quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O prêmio Nobel para Bob Dylan


Mais Resultado de imagem para bob dylan 2014uma vez o Nobel pisa na bola milionária e literária. Além de, ao longo de sua história, ter ignorado autores como James Joyce e Proust, entre muitíssimos outros, agora premia Bob Dylan. Sou fã de Dylan – que tirou seu nome artístico do poeta Dylan Thomas – e me transporto, ao ouvi-lo, ao mundo encantado da música e da boa letra, da genial letra das canções.
A arte literária cada vez perde mais espaço num mundo fascinado pela prestidigitação do virtual e da imagem. A literatura, prima paupérrima das artes, só tem seu momento de brilho hollywoodiano ao dar o prêmio para um escritor. O público em geral fica encantado, da mesma maneira que nós, que não entendemos de física, ficamos boquiaberto com as descobertas de professores da área quântica, molecular ou cosmológica.
É um brilho fugaz como uma estrela candente. E, desta vez, retiraram o brilho da estrela fugaz da literatura. O que querem? Transformar a música num expressão literária? Lembro que quando estive em Londres pela primeira vez, nos anos 70, comprei numa lojinha alternativa um livro de poemas de Dylan. Eram horrorosos. Continue fã do músico genial.
A literatura já tem tão pouco prestígio e público, agora nos querem retirar o pouco que nos resta. Glória a Dylan na música e no seu milionário mundo do entretenimento.


RCF

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Anna Akhmátova



Anna Akhmátova nasceu a 23 de junho de 1889 em Odessa, então ainda Império Russo, hoje Ucrânia. Com seu primeiro marido, o poeta Nikolai Gumiliov (1886 – 1921), Serguei Gorodetski (1884 – 1967) e ainda Ossip Mandelshtam (1891 - 1938), formou o grupo de vanguarda dos Acmeístas, ligado à tradição do simbolismo russo, em especial à obra de Alexander Blok (1880 - 1921), apenas cerca de uma década mais velho que eles. Anna Akhmátova estreou em livro com Vecher ("Noite"), em 1912, seguido de Chetki ("Rosário") em 1914. O início da Grande Guerra (1914 - 1918), da Revolução Russa (1917) e dos terríveis anos de Guerra Civil (1918 - 1922) põem fim à chamada Era de Prata da Poesia Russa. Alexander Blok adoece e, necessitando de tratamento fora do país, morre a 7 de agosto de 1921 à espera da permissão do governo para viajar, concedida 10 dias depois de sua morte; Nikolai Gumiliov é fuzilado poucos dias depois como contra-revolucionário; Akhmátova e Mandelshtam, considerados poetas "aristocráticos e incompreensíveis para as massas", têm cada vez mais dificuldade de publicar, até que Mandelshtam é preso e condenado a trabalhos forçados no Gulag (mesmo destino de Liev Gumiliov, filho de Akhmátova com o poeta Nikolai Gumiliov), acontecimentos que encontrariam seu memorial em livros de Akhmátova como Anno Domini MCMXXI (1921) e Réquiem, escrito entre 1935 e 1940.

À MUSA

Quando, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que me importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?" E ela: "Sim, fui eu".


Anna Akhmátov

(tradução de Lauro Machado Coelho)