quinta-feira, 3 de março de 2016

Cinco esquinas, novo romance de Mario Vargas Llosa






Em março de 2016, o escritor peruano Mario Vargas Llosa completará 80 anos de vida. Ele afirma estar vivendo um período que o surpreende por tantas mudanças e aventuras. Recentemente, Llosa assumiu seu novo romance com Isabel Preysler (ex-esposa de Julio Iglesias) e concluiu mais um livro, a ser lançado pela Alfaguara em seu aniversário, no próximo ano: "Nunca tive a empolgação, o entusiasmo, as fantasias que tenho hoje em dia, em uma idade em que geralmente já não há tantos entusiasmos", celebrou o Nobel de Literatura em entrevista ao El País.
A nova obra de Llosa, Cinco Esquinas, leva o nome de um bairro muito antigo de Lima e ocorre no final da ditadura Fujimori [final dos anos 1990]. Trata-se de um thriller em que o principal tema é o jornalismo, mostrando como a imprensa amarela ou marrom, a do escândalo, tem efeitos nefastos.
Seu romance com Preysler foi ao encontro da temática de Cinco Esquinas, tendo gerado mais polêmicas do que o Nobel de Literatura gostaria. O escritor acabou se envolvendo em brigas com o jornal The New York Times, que publicou informações falsas com base em um tabloide norte-americano. Llosa diz que acabou sendo vítima de algo previsto em outra de suas obras, A Civilização do Espetáculo, homônima à sua conferência ao Fronteiras: "pois coube a mim vivê-la! É um livro que escrevi porque realmente acho que é um problema do nosso tempo, e logo certas circunstâncias da minha vida privada fizeram com que vivesse de dentro, do coração mesmo, A Civilização do Espetáculo."
Nesta entrevista, Mario Vargas Llosa aborda os principais temas de sua escrita, o porquê de escrever e aspectos atuais da sua vida pessoal. Confira abaixo:
De onde vem a capacidade de recordar tantas coisas?
Mario Vargas Llosa: Não é assim, lembro das coisas que têm a ver com meu trabalho, as pessoais ou familiares, e esqueço muito mais do que lembro, acontece com todo mundo. Sim, percebi que lembro muitas imagens, episódios que se transformam depois em matéria-prima para meu trabalho.
Como é que isso funciona?
Mario Vargas Llosa: De uma maneira totalmente inconsciente. Como todo mundo, vivo todo tipo de experiências, mas há algumas que a imaginação resgata, conserva e de repente dessas imagens começam a surgir uma espécie de devaneio, mas sem que eu perceba. Até que de repente percebo que estive, inconscientemente, trabalhando em alguma pequena história, um embrião de história, a partir de algum fato vivido, ouvido ou lido. Sempre achei muito misterioso esse início de todas as coisas que escrevi, por que certos fatos têm esse poder de conectar a imaginação, colocar em movimento a fantasia. Certamente é porque essas experiências tocam algum importante centro vital, mas que está enterrado no subconsciente. Nunca soube exatamente por que certas experiências têm esse poder e por que tantas outras, não.
Que centro vital acha que é esse?
Mario Vargas Llosa: Eu não sei, provavelmente se conhecesse o mecanismo não funcionaria com essa naturalidade. Tem a ver com alguns fatos importantes que constituem a personalidade, a fonte do que é a psicologia de um personagem. O que eu sei é que sempre aconteceu assim, sempre é algo vivido o ponto de partida da fantasia, da imaginação por trás dos romances, das histórias. Das obras de teatro também. Acho que não dos ensaios; eles são muito mais limitados, você escolhe os temas sobre os quais quer escrever, mas no caso da ficção não escolhe, os fatos escolhem a pessoa e a empurram em uma determinada direção. Embora depois de começar, seja possível trabalhar com grande liberdade, acho que o ponto de partida não é livre, é algo que a realidade impõe através da experiência vivida.
No seu caso, a realidade tem a ver muitas vezes com sua própria juventude ou infância, mas também com a realidade peruana.Mario Vargas Llosa: Sim, sim, os anos de formação da personalidade são os anos da juventude, aqueles que vivi no Peru e são os que mais me marcaram. Meus primeiros 10 anos foram passados na Bolívia, uma época que lembro como completamente feliz, e nunca pensaria em contar uma história inspirada em fatos desses anos, talvez porque fui feliz, porque vivi sem nenhum tipo de trauma. Acho que experiências traumáticas são muito mais frutíferas para um escritor, pelo menos para um escritor moderno, que as experiências felizes. As experiências que para mim são mais fecundas do ponto de vista literário têm a ver com conflitos, traumas, com momentos difíceis, com algum tipo de frustração ou ruptura; ou também de grande exaltação. Não são fatos convencionais, aqueles fatos que não deixam forte marca na memória; são fatos conflitivos e muitas vezes traumáticos.
É o caso de Cinco Esquinas?
Mario Vargas Llosa: O caso de Cinco Esquinas é muito interessante; ao contrário de outras histórias, não tenho muito claro como foi se insinuando a ideia desse livro. Tudo começou com uma imagem bastante erótica de duas senhoras amigas que, de repente, uma noite, de uma forma inesperada para ambas, vivem uma situação erótica. Como era uma imagem que me perseguia, comecei a escrever, e esse foi o ponto de partida. Depois foi se tornando uma história policial, quase um thriller, e o thriller foi se transformado em uma espécie de mural da sociedade peruana nos últimos meses ou semanas da ditadura de Fujimori e Montesinos, num momento em que o sistema que eles tinham construído começava a desabar por todos os lados. E, no meio de uma grande violência, uma violência múltipla pelo terrorismo; também pela violência da repressão policial e militar e o grande desconcerto, desânimo psicológico e político coletivo que vivia o Peru. E esse foi o resultado. Cinco Esquinas foi um bairro importante de Lima; nele estavam as principais embaixadas, a da França, Grã-Bretanha e dos EUA; um bairro que, na colônia, sempre teve uma grande vitalidade, talvez as principais igrejas coloniais de Lima estejam em Cinco Esquinas. Depois entrou em forte decadência, embora no início do século XX tenha tido uma espécie de apogeu de outro tipo porque se tornou o bairro do criollismo, da música peruana, dos grandes guitarristas... Depois continuou sua decadência até se tornar um bairro muito perigoso, com muito tráfico de drogas e muita delinquência. Tanto que a última vez que estive em Lima fui duas ou três vezes caminhar pelo bairro e em plena luz do dia me avisaram para não andar por ali porque era muito perigoso, porque poderia ser assaltado, e que só estava seguro quem morava no bairro. Senti que em tudo isso havia um símbolo da sociedade e dos problemas peruanos e gostei da ideia de que a história se chamasse Cinco Esquinas como um bairro que, de alguma forma, é emblemático de Lima, do Peru e também do tempo em que está situada a história.
O Peru nunca desaparece do senhor.Mario Vargas Llosa: Não, não, as experiências básicas, que são as de formação da personalidade, foram vividas no Peru. Conheci o Peru quando já tinha 10 anos; antes tinha vivido na Bolívia e sempre com a ideia de que o Peru era meu país, minha pátria. E voltei para um país no qual em Piura era considerado estrangeiro porque falava como um menino boliviano e os colegas de colégio zombavam de mim, dizendo que ele falou como los serranitos.
Quem leu Cinco Esquinas diz que tem uma forte carga erótica e também...Mario Vargas Llosa: Sim, sim! Um lado da história é uma relação erótica muito forte que certamente é como um refúgio. Quando você não consegue fugir da realidade por outros meios, o erotismo é uma forma de fugir da realidade, de não viver a realidade que você rejeita. Mas se existe um tema que permeia Cinco Esquinas, que impregna toda a história, é o jornalismo, o jornalismo marrom. Foi um caso muito interessante porque a ditadura de Fujimori, especialmente com Montesinos, o homem forte da ditadura, utilizou o jornalismo marrom, o jornalismo de escândalos, como uma arma política para desprestigiar e aniquilar moralmente todos seus inimigos. Ele contratava jornalistas, pagava órgãos de imprensa para aniquilarem moralmente os adversários e críticos. Isso sujou terrivelmente o jornalismo, deu ao jornalismo uma dimensão de canalhice, vil. Em nenhuma das experiências ditatoriais que o Peru viveu, o jornalismo se tornou tão eficaz para silenciar e liquidar a oposição sem fazer política, aparentemente, apenas descobrindo que os opositores eram escandalosos, ladrões, pervertidos... Enfim, toda uma série de calúnias vis impregnava quem se atrevia a enfrentar e criticar o regime. Esse é um dos temas centrais da história. Ao mesmo tempo, também está o outro lado, como o jornalismo, que pode ser algo vil e sujo, de repente pode se tornar um instrumento de liberação, de defesa moral e cívica de uma sociedade. Essas duas faces do jornalismo, que não aparecem só no Peru, mas em todos os países e sociedades do mundo, são um dos temas centrais de Cinco Esquinas.
O senhor agora sofre o ataque do jornalismo canalha.
Mario Vargas Llosa: Das fofocas jornalísticas, sim, sim.
Como se sente a respeito?
Mario Vargas Llosa: Sabia que com essa nova relação haveria certa repercussão jornalística, mas nunca na vida imaginei que teria essa repercussão continental, que fosse haver uma especulação jornalística semelhante a essa em torno disso. Tanto para Isabel [Preysler] como para mim têm sido muito, muito pesado nesses últimos meses. Bom, é uma realidade do nosso tempo, me permitiu conhecer um pouco melhor um ofício que é o meu também. O jornalismo tem sido central na minha vida, tem sido companheiro da minha vocação literária desde que era praticamente um menino, porque comecei a fazer jornalismo quando ainda estava no colégio, e nunca deixei de fazer até hoje. Claro que conheci principalmente a melhor face do jornalismo. Agora me aconteceu de viver a pior, e comprovar que o jornalismo como espetáculo não está presente apenas no jornalismo especializado no escândalo, na fofocaria, mas que o jornalismo mais sério se contamina também por essa necessidade contemporânea de que o jornalismo seja entretido, divertido; que a primeira missão já não seja informar, mas sim entreter os leitores, ouvintes e espectadores. Acho que é uma realidade do nosso tempo. E sem me dar conta isso impregnou muito a história que escrevi, nunca tinha pensado que fosse uma história sobre o jornalismo nem sobre essa derivação do jornalismo moderno.
O livro foi impregnado pela realidade que foi sucedendo ao senhor mesmo.
Mario Vargas Llosa: Pela realidade vivida, sim, sim. Não apenas nos aspectos negativos, também nos aspectos positivos da experiência que vivi, aspectos sumamente empolgantes, rejuvenescedores, sem dúvida.
Tudo isso te feriu?
Mario Vargas Llosa: Não, ferido não! Me surpreendeu muito e me vi muito desconcertado com essa transgressão da privacidade. Me mandaram os recortes de uma revista em que tinham me fotografado cortando o cabelo em uma barbearia, saindo desse edifício para ir caminhar pelas manhãs. Nunca descobri que tinha um fotógrafo! Saio às 6h da manhã, e a essa hora já havia um fotógrafo que depois entrou na barbearia onde eu estava cortando o cabelo. É surpreendente esse ramo do jornalismo que praticamente não tem nada a ver com o jornalismo de informação, de comentário, o jornalismo que tem a vocação de defender ou criticar certas coisas. Não, não. Trata-se de entrar na privacidade por essa curiosidade insana que a privacidade das pessoas desperta em muita gente, talvez em todo mundo, desde a pessoa mais culta até a mais inculta.
A privacidade de toda a sua família.Mario Vargas Llosa: Seguiram absolutamente toda a família, todo mundo teve que pagar um pouco por coisas que eu fazia. Sinto muito, mas não havia maneira de evitar, e acho que na vida atual não há maneira de evitar. Uma das características da vida atual é que a privacidade desapareceu, já não existe, há uma tecnologia capaz de transgredir a privacidade em todos os níveis. Isso tem efeitos econômicos, políticos, culturais, mas uma das consequências é que o que entendíamos por privacidade, pura e simplesmente, não existe mais.
De certo modo, veio ao seu encontro o mesmo que o senhor anunciava em seu livro A Civilização do Espetáculo.
Mario Vargas Llosa: Bom, pois coube a mim vivê-la! É um livro que escrevi porque realmente acho que é um problema do nosso tempo, e logo certas circunstâncias da minha vida privada fizeram com que vivesse de dentro, do coração mesmo, A Civilização do Espetáculo.
Os livros, escrever, servem para te dar serenidade em momentos assim?
Mario Vargas Llosa: Sim, muito. Escrever é um refúgio extraordinário para encontrar a paz, a calma, em momentos de grande desassossego, de incertezas. Sim, escrever me prende no mundo que estou inventando, me arranca da problemática pessoal e me faz viver a fantasia. Enquanto estou escrevendo me sinto invulnerável; quando deixo de escrever, as coisas mudam [risos]. O que não gostaria é de passar uma ideia falsa e te dizer que essa época para mim tem sido desastrosa. Por uma parte tem sido muito complicada e muito difícil por muitíssimas razões, mas, por outra, tem sido uma época maravilhosa da minha vida, e gostaria que ficasse muito claro. Nunca tive a empolgação, o entusiasmo, as fantasias que tenho hoje em dia, em uma idade em que geralmente já não há tantos entusiasmos [risos].
Dizia que com essa idade queria invernar.
Mario Vargas Llosa: Quem iria dizer que estaria vivendo uma grande paixão e organizando minha vida como se fosse viver eternamente!
Quem sabe viva eternamente escrevendo.
Mario Vargas Llosa: [Risos]. Tomara!
Como ficou o texto de Cinco Esquinas?
Mario Vargas Llosa: Como todos os livros que escrevi, salvo talvez A Casa Verde, em que acho que há uma gula exagerada com a prosa, com o meio, com o instrumento. Em todos os meus livros a prosa trata de ser funcional, estar a serviço de uma história, e não a história a serviço de uma demonstração de tipo retórico. Não. Salvo em A Casa Verde, talvez aqui se possa dizer que a história serve tanto à forma como a forma à história. Em Cinco Esquinas, como nos romances anteriores, a prosa trata de ser invisível, de desaparecer atrás da história que conta para que seja a história que pareça viver por si mesma. O método flaubertiano, que sempre foi o meu. Mas tinha um problema para resolver: a diversidade que a sociedade peruana tem; os peruanos de uma classe social elevada, os da classe média e os de um meio popular não falam exatamente da mesma maneira, há muitas diferenças e modismos. Há uma natureza da linguagem que expressa claramente essa situação social, econômica ou cultural, é algo que tive muito presente e, ao mesmo tempo, evitei muito ser folclórico, que a maneira de falar fosse ao final mais importante do que o próprio personagem, que se destacasse solta do próprio personagem. Não, é algo sobre o qual sempre fui contra e acho que minha geração foi uma geração de escritores que reagiu muito contra isso, a exploração da cor local, contra essa espécie de strip-tease linguístico que tornava toda literatura localista. Foi um trabalho de linguagem para que fosse o mais invisível possível, mas que, ao mesmo tempo, servisse muito para mostrar as diferenças sociais, econômicas e culturais de uma sociedade tão complexa e diversa como a peruana.

terça-feira, 1 de março de 2016

As palafitas, poema RCF






O bisturi do rio rasga a carne da terra
e, assim, retorcida e cirúrgica, a floresta
deixa à mostra a veia exposta.

O rio é um mar com margens,
obsessivo e operoso,
sempre com falo ereto e fértil,
quando não defeca as impurezas industriais,
que se rabisca nos papéis da terra,
e vai cuspindo gente ribeirinha.

No campo amazônico,
as casas de varandas arregaçadas
molham as canelas na água.
Veneza selvagem, de palacetes de madeira,
renascimento de instintos insopitáveis.

O silêncio da mata
pia e borda
à beira amazônica das águas.
A água está dentro dos homens
com seus naufrágios. Um dia
a morte virá - colapso - e o
legista assinará: afogado de si mesmo.

A palafita, em meio à selva,
é um bicho de madeira:
tem vértebras das paredes,
tem respiração pelos brônquios das janelas,
excreta pelas fossas do quintal.

Morto o bicho de pernas finas,
seu oco desabitado de entranhas
torna-se hospedeiro do micróbio homem
que ali secreta seus humores
e a palafita, bicho anfíbio,
passa a ser transmissor
das pequenas misérias humanas.



(Terratreme. Brasília: Fundação Cultural do DF, 1998)
 
imagem retirada da internet: rio amazonas, denise barsted