quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Para fazer um soneto, poema Carlos Penna Filho

Aldemir Martins - Dois Gatos Azuis

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O homem do violão azul, Wallace Stevens






I

Homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.
Disseram: "É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são".
E o homem disse: As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão".

E eles disseram: "Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,
No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são".

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,
Ainda que o remende como sei.
Canto heróis de grandes olhos, barbas
De bronze, mas homem jamais cantei.
Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.
Mas se cantar só quase ao homem
Não chega às coisas tais como são,
Então que seja só o cantar azul
De um homem que toca violão.



(tradução Paulo Henriques Britto)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Saudação a Edmílson Caminha, Fabio Coutinho


      O escritor que hoje recebemos no glorioso e octogenário PEN Clube do Brasil figura entre os melhores cronistas da língua portuguesa, sejam quais forem a época, o lado do Atlântico e o continente de que se a observa. Infelizmente, contudo, uma calada conspiração da indiferença umbiguista impede que se saiba disso, não apenas em Portugal e na África, mas também nas regiões Sudeste e Sul de nosso país. Até hoje, a extensa obra de Edmílson Caminha, cultivada com esmero, paciência, criatividade e originalidade por este artífice do vernáculo, era de conhecimento exclusivo do Ceará, do Distrito Federal e de alguns privilegiados leitores de fora, como o poeta e biógrafo baiano João Carlos Teixeira Gomes, para quem Caminha é autor de “um dos mais lúcidos e profundos estudos existentes na nossa crítica sobre a relevância do memorialismo como criação literária, (...) em que ele efetua, pela primeira vez, a classificação e a tipologia do gênero.”

      Já destacou, também, Teixeira Gomes, que “do mais alto relevo são (...) as revelações contidas em estudo básico sobre Rachel de Queiroz, editado pela Academia Brasileira de Letras, relembrando as passagens essenciais da vida da magnífica romancista.”

      A eleição de Edmílson Caminha para o PEN Clube do Brasil, o reduto nacional da promoção da literatura e da defesa da liberdade de expressão, surgiu, assim, com o propósito de sanar essa gritante falha de autoconhecimento da cultura brasileira.

      No parágrafo vestibular do capítulo intitulado Massangana, de seu clássico Minha Formação, o inigualável Joaquim Nabuco assinalou: “O traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber...”

      Viajante contumaz, hoje conhecedor dos quatro cantos do planeta Terra, Caminha soube invariavelmente carregar, na mala que leva sobre a cabeça, a origem cearense de que sobremodo se orgulha, a do menino que nasceu, cresceu e se fez homem em Fortaleza, mas dela partiu para o mundo, fixando tudo em crônicas saborosas, captando o novo e a novidade como a criança intelectualmente curiosa que sempre foi e registrando-os em livros cultos, prazerosos, instigantes.

      A impressão que sobeja da fatura literária de Edmílson Caminha é a de que o livro é quase a concretização de um múnus público, ou seja, algo que dá aos outros qualquer coisa em termos de informação, de distração, de direito à felicidade. Um texto que faz o leitor ficar pensando nos viajantes, na geografia, na história, deixando fluir a imaginação, até mesmo embarcando com o autor. Nas palavras inspiradas do fenomenal escritor espanhol Javier Marías, “às vezes tenho a sensação de escrever prosa com a paciência e o senso de rítmo com que o poeta escreve seus versos.”

      E não basta escrever bem, tão bem que o leitor,  a certa altura, pare de ler porque não segue uma aventura de viajante atento, observador, perspicaz, mas um mero, burocrático e enfadonho roteiro literário. Escrever é uma serventia oferecida à sociedade, a exemplo da medicina, da arquitetura, da carpintaria. É, como evidenciam os livros de Caminha, uma prestação de serviço público, pois ele escreve para os outros, para quem, por enquanto, não pôs a mala na cabeça, mas, se  e quando o fizer, será um viajante mais completo, mais educado e sábio.

      Em suma, o novo Membro Titular do PEN não escreve, jamais escreveu, para si, nem para seu grupo de amigos, muito menos para os críticos. Fá-lo erga omnes.

      Querido confrade Edmílson Caminha: sem conseguir escapar da força avassaladora do duplo sentido de um trocadilho, vislumbro que Vossa Senhoria ainda está fadado a alçar novos e mais altos vôos. Aqui, nesta bela sede do PEN Clube do Brasil na Cidade Maravilhosa, de há muito era urgentemente esperado. A casa é sua: pode entrar, instalar-se na cadeira que conquistou com tantos méritos e competência tanta e conviver fraternalmente, enquanto merecermos o extraordinário dom da vida.