 1995 a 2003.
A produção literária de desse escritor transita entre romance, conto, poesia e ensaio. Seus dois primeiros romances são “João Rama” de 1979 e “Retratos falados” de 1984. Em 1998, com o romance “O Morto Solidário”, que foi traduzido e publicado para o espanhol, recebeu o Prêmio Casa de Las Américas. Em 1997, lançou o romance ”Concerto para flauta e martelo”, que foi finalista do Prêmio Jabuti de 1998. E em 2005 publicou o romance “O viúvo” e, em 2010, trouxe à tona “Um homem é muito pouco”, seu mais recente romance.. No campo do ensaio, publicou, em 1996, O “Narrador do Romance”, laureado como Prêmio Austregésilo de Athayde, da UBE-RJ. Como poeta publicou “Estrangeiro” de 1997, “Terratreme” de 1998, “Andarilho” de 2000, “Eterno Passageiro”, de 2004 e “A Máquina das Mãos”, de 2009, livro com o qual recebeu o prêmio de Poesia da Academia de Letras em 2010. Como contista, publicou “Manual de Tortura”, 2007.
Mesmo sendo um estudioso de elevada cultura, o escritor não deixa de ser também um “refém” da imaginação. Em seu poema “Imaginações Violadas”, toda tensão entre o racional e o irracional é fermentada pela imaginação. É necessário então externar essa tensão por meio do “pão poético”. Dessa maneira, poeta funde, em seus versos, ateísmo e religiosidade. Crer na não existência de deus, não é um princípio de religiosidade? Para o eu-lírico há, sim, esse princípio. A imaginação, o “padeiro”, a cada manhã fermenta no poeta essa pulsão entre negar e aceitar a imanência do divino. Então diante da manhã, a filosofia se esvai em migalhas, pois a filosofia não consegue explicar essa tensão entre o racional e o transcendente. Portanto, toda imaginação se tornar um ato transcendente. É isso que intriga o poeta: como as suas “imaginações são violadas” pelo transcendental?
O poeta maranhense Ronaldo Costa Fernandes representa, por meio de seus versos, a tensão maior da pós-modernidade: a descrença nos valores morais. A crítica poética não é apenas sobre a religiosidade, mas é também contra as ideologias totalizantes. No poema Potemkim-Kursk, o eu lírico põe em xeque a eficiência dos modelos sociais baseados na doutrinação ideológica. Não é apenas o socialismo que é posto em descrédito, mas todas as ideologias que pretendam uniformizar as relações humanas, tirando-lhes a vitalidade das mesmas.
O poeta também analisa os sentimentos do eu lírico ante o mundo pós-moderno. A pós-modernidade que tudo relativiza é o lugar de pulsão entre a moral que tudo permite e a religiosidade que põe restrições a ação. É, portanto, através da poesia que o poeta consegue da “forma ao informe”. A poesia, consequentemente, torna-se a catarse do eu lírico a esse estado de tensão entre o racional e o íntimo.
A poesia de Ronaldo Costa Fernandes demonstra claramente que é possível fazer versos que unam plasticidade textual, jogos imagéticos e extrema incursão pela logopeia, ressaltando o dito e suscitando o não-dito. É uma poesia a ser consumida sem pressa, com olhos atentos nos detalhes e nas armadilhas poéticas que espreitam o leitor a cada virar de página.


Publicado em O Estado do Maranhão, 15.06.2011

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Poema sobre cheiro, poema RCF




Teu cheiro holográfico
põe corpo onde não estás
e faz que apareças
de cheiro inteiro
no ar que respiro.
Esse cheiro de jasmim
que jaz em ti
é o cheiro de fêmea
enjaulada em teu vestido,
domada pelo tecido
apertado da tua pele em flor
no baile de máscaras
dos nossos encontros eletrônicos.
Se persiste o cheiro
é porque não cheira mais
nas narinas, entra pela memória
e lá exala o perfume do verbo
que te floresce a cada palavra.
Tens o cheiro primevo
da fêmea inaugural,
tens o cheiro, sim, de fruta
que os poetas já cantaram,
tanta que se come lambuzado.
Tens o cheiro dos sete pecados capitais.
Tens o cheiro do vício
que é o cheiro do quero mais.


(foto:vivian maier)

terça-feira, 9 de maio de 2017

A ferro e fogo, poema RCF


A manhã tem várias roupas:
terno claro do sol
vestido de alcinha das férias
pijama suado do pesadelo
saltos – altos e baixos.
A manhã tem cama,
lençol de neblina,
a enorme movimentação
bacteriana dos homens
em direção ao caldo de cultura do trabalho.
A manhã tem vários cárceres:
a cela dos penitentes,
a cela dos escritórios,
a cela dos automóveis,
a cela dos ônibus.
A manhã tem várias casas:
a de alvenaria de hoje,
a de seda do futuro,
feita com o cimento
de algodão do amanhã.
A manhã tem seu citrino:
o falso topázio do sol na vidraça,
o quartzo dos relógios,
os gramas da esmeralda,
rubi de faróis.
A manhã tem vida e morte:
a morte que é um bem
que não se inventaria
nem muito menos
mortal algum quer descobrir a sua essência.
Minha manhã veste o terno
do pesadelo e minha essência
tem a cor citrina
da falsa idéia de que os mortos descansam.


(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: guy bourdin

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Concerto barroco, Alejo Carpentier




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(do livro A cidade na literatura e outros ensaios, 2016)



Alejo Carpentier, nascido em Havana, Cuba, em 1904, é um dos autores mais emblemáticos da literatura hispano-americana do século XX. Criador do “realismo maravilhoso”, que não é o mesmo “realismo mágico” de García Márquez, Carpentier produziu, relativamente a outros autores de sua época, obra pouco extensa de títulos, mas títulos que são marcantes e transformadores da literatura de língua espanhola. O “real maravilhoso”, apresentado por Carpentier no prefácio de O reino deste mundo, representa que a realidade mesmo na América Latina não precisa de exageros já que ela por si própria é fabulosa. No “realismo mágico”, há uma “particular forma de percepção e expressão estética dessa realidade” (Pedro Luiz Barcia), em que o autor se apropria de uma leitura do imaginário popular sobre a dita realidade empírica. Da mesma maneira, o fantástico e o maravilhoso são outras categorias diferentes do realismo mágico e do real maravilhoso.
Jornalista, publicitário (criador do moderno rádio e publicidade venezuelanos), musicólogo e pensador da cultura popular cubana, Alejo acabou a vida como embaixador de Fidel Castro em Paris, onde morreu em 1980. Figura estelar de uma geração primorosa que nos deu o poeta Lezama Lima, que não teve a mesma sorte de uma embaixada e viveu anônimo no casco histórico de Havana na era castrista, já famoso fora de Cuba pelo seu romance Paradiso. Carpentier, cuja obra maior é o volumoso O século das luzes, tem fascinação pelo passado e, principalmente, pelo período da Revolução Francesa e seus ecos em Cuba no Haiti. Sobre o Haiti, escreveu No reino deste mundo, em que os negros haitianos depuseram os colonizadores franceses, mas instituíram as mesmas práticas e até a moda do colonizador aristocrático como o uso de perucas brancas e rostos empoados. Em O século das luzes, a Revolução Francesa chega a Havana, com todas as conseqüências e adaptações desse transplante do ideário libertário em terras do Novo Mundo.
Concerto barroco (1974) passa-se principalmente em Veneza, no século XVIII, quando Vivaldi apresenta a ópera cujo tema é a conquista do México pelos espanhóis e escandaliza o personagem principal, nobre mexicano, encantado pela música, que vê o libreto ser distorcido no palco. “De fábulas alimenta-se a Grande História, não se esqueça disso. Fábula parece o que é nosso às pessoas daqui da Europa porque estas perderam o senso do fabuloso. Chamam de fabuloso tudo o que é remoto, irracional, situado no ontem.” Mas a novela não apresenta apenas o tema preferido de Carpentier, ou seja, o confronto de dois mundos, ou ainda melhor, a complementaridade antagônica de dois mundos, o Novo e o Velho Continente. Carpentier, além do seu real maravilhoso é também representante maior do neobarroco, com sua convulsionada e retórica “proliferação” (Severo Sarduy) de termos assemelhados e descrições retorcidas que, em outro autor, redundaria em tédio e que no mestre cubano se mostra perícia e deleite. Dir-se- ia que nos outros livros, Carpentier tentou mostrou o reflexo da Europa nas Américas. Agora, no movimento inverso, o cubano leva a barroca América espanhola para a Veneza de todos os sons.
Alejo Carpentier constrói nesta novela uma ária, música de câmara, embora relate a feitura e exibição de uma ópera de Vivaldi. Termina com um moderno e dissonante trompete de Louis Armstrong, já que o negro (outra paixão de Alejo, a cultura negra cubana) que acompanha o aristocrata mexicano agora assiste a uma sessão de jazz deslocada no tempo e na narrativa. É um livro como poucos ainda podem fazer sem deixar de ser mais que atual. Um livro bem escrito, em todos os sentidos, que dá gosto de ler até mesmo pela frase bem torneada como uma harmonia/desarmonia barroca. Concerto barroco reúne algumas das principais características da obra do cubano Alejo. Carpentier é um dos fundadores da nova literatura de língua espanhola. É o tipo de escritor que cria linhagens e deixou marcas portentosas na cultura da Hispano-América. (RCF)

domingo, 7 de maio de 2017

Luz em agosto, Faulkner


        



(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2016)


                Ardiloso, escritor de inúmeros recursos, Faulkner neste romance, ao contrário dos vanguardistas O som e a fúria e Enquanto agonizo, mostra um narrador mais comportado, usual e tradicional. Todas as partes do romance são narradas em 3ª pessoa. Não há monólogo interior. O monólogo interior até pode ser realizado em 3ª pessoa. Mas não é o caso aqui. O que existe aqui é alternância do foco narrativo.

                Esse discurso tradicional não é desprovido de sua idiossincrasia e Faulkner que aparentemente sugere que vai contar uma história de modo tradicional, ao colocar o foco narrativo em Lena Grove, moça grávida que vai atrás do pai do filho que irá nascer, no Alabama do início do século XX, logo no segundo capítulo aponta para a mudança de foco, acompanhando os vários personagens, sem, contudo, com a ruptura e fragmentação que torna a leitura de Enquanto agonizo, por exemplo, difícil e confusa, pois o leitor terá que identificar quem está falando entre quase dezena de personagens.

                Luz em agosto mostra que Faulkner, mais uma vez, é um grande narrador. Nem todos os escritores têm força narrativa. Joyce mesmo não era um grande narrador. Culto, excêntrico, experimentalista, a prosa de Joyce é intrigante pelo jogo de palavras, a intertextualidade, numa exposição morosa e cerebral das vinte e quatro horas de Leopold Bloom. Mas Joyce é um fraco contador de histórias. (Deixemos Joyce de lado, porque nos interessa aqui Faulkner). Em Faulkner, influenciado por Joyce, não há, principalmente, a palavra porte-manteau que caracterizou, junto com o stream of consciousness, a prosa joycena. O romance de Faulkner mais devedor de sua admiração pelo irlandês é O som e a fúria.

                Outro dado curioso que quero comentar nessa pequena nota sobre Faulkner é o conceito de negro. Há vários negros verdadeiros na narrativa de Faulkner. Cativa-me sobremaneira o fugitivo negro de uma penitenciária em Palmeiras Selvagens que toma toda uma metade do livro que não tem nenhuma ligação com a outra metade onde são narradas as desventuras de um jovem médico e sua esposa numa afastada e derruída mina cujos patrões mantêm a todos numa insalubridade doentia.

                Em Luz em agosto, o personagem principal, aquele em que é o eixo que faz girar todos os personagens em sua volta, é Joe Christmas, um homem que trabalha numa madeireira, pai do filho de Lena Grove. Christimas assassina sua amante e senhoria branca, foge, é perseguido e morto. O negro de Faulkner é branco. É assim com Christmas, abandonado num orfanato e seguindo pela vida solitário e anônimo, é assim com Bon, o personagem “negro” e por isso proibido de casar com uma branca por ser incestuoso e, fundamental, por ter em seu sangue um oitavo de sangue negro no romance Absalão, Absalão. Bon é branco, mesmo na visão do norte-americano de hoje.

                Entre alguns personagens de Faulkner que nos causam estranheza – e o fazem um autor especial também por esta apresentação de um personagem dissonante – está Christmas. Como foi dito acima, Christmas é um órfão que desconhece sua origem racial e é levado a outro reformatório em razão de que a direção suspeita que seja negro e portanto não pode permanecer na instituição para órfãos brancos.

                A psicologia de Christmas é quase nula, embora o autor mostre o assassinato de sua amante e protetora branca por esta apontá-lo como negro e ele próprio julgar que é um crime uma branca promíscua envolver-se com um negro como ele. O resto do tempo, Christmas atua como um autômato. Quase que antecipa o personagem descarnado de psicologia do nouveau-roman francês algumas décadas adiante. Sartre fala em um homem sem Deus, o que me soa estranho, porque os romances de Faulkner, principalmente Absalão, Absalão e Luz em agosto estão plenos de referências bíblicas. A maldição, o fatalismo e a tragédia estão em cada linha desses dois romances que se irmanam. Antes que um Joyce norte-americano, Faulkner é um Shakespeare do Mississipi.

                Sobre taras e fraquezas humanas, Monique Nathan observa que os personagens de Faulkner buscam “se reintegrar seu passado de homem do Sul, libertando-o, primeiro, da fatalidade de que se julga vítima”. Perfeito. E Michel Butor (um dos teóricos do nouveau-roman) aponta: “É o conhecimento da sua própria história, absolutamente necessário para que possam libertar-se da fatalidade do Sul, o que Faulkner fornece a seus compatriotas.” (RCF)