quarta-feira, 27 de junho de 2012

Duas grandes vozes da poesia contemporânea

Nauro Machado

Da terra tiro o que com verbo busco,
roubando à carne o sonho que cultivo,
a ser talvez tão só como um molusco
ou com certeza um verme pensativo.
Cego que de mim sou, ainda assim ofusco
o próprio sol do espaço além cativo,
embora eu apenas seja o lusco-fusco
de uma sombra a cobrir o ser que vivo.
E em mim seguindo como quem mais finda,
querendo embora um sol de outro caminho,
quero voar depois da noite vinda,
sem ter comigo asas de passarinho,
para nascer da mesma cova ainda,
como uma ave a sair de eterno ninho.

(do livro O cirurgião de Lázaro, Ed. Contracapa, 2010)

Olga Savary

Cor
Aos tombos muros, paredes das casas
a flutuar na crescente escuridão azul

quando azuis quase se tornam folhas,
a tarde torna-se azul em sua queda.

Azul é o que a gente vira na tarde
mas, magma, é de outra cor nosso desejo.

Quando começa o acender das luzes
o azul tudo teria comandado

e o estar em tudo não nos ilharia
não fora o jogo de viciar os dados.

(do livro Berço esplêndido, Ed. Palavra & Imagem, 2001)

imagens retiradas da internet

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Seu Santo Nome, Carlos Drummond de Andrade



Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.



(foto:geisa crunivel, via internet)