quinta-feira, 19 de abril de 2018

Memória dos Porcos e Um homem é muito pouco, por Cagiano

Uma cartografia das inquietações


 



Ronaldo Cagiano

Diário da Manhã (Goiânia, domingo, 7 de outubro de 2012)

No cenário da literatura brasileira contemporânea, tão povoada de obviedades e portentos de laboratório, é comum o incensamento de mediocridades, o altar para a subliteratura e o espaço generoso que se dá mais à vida literária do que à própria literatura. Desse modo, os cadernos de cultura da mídia hegemônica e monopolista fazem silêncio, ou negligenciam criminosamente a existência de bons poetas e ficcionistas espalhados pelo Brasil. Há um sem-número deles que não frequentam os suplementos dos grandes jornais ou revistas do gênero por culpa e obra da absoluta incapacidade da crítica com assento nesses veículos de perceber o óbvio, de dar espaço e valor ao que realmente tem.

Entre esses autores – que em nada devem aos escritores homologados pela imprensa do eixo Rio-São Paulo – encontra-se Ronaldo Costa Fernandes, maranhense radicado em Brasília, autor de vasta e premiada obra, cuja bibliografia, se vivesse em qualquer país da Europa, teria o devido reconhecimento e justiça, pela alta voltagem estética e pela universalidade de sua temática.

Em seus dois últimos livros, o romance Um homem é muito pouco (Ed. Nankim, SP, 2010, 488 pgs, R$ 50) e o volume de poemas Memória dos porcos (Ed. 7 Letras, Rio, 2012, 110 pgs.Capa dura, R$ 36), Fernandes consolida o leitmotiv de suas inquietações criativas. Nessas duas obras singulares, está presente o que caracteriza seu projeto literário: uma profunda imersão na condição humana, tratada na prosa e na poesia com uma dimensão existencial, em que a passagem do tempo, os mistérios da vida e da morte, a condição social e política do homem num etiquetado e sem rumo, a memória histórica e política e o desencanto com as utopias são tratados com densidade trágica, mas poética.

Caudaloso, instigante e desafiador, Um homem é muito pouco é composto de quatro histórias, cenários e protagonistas distintos, mas que guardam entre si um liame e uma tensão, em cujo desenrolar se expõe a desumanidade da ditadura militar e todas as experiências dilacerantes – que reduzem o homem a quase nada – e o que o tormentoso chumbo da opressão, com seus fantasmas e dilemas, pode provocar no íntimo e na sociedade. A figura do capitão Vaz, réu incólume assombrando como um escroque impune à la  Brilhante Ustra, é emblemática. Personagem que carrega o cheiro de enxofre, os miasmas dos porões e o pânico dos algozes, desencadeia aquele sentimento de impotência, aquela condição inerme de tantos ao enfrentar um sistema que nos aparta e nos desvincula do próprio status humano. A existência escandalizada e banalizada pelo Mal. O homem como impossibilidade de ser, de ter, de pensar, de existir nesse espectro de perseguições e choques. O autor penetrou essa dor coletiva para traçar um painel sincero, pungente e humano, porém sem uma inflexão ideológica ou partidária desse período negro em nossa história, de um Rio de Janeiro que reverberava a espantosa realidade que vivíamos, o que nos remete aos grandes romances de geração.

Em A memória dos porcos, Ronaldo prossegue seu inventário do desassossego, a contabilidade das perdas e um olhar agudo sobre nossa precariedade, na linha de sua permanente inquietação metafísica e existencial. Entre a erudição e a leveza, a linguagem concentra enorme poder metafórico e uma dose de causticidade e ironia para tratar de temas tão antigos, mas renovados pelo seu sopro humanista, pelo seu bisturi psicológico, com que faz a catarse de nossas perplexidades e angústias. É o homem, que nunca é pouco, o centro e sua reflexão poética. É a vida, com suas pocilgas e seu pomar de bactérias, às vezes tão solapada pela realidade, miserabilizada pelo caos e fragilizada pelos fetiches da sociedade de consumo, que merece sua investigação. O ser e o tempo, objetos de sua contundência poética, expostos a uma necessária dissecção. Esse livro, vertiginoso e verdadeiro, memorializa nossas mais arraigadas questões, entranha-se no ambiente onde hibernam nossas dúvidas para, sob a pele das palavras, nos ajudar a remover os palimpsestos que ainda escondem o grito deflagrador de toda a esperança. A leitura de A memória dos porcos nos parece indicar que em Ronaldo Costa Fernandes há aquela mesma necessidade vital e imperiosa, aquela sede onírica da busca da palavra redentora, de que nos falou René Chair:  “A poesia me roubará a morte.”

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Dispersão, Mário de Sá-Carneiro



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Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

(...)

terça-feira, 17 de abril de 2018

Indústria do amargo-poema RCF





Indústria do amargo



A indústria do amargo desassossego,
a patente do medo, a geringonça

movendo as vísceras dentadas,
a fábrica de desacertos mostra o intestino,
manufatura de mercadoria e dejeto,
o lodo e o pêndulo como destino.

Eis o lodo, barro inútil para fazer gente,
massa fecunda para fabricar o desengano.

Agora a outra prensa do nada:
o pêndulo: que é o mesmo e seu avesso,
ora num lugar, ora em outro,
sem nunca sair de onde está;

preso de si, são dois em um,
um que se faz dois,
para iludir a salmoura da matéria.






(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)