terça-feira, 29 de dezembro de 2015

As palavras interditas, Eugênio de Andrade





Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


 

           De As Palavras Interditas (1951)




 

domingo, 27 de dezembro de 2015

O viúvo 18


 
O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.
 
 
(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O viúvo 17


 
 
            Onde ficam as minhas portas da percepção? Nos olhos? Então se fecho os olhos, fecho as minhas portas da percepção? Não posso perceber as coisas de olhos fechados? E mais ainda: a percepção é visual? Tenho que ver as coisas para entendê-las? Onde está o poder da minha abstração? As coisas não existem como conceito, tenho de tocá-las? E se as portas da minha percepção estiverem no tato? Ou em órgão interno? Não precisarei ver as coisas para tê-las comigo. As coisas existem no mundo. Para obtê-las, para ter a percepção delas, não necessito de um olhar.
Essas considerações vieram a partir da minha leitura de As portas da percepção, de Huxley. Mas não li As portas da percepção há pouco tempo. Li já há alguns anos. E minha parceira perceptiva foi D. Benedita.
E voltaram as questões depois de um demorado desmaio. E uma dolorosa recuperação. Uma lenta, paulatina, arrastada e doída volta à realidade ou volta à percepção das coisas. Minha percepção não está nos olhos, embora Huxley fale de olhar para as coisas com novos olhos. Todos os livros de auto-ajuda falam em olhar as coisas com novos olhos. Parece anúncio de ótica. Ou coisa tibetana. Há algo de tibetano no livro de Huxley. Ele estava entusiasmado com a mescalina. Fizera experiências assistido por médicos, fazia aquelas maluquices como se já não fosse suficiente ter escrito o que tinha escrito. E não era só ele, porque a época pedia aquela nova sensibilidade e o relato com experiências com drogas já vinha desde o século de De Quincey e de Baudelaire e os artistas buscavam inusitadas formas de apreensão da realidade a fim de ficarem geniais e descobrirem zonas nãotocadasdamente.
Há algo de tibetano em D. Benedita. Mas ela desconhece que sua mente virgem, ainda não desbravada, só pode alcançar o conhecimento pleno se ela modificar-se e abrir suas portas da percepção. Onde estariam as portas da percepção de D. Benedita? Nos olhos fracos e míopes? nas pernas finas e bambas, no sexo desusado e desbeiçado pelo tempo?
O inglês relatava suas experiências alucinógenas com mescalina e propunha, entre inúmeras outras formas de experimentar o inusitado, que nos deitássemos no chão da sala. Tentei deitar no chão da sala para ver os móveis de outra perspectiva. Não descobri nada novo, nada me foi revelado, a sala aqui tomava outra figuração, mas não apresentava nenhuma descoberta espantosa.
Os objetos pequenos se escondem debaixo do sofá. Eu podia perder outros objetos pequenos debaixo do sofá: a pequena preguiça, o pequeno tédio, o pequeno orgulho. Não sou bobo de acreditar que Huxley falava de modo literal. Queria apenas que a gente visse o mundo de maneira distinta e não a rotineira e habitual.
Também meus objetos pequenos – oh eu não falava de modo literal. O orgulho mesmo é tão pouco, ínfimo, tamanho de botão que não sei se o perdi ou mesmo nunca o tive.
Tornei a deitar no chão da sala. Ali estava eu, estatelado, braços abertos, uma estrela humana, sem brilho, o teto sobre meu espanto. O espanto é a palavra de que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento. Se algo não passa pelo meu espanto, não me afeta. O pasmo é que faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade.
Em vez de tomar mescalina, eu tomo pasmo.
Havia poeira nos móveis, uma cadeira estava com o pé descascado e por aí vai. Não era isso que Huxley chamava de as portas da percepção.
Eu não ia reclamar com D. Benedita, dizer, olhe, deitei aqui pra ver o mundo de forma diferente e descobri que a senhora varre pelos caminhos, não limpa direito os móveis ou coisa parecida. Era uma mistura muito exótica e incompatível entre Huxley e sua mescalina e D. Benedita e seu pano úmido com lustra-móveis.
Nada de nova sensibilidade. Não houve pasmo, não houve descobrimento. De repente tudo sumiu. Anoiteceu na minha porta. Desmaiei. Quando abri os olhos, apareceu o carão velho e vincado de rugas de D. Benedita.
O que faz D. Benedita nas portas da minha percepção?
 
 
 
(do livro O viúvo. Brasília: LGE, 2005)
 
 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Lição de anatomia, poema RCF





Sou coisa
Algo assemelhado a
lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Oftalmologia, poema RCF




Quando estou cheio de cimento
das cidades
em meus olhos crescem grama
por isso talvez eles sejam verdes.

As pupilas têm o senhor reitor
das jabuticabeiras
e quando é inverno neva histórias
nos afluentes das íris.


(imagem internet: dali shirley temple, 1939)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Andy Warhol, poema RCF





Tu, Andy,
novayorkino polinésio,
Gauguin do Soho,
clichê de tua cabeleira pintada,
paixão em negativo colorido,
na solidão das séries
o tutti-fruti dos desvarios.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)



imagem retirada da internet: andy wharol

sábado, 19 de dezembro de 2015

Nadar quando se voa, poema RCF


 

Um pequeno ser – vespa
ou algo parecido – bate
asas no ar pesado da água.
O ser alado não entende
como seu habitat  se tornou
denso e líquido
e que voa na horizontal,
sem fôlego, à beira da exaustão.
 
Nunca imaginou que existir
exigisse tamanho esforço
e aquilo que era fluido e gasoso
passou a ser um tormento aquoso.
 
Retirado da água,
longe do pesadelo molhado
esquece que um dia esteve
preso a sua própria precariedade
e que nadou numa piscina
como um peixe que voasse.
 
A vespa nos lembra
que, como uma gravidez de pânico,
às vezes esquecemos a dor do parto
de nadar quando se deveria voar
ou voar quando nadar é preciso.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Poema de amor, RCF




 

 

Meus cílios batem asas mas não voam.
Digo ao meu amor: buganvila-me.
Às vezes falo nerudamente.
Sua o corpo de mulher,
fecha os ouvidos da perna
e aí meu pensamento
sussurra em língua Breton.
Três caravelas descobrem
a américa do meu norte:
santa maria pinta e borda,
sob os olhares de Nina.
E aí me pergunto:
de quantas luzes
se faz um escuro?
Ela, com sexo submarino e salgado.
Uma igreja não é um templo,
mas uma caixa de esperança.
Meu medo às vezes enferruja.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poema sobre cheiro, RCF




Naquelas tardes neutras
cheiravas a navio.
Cabelos invadiam o voo dos ventos
e se faziam asas
que em vez de pena
usavam fios sonoros e socorros de cabelo.

Se tu fosses uma morta,
mesmo com a fetidez da morte,
ainda seria um odor vital.
O morto não tem narinas,
não pode respirar o fim.
O teu cheiro é vontade de ser carne.
O teu cheiro – vapor –
é um dos estados da carne.

Meu cheiro tem lembranças
de outros cheiros teus.
Nada mais sugestivo
que o olor do canto
– o canto, por sua vez,
traz teu cheiro em forma de som.

Gostaria de ter um armário de cheiros
– não o armário de cheiros
dos perfumes que são bibliotecas
de cheiros – mas a estante
guardada dos mínimos anos.
Lá poderia me apropriar
do raso, do fluido,
do inexato, de ti.
Meu cheiro tem vários sentidos.



(do livro A máquina das mãos, 2009, prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras 2010)


(imagem internet: di cavalcanti)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Mares, poema RCF

malecón de Havana

Na Venezuela, meus companheiros
me levam para ver o mar do Caribe.
Bebemos, rimos, comemos peixe à beira-mar.
Me perguntam o que acho do mar do Caribe.
Ora, amigos, o mar é o mesmo como uma nota musical.
No malecón de Havana, Cuba,
em La Guaira ou na Urca,
o mar não tem sotaque nem hino que se cante.

Uma cantora canta El día que me quieras e penso
que o que vivi é apenas bolero.
Os amigos são fotos que falam, batem no ombro
e dizem que não vale a pena sofrer por uma mulher.
Os amigos afundam na densa neblina da essência e, fugidios,
deixam-se entrever na parede do espanto e nas portas do tédio.

O mar chocoalha as maracas de espumas
para acompanhar a cantora.
Alguém, bêbado, brinda a mim;
penso na ressaca exagerada de mim mesmo,
no sal extravagante da memória e dos fugazes tateares
do mistério de ser eu mesmo meu algoz.
Falam de mulheres e riem alto. Nada mais sabem de literatura.
Ao diabo a literatura!
E então penso em ti, que engana meus sentidos,
como o pau de sebo das marés
se oferecendo e recusando como dois amantes com remorso.

Ao final saímos do bar e dirigimos feito loucos
sempre bordejando o mar, eternamente bordejando o mar,
o mar que sacode o lenço de sal e maresia.
Onde estarás agora que arrisco minha vida e minha literatura
na avenida beira-mar de um país distante?
Onde estará teu corpo de ausência
e cavalos-marinhos de torpor e vício?
A literatura já não me importa, nem mesmo a vida
com suas saias rodadas e luas espessas já não me importa.
O álcool espuma nas veias como o buscapé das águas
explodindo nas pedras.
De que me valeu ler tantos livros?
O carro, embriagado de espanholismos e de desterros fatais,
envereda pela maré baixa, me torno sutil e melindroso
como um caranguejo que palita o andar.
Que horas devem ser no Brasil?


(poema do livro Andarilho)


sábado, 12 de dezembro de 2015

O passageiro de papel, poema RCF








Sou máquina que cospe eternidade,
as linhas aqui não gemem,
os pontos imaginários não se pegam,
tudo é exatidão de tempo recortado.

Não há antes nem depois da fixa foto,
apenas o gesto do imóvel limite,
a faca do tempo com que me corto,
a vida mesmo kodak que me demite.




( Eterno passageiro, Brasília: Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: otto dix

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Monjave, poema RCF





No deserto de Monjave,
há um cemitério de aviões.
Poeira vazio seco vento estéril
Vento dolorosamente seco do deserto.
Vento cassino
vento jogador
roleta de poeiras
vento máquina
que vem de Las Vegas.
Lá estão os aviões,
enfileirados em sua cova
cova de aço, cova de asas
apodrecendo
do verme da oxidação.
No deserto de Monjave,
os aviões têm sua lápide mais comercial:
a marca da empresa.

Em outros desertos,
não se poderia
expor o humano à oxidação,
os mortos não têm corpo de aço,
homens não podem fazer de seu corpo cova,
os vivos não suportariam
conviver com o horror
de ver os mortos como os aviões de Monjave
a lembrar-lhes a inconstância do minuto
e a perenidade do fim.
Os mortos devem ser enterrados
bem enterrados, bem cobertos
para esconder o horror insalubre.
Mortos devem ser enterrados
e, medo maior dos vivos,
para que não tragam
em sua carcaça como os aviões
no corpo sem asas
seu próprio logotipo: o esqueleto.




(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Três breves contos de Cortázar


Blog de pre-vestibular :SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR, CORTÁZAR: Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio, em Histórias de cronópios e de famas

 Julio Cortázar em Paris


Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.


Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.


As linhas da mão


De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do para-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) alcança o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.


(in Histórias de cronópios e de famas de JULIO CORTÁZAR, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998, trad. De Gloria Rodríguez)