domingo, 7 de agosto de 2022

Lembrança, poema

 


 








 

 

 

Não me lembro do que esqueci.

O dente de leite

que caiu no café da manhã?

A estrela cadente

que não incandesceu nos meus olhos?

A água viva que matou o verão?

O abraço de madeira

no corpo florido do meu pai?

A morte se maquia;

por isso, minha mãe saía à rua falecida.

A lágrima é um colírio

que se pinga de dentro para fora.

Um colírio que não alivia.

Só não posso esquecer que sou gente.

Não quero ter uma vida de cão.

Estudei pra burro

para não ser um asno.

Tampouco quero ser floresta.

Cresço melhor à noite.

Minha fotossíntese

é uma dialética

entre a tese da treva

e a antítese do florescente mal

de respirar minha inspiração.

 

Amanhã, se alguém me chamar na rua,

direi que sou passante.

E os passantes não têm nome.

Passantes são animais pequenos

que não têm nome como as pedras.

Só as pedras gigantes têm nome.

Sou muito pequeno

para um monte de coisas.

 

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Geleiras, poema de Matadouro de vozes



 

 

 

O que me queima,

devora e rói,

está na carne do tempo

e se move letárgico,

espasmódico e tenro,

um veleiro na montanha.

 

As geleiras,

que águas foram

e à água voltarão,

se automutilam

na voracidade de calor

e desistência.

 

A madrugada regurgita

seu caminho de escuros

e especula a existência de pés.

Acomodados no sofá,

ouvimos a geleira do passado.

 

Minhas mãos

têm dez línguas que falam por uma.

Mas em nenhuma delas sei dizer a palavra adeus.




terça-feira, 2 de agosto de 2022

Óculos, poema RCF









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Meus óculos se cansaram 
de me tornar nítido
e vou passando embaçado
pela miopia das gentes.

O pensamento finge ter olhos 
mas não logra mirar-se.
E embaça a mente que deveria clarear, 
me torna míope
para vigiar a vida
que insiste em me assaltar.





(do livro Matadouro de vozes, 2018)