sábado, 23 de janeiro de 2016

O crime perfeito, poema RCF



Sentar-se à mesa do mundo
e ver a nova luta de classes:
os pequenos-hamburgueses
contra a dieta dos bóias-frias.

No mundo do McDonald’s
não há tempestade nem calor,
o sujeito no ar condicionado a viver
num balão de oxigênio.

O mundo infantilizado e virtual,
ainda comeremos sem tridimensionalidade,
bichos de videogame
que pastam número numa tela.

A música de câmara
do tilintar das caixas registradoras.
O fígado verde, o baço rubro, o coração azul,
as tripas lilás do homem de plástico
da aula do ginásio no Brasileiro de Almeida.

Oh, admirável mundo velho,
com suas máquinas primitivas,
seus antiquados transplantes
de córnea e fígado,
sua precária medicina de implantes de braço
e de chips no cérebro.

O mundo gira em torno da órbita
                              do olho;
                              só o olhar é que importa
                              e só o olhar nos sacia, mata a fome,
                              amaina a sede, nos dá sexo
                                                              e nos excreta.


(imagem retirada da internet: culturamix)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Crime passional, poema RCF





Só o homem é capaz do exagero.
Aquilo que aparenta ser exagero
– tempestade, tormenta, rio caudaloso –
é apenas crime passional das águas.

Ó tu que não sabes ser só,
vem, aconchega-te,
a natureza não conhece a solidão.
Por que o vermelho
dá a falsa impressão do grito?


(Eterno passageiro, 2000)


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A corista, Tchékhov

Dias atrás mandei chamar a governanta dos meus filhos, Iúlia Vassílievna, ao meu gabinete. Precisávamos acertar as contas.
– Sente-se, Iúlia Vassílievna! – eu disse. – Vamos acertar nossas contas. A senhora provavelmente necessita de dinheiro, mas tem cerimônia demais para pedir… Vamos lá. Nós combinamos trinta rublos por mês…
 Quarenta…
– Não, trinta… Eu tenho aqui escrito… Eu sempre paguei trinta para as governantas… Então, a senhora ficou aqui dois meses…
– Dois meses e cinco dias…
– Dois meses exatos… Eu tenho aqui anotado. Portanto, a senhora tem a receber sessenta rublos… Temos que descontar nove domingos… pois a senhora não estudou com Kólia nos domingos, somente passearam… e houve ainda três feriados…
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e começou a repuxar os babadinhos de sua roupa, mas não disse uma só palavra…
– Três feriados… Consequentemente, vamos tirar doze rublos… Durante quatro dias Kólia ficou doente e não teve aulas… A senhora estudou só com Vária… Três dias a senhora teve dor de dente e minha esposa permitiu que a senhora não desse aula depois do almoço… Doze mais sete – dezenove. Subtraindo, restam… hum… 41 rublos. Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou vermelho e cheio d’água. Seu queixo tremeu. Ela deu uma tossida nervosa, assoou o nariz, mas nem uma palavra!
– Na véspera de ano-novo a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. Vamos tirar dois rublos… A xícara custa mais do que isso, era herança de família, mas… deixa pra lá! Não vamos fazer questão disso! Adiante: devido à sua falta de atenção, Kólia subiu numa árvore e rasgou seu casaquinho. Vamos tirar dez… A arrumadeira, também devido à sua falta de atenção, roubou umas botinas de Vária. A senhora deveria cuidar de tudo. É para isso que recebe um salário. Então, vamos tirar mais cinco… No dia sete de janeiro a senhora pegou adiantado comigo dez rublos…
– Eu não peguei! – sussurrou Iúlia Vassílievna.
– Mas eu tenho aqui anotado!
– Então, está bem… Que seja.
– De 41 vamos subtrair 27 – restam catorze.
Os dois olhos de Iúlia Vassílievna encheram-se de lágrimas… No seu belo e alongado narizinho apareceram gotas de suor. Pobre menina!
– Eu só peguei uma vez – disse ela com voz trêmula. – Peguei com a sua esposa três rublos… Não peguei mais…
– É mesmo? Ora, mas isso não está anotado! Tirando três de catorze, sobram onze… Aqui está o seu dinheiro, caríssima! Três… três… três… um… um… Tenha a bondade de receber!
E lhe entreguei onze rublos… Ela pegou o dinheiro e com os dedinhos tremendo meteu-o no bolso.
 Merci – sussurrou ela. Levantei-me de um salto e comecei a caminhar pelo gabinete. Estava indignado.
 Merci por quê? – perguntei.
– Pelo dinheiro…
– Mas eu a roubei, com os diabos, eu a assaltei! Acabei de roubá-la! Por que merci?
– Nos outros lugares eles não pagavam nada…
– Não pagavam? Então não é de se estranhar! Eu estava brincando com a senhora, estava lhe dando uma lição cruel… Vou lhe pagar todos os oitenta rublos! Estão aqui preparados, neste envelope! Mas é possível ser assim tão pateta? Por que a senhora não protesta? Por que fica calada? Será que neste mundo é possível não ser atrevido? É possível ser tão palerma?
Ela deu um sorriso azedo e eu li no seu rosto: “É possível!”.
Pedi desculpas pela cruel lição e, para sua grande surpresa, entreguei-lhe todos os oitenta rublos. Ela disse um merci tímido e saiu… Fiquei olhando quando ela se afastava e pensei: “Como é fácil ser poderoso neste mundo!”

19 de fevereiro de 1883


(in A corista & outras histórias, L&PM POCKET)

 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O beco do corpo, poema RCF




A febre faz mormaço no meu corpo.
As juntas discordam
o bípede que hospedo.
Mínima queda de braço
derruba o dedo levantado da presença.
O que é víscera
se comporta à flor da pele onde nada medra.
Este calafrio responde ao calor
que insiste em tremer
o que se paralisou.
Nenhuma aspirina cura meu quebra-cabeça.


(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)



imagem retirada da internet: julianery

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A prosa e o verso maranhenses em quatro autores, por Lourival Serejo



Praça Gonçalves Dias

                                                                                                         

Sem a pretensão de fazer crítica literária, venho falar de quatro livros e quatro autores maranhenses. Refiro-me a lançamentos recentes, que confirmaram o talento desses escritores na prosa e na poesia.

O que antes era raridade – a sequência de lançamentos de livros –, nos últimos anos, em São Luís, tornou-se motivo para comemorar. São muitas edições aprimoradas, graças ao avanço técnico de novas gráficas instaladas e o destaque de profissionais que trabalham nesse desafiante artesanato de fazer livros. A Academia Maranhense de Letras tem feito o seu papel, nesse momento de expressividade, promovendo vários lançamentos, muitos deles com o selo da Casa.

Inicio esta digressão banhando-me n´O rio, de Arlete Nogueira da Cruz. A prosa da autora de Litania da velha flui como a correnteza do seu rio: tranquila, leve e envolvente. A magia que emerge da prosa de Arlete tem raízes no sentimento da terra que ela cultiva ainda hoje, mesmo tendo deixado sua aldeia há muito tempo.

A história de Pedro, que Arlete nos conta, em O rio, com muita habilidade, é a angústia que domina todo jovem, principalmente os jovens daqueles tempos, sem a facilidade de comunicação que temos hoje. É a busca de si mesmo e o desejo de conquistar o mundo. De certo modo, Pedro é Arlete, no que ela tinha de jovem inquieta e sonhadora, desejando navegar por outras águas em busca da sua afirmação.

As ilustrações de Péricles embelezam ainda mais o livro da musa do poeta Nauro Machado.

Do rio de Arlete, contemplo o Último sol nascente, de Alex Brasil.  Depois de consagrar-se como poeta, Alex atirou-se ao conto, esse gênero que cativa todos os escritores, tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo. No meio dessa incerteza é que veio a famosa e muito citada frase de Mário de Andrade, dita em tom de desafogo diante de tantos originais para opinar: Conto é tudo aquilo que chamamos de conto.

Propositadamente, o autor deixou o conto cujo título dá nome ao livro, para o final, com o propósito de nocautear o leitor com uma história bem elaborada e bem concluída.

Por coincidência, o prefaciador do livro de Alex é o próximo autor de quem pretendo dizer alguma coisa. Já tive oportunidade de falar sobre a prosa de Ronaldo Costa Fernandes, ao comentar seu romance Um homem é muito pouco. Agora, ele volta à poesia, com a mesma competência que lida com a prosa, apresentando-nos Memórias dos porcos. O denominador comum dessa habilidade, não há dúvida, é a sensibilidade do escritor em sintonizar-se com a matéria-prima dos seus trabalhos.

Chamou-me a atenção o poema “Minha fraqueza é meu único talento”, quando o poeta diz: “Sou apenas um homem/ e um homem é muito pouco”. Nesse excerto, encontrei a chave para explicar o título do seu romance já referido: Um homem é muito pouco.

Para falar dos poemas de Ronaldo, teria que usar todo este espaço, o que ofenderia a isonomia que pretendo dedicar aos quatro escritores aqui mencionados. Destaco, só por ênfase, estes poemas que mais me cativaram: Verso e reverso, Código penal, Prescrição médica, Testamento, Carga pesada e Meu pai tem um calendário. Impossível deixar de me solidarizar com o poeta, quando ele clama: “Não posso viver num mundo/em que tudo se transforma em hipótese”.

Por fim, apraz-me falar do último romance de Waldemiro Viana: O pulha fictício. Usufruindo de sua gentileza, já havia lido os originais desse livro, muito antes de sua publicação.

Waldemiro não é mais calouro no romance. Anteriormente, já nos brindou com outros títulos: Graúna em roça de arroz (1978); A questionável amoralidade de Apolônio Proeza (1990); O mau samaritano (1999); e A toga e a tara (2010).

A receptividade que O pulha fictício está merecendo dos leitores é proporcional à naturalidade como o autor articula o enredo dos seus romances, motivando o leitor a chegar até ao fim para, então, ser compensado com o término da leitura.

Como se vê, essas quatros amostras que acabo de expor dão o toque da qualidade das nossas letras, atualmente, com novas publicações e a demonstração da capacidade desses já conhecidos escritores.


                           (Publicada no jornal O Estado do Maranhão, em 13 de abril de 2013).