sábado, 17 de dezembro de 2016

Fauna e flora humanas, poema RCF




Não sabe que bicho é.
Não sabe a que espécie pertence.
Se à imobilidade das árvores
sem frutos, de raízes tortuosas
ou se à categoria das plantas
que se expandem sempre agarradas.

Desconhece se faz parte
dos liquens, dos musgos, dos lodos
e de outros excessos de ruína
ou se sua categoria
se classifica entre os bichos que existem
sem que ninguém os note,
e, sem serem notados,
devastam o homem.

É bem provável que faça parte
dos tubérculos e que rume
para dentro da terra
e finque raízes aéreas
– expostas ao desdém dos outros –
e quanto mais amadurece
mais fundo e incógnito
se enterra vivo.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


 (imagem retirada da internet: El Lissitzky, self-portrait.jpg)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Os hibiscos, poema RCF

o enxame de hibiscos
          povoou a manhã salina

abro a pasta
          a água transformou
          os papéis
                      indissolutos
                      em raízes mortas

chove

meu pai de tropical inglês,
           subindo as escadas,
           vira-se
                    e me pergunta:

                   Por que ainda não me enterraste
                   se já morri faz trinta tortuosos anos?

esta falsa paisagem
                  londrina
                           da janela
                  embora com lagartos
                  que se deslocam
                  e plantas ao vento
                  é fixa
                  quadro cujas cores
                                          se corrompem

no hotel
em Búzios
onde hospedava
humores descarnados
           a fratura dos riscos
           me lembrava
           a cada instante
que a permanência
           é fluida
           e os ares marinhos
trazem
           salsugem e os mortos
como as ondas
           vomitam
           na praia
                     o que não digeriram




(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet: hopstel andarilho

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Fachada, poema de Donizete Galvão




Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
                                       Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.

(do livro O homem inacabado, São Paulo: Portal Literatura, 2010)

PROUST NO THE GUARDIAN


Onde está Proust?


If you haven't read Proust, don't worry. This lacuna in your cultural development you do not need to fill. On the other hand, if you have read all of A la Recherche du Temps Perdu, you should be very worried about yourself. As Proust very well knew, reading his work for as long as it takes is temps perdu, time wasted, time that would be better spent visiting a demented relative, meditating, walking the dog or learning ancient Greek.
In Search of Lost Time, or Remembrance of Things Past, as Proust's "novel" is variously titled in English, is widely touted as one of the favourite books of the 20th century, second only to The Lord of the Rings. Fans of Tolkien can certainly handle a marathon read, as can Harry Potter addicts; but whether they have stayed the distance with Proust seems to me highly doubtful.
ALRDTP is not so much a book as an armful of books. No bookshop can be relied upon to have all the volumes in stock at any one time. The cost of the whole work is likely to be prohibitive – unless you can read it in French, in the one-volume paperback edition of the text established by the Bibliothèque de la Pléiade over five years from 1987. This is a helluva read, being 2,408 pages, 1.25m words, and so heavy that you can't read it in bed let alone in the bath (if you can read it at all, with its crowded, narrow typeface and tiny margins).
This cannot be called the definitive text because, when Proust died in 1922, the last three volumes existed only in typescript, festooned with pasted-in interpolations and additions that Proust's literary executors tried to make sense of; they moved some, ignored others, all the while erasing repetitions and inconsistencies in the belief that Proust would have done as much if he had had the time. Recent editors have restored this momentarily inert mass once more to chaos. Ulysses, too, is an editor's nightmare, and ALRDTP should not be damned solely on that account. But it is damnable in its fake heterosexual voyeurism, and its disparaging and dishonest account of homosexuality.
People who gush over Proust say peculiar things about him. The Observer's Robert McCrum thinks he "redefined the terms of fiction", whatever they may be. Proust would have been surprised to be told he had defined anything. In a momentary lapse into barbarism, Nabokov, himself a consummate stylist, described Proust's prose as "translucid". If Proust did not make such a snobbish to-do about diction, it might be easier to forgive him for his battering of the sentence to rubble and his apparent contempt for the paragraph. He relies on commas and semi-colons to do what should be done by full-stops, of which there are far too few, many of them in the wrong place. Sentences run to thousands of words and scores of subordinate clauses, until the reader has no recollection of the main clause or indeed whether there ever was one.
Until almost the end of the century, CK Scott Moncrieff's was the only English translation. It contained all kinds of howlers, which were tinkered with by various publishers to be presented eventually to the anglophone public as two different translations with separate copyrights. Then Penguin embarked on a genuinely new translation by assorted academics under the general editorship of Christopher Prendergast. This was generally well received, with one desperate reviewer even imagining that it had captured the "cadence" of Proust's French.
Supposing you struggle on as far as the fifth volume, which Scott Moncrieff called The Captive, you will find the following: "Tirant d'un flûtiau, d'une cornemuse, des airs de son pays méridional, dont la lumière s'accordait bien avec les beaux jours, un homme en blouse, tenant à la main un nerf de boeuf, et coiffé d'un béret basque, s'arrêtait devant les maisons." This Scott Moncrieff hilariously renders as: "Drawing from a penny whistle, from a bagpipe, airs of his own southern country whose sunlight harmonised well with these fine days, a man in a blouse, wielding a bull's pizzle in his hand and wearing a Basque beret on his head, stopped before each house in turn." In Carol Clark's version for Penguin we read: "Drawing from a penny-whistle or bagpipes melodies from his southern homeland, whose light the fine morning recalled, a man in a smock with a bludgeon in his hand, and wearing a beret, stopped in front of the houses."
The translators' manifest difficulties stem at first from Proust's own imprecision, and are then compounded by their ignorance. The Pyrenean goatherd carried neither a dried bull's penis nor a bludgeon – what would he be doing with either? He is going to milk his goats and he needs something with which to restrain them: a hobble made of dried bull sinew. But when all is said and done, Scott Moncrieff remains the pleasanter read. Once it is understood that all translation is mistranslation, we are free to realise that Scott Moncrieff (Proust's contemporary) keeps us reading at the right pace and rhythm. Besides, he has no hesitation in using French words that we all understand, while Penguin insists on translating a "concierge" as a "portress", if you please.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A prisão de Homero, conto RCF




Foi inesperadamente, num dia de semana ordinário, que Homero pediu para ser preso. Como não havia cometido nenhum crime, passou por louco dentro da delegacia. E foi motivo de chacotas entre os policiais, ainda que acostumados a malucos e, principalmente, a certos elementos que, sabe-se lá a razão, gostavam de assumir a culpa por um delito que não cometeram.

Mas a história de Homero era diferente. Os doidos que se apresentavam culpando-se eram exibicionistas ou tinham outro tipo de deformação mental. Logo caíam em contradição e o delegado os ameaçava com falso testemunho e aí, diante de uma transgressão verdadeira, como num passe de mágica, os falsos culpados assumiam a mentira.

Homero sempre foi um homem pacato, dono de armarinho, morando em subúrbio, vida reta, nenhuma amante. Nunca cometera deslize: devolvia dinheiro encontrado na rua, se oferecia a depor quando assistia a um acidente de trânsito, enfim, era a virtude em pessoa. De tão virtuoso é que não pôde aceitar o crime que cometera.

O sócio de Homero, companheiro de muitos anos, morrera repentinamente. A viúva não se interessou pelo negócio, pediu sua parte. Homero fez as contas, comprou a parte do amigo morto. Aí é que começaram as angústias de Homero, que enrolou a viúva nas contas. O que mais o incomodava era a viúva, amiga da família, continuar a freqüentar a casa dele. A cada visita a viúva representava a prova viva – e falante – do crime que cometera. Ficara com pouca coisa, reclamava que o marido durante a vida fora unha-de-fome e, morto, lhe deixara sem pensão.

Meses se passaram e Homero imaginou que devolvendo o dinheiro para a viúva conseguiria aliviar a culpa. Inventou uma história intricada.

Que taxa? perguntou a viúva do sócio.

Ora, o importante é que o dinheiro eu vou depositar na sua conta. É melhor nem entender essas coisas financeiras do governo: taxas, multas, cobranças indevidas, ressarcimento. O governo também erra e às vezes corrige o erro. Não está feliz com o dinheiro que vai receber?

A surpresa de Homero foi ver que a devolução do dinheiro não aplacava a consciência pesada. Afinal cometera o delito, o dinheiro que por direito dava à viúva não o inocentava do crime. Tinha que pagar pelo crime que cometera.

Foi tudo isso que Homero contou na delegacia e o delegado não dera bola. Sem tribunal ou juiz que o condenasse, Homero decidiu dar pena para si mesmo.

Confessou-se à esposa que não acreditou no que ouvia.

Bobagem, disse.

E como Homero insistisse, ela reprovou.

Deixa de ser idiota. E, além do mais, reparaste o erro. A viuvinha não está feliz? Então pára de maluquice que temos três filhos pra criar.

A pena que Homero se deu foi fazer de seu quarto uma cela. Mandou construir grade, tirou todos os móveis, colocou um catre e, quando achou que o quarto tinha cara de cadeia, trancou-se nele. Além da televisão, desfez-se de qualquer luxo. E mesmo a televisão, Homero a justificava: tinha direito a prisão especial por ter grau universitário. Estava na lei.

O cotidiano de Homero era desesperador. Comia frugalmente, recusando qualquer tentativa da mulher em oferecer a ele pratos suculentos ou guloseimas. Acordava cedo, fazia ginástica, via um pouco de televisão, lia e quando olhava o relógio eram apenas dez horas da manhã. Como o tempo rendia! Depois ficava olhando para as paredes nuas onde num canto fazia as marcas dos dias – como qualquer prisioneiro – que faltavam para sua liberdade.

Nada o demovia. Nem o pedido dos filhos, dos amigos, dos parentes. Era um preso exemplar. Tinha em mente que assim disciplinado podia ter a pena reduzida como faziam com os presos de bom comportamento. Assim ia vivendo, encarcerado, em paz com a consciência para desespero da esposa que teve que assumir o armarinho em lugar do marido.

Daqui só saio em sete anos, dizia anunciando o tempo da condenação.

Homero já cumprira seis meses de pena, quando teve uma idéia. Hesitou muito antes de definir-se. Afinal de contas, a idéia, embora contraditória, era uma idéia de prisioneiro – ele se justificava. Depois de tanto vacilar, por fim se convenceu. Iria cavar um túnel.

É só cavar com a colher todo dia um pouco, esconder a terra e, mais três meses, consigo chegar do outro lado da rua, arquitetava. E, pronto, liberdade!

(imagem retirada da internet: lala.blog)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O viúvo, análise de Zina Bellodi e outros

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(do livro Memorialística. São Paulo, 2012. Magaly Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino)

            Em O viúvo temos a memória familiar do ângulo de visão do homem que protagonizou uma história, e que nos leva a participar de sua vida interior, não deixando claro o limite entre o sonho e a realidade.
            A obra de Ronaldo Costa Fernandes é uma narrativa feita pelo viúvo de Lídia, que morrera após relativamente longa doença, durante a qual o marido fugira a seu convite para fazer amor, com nojo. Ele é professor na universidade e tem a companhia do jardineiro José e da criada Benedita. Quando José morre, Benedita assume o cuidado das plantas. Durante certo tempo o viúvo mantém um caso com a economista de um banco, Fernanda, que tem dois filhos. É perseguido pelo marido dela com o carro e, numa perigosa manobra, sofre acidente, ficando seis meses em coma, quando Fernanda o abandona. Num certo momento passa a cuidar de Benedita, agora doente, levando-a ao médico. Ao fim pára de trabalhar, em condições não muito claras.
            O grande problema do viúvo é “sentir o corpo”, pois vive em completa dissociação, perdendo até a sensação dos pés como algo seu. É como se o corpo fosse estranho e com ele não se pudesse ligar. Esta sensação, de caráter físico, pode ser interpretada como a contrapartida de seu característico desligamento das pessoas. Realmente, a ideia que se tem é a de que ele não consegue estabelecer com o outro, seja ele quem for, uma relação verdadeiramente significativa.
            Esta incapacidade de relacionamento humano efetivo (traduzida na sensação de não sentir o próprio corpo) é acompanhada de uma certa incapacidade de ver na vida algum sentido.
            É na relação com Lídia que o viúvo conseguia tornar real o próprio corpo, de outra forma estranho:

         Aquele corpo para mim era um corpo inédito. Meu corpo também era inédito. Meu corpo não era inédito com Lídia. O quarto não existe. A gente inventa o quarto. O quarto não é feito de móveis ou de espelhos, cama, console com som. O quarto se resume a dois corpos. Certa vez agarrei Lídia na escada. Ali inventei o quarto.[1]

            O viúvo sente a realidade do próprio corpo e até “inventa” fatos da realidade na relação com Lídia. Esta relação parece, assim, como um possível clarão a iluminar uma vida de outra forma sem sentido. Na fuga ao marido de Fernanda, o viúvo sente mais claramente a falta de sentido que permeia sua experiência:

         (...) Saí correndo, desembalado, o carro rangendo pneu na curva, derrapando. A culpa não foi de Manfredo. Eu sabia muito bem o que estava fazendo. Senti o desejo de me matar, de abandonar não a perseguição de Manfredo, mas uma perseguição maior, a própria vida. (...)[2]

            Fica claro que se trata de alguém cuja luta vital é a busca de um sentido que lhe escapa constantemente, um sentido que talvez pudesse atingir com Fernanda, mas esta é uma relação condenada ao fracasso.
            No hospital, diante de Fernanda, mas sentindo-se mais perto de Lídia, o viúvo admite que perdeu o rumo, o que aparece, metaforicamente, no acidente com o carro.
            Enquanto o viúvo procura ansiosamente um sentido vital que se lhe escapa, sua obsessão volta-se para a ideia de limpeza, fato que é recorrente na narrativa. Não se trata, propriamente, de desejar a limpeza obsessivamente, mas antes de senti-la com intensidade desproporcional. É como se os objetivos se limpassem a si mesmos de maneira ostensiva.

         Duas ou três semanas depois, a casa entra em rotina. E se limpa, se asseia, se higieniza e até quer mostrar vaidade. Não há espelho que baste para a casa que rebrilha de tanto lustra-móvel, limpador de vidro, detergente e sapólios.[3]

            Se as coisas são personificadas, as pessoas, às vezes, aparecem quase que reificadas, como acontece numa menção à D. Benedita:

         D. Benedita não faz supermercado. Cada semana escreve garranchos que viram azeite, arroz e macarrão. As palavras na cabeça de D. Benedita também devem aparecer como garranchos. Difícil decifrar o que a mulher pensa, caso pense, porque a cabeça de D. Benedita deve ser como papel em branco.”[4]

           
A personificação da casa é seguida, em outro contexto, da animalização do narrador:

         Já pensei em mudar-me, mas nunca sairei desta casa. Ela é o bicho hospedeiro, sou o verme que dele se alimenta. Às vezes penso que fui feito para morar aqui. Não questão de destino, quando procurei desabava de velha e inabitável, fiz a casa tanto a meu gosto que desconfio que ela me atraiu para lhe dar a forma que me pediu.[5]

            Ao contrário de outras obras, principalmente a partir do século XX, cuja tônica é a expressão da falta de sentido com que a realidade se apresenta, mas numa imagem que nenhuma tem a acrescentar, aqui temos uma aguda, profundamente sentida, visão de tudo isso, mas numa criação expressiva que não se esgota na simples negação. É do “sem sentido” aparente do real que brota a mensagem mais forte da obra. Isto, desnecessário dizer, pela maneira como ela se organiza e se realiza numa linguagem “buscada” de profunda expressividade. É o contrário de outras obras que se passam por complexas, mas que, na verdade, pouco conseguem construir.

           

            Em primeiro lugar esta é uma obra de 2005, que reflete os males e as dores que marcam a literatura desde o século XX mais claramente (já que desde sempre existiram). A angústia traduz-se neste livro pela sensação de claustrofobia que parece atormentar o herói e que se transfere para o mundo que o cerca, como diz Salomão Sousa:

         Por tratar-se de personagem que padece das doenças da pós-modernidade, o viúvo não se limita a ser doente – ele adoece o mundo ao seu redor. A realidade perde as suas funções inanimadas, assumindo os desastres que ele mesmo vem construindo.[6]     

            Essa sensação é o que problematiza todas as relações humanas na obra. A visão aqui descrita pode ser claramente constatada ao longo do texto, como no que se segue:

         Estou na garagem, transformada em consultório. O consultório de vozes encarceradas. Ali sim estão as vozes em seu estado primitivo, porque saem, mas não saem, ficam ali, depositadas, aéreas, esparsas, presas para sempre no ouvido da doutora. A garagem é um ventre de vozes, estão amortecidas, esperam que nós a busquemos, há um repertório também de outras vozes, viciadas, lidas, eruditas, que a doutora recolhe do ar, borboletas rebeldes, que se cruzam formando outro bando de borboletas.[7]

            Se quisermos escolher uma passagem em que mais claramente aparecem as características aqui arroladas, podemos escolher o capítulo 6 na sua íntegra, onde há uma descrição da casa que exprime poderosamente a sensação de claustrofobia (nos quartos), sensação que não é transmitida pela cozinha, para onde convergem “luminosidade, amplitude e vida”[8] o que, normalmente se esperaria da sala. É na cozinha que ainda existe vida:

         (...) A vida vicejava na cozinha como planta adubada. As paredes porosas exalavam não apenas o cheiro forte dos temperos, exalava ela mesma cheio de existência, coisa viva, poderia suar ou gelar-se.[9]

            Enquanto isso “a sala acabrunhava-se numa soturnidade úmida” [10]
            A sensação de ser o herói alguém desconectado, fica afirmada com a menção ao telefone, como única forma de ligação com o mundo.
            A idéia de vazio a cercar o herói, é enfatizada quando são mencionados meios sonoros e visuais:

         Evitava o silêncio, pelo menos logo depois da morte de Lídia, mas a televisão e o telefone passavam a ser silêncios estentóricos.[11]

            O viúvo vive numa casa onde parece não existir nenhuma imagem, mas apenas penumbra. Num certo momento o herói tenta fugir até da presença semanal da criada, que faz o sol entrar na casa:

         O sol, contudo, teimava em se instalar uma vez por semana. Diabo de rotina. Era quando vinha D. Benedita.
                                                        /.../

         Não sabia em que cômodo ficar, escolhia o dia da semana em que teria de ausentar-me o dia inteiro, mas às vezes coincidíamos e eu me via acuado, incômodo em minha própria casa, quase pedia desculpas a D. Benedita por morar ali, ora que é isso, nhô sim, nhô não, outro tanto envergonhado de ela expor sem limite ou pudor a minha vida mais noturna e escondida.[12]

            Tudo isso se exprime numa linguagem própria que individualiza o romance, ao mesmo tempo em que o coloca numa tradição das grandes narrativas. Adelto Gonçalves exprime bem isto:

         O viúvo, de Ronaldo Costa Fernandes, é um romance surpreendente. As frases curtas, diretas, rápidas e cortantes reconstituem um clima pesado e sombrio (...), em que o estado mental de quem escreve transborda para a palavra.

                                            /.../

(...) É como se Machado de Assis tivesse renascido na segunda metade do século XX e, incorporando todas as conquista literárias das últimas décadas, renovando o idioma e produzido este texto que é o depoimento apurado de um homem atormentado.[13]

            Isto tudo é o que autoriza Adelto a classificar a obra como “uma das poucas obras-primas do romance brasileiro deste início de século XXI,”[14] uma obra que “revisita” os grandes fantasmas da modernidade e pós-modernidade, como acontece com Angústia de Graciliano Ramos, mencionada por Lídia Cadermotori na apresentação para O viúvo, e como se vê em O estrangeiro de Albert Camus.
            Salomão Sousa enfatiza ainda a qualidade da linguagem que marca a obra, junto à maestria com que coloca a relação entre personagem e realidade.
            Esta é uma obra que está a merecer mais fama e estudos críticos do que já recebeu, como se vê em Adelto Gonçalves.

         Que um país periférico não seja capaz de reconhecer os seus melhores autores, isso é sintoma de que a nação já entrou em acelerado processo de desintegração. E por isso seu futuro se desenha duvidoso. Infelizmente.[15]







[1] Ronaldo Costa Fernandes – O viúvo, LGE Editora, Brasília, 2005, p.36.
[2] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p. 95.
[3] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p. 115
[4] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p. 123.


[5] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.150.
[6] Salomão Sousa – Agulha – Revista de Cultura # 49, Fortaleza, São Paulo, janeiro de 2006, acessado em 20/28/2007.
[7] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.24.
[8] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.27.
[9] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.27.
[10] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.27.
[11] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.28.
[12] Ronaldo Costa Fernandes – O.C., p.29.
[13] Adelto Gonçalves, O viúvo, um acontecimento literário, Jornal de Poesia, acessado em 20/08/2007, p.1.
[14] Adelto Gonçalves – O.C. p.1.
[15] Adelto Gonçalves – O.C. p.3.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O moinho e a bicicleta, poema RCF



Os olhos pisados
miram as pegadas
daquilo que não se pode ver.

E o moinho pervertido,
em vez de grão, mói sombras.
Gira a bicicleta absurda:
rodas de adeus redundante,
guidão de vontades escuras.

Este vestíbulo não antecede a nada
e não me ante-sala para ninguém.



(poema de Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)
 
imagem retirada da internet: magritte

domingo, 11 de dezembro de 2016

À margem dos rios secos, poema RCF




Sempre me impressionaram os rios secos,
as margens olhando para o leito de areia,
o suposto fluir do que um dia existiu.
Depois, se os rios correm para o mar,
que mar seco é esse para onde corre o rio seco?

Sem a água do rio,
gozo úbere e fértil,
esterilizam-se.

Estão separadas uma da outra
por uma hipótese baixa, central,
ora, se a água
é quem cria os rios,
que fazem as margens desprovidas
de sua função?

As margens são penólopes sem tapete,
ruminando o tempo, a secura, o tear;
são visionárias e persistentes,
sabem que um dia as águas voltarão
e, por isso, entrarão em cio,
recompensadas pelo espetáculo de vigiar o nada,
o pó, o rastro de praia,
o solado de greta de um leito que imita a vida.

(A máquina do mundo, Rio: 7Letras, 2009)