sábado, 24 de novembro de 2018

Anatomia do ciclista, O difícil exercício das cinzas






O ciclista é feito de cabeça, tronco e quatro pernas.
Duas de carne e duas de roda.
O ciclista não tem destino
pois o destino é a própria locomoção.
Os motociclistas têm também sua anatomia.
Os motociclistas não necessitam
das pernas de rodas
porque têm vísceras de motor.
As vísceras,
que são motores de carne,
são motores lentos como cavalos no pasto.
Só são poderosos em movimento
e, estanques, submergem ao próprio peso.
Sempre perseguem o movimento
pois há de seguir em frente –
o ciclista não tem marcha a ré.
As pernas de máquina por mais que façam
não escapam do globo da morte
e, se pensam que andam em linha reta,
não percebem que dão voltas em torno de si.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A chuva, poema RCF


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Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.








(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)





O morto solidário, romance RCF




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Agora aquela estranheza. Não era desatento, pelo contrário, se fosse desatento teria deixado passar as cenas desiguais, trocadas, alteradas. Era num meio de semana. O cinema estava vazio. Gostava do Roxy no meio de semana. Uma sala imensa para três ou quatros gatos pingados. Mesmo assim tentei enxergar, no escuro, o rosto das pessoas. Por que não reagiam como eu? Por acaso não haviam se dado conta de que o filme estava alterado?
 Estava ali vendo o filme pela quarta vez. E cada vez que o via, em sessões contínuas, ele modificava uma passagem, uma cena ou um diálogo. O primeiro impulso era vê-lo uma vez mais. Para observar detalhes - filme difícil, de diálogos longos, enigmático. Era louco por cinema. Costumava assistir duas vezes à mesma película. E sempre saía com a sensação de que perdera algo.
 Levantei-me, fui ao banheiro - quatro sessões sem ir ao banheiro, oito horas de filme, um expediente inteiro de filme. Urinei pensando nas cenas. Sempre urinava na louça para não fazer barulho. Mas por que razão urinava agora na louça da privada se não havia ninguém no banheiro? Ao sair percebi que nem o lanterninha nem o bilheteiro estavam no saguão. A baleira tinha apagado o balcão e desaparecido. O mais curioso é que ao entrar novamente na sala de exibição, encontrei-a vazia. Tive medo de algo desconhecido. Imaginei horrores: se gritasse ao ser agredido ninguém ouviria. Quis ir embora, mas a porta do cinema estava fechada.
 Não prestava mais atenção ao filme. As cenas cada vez mais alteradas. Aquele diálogo mesmo que antes era travado entre um camponês e uma dona de hospedagem, agora era repetido por um caixa de banco e uma balconista de lavanderia. A dúvida era saber se realmente o filme se alterara ou algo dentro dele se desregulara e esquecia as cenas anteriores, misturava os diálogos e me surpreendia com o que já tinha visto. Não era muito seguro de minhas emoções, mas aquilo não eram emoções.
 Por fim saí do cinema, tomei um ônibus para o bar onde ficara de encontrar os amigos - e o ônibus vazio. Da janela podia ver as pessoas nas calçadas, em outros veículos. Tinha medo da solidão. Da solidão que esvazia tudo em volta. Mas a solidão podia dar a sensação de vazio e isolamento, mas a solidão não podia mexer nas cenas dos filmes nem esvaziar fisicamente o ônibus. Nem mesmo - a solidão - podia mudar a rota do ônibus. O caminho entre o cinema e o bar era apenas uma reta, uma avenida que mudava de nome ao mudar de bairro mas continuava a ser a mesma avenida. Que diabo fazia o ônibus entrar pelas ruas laterais, estreitas, apertadas pelos carros estacionados de um lado e de outro da rua?
 Agora tudo se completava: o bar de portas fechadas. Dez horas da noite e o bar fechado. O bar mais movimentado do bairro, fechado. Pensei em refazer tudo, sair do cinema, tomar outra vez o ônibus e, quem sabe, encontraria o bar aberto, os amigos bebendo e, ao chegar perto deles, um levantaria o copo de chope e brindaria: ao nosso Rosselini, Roma - o nome do bar era Roma - , cidade aberta.


 Pena estava de robe-de-chambre e tinha o olhar ainda mais estrábico. Sentei na cadeira, levantei, busquei água na cozinha, cada movimento meu era comandado por uma maquininha de dar corda. Até quando teria corda e, depois sem corda, como me movimentar? A mulher de Pena entrou na sala de penhoar e, descabelada, me mirava de boca aberta. Fui ao banheiro. Urinei outra vez na louça da privada. Me veio a sensação de que poderia sair do banheiro e encontrar a sala vazia. Havia deixado o bar - fechado - e me dirigi para o apartamento de Pena esperando que ele estivesse em casa. Pena não só estava em casa como também parecia sair da cama com Leninha. Havia penumbra e cheiro de libido no ar. Pena já me convidara para me acostar com ele e Leninha. O verbo acostar, em espanhol, quer dizer deitar, dormir, foder. Pena usava o verbo em outra língua por ser pernóstico e culto, toda bicha culta - e todo diplomata - adora usar palavras estrangeiras numa conversação vulgar. Mas eu não era homossexual embora ficasse pensando em como seria na cama, eu atrás de Leninha - Leninha era psicóloga, o que eroticamente não interessa nada, mas tinha um belo par de tudo: coxas, seios, orelhas, buracos nasais. Até as coisas únicas de Leninha também me pareciam interessantes - mas enfim eu ficava pensando em como seria na cama, eu, dizia, atrás de Leninha e Pena atrás - ou na frente - de mim. Oh, Deus, a barba aparada de Pena me dava engulhos. O preço para acostarme com Leninha não deveria ser a punição de roçar-me naquele peito cabeludo.




quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Bambolê, poema RCF





A menina com o bambolê
está presa ao zero,
na batedeira do corpo,
no curto-circuito do círculo.


(do livro Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: menina com bambolê, renoir

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Aduana, poema RCF

            


Nada a declarar, nada a declarar,
digo ao fiscal da alfândega.
Na minha bagagem só trago
o tédio de uso pessoal,
o aroma dos descasos
e agasalhos de livros
que mais me desnudam que me protegem.
Nada estrangeiro,
além do meu sentimento
de não ser natural de lugar nenhum.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet

Ó vida contemporânea, poema RCF





                                                                    Ó vida futura,
                                                                    nós te criaremos
                                                                            Drummond



Ó vida passada,
nós te criaremos.
Ontem vou iniciar uma dieta.
Há um mês cuidaremos da saúde.
Usaremos máquina que nunca
a memória ousou pensar ou existir.
No canto escuro das lembranças,
vamos predizer o passado.
Defenderemos teorias já inventadas,
usaremos objetos em desuso,
projetaremos naves enferrujadas
e nos comunicaremos com a tecnologia
primeira e última: o corpo humano.
Ó vida passada
nós te criaremos
a nossa imagem e semelhança.
E vidas que nunca foram vividas
serão futuro e nele futuraremos
todas as invenções que nos transformaram
em outra invenção: o homem sem tempo.
Somos contemporâneos do medo do limo
e viveremos no eterno passado
que é um tempo sem tempo.
Ó vida passada, nós te criaremos,
nós te criaremos em outra dimensão:
o obsessivo tempo virtual.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Alma pequena, poema RCF




Não contente com sua oficina de erros,
criou em mim máquina de desconcertos.
Deus me deu a poesia,
não para que eu fosse poeta,
mas a fim de que,
para onde me virasse,
mais apertasse no pescoço
a agulha da beleza.

Oh, Deus, por que não cozeste meu barro
e deixaste meu corpo em tabatinga viva?
Minhas palavras têm fraquezas de caixa,
argumentos de eco,
digitais que não deixam impressão,
ao morrer serei menos que o vento,
uma forma de existir sem forma.

Deus, dai-me outra alma
que esta já não serve.
Dai-me a madeira dos serenos,
o osso dos indiferentes,
o alumínio dos sensatos,
a cartilagem dos felizes,
oh, Deus, dai-me outra alma
para que meu corpo cansado
de suportar um peso maior
que seu próprio peso,
possa apenas ser um corpo
como outro corpo qualquer.




(A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Deixem nossos escritores em paz, poema RCF






Que direito tem a mão infiel
do duelo de afastar Pushkin de nós?
Por que a mão noturna tirou a vida morena
de Llorca e não deixou que escrevesse
mais sobre Nova York e ciganos?
Que obra não nos deixaria ele
se Dilermano não acertasse seis balas
no corpo seco e sertão de Euclides?

Que fúria inumana é essa,
insanidade do corpo,
a faca entre as pernas,
com sua ânsia cega de outro corpo,
outro corpo assassino e sifilítico,
que dá afasia e loucura,
que mata as flores de Baudelaire
e retira Nietzsche aqui do Bem e do Mal?

Não sabe a genitália, que não é gênio,
nem muito menos culta,
que afrontava o corpo dos dois
como num duelo de si mesmo,
que vence o baixo ventre sobre a alta mente?
Que mão outra senão a mesma,
esquecida que pertencia a um poeta,
agiu mecânica e torpe,
e deu fim à exuberância de ideias
de Maiakovski – a mesma mão
que escreveu seus poemas de futuro?

Por fim, que trama é essa do corpo
que não obedece a seu dono,
que nos corrompe,
furtivamente age por si,
e, amante infiel,
traz garrucha, adaga, sífilis, aids ,
tiro, corda, ponte de suicida,
quando não apenas o inimigo
nos retira o melhor de nós
e deixa que provenha
antes que vinho e carne,
a cotidiana corrupção da matéria,
intestina e inculta,
num duelo que só ela atira.



(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)