quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Quiromancia, poema RCF



 Xadrez no espelho photo xadrez-sozinho-espelho.jpg



As linhas da mão são
uma bola de cristal de carne
um tarô com dedos
um baralho com uma única carta.
As linhas da mão
não pintam nem bordam,
são mal traçadas linhas da vida.
As linhas da mão
seguem seus trilhos de pele
e dão a mão à palmatória:
costuram o futuro,
cosem o presente
e alinhavam o que não se pode pesar.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Doador de tempo, poema RCF


 
Sou doador de tempo.
Uma vez ao ano, estiro o braço
e de mim colhem tempo.
O coração o bombeia
e sinto o tempo subir à cabeça.
Mas quase sempre
entre a nodosa manhã
e o início serpenteante da noite,
mantenho o tempo frio.
Meu tempo segue seu labirinto
que pensa antes apresá-lo no corpo
quando na verdade por ele é prisioneiro.
Meço a pressão:
alta realidade.

(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Poema a Lezama Lima, RCF




Esta é a estranha noite de sons gris
que vêm burlar meu sono
como algaravia de festa rumbeira de vizinho.

Um poeta habanero, asmático, de voz grave mas faltosa,
sussurra poemas e nos irmana num tempo alçado à medição zero.

Lezama me diz, sentado em sua cadeira de palhinha,
na varanda da casa, abanando-se com um albanico de paja
que posso habitar espaços tortuosos de ventos frígios
existir sem existir
na presença prístina no casulo exuberante e feroz das palavras
que zunem e produzem o fel do poema.

A noite com seus cachos morenos
olhos trigueiros de quem não teme a luz
nem os versos pardos que se movem nas sombras.

Estreitas são as mãos que me acercam
– afinidades eletivas – a poetas que nunca conhecerei
e que a morte fez supérflua
pois os alcanço como alcança o menino
que pula para apanhar a manga lápis-lazúli
na mangueira nervura de estrofes.



(do livro Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: lezama lima