sábado, 10 de agosto de 2024

Habitação e melancolia, poema

 

 

 


 

 

Habito o quarto

dos fundos da memória.

É lá que guardo

meus hábitos mais antigos.

Sei em que caixa

alugo os romances

que me inquilinavam o corpo.

Num álbum de fotografias

– quando existiam álbuns de fotografia –

estão colados os dias felizes.

Todos estão jovens,

os pais e os avós,

que agora vivem mortos.

Não há nostalgia

– essa doença da saudade –

apenas a constatação

de que estou em fotos

no celular dos filhos,

uma imagem

sem paredes para sustentá-la.

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Desemprego das horas, poema

 


 


 

 

 

Emprego meus dias

no desemprego das horas.

Há muito de fabril

em meus escritos.

Chegará o dia

em que desempregarei meu corpo.

O relógio de ponto

do meu coração

marca o emprego das vontades.

Meus temores estão de férias.

Caminho o expediente

da alegria

cujo salário é bonançoso.

Tenho o trabalho

das palavras

que é minha profissão de fé.

 

 

 

 

domingo, 4 de agosto de 2024

O susto e o redemoinho, poema

 


 




 

 

 

 

Um susto redemoinha meus dias,

uma correnteza carrega meus pés

num chão de água.

Sou uma cabeça que ora boia,

ora submerge aos tropeços.

Ando numa ciranda de águas.

A profundidade das calçadas

ameaça minhas margens.

Minhas pernas flutuam o acaso,

que é sempre súbito

e enforca meus dias.

Tento colocar a cabeça para fora

nessa ressaca de lutos.

Complicado se equilibrar

num meio fio.