sábado, 24 de outubro de 2015

A mesinha, conto (Manual de Tortura)


 


Com os anos, a mesa foi diminuindo. Tinha admiração exemplar pelas mesas. Não há objeto mais perfeito na humanidade do que a mesa. Seu porte horizontal, o talhe duro e austero, a capacidade infinda de servir sem humilhar-se. A princípio – somente no começo –, aprendi mais com as mesas do que elas comigo. Havia uma cumplicidade muda, tolerância de madeira, silêncio de madeira, sabedoria de madeira.

         Pois bem, dizia eu, por onde mesmo andava? oh bem, minha mesa, a mesmíssima mesa em que sempre trabalhei foi diminuindo. Não aconteceu de modo abrupto, perceptível, inclusive penso que o processo levou anos, lento, maior, mas sem cupim ou bicho destruidor, sem ação externa como o tempo – a não ser que você não considere outro tempo como fato externo, não o tempo das temperaturas, sol e chuva, umidade e calor, mas o tempo cronológico que tem outra forma de nos devorar, sem bicho que o faça, pois ele mesmo, o tempo, já é o bicho bastante e interior.

         Quase não posso sentar-me à mesa. Ela se parece a uma mesa de colegial. Meus joelhos alcançam a tampa. Tenho de curvar-me para escrever ou ler os relatórios. São sempre os mesmos relatórios. Carimbo-os, dou vista, o processo segue e retorna um mês depois. Já não posso trazer muitas coisas em cima da mesa. As gavetas não suportam nem mesmo um papel normal. A cadeira também tomou dimensões minúsculas. O que me intriga é que não riem de mim. Sou um homem digno. Não podem rir de mim. O problema é anatômico, ando tão curvado para chegar ao tampo da mesa que minha coluna é pura interrogação.

         Carrego os carimbos no bolso do paletó. Do mesmo jeito trago o grampeador, a borracha, os lápis e outros objetos de trabalho. O paletó já se deformou: duas abas laterais, cheias, polpudas, caem em desalinho e fazem barulho quando ando. As pessoas identificam o barulho de longe.

         As mesas são traiçoeiras, covardes, inermes – aparentemente inermes, porque têm a inteligência, a pose desafiadora, o cálculo de cedro, a petulância do mogno, hum, é porque você não tem intimidade com o mogno para saber o quanto pode ter de intromissão desabrida na vida das pessoas.

         Eis que a surpresa me toma um dia, sim, a surpresa, de ver minha mesa, ou melhor, de não ver minha mesa. Levaram-na. No lugar, apenas a marca de sujeira que ela deixou encardida no chão. Olho apatetado, com desconcerto, onde trabalharei? As mesas são fundamentais para o trabalho, ninguém ainda se deu – oh, desculpe a brincadeira com as palavras – ninguém ainda se deu ao trabalho de escrever um livro sobre a importância da mesa no trabalho, na vida das pessoas, na sociedade e para o capitalismo internacional.

         Começo a trabalhar em pé, os processos chegam, dou vistas, tiro o carimbo do bolso, encosto na parede e lá vai mais um documento com minha assinatura. Estou há mais de uma semana em pé, oito horas em pé, finjo que não acontece nada comigo, não reclamo da mesa. Os companheiros de trabalho há muito me ignoram, talvez fosse melhor dizer que há muito eles fingem que me ignoram. Riem de mim, falam baixinho, fazem troça. Mas eu os olho e ninguém é capaz de um comentário. Falam comigo como se nada tivesse acontecido.

         Oh Deus, em que mundo estamos, desnudam um homem e todos fingem que nada aconteceu. O contínuo encena uma mesura, abaixa-se e faz o gesto de quem deposita o processo na mesa. O faxineiro, homem por certo rude, mas já comprometido, vem e limpa o tampo da mesa imaginária. Se ao menos tivessem deixado a cadeira, não passaria horas e mais horas em pé, as pernas inchadas.

         De tanto me virem sem mesa, passam a acreditar que nunca tive mesa. Que miserável é a mente humana, os olhos delatam e renunciam, os olhos são o principal culpado dos erros da mente. Aos poucos eu percebo que não é apenas minha mesa que desapareceu. O desaparecimento de uma mesa deveria ser um escândalo, um descaminho, desvario, desbordo. Os homens se acostumam a tudo, até mesmo ao que não é humano. Tive ânsias de mesa, de imobilidade, tânatos.

         Não há saída, aliás, para um homem como eu, que vivo como vivo, a saída não é um labirinto, a saída é uma vaga entrada no neutro, um vazio especial, uma maneira morta de viver. Dirijo-me à sala do diretor. Bato na porta. Ele manda entrar.

         – Sente – ele diz.

         Então me horrorizo, jamais poderia imaginar que o velho Dantas, nosso diretor, trabalhava atrás de uma mesa tão pequena. Não se ver é um descaminho, essa coisa exterior, e dentro nos come a vontade de estar onde nossos olhos se põem. Aqui dentro é uma caixa que fala, mas a caixa fala e não deixa que a gente se veja. É meio esquizofrênico. Agora eu tinha diante dos meus olhos a verdadeira cena, era ridículo, então era assim que me viam, sentado diante da mesa de um menino de colégio, as pernas juntas, os joelhos acima do tampo da mesa, ele curvado, ai, Deus, misturava-se a pena que eu tinha do Dantas – e Dantas era para ter pena! – e a visão de mim mesmo, a pena retroativa de mim.

         Não reclamo nada com o Dantas. Não consigo atinar com a diminuição das mesas. Volto ao trabalho, em pé, semanas após semanas. Até que um dia uma revolta dura e concreta, revolta escura e maciça, me faz invadir a sala do Dantas e reivindicar minha mesa. Sou um homem digno e honrado, cumpridor dos horários e frequentador – principalmente isso –, frequentador das missas rarefeitas que às sextas-feiras o Dantas promove para os funcionários cristãos da empresa.

Invado a sala do Dantas, mas sou tomado por uma surpresa absoluta que espanca meu espanto como uma porta fechada de madeira de lei: o Dantas está em pé, abre os braços, olha atônito em volta. Veja só, lamenta-se, agora tenho que trabalhar de pé, a mesa sumiu, ele me sussurra como se alguém pudesse nos ouvir, a mesa sumiu, repete, abandonado, os olhos de madeira estupefata como olhos de boneco. Por que as mesas, ao longo dos anos, nos maltratam tanto, que lhes fizemos, que lhes infligimos, por que essa revolta absurda e despropositada de encolhimento e desaparecimento, por quê?

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

'O Viúvo', um acontecimento literário

                                                                                  

O Viúvo, de Ronaldo Costa Fernandes. Brasília: LGE Editora, 2005.


"Publicado, em 2005, por uma editora de fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, é claro que este livro, uma das poucas obras-primas do romance brasileiro deste início de século XXI,
praticamente passou despercebido
do leitor-consumidor. Azar dele, pois, se se fiar nas listas dos mais
vendidos das revistas semanais que, como se sabe, só reconhecem
autores e livros publicados por grandes editoras, vai continuar
a ler muito lixo cultural."
(in: Pravda.ru, Tripov, Germina e o jornal
Primeiro de Janeiro, do Porto, Portugal)      
                                                            Adelto Gonçalves



Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um poeta
do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),
Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999;
São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o
Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

 



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Frida Kahlo, poema RCF


 

Em teu andaime de ossos
para construir uma vida
de cor e política,
 o corpo azteca
que retesa os músculos
da existência febril,
eu até diria, de tua
exuberância fabril.
 
Vontade de se enroscar
em teus panos mais
que coloridos: teus panos
ameríndios, teus panos
pré-colombianos: no
Peru e na Bolívia, com
chapéu de coco espanhol
as mulheres são totens
de carne e roupas
que se moem na paisagem andina.
 
Teus olhos de vísceras,
tuas sobrancelhas de vício,
teus lábios de Adelita
e  revolução mexicana
são delírios de carmim
que nos meus sonhos se
 esvaem feito um relógio de Dali.
 
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Para fazer um soneto, poema Carlos Penna Filho

Aldemir Martins - Dois Gatos Azuis

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O homem do violão azul, Wallace Stevens






I

Homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.
Disseram: "É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são".
E o homem disse: As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão".

E eles disseram: "Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,
No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são".

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,
Ainda que o remende como sei.
Canto heróis de grandes olhos, barbas
De bronze, mas homem jamais cantei.
Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.
Mas se cantar só quase ao homem
Não chega às coisas tais como são,
Então que seja só o cantar azul
De um homem que toca violão.



(tradução Paulo Henriques Britto)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Saudação a Edmílson Caminha, Fabio Coutinho


      O escritor que hoje recebemos no glorioso e octogenário PEN Clube do Brasil figura entre os melhores cronistas da língua portuguesa, sejam quais forem a época, o lado do Atlântico e o continente de que se a observa. Infelizmente, contudo, uma calada conspiração da indiferença umbiguista impede que se saiba disso, não apenas em Portugal e na África, mas também nas regiões Sudeste e Sul de nosso país. Até hoje, a extensa obra de Edmílson Caminha, cultivada com esmero, paciência, criatividade e originalidade por este artífice do vernáculo, era de conhecimento exclusivo do Ceará, do Distrito Federal e de alguns privilegiados leitores de fora, como o poeta e biógrafo baiano João Carlos Teixeira Gomes, para quem Caminha é autor de “um dos mais lúcidos e profundos estudos existentes na nossa crítica sobre a relevância do memorialismo como criação literária, (...) em que ele efetua, pela primeira vez, a classificação e a tipologia do gênero.”

      Já destacou, também, Teixeira Gomes, que “do mais alto relevo são (...) as revelações contidas em estudo básico sobre Rachel de Queiroz, editado pela Academia Brasileira de Letras, relembrando as passagens essenciais da vida da magnífica romancista.”

      A eleição de Edmílson Caminha para o PEN Clube do Brasil, o reduto nacional da promoção da literatura e da defesa da liberdade de expressão, surgiu, assim, com o propósito de sanar essa gritante falha de autoconhecimento da cultura brasileira.

      No parágrafo vestibular do capítulo intitulado Massangana, de seu clássico Minha Formação, o inigualável Joaquim Nabuco assinalou: “O traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber...”

      Viajante contumaz, hoje conhecedor dos quatro cantos do planeta Terra, Caminha soube invariavelmente carregar, na mala que leva sobre a cabeça, a origem cearense de que sobremodo se orgulha, a do menino que nasceu, cresceu e se fez homem em Fortaleza, mas dela partiu para o mundo, fixando tudo em crônicas saborosas, captando o novo e a novidade como a criança intelectualmente curiosa que sempre foi e registrando-os em livros cultos, prazerosos, instigantes.

      A impressão que sobeja da fatura literária de Edmílson Caminha é a de que o livro é quase a concretização de um múnus público, ou seja, algo que dá aos outros qualquer coisa em termos de informação, de distração, de direito à felicidade. Um texto que faz o leitor ficar pensando nos viajantes, na geografia, na história, deixando fluir a imaginação, até mesmo embarcando com o autor. Nas palavras inspiradas do fenomenal escritor espanhol Javier Marías, “às vezes tenho a sensação de escrever prosa com a paciência e o senso de rítmo com que o poeta escreve seus versos.”

      E não basta escrever bem, tão bem que o leitor,  a certa altura, pare de ler porque não segue uma aventura de viajante atento, observador, perspicaz, mas um mero, burocrático e enfadonho roteiro literário. Escrever é uma serventia oferecida à sociedade, a exemplo da medicina, da arquitetura, da carpintaria. É, como evidenciam os livros de Caminha, uma prestação de serviço público, pois ele escreve para os outros, para quem, por enquanto, não pôs a mala na cabeça, mas, se  e quando o fizer, será um viajante mais completo, mais educado e sábio.

      Em suma, o novo Membro Titular do PEN não escreve, jamais escreveu, para si, nem para seu grupo de amigos, muito menos para os críticos. Fá-lo erga omnes.

      Querido confrade Edmílson Caminha: sem conseguir escapar da força avassaladora do duplo sentido de um trocadilho, vislumbro que Vossa Senhoria ainda está fadado a alçar novos e mais altos vôos. Aqui, nesta bela sede do PEN Clube do Brasil na Cidade Maravilhosa, de há muito era urgentemente esperado. A casa é sua: pode entrar, instalar-se na cadeira que conquistou com tantos méritos e competência tanta e conviver fraternalmente, enquanto merecermos o extraordinário dom da vida.

Oração aos velhos, poema RCF


cello girl

Deus, dai-me o remédio dos sãos,
o monólogo das rezas
que não necessitam resposta,
a disciplina dos ventos brandos,
o perdão dos confessionários,
a ligeireza das fugas,
a perseverança dos inválidos,
a certeza dos incrédulos,
a incerteza dos crédulos,
a fibra dos doentes,
a lucidez do sol,
a iluminação das agulhas,
o fervor das minorias,
a fim de que cumpra
a delicadeza de existir
como há serenidade e lucidez
nos lençóis de linho branco.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)


(imagem: rebecca drautemer)


domingo, 18 de outubro de 2015

União civil de afetos e maneiras, poema RCF



 

Ah, eu prometo nunca mais me abandonar,
ouvirei minhas queixas
e prometerei não me tratar mal.
Serei sempre atento comigo,
viajarei  junto comigo
a lugares novos e exóticos
e, nas fotos, sorrirei comigo
para que, no futuro, meus filhos
vejam que sempre estive
acompanhado de mim.
Estarei comigo, na alegria e na dor,
na bonança e na pobreza,
na saúde ou na doença,
e serei, por fim, fiel a mim
até que a morte nos junte
definitivamente ao nada.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)