sábado, 13 de julho de 2024

Velocidade das estrelas , poema

 


 


 

 

 

Tudo na vida tem sua velocidade.

O avião com seu focinho rápido

desloca estupidamente

um vilarejo de homens sentados.

Os navios,

que são velocidade em nós,

nos carregam como se uma cidade

mudasse de endereço.

Até mesmo

o poema tem sua velocidade.

Escrevo hoje e, se por sorte

algum desatento venha porventura me ler

daqui a cem anos,

o que lerá é o brilho

de uma estrela morta.

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Agro é pop, poema

 


 


 

 

 

Uma lavoura de fome

se planta a cada dia no campo.

Um lavradio de pobres

com menos pulmão,

menos dentes

e mais vértebras.

Tem dono de terra

que é dono de vidas.

E quando isso acontece

as vidas

estão com as raízes podres,

o estio na alma

que é a pior secura.

A lavra dos pobres

é uma sementeira

de filhos mirrados.

O agro é pop,

o agro é punk.

 

 

 

sábado, 6 de julho de 2024

Vizinhos da agonia, poema

 


 

 


 

 

Tenho vizinhos

de todas as espécies:

os domésticos e os de alvenaria.

Os da rua moram

parede a parede

com o síndico das ordenanças

e do bom convívio.

Os domésticos

costumam latir de madrugada,

são cães subalternos à lua.

Há outros que se avizinham

a meu medo,

à minha desconfiança

e não há síndico

que o ordene ou crie

o bom convívio.

Os síndicos dos vizinhos domésticos

são inferiores, turvos

e se misturam à balbúrdia do pensamento.

A vizinhança doméstica

coloca o som alto

da intolerância comigo mesmo,

arruaça meus cabelos

e minha temperança,

joga o lixo do passado

na calçada dos anos.

E nada posso fazer

senão conviver com o vizinho

dos destroços

que não me deixa sossegar.

Não posso reclamar

ao síndico pois nos convívios

tumultuosos que habitam a casa interior

da minha vizinhança espúria

sou eu mesmo meu síndico.