sábado, 15 de outubro de 2016

O deserto, poema RCF






E vai o deserto comendo terra fértil
alargando sua plantação de grãos,
seu pasto de areia,
sua colonização de secos,
seu plantio de nada.
Na vastidão igual do arenoso,
erosão das águas e do vento,
o deserto – qual mercúrio no rio –
vai tomando o espírito
e cobre de areia tudo:
os móveis, a louça, as roupas
– bate nas janelas
com seu ô de casa
farinhento
e, por fim, atinge o ânimo
que se esmirra, granula-se,
erode e avança a cada dia
dois palmos de vazio
que é a medida do pasmo
e o metro dos absenteístas.




(do livro Terratreme, Brasília, Secretaria de Cultura do DF, 1998)


 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A morte de tio Lúcio, conto RCF





     Fiquei desempregado mais de um ano. Casado, com contas para pagar, minha mulher trabalhando feito maluca, eu visitando as empresas, recebendo não na cara, a primeira coisa que pegava no jornal eram os classificados. Nem lia o resto do jornal. Já minha mulher trabalhava oito horas em pé no balcão do Othon Palace Hotel, na Avenida Atlântica. Aquilo acabava com meus nervos. Meus nervos estavam em pandareco. Meus nervos. O apartamento em Botafogo, na Marquês de Olinda, era minúsculo. O apartamento se apertava ainda mais. Diminui diminui diminui. Via as janelas diminuírem, o ar pendurado no teto. Um médico me receitou colchão para os nervos, um comprimido que fazia o ar denso baixar do teto.
Como não deu resultado, busquei homeopata. Olha minhas mãos, doutor, como tremem. Indicou-me uma farmácia na Rua da Carioca. Farmácia bonita, toda de madeira e vidro. Escadas rolavam de um lado para o outro a fim de que os funcionários alcançassem os medicamentos no alto da estante. Ô, João, pega o pote de magnésio aí em cima. Os móveis, pesados e escuros, de jacarandá, maciços. Os potes, com pó colorido, davam a impressão agradável de balas pra crianças.
Paguei no caixa. Vim caminhando para a saída da farmácia, quando vi, contra a luz, o vulto de tio Lúcio. Não parou nem me reconheceu. Os anos brincam de esconde-esconde. Há anos que você passa num canto escuro – a brincadeira acaba e você continua no canto escuro. Só podia ser engano, alguém muito parecido. Um sósia. E além do mais, disse com o coração disparado, eu o havia visto contra a luz. É, contra a luz. Esperei do lado de fora da farmácia e mais um pouco saía tio Lúcio. Não havia dúvida, era ele. Segui-o. Mas o homem andava rápido e se perdeu na multidão. Tio Lúcio, na multidão.
            A imagem de tio Lúcio se colou na parede da minha insônia. Olhava para a parede, para a televisão, olhava para o quadro e o quadro era a foto de tio Lúcio. Era preciso arrancar tio Lúcio dos meus olhos.
            O mesmo tipo de roupa, o cabelo glostorado, o jeito magro de gentleman. Não era o tio Lúcio dos últimos tempos: bêbado, desastrado, apaixonado. O tio Lúcio que eu vi tinha pelo menos dez anos menos do que quando tio Lúcio morreu. Que diabo seria aquilo? Resolvi voltar à farmácia para ver se o encontrava. Mas, se era tio Lúcio, por que não me reconheceu? Talvez não tenha me reconhecido porque estava morto. Um morto não deve reconhecer as pessoas, nem mesmo ter memória.    
            Minha mulher disse que eu sofria o pânico de tio Lúcio, a síndrome de tio Lúcio, embora não me explicasse o que vinha a ser o pânico e a síndrome de tal doença. Minha doença era o passado. O sintoma, o desemprego que me colava imagens na parede da cabeça.
            O desempregado tem o vício de empregar-se em pequenezes. O miúdo passa a ser expediente. O detalhe, o relógio de ponto. Vestia-me como quem se emprega. Agora as hipóteses. As hipóteses são boas para quem é obsessivo ou está desempregado, o que dá na mesma. Primeiro, tio Lúcio não tinha morrido e aquele enterro foi uma farsa. O caixão lacrado. A família chorou o rosto deformado do defunto. Mas por que razão tio Lúcio iria enterrar outro corpo e se manter anônimo vida afora? Os mortos têm a imaginação transbordante.
            Voltei, voltei, voltei. A obsessão do desempregado. Atravessei a rua. Aproximei-me dele. Tio Lúcio, chamei. O homem não se virou. Tornei a chamá-lo. Ele deu meia-volta e se perdeu outra vez na multidão. O gerente confirmou que o homem de terno, cabelo glostorado, moreno, trabalhava para a farmácia. O nome de tio Lúcio era Alfredo. O gerente me perguntou se eu era da polícia ou coisa parecida, por que o interesse em seu Alfredo, homem pacato, que trabalhava há anos para a farmácia?
            O revólver não faz volume apenas no coldre, faz volume na cabeça. Mas de que me protegia? Eu devia, em vez de botar o revólver no coldre, era botar as ideias no lugar. Mas eu não sabia onde estavam as ideias, soltas, erráticas, do outro mundo. A fantasmagoria degrada: tivera cargos altos, prestígio, agora, escondido da família e, principalmente, do tempo, era um empregado subalterno.
            Minha cabeça não pode rodar. Um homem que tenha a cabeça que roda não pode dormir, não pode andar, não pode estar no mundo. Eu primeiro tinha que fazer minha cabeça deixar de ser pião. Um pião lento, mas persistente, um pião obsessivo. Depois um homem não pode viver com a presença de um morto. E mais ainda: um homem não pode desconfiar dos seus sentidos. Ter matreirice em relação aos olhos, desconfiar do olfato, olhar de banda para o tato.
            Só havia um remédio: matar tio Lúcio.
            Não sou violento, desconheço como se usa um revólver, aliás, nunca peguei num revólver. Mas tinha que me familiarizar com a arma. Perguntei ao porteiro se conhecia alguém que vendesse arma.
– Conheço, não, doutor. Mas para que o senhor quer uma arma?
– Tenho um sítio, Severino – disse eu. – Acho que tem raposa comendo galinha.
Uma semana depois, Severino me trazia o revólver.    
            Fiz de uma lata vazia o corpo sem entranhas, diminuto, sem membros ou cabeça, fiz da lata corpo humano. Ainda pior: imaginei a cabeça de lata de tio Lúcio. A bala entraria pela lata adentro e não faria mal algum, porque uma lata vazia e a cabeça de um morto os dois não têm vísceras, entranhas, miolos ou coisa que o valha.
            Cheguei perto de tio Lúcio, surpreendi-o por trás e atirei na cabeça dele. Na cabeça de lata dele. Na cabeça vazia de lata dele. Mas a lata começou a sangrar e espirrar sangue que lata não tem. A lata respingou sangue na minha camisa e na minha mão. 
Merda. Eh.
Um ano depois, continuava desempregado. Logo, por consequência, minha mulher não podia deixar o emprego e não engravidara. Eu continuava a tomar os remédios homeopáticos para os nervos. Certa tarde, estava na fila do cinema, quando avistei tio Lúcio. Quem então eu matara em frente da farmácia homeopática, quem?

(do livro Manual de Tortura, contos, Esquina da Palavra, 2007)

imagens retiradas da internet

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O prêmio Nobel para Bob Dylan


Mais Resultado de imagem para bob dylan 2014uma vez o Nobel pisa na bola milionária e literária. Além de, ao longo de sua história, ter ignorado autores como James Joyce e Proust, entre muitíssimos outros, agora premia Bob Dylan. Sou fã de Dylan – que tirou seu nome artístico do poeta Dylan Thomas – e me transporto, ao ouvi-lo, ao mundo encantado da música e da boa letra, da genial letra das canções.
A arte literária cada vez perde mais espaço num mundo fascinado pela prestidigitação do virtual e da imagem. A literatura, prima paupérrima das artes, só tem seu momento de brilho hollywoodiano ao dar o prêmio para um escritor. O público em geral fica encantado, da mesma maneira que nós, que não entendemos de física, ficamos boquiaberto com as descobertas de professores da área quântica, molecular ou cosmológica.
É um brilho fugaz como uma estrela candente. E, desta vez, retiraram o brilho da estrela fugaz da literatura. O que querem? Transformar a música num expressão literária? Lembro que quando estive em Londres pela primeira vez, nos anos 70, comprei numa lojinha alternativa um livro de poemas de Dylan. Eram horrorosos. Continue fã do músico genial.
A literatura já tem tão pouco prestígio e público, agora nos querem retirar o pouco que nos resta. Glória a Dylan na música e no seu milionário mundo do entretenimento.


RCF

Potemkim-Kursk, poema RCF




O encouraçado Potemkim*,
ao nível do mar, era a esperança
de bonés jogados ao alto,
confetes no amanhã.
O Kursk, desencouraçado, é a Rússia
com sua máfia de ferro,
tráfico submarino de desesperança,
inflação mercantil de náufragos,
para onde lançar bonés ao alto
se o alto não existe?

O Kursk assombra porque é o destino
submerso, a vontade naufragada.
Antes se fazia poema
para a resistência de Stalingrado;
o Kursk é o épico às avessas,
a derrota da máquina,
a desilusão nuclear no coração russo,
navegar em cemitérios,
o caixão gigantesco de ferro e decadência.


Nota: Em agosto de 2000, o submarino nuclear Kursk afundou. Toda a tripulação de 118 homens morreu. Potemkim é o encouraçado símbolo da revolução russa de 1917.


(imagem retirada da internet)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A maçã no escuro, poema RCF






O jóquei monta hipóteses,
a isquemia dos azarões,
chicoteia pavores.
O cavalo bufa músculos.
“Monto, logo existo”.
Por que o jóquei flutua?
Quanto menos homem houver,
maior o prêmio da sobrevivência.

Aposta nos cascos que cavam o ar
– as pules são roletas de quatro patas – ,
o cavalo, nas pistas reiterativas,
linhas de trem,
deseja a paz quadrada da cocheira,
ali donde parte e chega sem sair do lugar.

(foto retirada da internet: exame.abril)

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O pio, poema RCF




A tristeza tem muito de celulóide:
coisa antiga que parada a máquina
se desmancha ao calor das lembranças.
O pio que ouço é pio da morte.
Mas se a morte é silente
como ouvir o que não é mais presente?
como escutar o som do que não se ouve?


O pio desse pássaro
só é emitido por ave em certo cativeiro.
Por isso, pia em outra freqüência:
só escuta quem tem anatomia
que otorrino nenhum alcança:
aquele que o labirinto do ouvido
invadiu outros hemisférios
fez de ouvido o pensamento
fez som onde reina o silêncio
fez do crânio um cativeiro.




(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009. Prêmio de Poesia 2010 da Academia Brasileira de Letras)


(imagem retirada da internet: s/crd.)

Um homem é muito pouco, Vídeo


Clique no endereço abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=4w64p465QwQ

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Anna Akhmátova



Anna Akhmátova nasceu a 23 de junho de 1889 em Odessa, então ainda Império Russo, hoje Ucrânia. Com seu primeiro marido, o poeta Nikolai Gumiliov (1886 – 1921), Serguei Gorodetski (1884 – 1967) e ainda Ossip Mandelshtam (1891 - 1938), formou o grupo de vanguarda dos Acmeístas, ligado à tradição do simbolismo russo, em especial à obra de Alexander Blok (1880 - 1921), apenas cerca de uma década mais velho que eles. Anna Akhmátova estreou em livro com Vecher ("Noite"), em 1912, seguido de Chetki ("Rosário") em 1914. O início da Grande Guerra (1914 - 1918), da Revolução Russa (1917) e dos terríveis anos de Guerra Civil (1918 - 1922) põem fim à chamada Era de Prata da Poesia Russa. Alexander Blok adoece e, necessitando de tratamento fora do país, morre a 7 de agosto de 1921 à espera da permissão do governo para viajar, concedida 10 dias depois de sua morte; Nikolai Gumiliov é fuzilado poucos dias depois como contra-revolucionário; Akhmátova e Mandelshtam, considerados poetas "aristocráticos e incompreensíveis para as massas", têm cada vez mais dificuldade de publicar, até que Mandelshtam é preso e condenado a trabalhos forçados no Gulag (mesmo destino de Liev Gumiliov, filho de Akhmátova com o poeta Nikolai Gumiliov), acontecimentos que encontrariam seu memorial em livros de Akhmátova como Anno Domini MCMXXI (1921) e Réquiem, escrito entre 1935 e 1940.

À MUSA

Quando, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que me importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?" E ela: "Sim, fui eu".


Anna Akhmátov

(tradução de Lauro Machado Coelho)

domingo, 9 de outubro de 2016

O jóquei monta hipóteses, poema RCF

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O jóquei monta hipóteses,
a isquemia dos azarões,
chicoteia pavores.
O cavalo bufa músculos.
“Monto, logo existo”.
Por que o jóquei flutua?
Quanto menos homem houver,
maior o prêmio da sobrevivência.

Aposta nos cascos que cavam o ar
– as pules são roletas de quatro patas – ,
o cavalo, nas pistas reiterativas,
linhas de trem,
deseja a paz quadrada da cocheira,
ali donde parte e chega sem sair do lugar.

(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: degas