quinta-feira, 26 de maio de 2016

Ensinamento do mundo, poema RCF



Em cada luz há implícita a escuridão.
Tão urgente
quanto um pássaro
que não pode fechar asas
em pleno voo.
A vocação fantasma dos navios
– existir na imaginação
incrédula dos outros.
O cinza é a dor
que mais endurece.
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Tristeza marinha




Sofro de tristezas marinhas
e, no lusco-fusco
das minhas tormentas,
na umidade das indecisões,
a noite ilumina-se
nos abismos da vertigem.

Pertenço ao armário
das armas incompletas:
como xícara sem asa
ou graxa que endurece e racha.

De alumínio são meus nervos
                 – dúcteis com aparência de aço.
Sou troco que se recusa,
embora maior quando dizem
                 que me dobro.

Meu quarto é um terço do que sou.
E um terço do que sou é meu rosário.

Pai nosso que estás no céu,
a soma dos meus ângulos
é um teorema de nulidades.


(do livro Andarilho)


fotot: rodney smith

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A seringueira, poema RCF



A seringueira sangra,
cortada nos pulsos,
o sangue branco do látex.
Pelotões desavergonhados
sem ordem nem progresso
– a imagem dos homens-rãs
submergidos na umidade verde.

Suor de ouro
na epiderme
da terra doente.
Floresta grega:
a medusa dos galhos,
o jogo dos espelhos verdes,
o enigma das árvores mudas:
o homem, um animal planta
ou
uma planta animal?
o coro fatal dos fazendeiros.

Os bichos piam
pio pio pio pio pio pio pio
– a floresta geme – ,
o vento mesmo, nos matos,
se esgueira como quem
passa por porta estreita,
à noite, em volta da fogueira,
a chama exclama.

Os olhos insones da coruja,
o balé da suçuarana,
a caricatura do macaco
no traço dos galhos.

Os caminhos bíblicos da floresta,
trilhas tortuosas
que vão dar no lugar certo.
Não há dia nem noite na floresta
mas um longo tempo florestal:
eterno, um tempo antes da criação.
Santo Agostinho perguntou:
– O que fazia Deus antes da criação?

A incerteza do chão
que se move com as cobras
– medo não é o veneno,
mas o chão, serapilheira,
                         e falta aos pés.


imagem retirada da internet: serigueira

domingo, 22 de maio de 2016

Alberto da Costa e Silva


 

 
‘Livro de Linhagem’ ou a busca da infância perdida

                                                                        Adelto Gonçalves (*)

 

                                                           I

 

            O diplomata Alberto da Costa e Silva, nascido na cidade de São Paulo em 1931, um dos mais importantes intelectuais brasileiros contemporâneos e historiador especialista na cultura e na história da África, membro da Academia Brasileira de Letras e seu presidente de 2002 a 2003, sempre foi, sobretudo, um poeta extremamente lírico, como poucos na história da Literatura Brasileira.  E de um lirismo que sempre esteve umbilicalmente ligado à infância que viveu e que, provavelmente, gostaria que tivesse sido outra, como ele próprio admitiu em entrevista a Harold Alvarado Tenório publicada no jornal La Prensa, de Bogotá, em janeiro de 1994, à época em que mal havia cumprido sua missão como embaixador do Brasil na Colômbia: "Yo creo que esta tentativa permanente que hago para rehacer el tiempo de mi niñez está ligada a un profundo deseo de haberla vivido de otra manera".

            Eis um exemplo desse lirismo que vem de longe, mais especificamente de Livro de Linhagem, conjunto de poemas escritos entre 1963 e 1965, que só saiu à luz no Brasil em 2010 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, mas que foi publicado em Portugal e distribuído aos amigos como uma lembrança do Natal de 1966:

Rente à terra, o meu céu,
qual  rês ajoelhada,
menino a vigiar, de bruços, a arapuca
e as aves que alçam vôo das crinas dos cavalos,
mão que toca outra mão,
ou muro esfarinhado
que desce com o calangro e onde o sol
faz abrir a plumagem.
(Fui menino demais e sofri como os outros,
os que levam, descalços, seus burricos com água,
pouca esperança, farinha, rapadura e a tarde,
com tudo o que volta
– os bezerros,
os focinhos molhados dos bois
E os lacrimosos carneiros.)

 

                                   II

 

Os trechos acima compõem o poema “Um sobrado, em Viçosa” que evoca parte da infância do poeta vivida no município de Viçosa, no Ceará, na divisa com o Piauí, terra inicialmente habitada por índios tabajaras. Viçosa, antiga aldeia de índios dirigida por padres da Companhia de Jesus, foi desbravada ao findar o século XVI, quando do contato dos índios com os franceses, vindos do Maranhão entre 1590 e 1604, data em que foram expulsos por Pero Coelho de Sousa, quando este fazia tentativas de colonização portuguesa no Ceará. Os demais poemas do livro evocam Amarante, no Piauí, cidade onde nasceu o pai de Alberto, o também poeta (Antônio Francisco) Da Costa e Silva (1885-1950), e Sobral, cidade do Ceará. O livro é concluído por “Sonetos rurais”, que igualmente evocam paisagens e cheiros que o poeta viu e viveu quando menino, em andanças com a família pelo Nordeste.

Como escreveu o também poeta e diplomata Izacyl Guimarães Ferreira, em brilhante e denso ensaio que está na revista digital Agulha, Livro de linhagem é um corajoso corte entre a direta clareza dos poemas dos 20 anos e a claridade madura dos poemas seguintes. “Chega a ser obscuro aqui e ali, por cifrado o recordar de antepassados, quase uma narrativa de acontecimentos apenas esboçados, uma evocação de estranha e incomum beleza", diz.

Conta Ferreira, que Da Costa e Silva, pai, sofreu de depressão profunda, aí por volta da década de 1940, refugiando-se num silêncio profundo, o que levou o seu filho Alberto assumir-se como responsável por seus cuidados até os seus últimos dias. Diante do silêncio paterno, Alberto sentiu-se como um órfão antes de sê-lo. “É desta relação que nasce a matéria poética de Alberto da Costa e Silva”, diz Ferreira.

 

                                               III

 

            De fato, a partir de Livro de Linhagem, a obra poética de Costa e Silva assume-se como proustiana, baseada em sua experiência pessoal de vida, em busca do tempo perdido, mais especificamente da infância perdida. Poemas reunidos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2000), prêmio Jabuti, por exemplo, está estruturado justamente em faixas etárias: poemas dos vinte, dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta e sessenta anos. Segundo o poeta Fabrício Carpinejar, a espacialização da antologia demonstra a circularidade do tempo, a linha de convivência simultânea e harmoniosa (ainda que difícil e dolorida) do menino-pai-avô. “Eles conversam ao mesmo tempo em todos os quadrantes, em diferentes perspectivas”, observa.

            Em Livro de Linhagem, no poema “Paisagem de Amarante”, que abre o livro, sente-se o horizonte nordestino, em meio ao ambiente agreste que ainda resiste com um instante de verdor à inclemência de um tempo árido. E não só, porque emoldurado por uma figura de mulher:

E fomos para onde a relva era ainda de um verde
acastanhado e havia babaçus e um regato
magro como os bois que levávamos,
onde
o florido algodão depois plantámos.
Ela vinha
e não usava bandós, nem tranças de sereia
dessas gravuras de mau talho,
que recebemos de longe,
de Lisboa talvez. Também não tinha
a blusa de unicórnios e de heráldicas feras,
nem rosas e corações no vermelho do linho.
Trazia um pássaro inventado
no lábio inferior.
Sem saias e anáguas,
pintada de vermelho e jenipapo
andava como a nhambuzinha,
apressada e sensível (....).

 

Por tudo isso, este é um livro, ainda que breve, indispensável na bagagem de todo cultivador de poesia de boa qualidade.

 

                                       IV

 

Alberto da Costa e Silva estreou em 1953 com O parque e outros poemas. Publicou depois sete livros de poesia. Publicou dois volumes de memórias, Espelho do Príncipe (1994) e Invenção do desenho (2007) e, como ensaísta, O pardal na janela (2002) e Das mãos do oleiro (2005), que traz a apresentação que fez para Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), deste articulista..

Publicou oito livros sobre a História da África, entre os quais se destacam A África antes dos portugueses (1992), A enxada e a lança (1992), A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700 (2002), Um rio chamado Atlântico (2003) e Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004). Escreveu Castro Alves, um poeta sempre jovem (2006), para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras. Também é autor de livros infantojuvenis, como Um passeio pela África (2006) e A África explicada aos meus filhos (2008).  Em 2009, publicou O quadrado amarelo (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), que reúne textos sobre arte e literatura, cruzando referências populares e eruditas, recorrendo à memória e às experiências de viagem.

Entre os prêmios e distinções que recebeu estão os títulos de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo (ex-Universidade de Ifé, Nigéria, 1986), pela Universidade Federal Fluminense (2009) e pela Universidade Federal da Bahia, em 2013, além do prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano (2003), da União Brasileira de Escritores e do Prêmio Camões de 2014. Ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, desde 2008 dirige a coleção das obras completas de Jorge Amado para a Companhia das Letras.

Membro do Júri do Prêmio Camões em 2001, 2003 e 2013, é sócio-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e sócio-correspondente da Academia Portuguesa da História e da Real Academia de História, da Espanha. Diplomata de carreira, foi professor do curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas do Instituto Rio Branco em 1971-1972, presidente da banca examinadora do curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, de 1983 a 1985, e vice-presidente de 1995 a 2000.

Foi cônsul em Caracas (1964-1967), embaixador em Lagos, na Nigéria (1979-83), e cumulativamente em Cotonu, na República do Benim (1981-83), chefe do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores (1983-84), subsecretário-geral de administração do Ministério das Relações Exteriores (1984-86), embaixador em Lisboa (1986-90), em Bogotá (1990-93) e em Assunção (1993-95); entre outros cargos diplomáticos.

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Livro de Linhagem, de Alberto da Costa e Silva. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 56 págs., 2010, R$ 15,00. Site: www.imprensaoficial.com.br

E-mail: livros@imprensaoficial.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br