sábado, 27 de agosto de 2016

Férias, RCF





Aqui, quieto em meu canto
sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol,
penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis
para divertir-me nas férias estrangeiras.
Não, só preciso da vontade,
nem sempre firme,
um vento estradeiro,
um alarde distante de pássaros
e nada além do meu corpo.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)


imagem retirada da internet: miró


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Imaginaciones violadas, poema em espanhol RCF








El panadero ejerce el fermento
en la alquimia del horno
que todo lo asa: trigo y cotidianeidad.

Hay cola de espantos
para comprar el alimento
que ya está en nosotros:
rutina de existir cada mañana.

Hay algo de bíblico
en mi ateísmo descafeinado
y en el confuso café con leche
en el que las materias filosóficas
se redujeron, en mi mesa, a migajas.

La imaginación es el gran panadero,
por un lado me fermenta,
por otro me coloca en su horno:
la combustión de existir.

(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)




Imaginações violadas




O padeiro exerce o fermento
na alquimia do forno
que tudo assa: trigo e cotidiano.

Há fila de espantos
para comprar o alimento
que já está em nós:
rotina de existir todas as manhãs.

Há algo de bíblico
em meu ateísmo amanteigado
e no confuso café com leite
em que as matérias filosóficas
se reduziram, em minha mesa, a migalhas.

A imaginação é o grande padeiro,
de um lado me fermenta,
de outro me coloca em seu forno:
a combustão de existir.

(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Exília, de Alexandre Marino



O bom poeta Alexandre Marino acaba de lançar Exília, pela editora Dobra, de São Paulo. Abaixo, uma crítica de W.J.Solha sobre o livro de Alexandre:



São todos movidos, ao mesmo tempo, pelo desejo de mudança — de autotransformação e de transformação do mundo em redor — e pelo terror da desorientação e da desintegração, o terror da vida que se desfaz em pedaços. Todos conhecem a vertigem e o terror de um mundo no qual “tudo o que é sólido desmancha no ar”.
“Todos”, ele diz. Shakespeare, venerado por Marx, faz Hamlet se lamentar, ante a situação que vive (conforme tradução de Luís I, de Portugal):
Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril promontorio, este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde brilha o oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de vapores pestilentes.
E eis o “clima” de Exília, conforme seus melhores versos:
A cidade
é o lado de fora dos muros do cemitério.
(Definição de cidade, pág. 49)
Este é meu corpo (que) a cada retorno a ancestrais paisagens
descobre jamais ter estado lá.
(Amálgama, pág. 52)
Se nem meus limites
dão forma ao que sou,
onde procurar
o que não sou?
Infinitos Limites, pág. 60)
Quando me acerco da cidade sonhada
não está lá
(A cidade Sonhada, pág. 65)
Nunca estou onde estou.
(A cidade Sonhada, 65)
Atônito nada
sempre à espera.
(Nenhuma Nuvem, 67)
Homens perdidos entre lapsos de memória.
(Brasília sob a Neve, 68)
Correndo atrás do sonho que acabou.
(London sweet Londres, 71)
Criatura sem norte,
inventa perfídias,
sonhos e fábulas,
e diante da morte
erige catedrais
onde perde a alma.
(Dia das Caças, pág. 26)
Paredes nada sustentam,
não há imagem no espelho.
(Desconstrução, 102)
Aqui houve uma cidade.
(Desconstrução, 104)
E eis o seu momento mais Hamlet-Marx-Berman:
Há o cosmo, o universo,
e no entanto
todo o concreto se desvanece.
(O Velho Poeta, 107)
Nesse contexto, só a arte salva. Porque os poemas guardam/ o que outras vozes / emudecem. (Aquarela, 87)
Há um momento em que as luzes se apagam
e tudo se ilumina:
as razões incompreensíveis,
o caminho dos acasos,
a ordem do universo,
e os mistérios
impossíveis de enunciar.
(Cenário ao Fim da Tarde, 81)
Daí A luta por um lugar/ no poema.
(Palavras, 74)

Leia mais: http://www.alexandremarino.com/#ixzz2btQDMmAX

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Viuvez da humanidade, crítica sobre O viúvo


Não é só pelo texto de correta sintaxe, ou pela impecabilidade do andamento da narrativa, construída em unidades de dominada autonomia, que o romance de Ronaldo Costa Fernandes – cativa, assoberba e embebeda o leitor, mas, sobretudo, pela capacidade de fundir personagem e realidade. No andamento, a realidade vai se fechando com suas falências, nada incentivadoras do investimento afetivo. Várias outras superposições criativas apontam para a oportunidade de se inscrever O viúvo (LGE) entre os grandes clássicos da literatura brasileira, e que o recomendam para estudo nos assentos escolares para que seja identificado o homem que vai se moldando na automatização das relações sociais, somadas aí as muitas perdas a que ele se submete. Primeiramente, o domínio de localização temporal do personagem. Em seguida, os diálogos, que não funcionam com a presença de um interlocutor, mas com a intervenção das próprias neuroses do personagem. Assim, Ronaldo Costa Fernandes, já aclamado por críticos como Franklin de Oliveira e Oswaldino Marques, e detentor de vários prêmios (destaque para o Casa de Las Américas e o Guimarães Rosa), com O viúvo demonstra que, além de conhecer os domínios da narrativa, encontra-se no auge de sua potencialidade criativa.

















Jornal do Brasil - 23/12/2005 - Salomão Sousa



domingo, 21 de agosto de 2016

Pernas pra que te quero, poema RCF



Minhas pernas são ponteiros sem relógio.
Minhas pernas caminham no salto alto da queda.

Há pernas góticas, finas e torcidas;
há pernas barrocas, gordas e bem torneadas;
há pernas de Gaudí, dispersas e ocas
como a Sagrada Família.

Minhas pernas têm vida angustiada
como um gato miando atrás da porta.


(do livro Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: armitage