domingo, 19 de novembro de 2017

Poema quase erótico, RCF


Di Cavalcanti



A visão dos teus quartos




O parlamento do corpo
na assembléia de membros,
tua bunda,
tuas duas luas nuas,
o sistema solar do assoalho,
os olhos chineses da persiana,
e, tu, na ventriloquia do telefone.

Tu, que és distúrbio,
multidão de uma só pessoa,
passeata de sopranos e bombardinos,
me lanças coquetéis molotovs
e me incendeias com a gasolina dos teus cheiros.

Os poros como ventosas,
os pelos se eriçam como línguas tremelicantes.
Cai a chuva amarela da luz dos postes.
Meus dedos têm memória:
tocam o espinho de carne do teu seio.
Teu biquinho do peito
como o segredo do cofre,
vou rodando até fazer clic
e aí teu coração – ou o tesão – se abre.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet

sábado, 18 de novembro de 2017

Edificação da memória, poema RCF





Edificação da memória
o rés do chão do presente,
terra de chão batido,
solo gretado dos dias sem varanda,

                      o fero campo que de batalha
                      tem a foice e a enxada
                      o canto agrário do corte
                      no ritmado amansar da cana
                      no navegar nos campos vegetais
                      do trigo, do algodão e dos girassóis.


(imagem retirada da internet: wiki commons)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O berrante, poema RCF


Resultado de imagem para o berrante


Na estrada ouve-se o berrante
mugindo seu corno de vaca
na maré da grama
trazendo dentro de si
a manada
como a concha traz o mar
no seu bucho de coral.

Berra o berrante
longo e triste
enquanto o boi,
berrante vivo,
caminha para sua sorte
como o homem que, cedo,
levanta-se para o dia.

Berra o berrante
na alma inquieta
dos vaqueiros
que lembram o choro denso
da manada dos homens
perdidos no descampado.

Berra o berrante,
o correio das notas graves,
um féretro de boi
que se enterra ao ar livre,
a própria carcaça servindo
de caixão.

Vai o homem, passa o boi,
vem o cavalo, late o cão,
vai escurecer nos ouvidos retorcidos
– o homem, como os bois,
se rendem à corneta de chifre,
é o lamento da vida
que flui na cornucópia de osso.

De osso é a alma do vaqueiro
– findo o ato do berrante
continua ele a ouvir
o brado silente
do mugido
como a cana na moenda.

Para quem muge o berrante
na ausência de boi e de manada?
O berrante na estrada
é farol de sons,
espectros de notas.
Ao fim do dia,
silenciado o berrante,
continua o som contínuo
a reverberar nos ouvidos
porque o berrante
antes que chamar o gado
anuncia na alma do homem
a noite densa que desaba
feito uma vaca na vala.

O berrante é o berro do homem
que ficou lá dentro preso
e pela goela e pelo chifre torto
é expulso como vômito,
quer fazer do avesso o homem.



(do livro Terrratreme, Brasília, Fundação Cultural do Distrito Federal, edição limitada, 1998)

imagem retirada da internet: luareberrante