terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Um homem é muito pouco 33



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Os amigos poetas de Alice não gostam de mim. Me acham burro. Um sujeito sem leitura. Tenho minha leitura, mas não é a leitura deles. Alice odeia a poesia dita feminina que fala na hora presente, no amado perdido, no voo do pássaro, na tentativa de recuperar o instante e tudo o que é deliquescente e abstrato ou trata do universo feminino como menstruação, maternidade e pintura de unhas só pode entrar na poesia se for como ironia.

            Procurei Alice na casa de Artur Rabelais (é claro que o Rabelais era apelido e não o sobrenome do cara) e ele me disse na porta do apartamento, uma espelunca igual a minha, que não via Alice fazia uma semana e que não tinha ideia onde ela poderia estar. Alice não tinha pouso fixo e se eu quisesse entrar que eu entrasse, mas Alice não estava ali. Bati em outras duas portas e ninguém tinha visto Alice. Outro grupo de Alice era de cineastas ou de candidatos a cineasta. Eram cineclubistas e curta-metragistas. Haviam feito apenas um ou dois filmes, mas quem os ouvisse falar pensava que estava falando com Antonioni ou com Bergman. Falavam em Dizga Vertov, Griffith e Eisentein. Mas quem não fala em Dizga Vertov, Grittith e Eisentein nos dias de hoje? Cheguei a ir ao Museu de Arte Moderna, na Cinemateca do MAM, para ver se a encontrava. Os cineastas já eram outro tipo de gente, tinham mais grana, eram de famílias ricas. Para fazer um filme você precisa de grana, para fazer poesia basta papel e lápis. Os cineastas amigos de Alice também ficam impressionados como conheço cinema. Conheço cinema porque eu via desde Tom e Jerry, nas sessões dominicais do Pax quando criança, O Rei dos Reis, um filme que passava sempre na semana santa, e hoje em dia vivo escondido no cinema vendo comédias idiotas até filmes de arte. Alice já aparecera nos dois curtas-metragens do grupo, mas Alice não quer ter corpo e quem não quer ter corpo não pode colocar o corpo inteiro numa tela. Alice pensa que pode ser reconhecida, e por meio das pessoas do filme, eles chegariam até ela. Alice não diz quem a persegue, não digo quem me persegue.


(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Por que um homem é muito pouco, Edilson Dias Moura


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Edilson Dias Moura
Crítico Literário, Mestre pela USP, Editor da revista Opinães.


Publicado no fim de 2010, começo de 2011, pela Nankin, Um homem é muito pouco revela mais do que se espera sobre nosso tempo. Ao transformar em simbólico, representativo, o usual e imperceptível, e até mesmo o repugnante, em literatura, o romance nos leva, contra o pano de fundo de nossa memória, ao reconhecimento dos muitos de nossos pseudovalores ético-morais, produtos do consumo-capitalista e do marketing, de uma estrutura sociomental reificante; contudo, não num sentido de denúncia social, mas em termos de elaboração estética literária. A surpresa é tal que aquelas primeiras elucubrações iniciais, dos prêmios principalmente, se dissolvem completamente sob o prazer da decodificação literária.

(...) Clemente reconheceu o homem que o assaltara. O coração agitou-se. Olhou para o pescoço e o cordão de ouro dele estava no pescoço do homem. Clemente avançou no pescoço do homem, arrancou o cordão. O cordão na mão lhe devolveu as forças e suas pernas rejuvenesceram trinta anos. As pernas também pensam. E o que as pernas pensaram naquele momento é que não deveriam ficar ali paradas. As pernas servem para sustentar o sujeito como pilotis, mas também servem para transformar a parte de cima do corpo em um tronco leve. (...) A metade de baixo corresponde às pernas e quando as pernas viram máquina de correr então a parte de cima é apenas um busto que é levado por uma carreta ligeira. (FERNANDES, p. 13, 2010)

Diante da ousadia do texto, percebemos que o romancista não traz na bagagem apenas alguns romances, alguns prêmios, mas sim certa compreensão da arte e da prática literária bastante surpreendente perto de tudo que nos tem sido apresentado nos últimos anos, seja por grandes ou pequenas editoras. Por meio de uma escrita muito particular e de um modo de descrever e de compor próprios, vai-se revelando a atualidade desse romance pouco a pouco.

Combinando elementos inusitados do modelo automatizado do mundo com o modo de funcionamento do raciocínio de seus personagens, suas manias, anseios etc., o autor surpreende-nos com o desenvolvimento de uma narrativa constituída de elementos que não se deixam analisar classicamente: já não se trata apenas da reificação e sua ação nas atitudes mentais, embaralhando valores mercantis e qualidades humanas; mas sim de um esgotamento do sentido humano das coisas, do sentido de fragmentação, inclusive do sentido de homem, menos que um “mineral” na vida quando destituído de um papel social. Algo só verificável em contraste com os valores de nosso próprio tempo e suas demandas, sob o fetiche dos avanços tecnológicos e da vida informatizada.

Conta-se, em determinada altura, quando se reúne a família de Eurico para comemorar o aniversário da mãe, que um de seus irmãos morrera ainda menino. Desde então, a mãe permanentemente o esperava. Para aliviar a dor dessa ausência, os familiares passam a inventar uma biografia: “foi ao colégio, fez faculdade, agora o menino morto tinha casado e ainda não tinha filho” (FERNANDES, 2010, p. 258). Eurico é relojoeiro, e desde o início desta parte do romance nos habituamos a uma espécie de assimilação da consciência, do mundo e do próprio personagem, pelos mecanismos do relógio e suas dimensões maquinal e temporal. E é nesta reunião de família, em torno da mãe numa cadeira de rodas, que encontramos uma das mais belas passagens desse romance:

Um pouco da tristeza de Eurico é que não podia fazer a felicidade da mãe. A mãe perdera os rolamentos há muito tempo. Tinha gente na família que dizia que a mãe começou a atrasar as ideias quando morreu o menino morto. E traçavam o percurso de atrasos das ideias da mãe. Lembra a viagem à Bahia? Lembra quando a mãe esqueceu onde morava? Lembra quando a mãe... e davam corda no relógio da memória a lembrar fato e datas em que a mãe se perdera de si à procura do menino morto. (FERNANDES, 2010: p. 259)

Sucede a esta passagem magnífica o elo com a primeira parte do romance, quando Clemente procura recuperar o cordão de ouro que lhe furtaram e, ao arrancá-lo do pescoço do suposto ladrão, suas pernas rejuvenescem trinta anos. Adriano, filho de Eurico, apaixonado da prima a dançar twist, observando as pernas da prima, compara a juventude e velhice da seguinte forma: “As pernas mortas eram o começo de o homem virar mineral. As pernas minerais da avó, por exemplo, já diminuída da cabeça, a transformava num busto que se recusava a deixar a vida.” (FERNANDES, 2010: p. 261).



domingo, 18 de fevereiro de 2018

O homem olha o Mondego, poemaRCF




Alguns rios me banham: Bacanga e Anil.
Meu corpo está cheio de rios:
minhas veias são rios vermelhos
que desembocam no mar do meu coração.
Os rios se instalam em mim
e em mim me danam, lanhando
por dentro meu corpo, linfáticos e
cheio de incertezas, onde habitam
passado e história, dor e escuridão.
Há rios em mim que desconheço
sua foz, sua embocadura,
de onde nascem, para onde vão.
O pior rio é o da mente
que flui sem margens,
desordenado e com várias águas,
águas desiguais e turvas.
Há rios em mim que nunca supus ter.
Meu pensamento é um rio seco
mas pleno de correnteza e afogamento.

  

Coimbra, 18.10.2009

(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)