sábado, 27 de agosto de 2016

Férias, RCF





Aqui, quieto em meu canto
sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol,
penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis
para divertir-me nas férias estrangeiras.
Não, só preciso da vontade,
nem sempre firme,
um vento estradeiro,
um alarde distante de pássaros
e nada além do meu corpo.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)


imagem retirada da internet: miró


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Machado de Assis, de Lucia Miguel Pereira



Resultado de imagem para lucia miguel pereira



BIOGRAFIA LAPIDAR, BIOGRAFADO GENIAL,
BIÓGRAFA EXEMPLAR

Fabio de Sousa Coutinho
(Titular  do PEN Clube do Brasil
e da Academia Brasiliense de Letras.
Presidente da Associação Nacional
de Escritores – ANE)

            A paixão e o amor por Octavio Tarquínio de Sousa, intensamente correspondidos, coincidiram, na vida de Lucia Miguel Pereira, naqueles primeiros anos da década de 1930, com uma verdadeira explosão cultural. Assim é que, após período de um lustro dedicado a incansável pesquisa de fontes, saiu, em setembro de 1936,  pela  Companhia Editora Nacional, Machado de Assis (Estudo Crítico e Biográfico). Sua autora tinha, então, precoces, juveníssimos e incompletos trinta e cinco anos, a mesma idade de Machado quando compôs A mão e a luva, um de seus primeiros romances (1874). Tornava-se Lucia, com o livro seminal, uma estrela na constelação das letras nacionais. Um mês antes, em agosto de 1936, viera a lume Angústia, o romance que consagrou o alagoano Graciliano Ramos como o mais completo ficcionista brasileiro depois de Machado de Assis.
            Haviam decorrido, então, exatos vinte e oito anos da morte de Machado, e o inigualável escritor, o maior de todos, ainda não tinha merecido uma obra como a que Lucia Miguel Pereira produziu com mão de refinada esteta, admiração de leitora encantada e perspectiva crítica de superior conhecedora da vida e da obra de seu luminoso personagem.
            Antes do livro pioneiro de Lucia, surgiram diversas manifestações de apologia e louvação machadiana, mas nenhuma que pudesse ostentar a condição de biografia intelectual do gênio literário brasileiro. Em 1899, numa contundente resposta a críticas injustas e preconceituosas a Machado de Assis, Lafayette Rodrigues Pereira, sob o pseudônimo de Labieno, produziu e publicou, nas páginas do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, Vindiciae – o Sr. Sylvio Romero. O impacto da contradita (em português, Vinganças) foi arrasador, a ponto de, morto o Presidente e fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1908, Lafayette ser eleito, no ano seguinte, para sucedê-lo na Cadeira n° 23 da gloriosa instituição. Mas Vindiciae é apenas uma pronta  e firme contestação a um ataque motivado pela importância que Sylvio Romero, em livro de 1897, desejava que tivessem Tobias Barreto e a chamada Escola do Recife em face de Machado. Labieno, com verve e erudição, provou que a pretensão de Romero era infundada,  descabida e parcial.
            Poucos anos após o falecimento de Machado de Assis, em 1912, para ser preciso, seu amigo Alcides Maya, fino escritor gaúcho, dedicou-lhe um precioso ensaio, focado na forte influência inglesa que marcou as principais obras machadianas, mais especificamente o ciclo virtuoso que se iniciou em 1880, com a publicação, inicialmente na Revista Brasileira, das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Intitulado Machado de Assis –algumas notas sobre o humour, o livro de Maya nasceu com o destino selado: seria, para sempre, um clássico dos estudos machadianos, um rigoroso apanhado das decisivas influências que William Shakespeare, Jonathan Swift, Laurence Sterne (mormente este), Charles Dickens e William Thackeray exerceram sobre Machado, diferenciando sua obra de tudo o que existia até então em nossa literatura, precisamente pela força do humor, da ironia, do sarcasmo, do riso castigando os costumes, da observação psicológica, da corrosividade, da ausência de qualquer ilusão sobre os homens. Em 2015, com apresentação do acadêmico e professor Alfredo Bosi, o Machado de Assis de Alcydes Maia foi relançado, em terceira edição (a segunda saíra em 1942), pela ABL, na Coleção Afrânio Peixoto.
            Entretanto, Alcides Maya não escreveu uma biografia. Seu livro é de extração ensaística, de qualidade rara, mas um ensaio. Na mesma categoria se inserem os ensaios críticos de Araripe Júnior, cobrindo o período de 1895 a 1900, em que o cearense analisa e interpreta, com visão de expert, o alcance da obra machadiana, que, naquele momento, já abarcava os três romances que dela fizeram conjunto insuperável de criação romanesca: o mencionado Memórias Póstumas de Brás Cubas, que saiu em livro em 1881, Quincas Borba, de 1891, e Dom Casmurro, de 1899. Mas Araripe, a exemplo de Alcides Maya, não foi biógrafo de Machado de Assis. Interpretou sua obra de modo impecável, teve a nítida percepção de que se estava diante de uma nova estética na Literatura Brasileira, porém não biografou, na medida clássica da expressão, o imenso vulto que marcou nossas letras de modo tão avassalador.
            Quem mais se aproximou de fazê-lo, quem ficou mais próximo de uma biografia de Machado, antes de Lucia Miguel Pereira, foi Alfredo Pujol, numa série de sete conferências, proferidas ao longo de quase três anos, de novembro de 1915, a primeira, a março de 1917, a sétima, na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo. Alguns meses após a última, editou-se o volume reunindo todas elas, com o título de Machado de Assis – Conferências, sob a égide da Typographia Levi. Recentemente, em 2007, o livro de Pujol foi republicado em caprichada coedição da Academia Brasileira de Letras e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
            Advogado e bibliófilo, dono de estupenda biblioteca, Alfredo Pujol se tornara, pela leitura incessante, admirador incondicional da obra machadiana. Suas conferências têm, portanto, as características da paixão, do culto à memória de Machado de Assis, do amor de um autêntico precursor dos biógrafos machadianos. Paciente, determinado e dedicado, Pujol percorreu nas suas célebres sete conferências, livro após livro, toda a produção de Machado, num trabalho sem descanso de divulgação e afirmação, iniciado quando eram decorridos apenas sete anos da morte de Machado de Assis e ainda sob o impacto da crítica destrutiva e negativa de Sylvio Romero, não obstante já ter sido contraditada por Lafayette Rodrigues Pereira, Araripe Júnior e José Veríssimo. Aqui, de novo, não se tratou de uma biografia no sentido técnico, e sim de um preito de reverência, da palavra pronunciada com riqueza de informações concretas e incontida veneração, enfim, das impressões descritivas de um leitor genuinamente apaixonado.
            Por volta  de 1932, surgiram os livros de Fernando Nery, Vianna Moog, Mário Casasanta e a reedição, em Minas Gerais, do Vindiciae, de Lafayette Rodrigues Pereira. Em 1935, outro gaúcho, Augusto Meyer, publicou seu revolucionário ensaio machadiano, livro de alto quilate, reeditado algumas vezes em décadas posteriores. Meyer pôs em relevo o lado demoníaco, subterrâneo, de Machado, traduzido em amargor e ódio à vida, toda uma filosofia niilista e trágica a envolver seus contos e romances de uma atmosfera densa de pessimismo e derrotismo.
            Biografia mesmo, na acepção mais estrita e corrente do termo, foi Lucia quem primeiro fez. Com o subtítulo Estudo Crítico e Biográfico, ela soube mostrar Machado de Assis como um complexo e humaníssimo personagem brasileiro e deu à sua obra uma interpretação de cunho psicológico, social e cultural que até hoje, dezenas de biógrafos, dúzias de biografias e centenas de interpretações depois, permanece como referência inafastável nos estudos machadianos.
            Em uma antológica sucessão de capítulos (vinte e um, no total) e passagens memoráveis, lastreada em longo período investigativo e produzida com absoluto domínio de recursos estilísticos, Lucia Miguel Pereira evidenciou, no seu primeiro grande livro, que não haverá, em nossa literatura, uma biografia dessa natureza – biografia e estudo crítico de um puro homem de letras.
            Lucia fixou, para a eternidade, a vida de um mestiço de origem humilde – filho de um mulato carioca, pintor de paredes, e de uma imigrante lusitana da Ilha dos Açores – que, tendo frequentado apenas a escola primária e sido obrigado a trabalhar desde a infância, alcançou alta posição na burocracia e obteve a consideração social numa época em que o Brasil era ainda uma monarquia escravocrata. É certo, e justo frisar, que, graças às tendências literárias do Imperador Pedro II, o valor intelectual era então mais acatado, em comparação com o econômico e, até mesmo, com os valores hereditários.
            Autodidata, Machado se formou na Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura (localizada na Rua Luís de Camões, n° 30, no centro da cidade do Rio de Janeiro), valendo notar que, na presidência de Machado de Assis (1897-1908), a ABL veio a realizar várias sessões solenes, de posse e de saudade, no Real Gabinete Português de Leitura. Foi a volta triunfal de Machado às suas mais caras origens culturais, ao berço de sua prodigiosa ascensão intelectual e social.
Aprendiz de tipógrafo e, depois, revisor, tudo Machado de Assis aprendeu por si. E pelo esforço próprio foi erguendo o espírito e depurando o gosto de tal modo que aos 42 anos, ao publicar em livro as Memórias Póstumas de Brás Cubas, se apresentou perfeito na forma, sem vestígios do autodidatismo e da falta eventual de um ambiente familiar socialmente elevado. Foi precoce - seu primeiro poema data dos 16 anos  –, triunfou cedo, viu-se consagrado, como poeta, aos 25 anos, com Crisálidas, fez a sua evolução dentro de uma época literariamente convencional, viveu sempre no Brasil, longe dos grandes centros da civilização literária, prodigalizou-se em colaborações jornalísticas, obteve um êxito prematuro em contos ainda balbuciantes e romances sem originalidade, julgou-se, talvez, principalmente poeta – e nenhum desses fatores negativos o prejudicou e nada impediu a eclosão, quase súbita, da obra novelesca de língua portuguesa mais reveladora de genial poder de análise psicológica.
Como demonstra Lucia Miguel Pereira, o poeta parnasiano das Ocidentais não é, sem dúvida, desvalioso, e quem escreve o soneto A Carolina ­– a mulher de Machado, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, que tão beneficamente influiu na sua vida – merece figurar em qualquer antologia da lírica em nosso idioma. Mas é tão excepcional o valor do contista e do romancista que o brilho de sua estrela poética empalidece, aos olhos de sua primeira e mais importante biógrafa. Também o seu teatro ficou na sombra.
Nunca se deu, aliás, é também Lucia quem registra, na Literatura Brasileira, e muito raramente em qualquer literatura, um fenômeno como o de Machado de Assis, que, quase de repente, já na maturidade, se pôs a fulgurar com brilho próprio e tão intenso que passou a ser, e ainda hoje o é, o mais original escritor do Brasil. Antes dos 50 anos, pôde ser celebrado pelos contemporâneos como “o primeiro de todos”, “o único” – e, se não é o único, numa literatura que conta alguns valores absolutos, é, pelo menos, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mais extraordinário contista da língua portuguesa e um dos raros romancistas de interesse universal, como o atestam as traduções das suas obras mais representativas para os principais idiomas cultos, sem que haja influído nessa referência a atualidade dos seus livros, mas, sim, a perenidade de sua quase ferina análise da alma humana.
 Para Lucia Miguel Pereira, as Memórias Póstumas de Brás Cubas e o Dom Casmurro, sem a menor dúvida, mas também Quincas Borba, Esaú e Jacó, de 1904, Memorial de Aires, de 1908, e muitos dos contos de Machado, incluídos em Papéis Avulsos (1882), Histórias Sem Data (1884), Várias Histórias (1896) e Páginas Recolhidas (1899), dão-lhe o direito de ocupar o topo da literatura brasileira, pela originalidade da concepção, pela agudeza dos conceitos, pela penetrante análise dos sentimentos e pela perfeição do estilo sóbrio e conciso numa literatura derramada. Mas, segundo Lucia, só a capacidade criadora, que permitiu a Machado de Assis subtrair as personagens dos seus melhores romances e contos às contingências de tempo e de lugar, tornando-as emblemáticas das paixões humanas, consideradas em absoluto, poderia fazer dele o escritor colossal que é.
            Machado teve em Lucia Miguel Pereira uma biógrafa que o honrou sobejamente, produzindo uma obra notável, uma “pesquisa biográfica e crítica da melhor qualidade”, no dizer abalizado e culto de Astrojildo Pereira, ele mesmo autor de primoroso livro de ensaios machadianos, sob o enfoque próprio de sua visão materialista das relações sociais, saído do prelo em 1959, ano da morte de Lucia.
            Em dezembro de 1936, ao completar 35 anos de idade, Lucia Miguel Pereira acabava de ser consagrada como escritora, circunstância que premiou seu monumental esforço de leitura, interpretação e divulgação da obra machadiana. Exercia, também, em caráter regular, a crítica literária nas páginas do Boletim de Ariel, posição que manteve até 1937.
            No plano pessoal, celebrava o delicioso início de uma relação amorosa e conjugal com Octavio  Tarquínio de Sousa, naquilo que seria o ponto mais alto da existência de dois seres de exceção: vida de paz, de mansidão, de estudo, de recolhimento, “vida de reciprocidade no amor pelos esponsais do sangue”, nas palavras irretocáveis de Alceu Amoroso Lima.
            O reconhecimento público de Lucia, já tratada como ensaísta das mais vigorosas de uma geração de expoentes, veio com a atribuição, à sua formidável biografia machadiana, do maior prêmio literário da época, concedido pela Sociedade Felipe d’Oliveira, fundada em 1933 e composta por quinze intelectuais brasileiros de primeira grandeza, naqueles idos. A última edição revista por Lucia Miguel Pereira foi a quinta, de 1955. Nela, a exemplo das quatro que lhe antecederam, o parágrafo final se manteve intacto, contemplando a síntese das sínteses, jamais superada, sobre o magnífico biografado:
            “À medida que vai recuando para o passado, sentimos melhor o que representa para o Brasil esse mestiço que tanto elevou a sua gente e o seu país, a pureza dessa personalidade que paira sobre a literatura brasileira como um símbolo da nobreza do pensamento e do poder do espírito.”


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Imaginaciones violadas, poema em espanhol RCF








El panadero ejerce el fermento
en la alquimia del horno
que todo lo asa: trigo y cotidianeidad.

Hay cola de espantos
para comprar el alimento
que ya está en nosotros:
rutina de existir cada mañana.

Hay algo de bíblico
en mi ateísmo descafeinado
y en el confuso café con leche
en el que las materias filosóficas
se redujeron, en mi mesa, a migajas.

La imaginación es el gran panadero,
por un lado me fermenta,
por otro me coloca en su horno:
la combustión de existir.

(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)




Imaginações violadas




O padeiro exerce o fermento
na alquimia do forno
que tudo assa: trigo e cotidiano.

Há fila de espantos
para comprar o alimento
que já está em nós:
rotina de existir todas as manhãs.

Há algo de bíblico
em meu ateísmo amanteigado
e no confuso café com leite
em que as matérias filosóficas
se reduziram, em minha mesa, a migalhas.

A imaginação é o grande padeiro,
de um lado me fermenta,
de outro me coloca em seu forno:
a combustão de existir.

(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Exília, de Alexandre Marino



O bom poeta Alexandre Marino acaba de lançar Exília, pela editora Dobra, de São Paulo. Abaixo, uma crítica de W.J.Solha sobre o livro de Alexandre:



São todos movidos, ao mesmo tempo, pelo desejo de mudança — de autotransformação e de transformação do mundo em redor — e pelo terror da desorientação e da desintegração, o terror da vida que se desfaz em pedaços. Todos conhecem a vertigem e o terror de um mundo no qual “tudo o que é sólido desmancha no ar”.
“Todos”, ele diz. Shakespeare, venerado por Marx, faz Hamlet se lamentar, ante a situação que vive (conforme tradução de Luís I, de Portugal):
Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril promontorio, este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde brilha o oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de vapores pestilentes.
E eis o “clima” de Exília, conforme seus melhores versos:
A cidade
é o lado de fora dos muros do cemitério.
(Definição de cidade, pág. 49)
Este é meu corpo (que) a cada retorno a ancestrais paisagens
descobre jamais ter estado lá.
(Amálgama, pág. 52)
Se nem meus limites
dão forma ao que sou,
onde procurar
o que não sou?
Infinitos Limites, pág. 60)
Quando me acerco da cidade sonhada
não está lá
(A cidade Sonhada, pág. 65)
Nunca estou onde estou.
(A cidade Sonhada, 65)
Atônito nada
sempre à espera.
(Nenhuma Nuvem, 67)
Homens perdidos entre lapsos de memória.
(Brasília sob a Neve, 68)
Correndo atrás do sonho que acabou.
(London sweet Londres, 71)
Criatura sem norte,
inventa perfídias,
sonhos e fábulas,
e diante da morte
erige catedrais
onde perde a alma.
(Dia das Caças, pág. 26)
Paredes nada sustentam,
não há imagem no espelho.
(Desconstrução, 102)
Aqui houve uma cidade.
(Desconstrução, 104)
E eis o seu momento mais Hamlet-Marx-Berman:
Há o cosmo, o universo,
e no entanto
todo o concreto se desvanece.
(O Velho Poeta, 107)
Nesse contexto, só a arte salva. Porque os poemas guardam/ o que outras vozes / emudecem. (Aquarela, 87)
Há um momento em que as luzes se apagam
e tudo se ilumina:
as razões incompreensíveis,
o caminho dos acasos,
a ordem do universo,
e os mistérios
impossíveis de enunciar.
(Cenário ao Fim da Tarde, 81)
Daí A luta por um lugar/ no poema.
(Palavras, 74)

Leia mais: http://www.alexandremarino.com/#ixzz2btQDMmAX

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Viuvez da humanidade, crítica sobre O viúvo


Não é só pelo texto de correta sintaxe, ou pela impecabilidade do andamento da narrativa, construída em unidades de dominada autonomia, que o romance de Ronaldo Costa Fernandes – cativa, assoberba e embebeda o leitor, mas, sobretudo, pela capacidade de fundir personagem e realidade. No andamento, a realidade vai se fechando com suas falências, nada incentivadoras do investimento afetivo. Várias outras superposições criativas apontam para a oportunidade de se inscrever O viúvo (LGE) entre os grandes clássicos da literatura brasileira, e que o recomendam para estudo nos assentos escolares para que seja identificado o homem que vai se moldando na automatização das relações sociais, somadas aí as muitas perdas a que ele se submete. Primeiramente, o domínio de localização temporal do personagem. Em seguida, os diálogos, que não funcionam com a presença de um interlocutor, mas com a intervenção das próprias neuroses do personagem. Assim, Ronaldo Costa Fernandes, já aclamado por críticos como Franklin de Oliveira e Oswaldino Marques, e detentor de vários prêmios (destaque para o Casa de Las Américas e o Guimarães Rosa), com O viúvo demonstra que, além de conhecer os domínios da narrativa, encontra-se no auge de sua potencialidade criativa.

















Jornal do Brasil - 23/12/2005 - Salomão Sousa



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um homem é muito pouco 7





E bem, ali estavam os três, Clemente, Yolanda e Aninha para fazer visita a Juliana. Clemente ficou impressionado com a casa. Não pelo luxo que não havia, Juliana era intelectual e não cuidava muito da casa. Havia livros e papéis por todos os cantos e os móveis pareciam estar fora de lugar por alguma razão desconhecida. E além do mais, em todas as partes havia cavalos de pau.

O marido de Juliana não gostava de ser chamado de marceneiro, acreditava que os móveis que fazia, muitos deles desenhados por ele mesmo, eram obra de arte. Copiava modelos ingleses, franceses e italianos, mas também impunha aos fregueses os traços do seu desenho, que poderia nunca chegar a ser grife, mas que lhe dava a paz de realizar trabalho artístico e não meramente mecânico e operário.

Mas a fascinação do marido de Juliana eram os cavalos. Então havia na sala em que foram recebidos cavalos de todos os tamanhos, pequeninos, médios, grandes. Clemente mesmo se sentou numa cadeira que tinha forma de cavalo. Do mesmo modo, Yolanda e Aninha também sentaram em cadeiras-cavalo, enquanto Juliana se estirava numa chaise-long, depois de recolher pratos jogados sobre a mesma, papéis espalhados em cima do sofá como se tivesse sido pega de surpresa e não ter convidados para o chá. Yolanda já estava acostumada com Juliana e com a casa de Juliana. Aninha sempre gostava de ir à casa de Juliana, que lhe parecia enorme casa de brinquedo que, lamentavelmente, só tinha o brinquedo do cavalo.

Quem estava incomodado era Clemente, que não se sentia à vontade sobre uma cadeira que era cavalo ou sobre um cavalo que era cadeira.

O marido de Juliana era um cavalo. Era um cavalo grande. Homem cinza. Todo ele era cinza. E ainda por cima fazia questão de se vestir de cinza. Horácio era o nome dele. Mas Horácio não é nome de cavalo. Horácio deveria ter nascido com o nome de cavalo. Ele levou Clemente para outra sala com pé-direito alto.

Lá havia outros cavalos. Era a “cocheira” de Horácio. Era ali que ele esculpia e guardava os cavalos, principalmente os cavalos maiores. Horácio devia se chamar Homero e tornar verdade a história do cavalo de Troia. Horácio era o único homem que Clemente conheceu que podia ter construído, nos tempos modernos, o cavalo de Troia. Horácio era um homem espichado, magro de tanto cavalgar seus cavalos, alimentando-se pouco e raramente. A cabeça de Horácio cobria-se de cabelos cinza, as crinas de Horácio comportavam o cinza. Horácio colocou Clemente num cavalo grande e ele também sentou num cavalo grande.

A impressão que Clemente reteve foi não que os cavalos fossem grandes, mas que os dois, Horácio e ele, haviam diminuído. Clemente se sentia um pouco criança, mas não se importava de se sentir um pouco criança. Os cavalos enormes, gigantes, de Troia, os cavalos grandes de Horácio eram estilizados, logo não se sentia cavalgando na madeira da oficina de Horácio. Coerente com os cavalos de pau, não havia capim no chão da oficina, ou melhor, o capim também era de madeira.

Os cavalos ficavam distantes um do outro e Horácio falava alto e espichado, falava magro e cinza. Clemente respondia no mesmo tom e altura.

Era uma conversa desencontrada e magra. Dois meninos se balançando em dois balanços numa praça, de vez em quando as vozes e os ouvidos se cruzavam, mas no resto ele falava uma coisa, mas Clemente não escutava, estava no alto, logo Clemente falava outra que ele não escutava, estava lá embaixo e vice-versa ou versa-vice, como o próprio Horácio gostava de dizer. O versa-vice para Horácio era a conversa secundária. Ele perguntou a Clemente o que ele fazia, Clemente lhe disse e ele confessou que gostaria de ter sido marinheiro, que quando criança pensava em entrar para a Marinha, mas depois tomou gosto de cavalos e no mar não havia cavalos e era besteira de chamar de cavalo-marinho o cavalo-marinho que era marinho mas não era cavalo.

Eu joguei todos os meus livros fora, ele gritou.

E por quê?

Os livros, como aconteceu com Dom Quixote, estavam me enlouquecendo. Eu não gosto de enlouquecer, ele completou.

Clemente não disse para ele que também não gostava de enlouquecer, aliás Clemente não conhecia ninguém que gostasse de enterro e de enlouquecer.

Não, Horário não se parecia com Dom Quixote, embora tivesse o rosto também espigado e cabelo com topete que alongava o rosto dele. Horácio era tão magro que Clemente via não somente as veias dos braços como também os feixes mínimos de tendões e músculos que seguram as carnes.

Sabe quanto custa um cavalo desses?, perguntou apontando para os cavalos em que estavam sentados. Quase um carro popular.

Clemente não sabia a razão de Horácio falar aquilo de os cavalos custarem os olhos da cara. Queria se valorizar, é claro. Mostrava seus laivos de artista e de artista plástico com exposição montada e cavalos vendidos. Clemente, não por maldade, e sim por ingenuidade, perguntou se Horário já vendera algum daqueles cavalos.

Alguns, poucos, respondeu com sinceridade Horácio.

Clemente gostou da sinceridade de Horácio. Se fosse homem rico, somente pela sinceridade de Horácio, compraria o cavalo que valia carro popular embora ninguém ainda tivesse pagado o preço de carro popular para um cavalo daqueles.

Você gosta de amêndoas?, perguntou de súbito Horácio, sem que nada que tivessem conversado antes levasse a tal pergunta.

Gosto, gosto de amêndoas. Clemente pensou que Horácio ia lhe oferecer amêndoas. Mas não. Feita a pergunta, se calou.

E um tempo depois disse: As amêndoas são muito boas.

Clemente não havia escutado direito e pediu que ele repetisse. E Horácio disse: As amêndoas são muito boas. Clemente balançou a cabeça afirmativamente. E pensou que talvez não estivesse ali em Botafogo, na casa de Juliana, conversando com o marido cinza dela, sentado num cavalo gigante, e sim que estava no sanatório em Bremen. Horácio explicou que aquele era seu método mnemônico para guardar os nomes das pessoas. De agora em diante, Clemente se chamaria “Clemente, o que gosta de amêndoas”. Ele, Horácio, já provara o método inclusive numa visita que o casal fizera a amigos dela em Santa Tereza. Horácio se prometeu que sairia de lá sabendo o nome de todos os amigos dela. Eram quase vinte pessoas. Horácio foi apresentado a todos e pediu que Juliana ao apresentá-lo lhe dissesse o nome. Na hora de partir, Horácio se despediu um por um pelo nome.

Boa noite, Otávio. Boa noite, dona Marina. Boa noite, seu Cláudio. Boa noite, seu Antonio Carlos. Horácio, ao ser apresentado, juntava o nome do sujeito ou da mulher com algo aleatório, como Otávio com piano, Mariana com fruta-pão e por aí vai.

Ao sair da festa, Horácio estava se despedindo era do piano, da dona fruta-pão, do seu manteiga, da sua graminha, do seu novato, do doutor capacho, de dona língua grande. Horácio não gostava de associar traços físicos com o nome, para ele era o mais fácil de confundir. Nariz grande servia pra um bando de pessoas ali mesmo na festa.

O método que Horácio consagrara – embora não fosse inventado por ele – se estendia aos amigos de Juliana. Se Clemente era o que gostava de amêndoas, Alexandre era o sujeito que gostava de jogar pôquer. Horácio não gostava muito de Alexandre, pensava que ele dava em cima da mulher dele, o que não era de todo descabido.

Juliana era uma mulher muito bonita. O dinheiro do pai de Yolanda podia comprar qualquer miss, por isso não ia gastar tempo e dinheiro com uma secretária que recitava Le dormeur du val, de Rimbaud. Se fosse feia, poderia discorrer sobre toda a literatura francesa, de Rabelais a Flaubert, que não levaria nenhuma bicota na boca murcha.

O pai de Yolanda conhecia o mundo e o mundo era belo. O mundo não era belo para os pobres, mas o que o dinheiro que o pai de Yolanda comprava era belo. Era bela a literatura do pai de Yolanda, eram belas a mulher e a amante do pai de Yolanda, eram belas a casa e as viagens do pai de Yolanda, era bela a casa com piscina em Palmas de Mallorca, era imensa com quadras de tênis e uma cascata natural a mansão do pai no Alto da Boa Vista. Yolanda não conhecia tudo sobre o pai dela. Havia um lado que o dinheiro não comprava e que ele escondia da família.

O pai de Yolanda tinha muito a ver com o capitão Vaz. Não, não, nunca se encontraram e agora que o pai de Yolanda estava morto só se encontrariam na vida eterna, caso os dois acreditassem na vida eterna e, principalmente, se existisse a vida eterna. O pai de Yolanda foi procurado por um empresário paulista do grupo Ultragás e ele pensou que o empresário fosse convidá-lo para o pai de Yolanda fazer parte da companhia que estava de pernas bambas. Mas o negócio que empresário paulista propôs foi ser sócio do Brasil.

O senhor é um patriota, dr. Macedo.

É claro que sou.

Muito bem, venho lhe propor se associar ao Brasil.

Mas o Brasil não tem dono.

É aí que o senhor se engana, disse o empresário paulista. O país é de todos, mas há uma canalha que pensa que o país é deles e que eles vão tomar o Brasil só para eles.

Meu Deus, exclamou com verdadeira surpresa. O pai de Yolanda era o sujeito mais esperto e safado que se conhecia, mas às vezes deixava passar ingenuidade.

Depois dessa conversa no Golden Room do Copacabana Palace, o pai de Yolanda passou a contribuir para armar a repressão contra os comunistas que queriam o Brasil só pra eles. O que jamais o pai de Yolanda ia imaginar é que a amante querida e que ele cuidava como quem cuida da educação de filha na Suíça fosse casar com comunista que militara antes de conhecer a arte de esculpir cavalos.

Mas voltando à questão mnemônica de Horácio, o homem cinza que vinha a ser Horácio – o rosto apresentava-se macilento, viam-se os pomos da face e até mesmo os olhos apresentavam tonalidade cinza como de certos felinos – contou para Clemente que Juliana tinha um amigo chamado Alfredinho e que ele identificava Alfredinho como corretor da Bolsa. Certa vez chegou mesmo a misturar as coisas e perguntar a Alfredinho como iam as ações na Bolsa e que conselhos Alfredinho dava para quem, como ele inexperiente, quisesse se meter a aplicar na Bolsa e foi quando Alfredinho disse que não era corretor da Bolsa e que trabalhava numa imobiliária como corretor, não da Bolsa, mas de imóveis.


 

domingo, 21 de agosto de 2016

Pernas pra que te quero, poema RCF



Minhas pernas são ponteiros sem relógio.
Minhas pernas caminham no salto alto da queda.

Há pernas góticas, finas e torcidas;
há pernas barrocas, gordas e bem torneadas;
há pernas de Gaudí, dispersas e ocas
como a Sagrada Família.

Minhas pernas têm vida angustiada
como um gato miando atrás da porta.


(do livro Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: armitage