terça-feira, 22 de maio de 2018

Se eu morresse amanhã, poema RCF


 Resultado de imagem para vivian maier


Se eu morresse amanhã,
minha irmã riria,
e diria que tomei bastante remédio.
Minha mãe não saberia
quem morreu, se o menino louro
ou o adulto atrapalhado.
Meu filho lamentaria
ter-lhe estouvado um encontro.
Se eu morresse amanhã,
só o morto compareceria
por dever de cerimônia.
Se eu morresse amanhã,
não teria que ler mais Álvares de Azevedo
para dar aulas noturnas
e ganhar uns caraminguás.
Se eu morresse amanhã,
ninguém se importaria
a não ser os coveiros
que, sob o sol do cemitério,
teriam que cumprir sua função
de plantar sementes que nunca germinam.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)





 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Jomar Moraes escreve sobre lançamento Memória dos Porcos







HOJE É DIA DE
JOMAR MORAES


Nestes nossos tempinhos esquálidos, de extrema e irresponsável banalização da palavra escritor, empregada sem qualquer senso de peso ou medida como qualificativo de qualquer lheguelhé que se dê ao desfrute de escrevinhar um livreco, é fato muito auspicioso o lançamento literário de amanhã, a partir das 19 horas, na Academia Maranhense de Letras, que está festejando os 104 anos de sua fundação com noites de autógrafos de gente da Casa, como aconteceu na véspera do dia 10. Nessa data, como é sabido, nasceu nas matas de Jatobá, então município de Caxias, o menino Antônio, que um dia seria, para sempre, Gonçalves Dias, o poeta que se encantou no reino dos mares maranhões, mas não morreu jamais, nem jamais poderia morrer, por força de ser quem foi. Ele mesmo, em carta a seu maior amigo da vida inteira, Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, afirmou enfaticamente, desmentindo a falsa notícia de sua morte: “É mentira: não morri! nem morro, nem hei de morrer nunca mais.” E nessa epístola, repetiu uma passagem das Epístolas de Horácio: "Non omnis moriar”.
Corrijo o pequeno desrumo que esta conversa tomou, consignando que na quinta-feira última realizou-se na Academia o concorridíssimo lançamento do livro de Joaquim Haickel, intitulado “Contos, crônicas, poemas & outras palavras”, trabalho sobre o qual já deixei meu testemunho nos umbrais do dito cujo, e que reitero, realçando e ressaltando os talentos múltiplos do fazedor de coisas Joaquim Haickel, um incansável promotor cultural que a Academia em muito boa hora elegeu para seus quadros.
Tal como na última quinta-feira, na quinta-feira próxima, amanhã, também a partir das 19 horas, outra noite festiva realizará a Academia, para o lançamento do livro de poemas "Memórias dos porcos", do escritor e acadêmico Ronaldo Costa Fernandes, maranhense que atualmente reside em Brasília, onde, pelo brilhantismo de sua militância literária, representa condignamente as altas e centenárias tradições de cultura e inteligência do Maranhão.
Reitero que o lançamento de amanhã na Academia é um acontecimento literário importante e merece ser prestigiado pelos que tenham apreço à literatura. Ronaldo Costa Fernandes é um escritor na verdadeira acepção da palavra. Autêntico homem de letras, que, ao contrário de lançar mão do recurso fácil do instintivo e da improvisação, buscou, sistemática e conscientemente, fazer o seu aprendizado do ofício de escrever, chegando hoje a ser, por tal motivo, o que geralmente se convencionou classificar na categoria, rara, por sinal, de oficial de seu ofício. Ronaldo colocou a serviço de seu talento poliédrico uma formação literária sólida e marcada pela inteireza e completude que procura suprir desvãos e descontinuidades. Fez, a serviço desse objetivo maior, sua graduação e suas pós-graduações, todas sempre substanciadas e enriquecidas pelo fazer literário, desde os trabalhos que escreveu e que, a despeito de premiados, destruiu, por exigências de uma rigorosa autocrítica. Escritor pluritalentoso, Ronaldo Costa Fernandes está absolutamente à vontade nas variadas formas de expressão literária, em todas e em cada uma das quais alcança excelentes resultados. Romancista, quando se dispôs a estrear, disse logo ao que vinha, com “João Rama e suas andanças nas maldições do encantado”, seguindo-se “Retratos falados”, “Concerto para flauta e martelo”, e “O morto solidário”, prêmio em 1990 da Casa de las Américas e primeiramente editado em Cuba no ano de 1991, romance do qual tivemos a edição brasileira era 1998, seguindo-se-lhe “O viúvo”, e a este, “Um homem é muito pouco”, romance denso, não porque seja volumoso, mas em razão de sua carpintaria complexa. Obra de fina engenharia literária, sem concessões nem atalhos fáceis. Por outras palavras: obra de escritor para escritores, representativa da virtuosidade de seu autor, não apenas um doutor em literatura, que para ele seria muito pouco, mas um douto em literatura. Prossegue a bibliografia ronaldiana: ainda no campo da ficção, a novela “O ladrão de cartas”, editada em 1981 como volume 323 da Coleção Vera Cruz, da Civilização Brasileira, e o livro de contos “Manual de tortura”, com o qual Ronaldo se completa como prosador. Um mestre do romance, da novela e do conto.
E também mestre nas artes da poesia, como o comprovam estes livros de poemas: “Terratreme”, “Andarilho”, “Eterno passageiro”, “A máquina da mãos” e “Memórias dos porcos”, a ser lançado amanhã.
Numa demonstração de que Ronaldo faz com maestria sua multifacetada obra, mais um título. E este, comprobatório de que, além de fazer muito bem seu trabalho de escritor, possui plena consciência do que faz e por que faz: o livro de ensaio literário “O narrador do romance”, um compêndio que deixa muito bem patente a inegável competência literária de seu autor.
Fiz questão de enumerar título a título a bibliografia de Ronaldo Costa Fernandes, como tentativa de contribuir para o melhor conhecimento, por parte dos maranhenses, da obra desse conterrâneo muito mais conhecido e sobretudo reconhecido fora do que em sua terra natal, situação que se deve, em parte, à circunstância de Ronaldo viver, desde muito cedo, fora de São Luís: no Rio de Janeiro, durante a fase infanto-juvenil, onde fez sua formação principal; depois, por cerca de sete anos, na Venezuela, como diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Caracas; e desde há alguns anos trabalha e reside em Brasília. Também o ensimesmamento de Ronaldo, não devido a pretensão, mas a timidez, responde por considerável parcela de seu  desconhecimento entre nós.
Ressalto, finalmente, que a multifacetada e numerosa bibliografia de Ronaldo Costa Fernandes, iniciada em 1979, com o livro de estreia “João Rama”, atesta a constância de seu fazer literário, exercido como permanente compromisso com sua vocação verdadeira e irrenunciável.



domingo, 20 de maio de 2018

Poema para o poeta Fernando Mendes Vianna morto, RCF




Por que não falas na tua última conferência?
Por que não gesticulas?
Tu, que te movias alvoroçado
como as pás de um motor
– desligado, apenas a promessa de nau;
acionado, o furor dos pensamentos
em redemoinho.

Tu, gigante leve,
andavas mais perto das nuvens,
ao acreditar que a poesia era mitologia.
Que mito parou tua máquina de poetar?
Que mito grego ou moderno
inventou tua morte?
Este não é o velório que querias,
sem a digressão do morto
– o morto é digressivo,
ou melhor, os que comparecem
são digressivos como tu eras,
mesmo que sejam variações
sobre o mesmo tema: a cerimônia da morte.
Recitas com voz ausente
– nunca entendi por que sussurravas
tuas poesias, tu, que não tinhas timbre de câmara,
mas música napoleônica, sinfonia de som,
fúria e delicadeza.
Tu, que tinhas dentro de ti
o mar que trouxeste do Rio.
Este mar convulso, tenso,
exaurido, de dióxido de carbono.

Vem, acaba teu último poema,
posto sobre a mesa do escritório,
e escreve que morrer é uma pena
que não escreve versos
e que agora só tens a entregar
aos amigos o corpo silencioso de morto,
na esperança segura de que teus poemas inéditos,
animais silvestres aprisionados,
soltos sem dono, possam sobreviver.
Tu, morto, és teu último poema,
inacabado, contudo, jamais esquecido
no fundo da gaveta final.