sábado, 20 de julho de 2024

As travesseiras, poema

 


Georg Grosz













As travesseiras alvoraçam 

mãos de pluma 

ou cabelo de penas: 

não costumo adormecer 

se minha cabeça 

está pousada na pena.

Nada dói mais que o dó próprio. 

Um dó em stacatto.

Meus cabelos 

dormem em pé como cavalos.


No sono, as cabeças 

são mais leves que o ar.

Por isso, levitam e baloneiam. 


As travesseiras os penteiam 

com seu algodão que curam feridas.

Transformam 

os cabelos em águas-vivas 

e os levam à correnteza das medusas.


As travesseiras 

são mulheres rendeiras 

que fiam o sono bordado 

das silhuetas e caligrafias.

Adormecem 

as iluminações sombrias, 

embora haja muito sol 

nas travesseiras 

que bordam a aurora dos tristes. 

A anatomia das travesseiras 

só comporta cabeças.


Ó incêndio marítimo 

feito de algodão 

das núpcias 

entre o céu e o inferno.


Elas não contam carneirinhos 

e tudo o que tosquiam

são os cabelos da noite, 

os labirintos das medinas do sonho.

São mulheres 

que fazem rendas dos pesadelos, 

ovelhas no cio da imaginação, 

bordando histórias, 

costurando os corpos.


As travesseiras 

são ouvidos de pano 

que ouvem minhas confissões masculinas.

As travesseiras não nos atravessam 

de uma margem à outra

– da razão ao sono. 

Não, não nos ouvem 

nas águas passageiras da vigília.


Tenho de tampar os ouvidos 

com cera para não ouvir 

o canto das travesseiras

que estão nuas em uma nave

– uma naufragata –

que a qualquer momento

me prende ao mastro da realidade.












quarta-feira, 17 de julho de 2024

Almoxarifado das almas, poema

 


 

 

Guido Viaro

 

 

O poeta é um almoxarife

que vai pegar nas prateleiras

de vozes

as resmas do presente,

os acumulados do tempo

e as dúzias de sentimento

para escrever

os versos na tinta dolorida

das ideias ainda em forma

de caixas atrás de uma porta invisível.

 

Depois virá a manhã,

que é outro almoxarifado

de vertigens,

onde estão armazenadas

as caixas de pandora

que são a vida de cada um.

 

E virá a noite

que mantém as luzes das perdas

acesas no quarto vazio

em que se transformou o coração vadio

e faz da imaginação

um almoxarifado

de rostos desfeitos

pela bruma do remorso

ou pela miséria da razão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 14 de julho de 2024

Um homem é muito pouco 19








Queria também era anestesiar o pensamento. O álcool não anestesia o pensamento. A maconha e a cocaína também não anestesiam o pensamento. Em mim as drogas fazem o pensamento ficar com o nervo exposto, em carne viva. Em mim as drogas e a bebida fazem é mutilar meu pensamento. E meu pensamento mutilado pensa medo. Meu pensamento com droga não sobe nem desce. Meu pensamento com droga fica como elevador parado entre dois andares e um homem não pode viver com o pensamento parado entre dois andares. Não desgosto do dr. Máximo. Máximo é um homem minúsculo. Gosto das coisas minúsculas que não assustam a existência do mundo. E parecem sugerir que a delicadeza e o detalhe são como uma unha tão nobre e importante como as coisas grandes e que deblateram o tempo todo.

            Ainda há abandono e ruína no mesmo andar. Ou andar acima ou andar abaixo. Uma miséria vertical. Andei muito pelo mundo e conheci a desgraça horizontal. Aqui existe tudo em forma de risco. Um risco de cima abaixo. Há um monte de família. Uma delas: o garçom. O garçom é o tronco. A árvore do garçom só tem galho vadio. É um tronco que trabalha num restaurante perto. Os outros garçons trocam de roupa no trabalho.

            O garçom meu vizinho sai vestido de trabalho. A gente abre o elevador e o elevador está black-tie. Cada dia mais o terno cresce. É que ele murcha na sua função de tronco. A família pouco se dá, hum, hum, se ele adoece. As olheiras piores são as olheiras dos pulmões. Ele também não tem os pulmões vadios. O pulmão dele é operoso e um pulmão operoso que não descansa talvez logo adoeça.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)