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domingo, 16 de agosto de 2026

O viúvo, 4º capítulo

            


         Caminho na multidão. Mas, falando sozinho assim, passo a ser um sujeito esquisito, do qual as pessoas se afastam, não pelo medo físico de serem agredidas, mas porque os esquisitos podem dizer obscenidades, despropósitos, inconveniências ou a verdade, o que vem tudo a dar no mesmo. Se as pessoas são como eu, elas terão sua pequena dose de loucura escondida, fechada, como se leva dinheiro avulso e não se quer perder e então aperta o velcro ou fecha com zíper o bolso do calção. A pequena loucura, mesmo que seja pequena, não se expõe socialmente, vive aprisionada, principalmente em forma de desejo ou pensamento proibido que surge repentino sem que se puxe por ele. Um desejo molesta a gente, chega em hora imprópria. Pode nos surpreender numa fila de banco ou dos Correios, numa loja de perfume, numa praça de alimentação ou ao ser apresentado à filha de um amigo, o desejo, ora o desejo.
            Não quero também ser descarnado, que me retirem tudo o que tenho de libido e passe a ser um sujeito anódino, máquina que anda por aí, alguém a quem cortaram os colhões.
            Entro numa farmácia, mostro a lista de remédio.
– De que o senhor está rindo?
– De nada.
– Então por que me olha assim?
– Assim como, senhor?
Há outro rapaz atrás do balcão. Ao me ver alterado – por que estou alterado? – ele vem e se coloca fora do balcão. Entendo a atitude dele. Atrás do balcão, caso eu tenha alguma reação violenta, terá entre nós o próprio balcão que dificulta ataque, mas também atrapalha a defesa. De repente percebo que toda a farmácia está com a atenção em mim. É mais um louco, devem pensar. Manias. Mas o homem gordo, rosto redondo, que me olha sério e irônico – é certo que me olha irônico – não deveria rir de minha cara, da minha receita, do meu modo de vestir, o que está olhando? Não posso me engalfinhar com o rapaz que se aproxima como quem vai expulsar um mendigo da farmácia. Insensatez. Recuo.
– Onde está minha receita?
– Ele foi buscar o remédio.
– Não quero mais o remédio.
– Ó Jorge, o cliente não quer mais o remédio – grita o gordo para dentro da farmácia.
            Não sou mais um homem jovem. Se me atraco com o rapaz, por certo ele me trucida, quebra meus ossos. Além do mais, os empregados todos da farmácia se colocam de prontidão. Percebo que sou uma ameaça. Eu, quem diria, a ameaça. Não gosto de me sentir uma ameaça. Se alguém ameaço esse alguém sou eu mesmo. Aqui está, senhor, a sua receita. Coloco a receita no bolso. Me dirijo para o shopping do outro lado da rua. Percorro as vitrines. Nada me interessa. As luzes dos jogos eletrônicos me atraem. Outra vez me pego pensando nas máquinas. São todos jovens os que estão ali.
Duas moças despertam em mim o que pensava adormecido. Não gosto de misturar outra vez máquina com desejo.
São todos fascinados pela tecnologia. A tecnologia não passa de meio mecânico de existência, por que as pessoas se fascinam tanto com a tecnologia? A máquina me leva a ser máquina, estende meu nariz, alonga meus braços, binocula meus olhos, coloca meu ouvido do outro lado do mundo, meu ser – meu ser físico – é um gigante de dimensões inimagináveis, loucura de um cérebro que não ousa pensar-se tão grande. Por trás dela está apenas o vácuo, logo o brinquedo da tecnologia é o desvio de mente enferma que se deixa dominar. Eu não quero que máquina nenhuma venha a me dizer como se comportar ou existir. O sujeito que acredita usar a máquina está enganado porque ela traz em si a contradição de sua existência. Miséria. Enquanto penso que uso a máquina, ela me transforma nela mesma e nessa metamorfose quem perde a humanidade sou eu, porque a máquina não perde sua essência de máquina, sua maquinidade.
– Quanto custa?
            – O quê, meu senhor?
– Quanto custa jogar naquela máquina?
– É uma máquina nova.
– Desculpe, perguntei quanto custa, não se a máquina é nova.
Ele me vendeu uma ficha. Coloquei-a na máquina. O bicho disparou. Perdi todos os jogos. Aborreci-me. Fui tomado por um ódio visceral, eu que costumo ser pacífico. Chutei a máquina. Puxei os fios. O segurança se aproximou.
– Emergência, setor 3 – disse no rádio. E repetiu: Emergência, setor 3.
E, virando para mim:
– O senhor pode me acompanhar?
– Já estou indo embora.
– O senhor danificou a máquina, meu senhor.
– Que máquina?
Não sei que aparência tinha. Que aparência eu tinha, diga, que aparência? Dois homens fortes, vestidos de roupa preta, me levaram para uma sala.
– O coroa é maluco – disse um deles.
– Com maluco a gente tem uma maquininha que os malucos gostam de brincar.
E tirou da gaveta a porra de uma máquina de dar choque.
– Tudo quanto é louco gosta de choque.
– O senhor gosta de estragar máquina, né? Esta aqui estraga maluco.
E me deu choques que me fizeram rolar pelo chão de dor. Desgraça. Depois a sala ficou vazia. Me recuperei. Mas já não era o mesmo. Andava entorpecido, a vista turva, o coração disparado. Andei ainda pelo shopping como autômato, mais tarde peguei um táxi.
Não sou mais eu, sou vários e não sou ninguém, um ninguém cibernético, um ninguém eletrônico e entediado. Tenho também várias cabeças, a que pensa que pensa, a que mandam pensar o que a máquina pensa, o que pensa os outros, o que pensa o que pensa, o que pensa que pensa independente do que pensam as pessoas que pensam pelos que não pensam.
Nenhuma máquina poderá viver por mim. Nenhuma, veja, nenhuma. Só me fascina o velho e destoante: o corpo. O corpo humano, mesmo aquele plastificado e vítreo, que já me horrorizava no colégio: um homem com as vísceras à vista: o corpo de plástico transparente onde se viam lá dentro o fígado azul, o pâncreas verde, o intestino marrom, o coração cor de rubi, as veias azuladas e os músculos beges.





(LGE, 2005, também em ebook Amazon)




sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O viúvo 18











          O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.


(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Capítulo 11 de O viúvo

















            Meus olhos agora são de papel. Gosto da ideia de pensar em meus olhos como papel. Passei a vida inteira lendo, não tenho nada contra o cristalino, a retina, veias e músculos se transformarem em papel. Há realidade bastante no barco pregado na parede. É um Portugal de papel. O norte de Portugal transmuda-se nas janelas absurdas de Magritte. Fixo meus olhos ali. Meus olhos não navegam, mas enchem-se de maresia. Meu alheamento também tem cheiro – de mim.

            Ali está o porto, precário, diminuto, de pedra, antigo. É um pequeno píer de uma vila. Lá no fundo estão os casarios gregos da vila portuguesa. Não há gente. O barco mesmo posa sua fisionomia de madeira para a foto.

            O casario é branco e sobe encostas. Cada casa é um degrau branco. E as janelinhas, mais parecem escotilhas em terra seca, nos miram abertas ao sol quente e atlântico. Há uma secura ancestral na foto, embora em primeiro plano esteja o mar. Há também enorme doçura, uma doçura tão compacta e palatável que a sinto nos lábios, na língua mesma seca. E não o salgado da água que vejo. Só a maresia cheira; o casario adoça minha boca aberta.

           A mesa é meu cais. Em volta dela, discutem. Por que discutem um processo se pescadores cuidam de separar os peixes, abrir-lhes o bucho, destripá-los, escamá-los? onde o processo cabe neste mundo de guelras, barbatanas e água salgada? O processo não é náutico, mas é salgado. Nele cabem as escamas, nele estão as escamas que devem ser separadas do corpo do bicho de papel. Como o barco da foto, que parece balançar ao sabor das minúsculas ondulações da água, oscilo sob uma onda sonora.

            A foto está um pouco amarelada. Eu mesmo também perco a cor. Queria um espelho. Meu rosto decomposto e azul como o rosto do meu pai. Logo, contudo uma paz vilareja volta a me invadir. Receio que a paz, como a luz fugitiva, também escape de mim. Não terei mãos, nada que possa conter, segurar, prender, colocar em caixa, a paz que se escama.

            Uma inexistente onda, saída da foto, me balança. Agora não tenho dúvida: estou no porto de pedra e não em volta da mesa. Chego a sentir enjoo, a sensação ondulatória, o piso mole das águas ou o piso desequilibrado das embarcações.

            Aquele Portugal de papel me saca da mesa de modo arrebatador. O único elemento agora da foto de casarios brancos e do cais antigo sou eu. O que se fixa na minha mente não é a foto, mas a reunião que passa a ser apenas uma fotografia. Estão todos imobilizados. O barulho que ouço não são as vozes deles. É o barulho do mar. O rumor grande e atlântico do mar aberto.




(disponível também em e-book)

O viúvo, Brasília, Lge, 2004.






quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O viúvo, capítulo 16


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            Há muito que desconheço a relação entre minha voz e o que ela diz. Às vezes acredito que falo coisas que são independentes. Que as palavras já estão dentro de mim, que basta abrir a boca para que elas saiam, sem esforço. As palavras seriam independentes. Um apêndice, um órgão autônomo. Ou uma digestão malfeita. Ou ainda algo que é secretado como um hormônio que a mente não controla.

            Sempre me pautei pelo bom senso. O bom senso é a norma do viver, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo. O bom senso é claro seria o mediano e o mediano é o medíocre. Minhas palavras são medíocres como o branco. Minhas palavras enfim são brancas. Mas me pagam por elas. Pelas palavras ditas. Poucas vezes ganhei pela palavra impressa.

            A palavra escrita também é um hormônio. Sinto como ela se espalha pelo cérebro como um remédio que anestesia os circuitos nervosos. A palavra escrita tem circuitos curtos.

            Guardo comigo, como quem guarda uma tara, a origem das minhas palavras. As pessoas se enfadam se você fala de si mesmo. As pessoas se enfadam muito mais se você fala que suas palavras estão no mesmo campo da serotonina, da dopamina ou da nora-adrenalina.

            Às vezes minha palavra sofre de carência. De menos. De não secreção. Fica seca, não há líquido, não há circuito nervoso, muito menos curto. Então me afundo numa ausência que lembra braço amputado, metade do pulmão arrancado, próstata extirpada, fratura craniana.

            A palavra, a minha palavra, fica assim fraturada. Por dias não há conserto, nada que a engesse, amoleça, costure, opere ou extirpe. Minha palavra então sofre de desvios, de trânsito, de incômodo por não saber onde se encontra. Outros órgãos falam. As mãos, que são falastronas por natureza. A cabeça, que gosta de sublinhar e pontuar. O corpo mesmo, amplo, musculoso, de voz grave.

            Nasci para repetir o pensamento alheio. Queria ter meu próprio pensamento, mas o pensamento dos outros é mais forte.

            Com o pensamento dos outros consigo comer, vestir e ter uma casa para morar. É forte o pensamento dos outros.

           

também em e-book


( O viúvo. Brasília: LGE, 2005)


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O viúvo, 2º capítulo



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    Não sou dos que pensam que a noite apazigua. Mesmo protegido, a sensação é de que há um furto qualquer e que a noite está cheia de roubos que se perpetuam sem que se saiba o quê exatamente foi roubado. Sonhei com ela de forma diminuta. É a vontade que tenho de diminuí-la, digo logo, ela que é tão gigantesca para mim. Então no sonho ela tem o tamanho e a espessura de um cartão de telefone. Coloco-a no bolso da camisa.
     Ando com ela pela cidade. Entro num armarinho que em vez de ilhoses, zíperes, botões e colchetes, vende apenas pernas, mãos, braços e pés mecânicos. O senhor deseja algo, posso ajudá-lo? pergunta o senhor careca com forte sotaque alemão. É o gerente da loja. Enquanto fala comigo esfrega ansioso as mãos. Os lábios são constantemente umedecidos pela língua. Encaro aquilo como licenciosidade. Recuo dois passos, olho para trás, não existe mais a porta por onde entrei.
    O armarinho se transforma em imenso galpão e as pernas, pés, mãos e braços mecânicos passam a ser de carne. Estão pendurados como num açougue. Toda a movimentação é de matadouro. Esteiras, ganchos, operários de jaleco e barrete cortam, examinam, selecionam pedaços de gente. Ela, como está no meu bolso, sente meu coração bater mais rápido e pergunta se estou nervoso.
    – Você está nervoso, meu bem.
    – E não era para estar?
    – Eu, ao teu lado, não te dou paz.
    – Esta é a maneira de estar ao meu lado?
    –Fica calmo.
    – Este homem é um maluco.
    – Que homem?
    – O alemão.
    – E por quê?
    – Não está vendo?
    – Sei, pelos membros expostos.
    – São restos de pessoas, é carne humana, e você acha tudo natural. Estou num matadouro, açougue, frigorífico ou coisa que o valha e tudo aqui é perna, coxa, pedaços de gente e você acha tudo isso natural?
    – Você se escandaliza com tudo.
    – E não é para me horrorizar?
    – O horror está aqui.
    – Aqui onde?
    – Em casa.
    – Em casa?
    – Olha as frestas.
    – Que tem as frestas?
    – É uma forma de corte.
    – As rachaduras na parede então são cortes como um corte na pele, é isso que você quer dizer?
    – Os cortes...
    – Você diz as rachaduras.
    – As rachaduras são daninhas e nervosas.
    – É um apodrecimento das paredes.
    – Não, é uma forma das paredes respirarem.
    – Se você meter a mão vai esfarelar tudo. A umidade estragou a parede.
    – Não é umidade. A parede sua. 
    – Ah, a parede sua.
    – E outra coisa.
    – Diga.
    – A casa é um grande intestino.
    – Ora, me deixe.
    – Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora.
    – Me deixe em paz.
    – Você já está em paz.
    – Desde que você se foi que não tenho mais paz.
    – Não seja sentimental.
    – E você sabe disso.
    A sujeira está sempre em carne viva. Os lençóis são redundantes. Eles têm o meu cheiro. Então me sinto em mim, deito sobre mim, cheiro-me, empapo-me do que sou, do suor do bicho gosmento que à noite rumina. O que em mim rumina não é coisa aproveitável, é o bolo gástrico do pensamento que não me deixa dormir, faz insones as paredes, dá voz à pia. Quando D. Benedita não está aí não entro na cozinha porque posso ser tragado pela fedentina da casa. Todo meu lixo é orgânico. Não existe casca de laranja ou a laranja mesmo. O que está ali é um pouco da boca que a chupou. Do estômago embrulhado que a deglutiu. Sou um animal gorduroso e fescenino, por isso não gosto do bicho cozinha que pode me engolir e não me vomitar mais.

sábado, 1 de julho de 2023

O viúvo, 6º capítulo




            A casa não me aceitava. Eu, mero apêndice, excrescência, a qualquer momento, ela poderia me expulsar como um organismo vivo expulsa o que lhe é estranho.
            Os quartos por sua vez eram diminutos, apertados, lembravam casa de bonecas, não havia espaço para hóspedes, camas descomunais, armários enormes. Eu não visitava os quartos. Não os ocupava, não os via, nem mesmo os queria fazer de depósito. E cada vez que, do corredor, os avistava, por incúria ou descuido, me surgiam cada vez menores. A impressão que tinha era que, por não serem usados, e como organismos vivos que sem uso atrofiam, um dia desapareceriam. Eu caminharia pelos corredores e não daria falta deles.  Os corredores, onde estão os corredores?
            A cozinha era ampla, arejada e a casa, estranhamente, em vez de atrair luz e energia para a sala, convergia para a cozinha luminosidade, amplitude e vida. A vida vicejava na cozinha como planta adubada. As paredes porosas exalavam não apenas o cheiro forte dos temperos, exalava ela mesma cheiro de existência, coisa viva, poderia suar ou gelar-se.
            Se a cozinha vibrava, utilitária, necessária e vital, a sala acabrunhava-se numa soturnidade úmida. O sol também dali se esquivava, batendo nas quinas, sombreando os cantos, nada mais. A sala era um caixote, de teto de cimento aparente, que se recusava a iluminar-se, mesmo artificialmente. Contudo não lembrava luto ou tristeza, mas uma recusa, negaça, fingia-se de acolhedora quando ela própria respirava escuro e renúncia.
            Havia um meio tecnológico que me ligava ao mundo: o telefone. Nele, podia ingressar minusculamente, outro mundo alardeante de vozes, sussurrantes, abstratas, podia atravessar de maneira atlântica e estar em contato com vozes estrangeiras, me colocar entre dois mundos, ou estar em dois mundos. O telefone era uma caixa de vozes mágicas. A caixa me trazia notícias sonoras como um rádio que se pudesse responder. O telefone tem essa magia de ser um eco com voz própria, por isso meu desconforto quando minha voz rebota do outro lado. Do outro lado, do outro lado, do outro lado.
O alô que ouço foi o alô que produzi, falo então comigo mesmo. Alô. Desta vez o que existe é o eco, e nada mais falacioso, que me torna falso a mim mesmo, me engana com a minha voz, me faz máquina também, a voz se torna um bumerangue de som, o estranho do outro lado, alô, de voz grave, o estranho sou eu. E aí ingresso num mundo onde a caixa tem a espessura do meu ouvido, e se me ouço, como quem pensa, fala consigo mesmo, o telefone passa a ser metáfora vivente, concreta, de plástico, curto-circuito, do bocal ao fone, então ingresso no mundo vicioso e perverso de mim mesmo.
Evitava o silêncio, pelo menos logo depois da morte de Lídia, mas a televisão e o telefone passavam a ser silêncios estentóricos. E como D. Benedita ligava o rádio, a casa também era invadida – logo D. Benedita com sua surdez – por vozes empostadas. A casa era tomada por vozes dubladas, que não nos ouviam, coro de desconhecidos, se todas aquelas vozes microfônicas ali fossem pessoas eu não poderia andar pela casa, lotada de algaravia. Aqui, com licença; ali, com licença.
            Não lavava louça nem varria a casa, andava descalço e o pé se sujava mais do que se andasse pela rua. Porcaria. A pilha de pratos engordurados se acumulava. Eu olhava para os pratos e os pratos mostravam minha inépcia, minha preguiça, minha solidão gorda.
            A permanente e surda penumbra passou a ser parte dos meus olhos. A casa, em vez de ser invadida por luz, era tomada pelo escuro. Ele vinha e se deitava nos móveis, o escuro era luz em negativo que se espalhava, tomava conta, irradiava seu nada e sua posição de oposto. Mas o escuro não me angustiava, ao contrário me dava a paz de um recanto onde o mundo não alcançava, nem mesmo a luz do sol.
            O sol, contudo, teimava em se instalar uma vez por semana. Diabo de rotina. Era quando vinha D. Benedita. Velha reclamona, metida a falar consigo mesma, hum, hum, de olhar torto, um olho mirando mais à esquerda e outro mais à direita, disformes e saltados, a infeliz estampa que me agoniava por não saber onde punha o alcance morboso de suas vistas sonolentas.
Não sabia em que cômodo ficar, escolhia o dia da semana em que teria de ausentar-me o dia inteiro, mas às vezes coincidíamos e eu me via acuado, incômodo em minha própria casa, quase pedia desculpas a D. Benedita por morar ali, ora que é isso, nhô sim, nhô não, outro tanto envergonhado de ela expor sem limite ou pudor a minha vida mais noturna e escondida.


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O viúvo, 5º capítulo


Otto Dix. DER KRIEG ("WAR") The Dresden Triptych - YouTube
Estava na casa da doutora quando escutei os gritos. Perguntei pra empregada o que era aquilo. A moça disse que não sabia. Não sei do que se trata. A casa aqui, continuou ela, é muito sossegada. Os pacientes são nervosos, mas nunca atacam, gritam ou fazem escândalo. O homem aí deve ser um estranho. Nunca vi ele aqui, disse ela. Olha como estou nervosa. E pegou minha mão e ia colocar no peito, mas recuei, era um gesto muito íntimo, geralmente as mulheres que fizeram isso comigo era para eu tocar os mamilos por cima da blusa, mas a empregada não tinha essa intenção e eu não podia me permitir abusar do nervosismo da mocinha para tocar os seios dela.
A casa tem dois andares. Desperdício. Ali moram apenas duas velhas. Uma, minha psicanalista; a outra, irmã dela. A irmã da minha psicanalista não faz nada na vida. Sempre cuidou da irmã, foi uma secretária, mas hoje nem mesmo cumpre as funções de secretária. Que vida besta. É apenas um vulto vestido de saia que vaga pela casa, dá ordens desconexas para a empregada – vai ao supermercado e compra mamão, a empregada vai e quando volta ela pergunta por que a empregada comprou mamão. Por que comprou mamão? A senhora mesmo pediu... Eu? Você pensa que me engana, que tô gagá, pensa?
O cabelo das duas me impressiona. Os homens se tornam carecas, mas as mulheres vão perdendo cabelo e fica aquela coisa rarefeita, que a gente vê o couro cabeludo quando fica contra a luz. Tenho a teoria de que as mulheres que perdem cabelo também perdem outras substâncias, então os músculos ficam ralos, geralmente são miúdas como minha psicanalista e perdem a força da voz, que saem fracas, tão fracas como as palavras suspiradas num segredo ao pé do ouvido.
Estou na garagem, transformada em consultório. O consultório de vozes encarceradas. Ali sim estão as vozes em seu estado primitivo, porque saem, mas não saem, ficam ali, depositadas, aéreas, esparsas, presas para sempre no ouvido da doutora. A garagem é um ventre de vozes, estão amortecidas, esperam que nós as busquemos, há um repertório também de outras vozes, viciadas, lidas, eruditas, que a doutora recolhe do ar, borboletas rebeldes, que se cruzam, formando outro bando de borboletas.
– Onde está o filho da puta?
– O senhor, por favor, se controle.
– A senhora tem parte da culpa em tudo isso.
– Culpa?
– Se desestimulasse o cretino, ele não ia atrás de minha mulher.
– O senhor está passando dos limites.
– Por que tinha que se meter na vida alheia?
– O senhor está falando de quê?
– Da senhora.
– Se o senhor não se retirar da minha casa, chamo a polícia.
            O nome dele é Manfredo. Esse sujeito me persegue há um bom tempo. Chame a polícia, chame – e tirou o celular do bolso – vamos, liga, liga. Tenho medo de enfrentá-lo porque é um brutamontes. Mas ele não tem certeza de que eu estou ali na casa. Onde está ele? Onde está ele? O sujeito que sabe onde está o desafeto não precisa ficar perguntando onde está o desgraçado que persegue. Encolho-me instintivamente, mas não vou cometer o ridículo de me esconder atrás de cortina ou me abaixar atrás da mesa. Ele não domina a planta da casa, por isso não sabe por onde ir. Sobe até o segundo andar, vasculha o escritório, entra na cozinha e não encontra nada. Jamais vai supor que estou na garagem. Porque é na garagem, transformada em consultório, que a doutora atende.
            Manfredo é judeu. Não conviveu com a família, não herdou hábitos judaicos ainda que tenha feito o bar mitzvah. Mas, mesmo assim, ele tem um pesadelo recorrente: está numa câmara de gás num campo de concentração. Não é fácil você viver com uma lembrança que não é sua, um passado que pertence a sua raça. Se fossem só os pesadelos, ele poderia se livrar deles ao acordar. Mas os pesadelos continuam durante o dia. Aterroriza-o a possibilidade de ser transformado num daqueles seres esquálidos que saem nas fotos e nos documentários sobre a Segunda Guerra. Oh, Deus, foi apenas um pesadelo. Os judeus aparecem em preto-e-branco, barba por fazer, uma barba desamparada, os ossos espetando a carne, que não é função dos ossos fazer parte da parte de fora do corpo. A fila descomunal e desumana, vigiada por cachorros, enfileirados para o absurdo do crime oficial, a foto mostrando os oficiais nazistas tão ferozes quanto seus cães.
            A geografia da casa cria ouvidos. Um homem não pode ser incompleto o tempo todo.
            No banho, me contou a mulher dele, a ameaça era o vapor que subia e se tornava o mesmo gás, passado de geração a geração, que por fim o alcançava, o mesmo gás carrasco, o Zyklon-B, cuspido das torneiras secas. As torneiras vaporizavam o terror. As torneiras expulsavam o genocídio, o crime industrial, a máquina de morte. O vapor do banheiro transformava o boxe num galpão, onde outros homens despidos se banhavam de fumaça.
            A mulher dele era bem mais nova. Não era judia. Não estava preocupada com aquilo que ensandecia o marido.
– Você está suando?
– São os gases.
– Onde você vê os gases?
– Os gases a gente não vê. Os gases a gente sente o cheiro.
– Não havia cheiro no Zyklon-B.
– Como você sabe disso?
– Eu não sei se li ou não li. O que importa é que é infernal viver com um homem que se sente perseguido por algo que nunca viveu.
Cantos, danças, músicas, homens abraçados, Manfredo apenas conhecia o mundo judeu nas festas, não freqüentava sinagoga, não rezava pela mesma Torá, não jejuava o mesmo festim de ritos, de dogmas, de manias, de proibições ancestrais. Por que os gases vinham perturbá-lo como lei divina, castigo do diabo antes que de Deus? Por que os vapores o perseguiam e ele se sentia na fila para o banho? A imaginação, sim, tinha dentes, abocanhava. Era isso que a mulher dele não compreendia. Só quem vive um pavor igual pode compreender o pavor do outro. Você é capaz de entender o horror, hein, me diga, é capaz de entender o horror?
            Sempre esteve fora das minhas cogitações existenciais o sofrimento dos judeus. A gente tem pena, é solidário, se revolta com os crimes dos nazistas. Mas é algo distante, não faz parte do cotidiano. Curioso como a vida nos coloca frente a realidades que nunca imaginamos presenciar. Jamais imaginei que teria que conviver com alguém que vivera os horrores da guerra, mesmo que essa guerra já tivesse acabado há mais de cinqüenta anos e que ele não tivesse ainda nascido quando ela acabou. Então, é capaz?

domingo, 1 de agosto de 2021

Viuvez da humanidade, crítica sobre O viúvo


Não é só pelo texto de correta sintaxe, ou pela impecabilidade do andamento da narrativa, construída em unidades de dominada autonomia, que o romance de Ronaldo Costa Fernandes – cativa, assoberba e embebeda o leitor, mas, sobretudo, pela capacidade de fundir personagem e realidade. No andamento, a realidade vai se fechando com suas falências, nada incentivadoras do investimento afetivo. Várias outras superposições criativas apontam para a oportunidade de se inscrever O viúvo (LGE) entre os grandes clássicos da literatura brasileira, e que o recomendam para estudo nos assentos escolares para que seja identificado o homem que vai se moldando na automatização das relações sociais, somadas aí as muitas perdas a que ele se submete. Primeiramente, o domínio de localização temporal do personagem. Em seguida, os diálogos, que não funcionam com a presença de um interlocutor, mas com a intervenção das próprias neuroses do personagem. Assim, Ronaldo Costa Fernandes, já aclamado por críticos como Franklin de Oliveira e Oswaldino Marques, e detentor de vários prêmios (destaque para o Casa de Las Américas e o Guimarães Rosa), com O viúvo demonstra que, além de conhecer os domínios da narrativa, encontra-se no auge de sua potencialidade criativa.

















Jornal do Brasil - 23/12/2005 - Salomão Sousa



domingo, 20 de setembro de 2020

O viúvo, início do romance




  


Sei que, no dia seguinte, a cegueira será ver em demasia. A luz do sol vai ferir os olhos. Tudo brilhar demasiado: os carros no estacionamento, o chão cinza de cimento, as paredes marrons, as árvores excessivamente verdes. A claridade é o diabo de uma agulha e os ruídos, por mínimos que sejam, entrarão pelos tímpanos fodendo meus nervos. Preciso trabalhar. Eu atrapalho? O que você acha? Há mofo por tudo quanto é canto. A empregada está aí pra isso. D. Benedita, ela ainda está contigo?
– Não era teu desejo?
– Tenho frio.
A casa não consegue dormir. Quando está com insônia, os olhos inchados e vermelhos ficam de pálpebras baixas, mas não se fecham. Todo um torpor, dores, músculos cansados tomam a casa. Os livros sussurram indistintamente. Não querem dizer nada, são balbuceios, murmúrios, apenas sons sem sentido. Querem se fazer presentes, me solicitam, mas não posso atendê-los. De que adianta o diálogo mudo com eles? Não consigo ler. Por que não dorme? Ora, não vê, a casa não deixa. As teclas estão dentro de mim, não posso escrever, oh, não, não posso escrever com teclas que estão dentro de mim.
 – Os alunos?
– Continuam lá.
– Você está infeliz.
– Estou é inquieto.
Ando pelos corredores, o perigo de Lídia me acusar. Por que isso, por que aquilo, a lengalenga de sempre. Lídia não pode entender de solidão. É difícil para uma mulher como ela perceber porque o homem tem menos facilidade de viver só. A casa bufa. A agitação das narinas, o gosto do olfato, os odores da casa em funcionamento. Meu pai era um homem de cabelos fartos negros o que lhe faltava era argila o que dizes? os mortos somos nós somos nós somos nós a noite tem seus motivos, ora se tem. Se eu estivesse contigo, iríamos pra cama. Uma boa foda é o melhor calmante. Você acha que não tenho lembrança de gozar?
– Não quero discutir orgasmo com os mortos.
– Grosseiro.
Agora as cortinas balançavam ao vento. Fechei a janela. Ela ficou lá fora, bateu no vidro, mas como o soco dos mortos é silencioso, não ouvi nada, apenas vi o vento movendo as plantas da jardineira.




(do romance O viúvo. Brasília, LGE, 20015)

quarta-feira, 17 de julho de 2019

"O viúvo" por Rogério Lima

(Publicado no livro Novas leituras da ficcção brasileira no século XXI, Helena Bonito Pereira, org., Editora Universidade Mackenzie, 2011)


Uma Existência Desordenada Como Um Bazar Muçulmano


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Os livros de Canetti falavam com ele, o sinólogo do romance de Canetti tinha-os como um exército desencontrado fabuloso. Meus livros não falavam comigo. São arredios, não se mexem, lápides de papel, soldadinhos de papel com o bucho cheio de letras.
                                                                                  Ronaldo Costa Fernandes





Qual é a cota de dor que os mortos, os vivos, os objetos e o tempo presente podem nos impingir? Essa é uma espécie de questão que o romance O viúvo (2005), de Ronaldo Costa Fernandes nos propõe decifrar a partir da sua narrativa. O narrador d’O viúvo é um professor universitário e escritor que se sente aprisionado por sua velha empregada D. Benedita e pela casa onde viveu com sua mulher Lídia, já falecida. Após a morte de Lídia, a casa passa à representar para o narrador a personificação do seu embate psíquico com as memórias da sua vida conjugal. Habitar a casa e conviver com a empregada D. Benedita se torna um exercício penoso; as lembranças da mulher no seu período doente, “em decomposição”, sufocam o narrador. A convivência com D. Benedita transmuta-se num processo angustiante; não porque ela aja, objetivamente, como alguém desagradável, mas pelo que representa a sua presença para o narrador, pela sua existência, pelo que ela traz à tona das lembranças de Lídia.

No discurso preparado para a entrega do prêmio Nobel de 2007 o escritor turco Orhan Pamuk diz que “o escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou a tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro; cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras” (2007: 12a). Na concepção de Pamuk “Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo real para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.” (2007, p. 13a). O narrador d’O viúvo carrega consigo um pouco desta obstinação e paciência; sobre a alegria não podemos atestar muita coisa sem que com isso venhamos a criar resistência no leitor.

Em tempos de softliteratura, a literatura que encanta a todos nas feiras midiáticas anuais, a narrativa d’O viúvo é constituída de uma densidade que deixa o leitor tomado por um certo desespero. O desespero do qual falava Manuel Bandeira no seu poema Nova poética, no qual lança a teoria do poeta sórdido. Segundo o Eu poético do poema de Bandeira: o poeta sórdido é aquele “em cuja poesia há a marca suja da vida”. Adiante, o Eu poético defende a tese de que o poema deve ser como uma nódoa no brim branco: “Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero” (BANDEIRA: 1970, p. 201).

Em O viúvo não há uma trama no sentido com o qual o senso comum está habituado. Não existem “grandes” ações que eriçam ou atiçam de maneira espetacular a imaginação do leitor. Não há indicações geográficas ou topográficas desnecessárias; a cidade pela qual transita o narrador-personagem é apenas uma cidade qualquer, anônima; grande o suficiente para acomodar a ordem de problemas que o narrador, contemporâneo de um mundo maquínico, apresenta na sua narrativa. Essa é uma sutil opção estética que compõe a narrativa de Ronaldo Costa Fernandes. Em O viúvo, a narrativa carrega consigo uma grande dose de angústia de um narrador que, ao se dobrar sobre si, se percebe sufocado, aprisionado por suas lembranças, pelos seus gestos, pelas suas atitudes, ações e pela solidão.

No primeiro capítulo da obra o leitor toma contato com o tom que permeará todo o romance:

Sei que, no dia seguinte, a cegueira será ver em demasia. A luz do sol vai ferir os olhos. Tudo brilha demasiado: os carros no estacionamento, o chão cinza de cimento, as paredes marrons, as árvores excessivamente verdes. A claridade é o diabo de uma agulha e os ruídos, por mínimos que sejam, entrarão pelos tímpanos fodendo os meus nervos. Preciso trabalhar. Eu atrapalho? O que você acha? Há mofo por tudo quanto é canto. A empregada está aí pra isso. D. Benedita, ela ainda está contigo?
– Não era teu desejo?
– Tenho frio
A casa não consegue dormir. Quando está com insônia, os olhos inchados e vermelhos ficam de pálpebras baixas, mas não se fecham. Todo um torpor, dores músculos cansados tomam a casa. Os livros sussurram indistintamente. Não querem dizer nada, são balbuceios, murmúrios, apenas sons sem sentidos. Querem se fazer presentes, me solicitam, mas não posso atendê-los. De que adianta o dialogo mudo com eles? Não consigo ler. Porque não dorme? Ora não vê que a casa não deixa. As teclas estão dentro de mim, não posso escrever, oh, não, não posso escrever com teclas que estão dentro de mim.
– Os alunos?
– Continuam lá.
– Você está infeliz.
– Estou inquieto.
Ando pelos corredores, o perigo de Lídia me acusar. Por que isso, por que aquilo, a lengalenga de sempre. Lídia não pode entender a solidão. É difícil para uma mulher como ela perceber porque o homem tem menos facilidade de viver só. A casa bufa. A agitação das narinas, o gosto do olfato, os odores da casa em funcionamento. Meu pai era um homem de cabelos fartos negros o que lhe faltava era argila o que dizes? os mortos somos nós somos nós somos nós a noite tem seus motivos, ora se tem. Se eu estivesse contigo iríamos para a cama. Uma boa foda é o melhor calmante. Você acha que não tenho lembrança de gozar?
– Não quero discutir orgasmos com os mortos.
– Grosseiro.
Agora as cortinas balançavam ao vento. Fechei a janela. Ela ficou lá fora, bateu no vidro, mas como soco de mortos é silencioso, não ouvi nada, apenas vi o vento movendo as plantas da jardineira. (p. 11-12)

Esta é a citação integral do primeiro capítulo. Com essa imagem de corte cinematográfico que dirige o nosso olhar para o exterior da casa termina o capítulo inicial d’O viúvo. Nesse primeiro capítulo estão colocados todos os elementos principais da narrativa: a estruturação da linguagem narrativa que passa de um plano a outro, de um assunto a outro, de um personagem a outro, exigindo a máxima atenção do leitor para com o texto narrado, para que esse não se perca entre o que é narração e diálogo entre o narrador e o fantasma de sua mulher Lídia, por exemplo. Os outros elementos que estão colocados no capítulo inicial são: a casa opressiva que impede o narrador até mesmo de dormir; a presença de D. Benedita, a velha empregada; o fantasma de sua mulher Lídia; a profissão do narrador; a sua condição de escritor paralisado diante da sua dificuldade de escrever; e também a solidão que o oprime.

Vencida a etapa de inicio da leitura da narrativa pouco convencional d’O viúvo, dada a sua falta de linearidade dos fatos narrados, a leitura se torna veloz pois transitamos de um capítulo a outro sem obstáculos além daqueles naturalmente interpostos para o leitor pela própria narrativa, que ora se adensa, ora se atenua como se fosse uma espécie de pausa para o leitor respirar e tomar fôlego.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes traz consigo “a marca suja da vida” da qual fala Bandeira. Essa marca que incomoda e angustia o narrador se personifica na presença da lembrança constante da figura da mulher se decompondo diante dos seus olhos, em meio a sua doença:

O olhar de Lídia morria aos poucos, ou melhor, deixava a cada dia de viver, diminuía a existência como cigarro ou fósforo – imagem perfeita para Lídia fumante – que para dar sentido a sua função necessita se consumir. O cheiro de Lídia me perturbava. Não o cheiro dos hospitais, mas dos cadáveres que fedem um cheiro humano em decomposição. Não fiz sexo com Lídia durante a doença porque o corpo dela exalava um odor ardente que impregnava os lençóis, as paredes, os papéis, o livro que lia, tudo que nos pertencia tinha um cheiro teso, o cheiro intumescido de Lídia, ainda que lavada e perfumada de colônia e talco, era o cheiro enervado da morte, os miasmas do apodrecimento, daquilo que corrompe, de algo que colapsa e faz a carne exalar o seu fim.
Eu não podia ter desejo por uma mulher em decomposição (p. 31).

ou na repulsa e culpa que sente por suas atitudes e ações em relação à mulher doente:

Ela me tocava de um toque delicado de quem pede, vem, oh, vem. Eu me recusava. Ia para a sala e lá ficava no escuro que tudo apaga menos a repulsa, a culpa, o nojo e o horror. Voltava para o quarto, verificava se ela dormia. Dorme? A forma egípcia de Lídia dormir – afundada num sono desértico. Então, como criança diante de um besouro morto, tocava e recolhia a mão, a magreza, a pele rústica e áspera, papel ordinário (p. 32).
O que me aumentou o desespero seco, árido, angústia em forma de lixa, minha culpa perversa e pouco viril, foi a participação num congresso. O bar do hotel destilava luxúria, umidificava meu medo. [...] Não queria estar ali. A simples presença minha ali já era traição. Mas estava sem mulher há vários meses. Meu corpo, sadio, inventava outros corpos, latejava.
Lídia me fazia sentir boneco de pano, minhas vísceras eram de pano, serragem, se me abrissem, pularia para fora restos de madeira, aniagem e pó. [...].
Lídia em casa, tumulo absurdo, e eu com a puta de dezoito anos no quarto do hotel, do mesmo hotel onde se realizava o congresso, porque eu traía não apenas Lídia como também Derrida, Foucault e Lacan e meus colegas da universidade, traía a mulher, a doente, traía o bom senso, traía o sujeito decente que a gente pensa que é, e não apenas trouxera outro nariz, também trouxera outro corpo, mais ágil, mais vibrante, ganhara mais sangue, veias, feixes de músculos, órgãos em oficina de cio, eu a chamava de Lídia e, de luz apagada, recuperava trinta anos, todo meu sangue correra para o meu centro de onde emanava minha vitalidade pulsante, e, entre palavras, entre nadas e nadas, eu penetrava num nada úmido e quente, acolhedor e trágico (p. 33).

A angústia do narrador d’O viúvo é a doença moderna do habitante das grandes cidades: solidão.

Fico estirado na cama. Minha cama tem vida própria. Respira, sua, transpira, goza, dorme ou se incomoda. Quando a preguiça a toma, toda ela se esparrama e mira o teto com o tédio dos suicidas. Minha cama não tem vocação para a morte (p. 18).

O narrador se sente e se sabe só, desligado do mundo e alheio a si mesmo, rejeitado pela casa que o oprime e que ele percebe que pode devorá-lo a qualquer momento, mas da qual não consegue se livrar:

A casa não consegue dormir. Quando está com insônia, os olhos inchados ficam de pálpebras baixas, mas não se fecham. Todo um torpor, dores, músculos cansados tomam a casa (p. 11).

Segundo Emmanuel Levinas, podemos pensar a habitação como utilização de um “utensílio” entre “utensílios”. A casa estaria para a habitação como o martelo para pregar um prego ou a pena para a escrita. Pertence, de fato, ao universo das coisas necessárias à vida do homem. Serve para o abrigar das intempéries, para retirá-lo do alcance dos inimigos e dos inoportunos (1988, p. 135).

Ainda segundo Levinas: “O papel privilegiado da casa não consiste em ser o fim da atividade humana, mas em ser a sua condição e, nesse sentido, o seu começo” (1988, p. 135). Em O viúvo a casa não é o espaço onde se realiza o recolhimento necessário para que a natureza possa ser representada e trabalhada. A casa não se configura como morada, pois nela não se realiza propriamente o recolhimento do seu morador. Recolhimento, na concepção adotada por Levinas, é “uma suspensão das reações imediatas que o mundo solicita, em ordem a uma maior atenção a si próprio, às suas possibilidades e à situação” (1988, p. 137). Na verdade, em nenhum momento do romance de Ronaldo Costa Fernandes o narrador se insere na condição de morador da casa. A sua situação configura-se como a de um corpo estranho que invade a casa-organismo que parece querer expulsá-lo.

A casa não me aceitava. Eu, mero apêndice, excrescência, a qualquer momento, ela poderia me expulsar como um organismo vivo expulsa o que lhe é estranho (p. 27).

Ainda nas páginas iniciais do romance, num diálogo em um sonho com sua mulher, o narrador reforça a sua repulsa pela casa:

[...] - O horror está aqui. [...] A casa é um grande intestino. [...] Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora (p. 14-15)

A presença de Lídia é denunciada pela sua ausência. Ao narrador parece incomodar a ausência de um sentimento de familiaridade com a sua mulher, agora morta. O mundo do narrador encontra-se agora desprovido de intimidade e familiaridade. Diante da ausência de Lídia não é possível haver recolhimento, interioridade da casa ou habitação, pois a presença feminina é condição sine qua non para a concretização e instauração desses elementos. Por esse viés é possível entendermos o conflito do narrador com a casa e com as lembranças de Lídia. O porquê dele não optar em nenhum momento por mudar-se e livrar-se da opressão da casa e de D. Benedita, mesmo já tendo considerado a possibilidade de mudança. Ao tomar tal resolução ele estaria se distanciando ainda mais da familiaridade perdida. Conforme Levinas:

A familiaridade do mundo não resulta apenas de hábitos ganhos neste mundo, que lhe retiram a rugosidade e que medem a adaptação do ser vivo a um mundo do qual frui e do qual se alimenta. A familiaridade e a intimidade produzem-se como uma doçura que se espalha sobre a face das coisas. Não somente uma conformidade da natureza com as necessidades do ser separado que de chofre dela frui e se constitui como separado – ou seja, como eu – nessa fruição; mas doçura proveniente de uma amizade em relação a este eu. A intimidade que a familiaridade já supõe – é uma intimidade com alguém. A interioridade do recolhimento é uma solidão num mundo já humano. (LEVINAS, 1988, p. 137-138)

A abordar o tema da solidão Octavio Paz (1976, p. 176) ressalta o fato de toda a vida ser habitada por uma dialética: de a solidão ser uma “pena, isto é, uma condenação e uma expiação. É um castigo, mas também uma promessa de fim do nosso exílio”. Adiante Paz acrescenta: “Nascer e morrer são experiências de solidão. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Nada é tão grave quanto esta primeira imersão na solidão que é nascer, a não ser esta outra queda no desconhecido que é morrer.” (1976, p. 176). Ainda segundo Paz:

[...] Todos os homens, em algum momento da vida, sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para adentramos no que vamos ser , futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e o único que é busca de outro. Sua natureza – se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao homem, exatamente o ser que se inventou a si quando disse “não” à natureza – consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e busca de comunhão. Por isso, cada vez que se sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão. (PAZ, 1976, 175)

De alguma maneira o narrador d’O viúvo procura ultrapassar a sua solidão, reconquistar a familiaridade perdida; seja num novo envolvimento amoroso, seja no seu retorno ao exercício da literatura ou nas fugas imaginativas que empreende quando observa uma foto de barcos num ancoradouro de Portugal presa a parede da sala de reuniões do seu departamento na universidade em que trabalha:

Há realidade bastante no barco pregado na parede. É um Portugal de papel. O norte de Portugal transmuda-se nas janelas absurdas de Magritte. Fixo meu olhos ali. Meus olhos não navegam, mas enchem-se de maresia. Meu alheamento também tem cheiro – de mim. (p. 51)

A solidão na qual o narrador está imerso e da qual tenta escapar é uma pena, uma condenação, uma expiação. A presença de D. Benedita incomoda-o porque reforça o seu estado de condenação à perda da familiaridade. Reforça a situação dialética de pena e promessa de expiação para o narrador.
O viúvo é também um romance reflexivo, no sentido trabalhado por Milan Kundera. Em seu livro de ensaios A cortina (2006) Kundera aborda o tema do romance que pensa ao tratar da forma como Robert Musil e Herman Broch incorporaram às suas narrativas o pensamento intelectual, a reflexão filosófica, psicológica e política. A reflexão psicológica é uma dos temas que é incorporado a narrativa do romance de Ronaldo Costa Fernandes, além da política, do trabalho intelectual, da economia etc. Como exemplo, em O viúvo o narrador utiliza a imagem, hoje já não muito popular, do homem que carrega um peixe (bacalhau) nas costas, estampada no rótulo do frasco de “Emulsão de Scott”, para representar o peso invisível da sua existência que carrega consigo:

[...] O sujeito carregando um peixe nas costas. Penso em mim carregando um peixe nas costas. O peixe que ninguém vê vai comigo pra todas as partes. Ele está agora aqui, na reunião, embora ninguém se dê conta dele. Apenas um diferença: não, não é o peixe que trago nas costas, mas eu mesmo. Não propriamente eu mesmo, mas eu modificado, o sujeito que ninguém conhece. Por isso ando arqueado. (p. 47)

O viúvo é uma narrativa de reflexão sobre o lugar do homem que carrega consigo a consciência de que é portador de uma certa carga de experiência social, amorosa, profissional e artística. A sua narrativa reflete uma espécie de liquefação da vontade perante a certos acontecimentos e constatações que atingem o personagem no seu dia a dia:

O que vejo lá fora é um contra-senso que não me apazigua nem me remove, apenas sou indiferente a ela, como alguém que passa por um quadro que está acostumado a ver – a velha lição de Huxley e a ridícula proposta com mescalina ou sem mescalina de deitar no chão da sala - , mas um jardim não é um quadro a óleo, as semelhanças e diferenças são muitas, de igual a aparente fixa, embora haja quem diga que o jardim se modifica e mesmo o quadro se transforma, se considerarmos o olhar de quem o vê, e depois a dessemelhança vem do fato de que no quadro não há cheiro, animal ou barulho, que o quadro se pode colocar em outro cômodo ou até mesmo se livrar dele, enquanto o jardim, mesmo dinâmico, e movente, ali está, não se pode colocá-lo em outro lugar, removê-lo como uma peça de dois metros quadrados, borrado de têmpera ou acrílico, ou ainda livrar-se dele, jogar o jardim no lixo, dar o jardim de presente ou até mesmo, num ato exagerado, extremo, colocar fogo no jardim que, como fênix, haverá de renascer como pesadelo recorrente (p. 77).

Nos capítulos quatro e cinco o narrador expõe a sua consciência sobre questões particulares, históricas e do próprio tempo do leitor.

Caminho na multidão. Mas, falando sozinho assim, passo a ser um sujeito esquisito, do qual as pessoas se afastam, não pelo medo físico de ser agredidas, mas porque os esquisitos podem dizer obscenidades, despropósitos, inconveniências ou a verdade, o que vem tudo a dar no mesmo. Se as pessoas são como eu elas terão sua pequena dose de loucura escondida, fechada, como se leva dinheiro avulso e não se quer perder e então aperta o velcro ou fecha com zíper o bolso do calção. A pequena loucura, mesmo que seja pequena, não se expõe socialmente, vive aprisionada, principalmente em forma de desejo ou pensamento proibido que surge repentino sem que se puxe por ele . (p. 19)

A reflexão sobre desejo e tecnologia é um dos temas que o narrador toma para si no seu processo de construção intelectual acerca das relações entre desejo e afeto no tempo da narrativa:

Duas moças despertam em mim o que pensava adormecido. Não gosto de misturar outra vez máquina e desejo. São todos fascinados pela tecnologia. A tecnologia não passa de meio mecânico de existência, por que as pessoas se fascinam tanto com tecnologia? A máquina me leva a ser máquina, estende o meu nariz, alonga os meus braços, binocula os meus olhos, coloca meu ouvido do outro lado do mundo, meu ser – meu físico - é um gigante de dimensões inimagináveis, loucura de um cérebro que não ousa pensar-se tão grande. Por trás dela está apenas o vácuo, logo o brinquedo da tecnologia é o desvio de mente enferma que se deixa dominar. Eu não quero que máquina nenhuma venha me dizer como me comportar ou existir. O sujeito que acredita usar a máquina está enganado porque ela traz em si a contradição de sua existência. Miséria. Enquanto penso que uso a máquina, ela me transforma nela mesma e nessa metamorfose quem perde a humanidade sou eu, porque a máquina não perde sua essência de máquina, sua maquinidade. (p. 20-21)

Uma outra linguagem surge em meio a narrativa romanesca, essa linguagem é ensaística, aparentemente digressiva, se assim podemos classificá-la, pois o romance, em grande parte, é feito dela. Ronaldo Costa Fernandes deixa entrar a reflexão intelectual por uma grande porta aberta. O autor segue a tradição de Musil, Broch, Alencar, Stendhal, Machado, Graciliano Ramos e outros grandes autores que tornaram o espaço dos seus romances espaços da reflexão intelectual. Assim o narrador d’O viúvo pousa o seu olhar sobre os engendramentos do comportamento cotidiano do homem contemporâneo. O narrador recusa a coisificação, a maquinização do comportamento humano. Recusa a condição de máquina produzida por outra máquina: “Eu não quero que máquina nenhuma venha me dizer como me comportar ou existir” (p. 21). O narrador recusa ser produção de produção, “produção de consumos, de volúpias, de angústias e dores” (DELEUZE/GUATTARI, 2004, p. 9, grifo nosso).
O narrador d’O viúvo tem consciência do agenciamento maquínico que o ameaça. Da subjetividade controlada por máquinas: mídias, temporalidade dos computadores (tempo real), telecomunicações etc. O narrador se posiciona em estado de alerta em relação ao perigo real que reside no uso e na conformação que pode ser dada às máquinas abstratas: políticas, econômicas, científicas e outros artefatos, que podem agenciar a nossa consciência e sensibilidade de maneira danosa (LIMA, 2002, p. 174).
A frequente inserção da reflexão intelectual no romance do século XXI o coloca numa categoria que eu classifico como Nova Ficção Objetiva (LIMA, 2004), devido ao seu alto grau de elaboração mental em relações à questões que ultrapassam em muito os temas dos quais tradicionalmente o romance se ocupava. Ao longo do século XX, o romance passou a incorporar na sua narrativa, com grande frequência, temas que foram trazidos de áreas de atuação humana como: a economia, dos sistemas de comunicação midiática, do universo acadêmico-científico, da política, do terrorismo, da segurança das nações etc.
No capítulo oito d’O viúvo o narrador participa de uma festa na qual não se sente à vontade. Ele participa dessa festa porque havia sido convidado por sua aluna Fernanda, casada com um alto executivo judeu:

Eu não deveria vir a uma festa metida a besta. Só me meto ali porque quero estar com Fernanda. Ela também não se sente à vontade, pois os convidados pertencem ao círculo profissional do marido. Ela está acostumada a vestido longo, jóia, homem de blacktie e cabelo glostorado. Eu, não. A noite tem seus motivos.
Dois homens fumam termos econômicos. Baforam cifras. Os dados e as opiniões a favor do governo formam redondas tranças de fumaça que, vai não vai, sobem leves e cinzas até se desfazerem no alarido das festas. E as opiniões são mais grossas, e as citações do mercado financeiro são mais anticubanas porque, como um cavalo que bufa na neve, saem de dois longos charutos carregados de tabaco e opinião. (p. 35)

O universo das opiniões e dos jogos de interesses geopolíticos e econômicos perpassam sutilmente a narrativa. O tema da economia e da ciranda financeira que Viviane Forrester (1997) chamou de “Horror econômico” e ao qual Jacques Généreux (1998) classificou como “Horror político” está colocado pelo narrador de maneira sofisticada e delicada.
Outra questão que surge no percurso da narrativa é relativa ao trauma do personagem Manfredo e sua relação com o Holocausto. Aparentemente essa questão não teria lugar na narrativa por conta da sua temática, mas a mesma se impõe de maneira transversal e curiosa. A questão surge em decorrência das relações pessoais que o narrador procura estabelecer na sua tentativa de construir um outro universo afetivo para si, procurando, dessa forma, escapar da solidão. É possível ler o trauma de Manfredo como uma espécie de representação dos traumas e angústias particulares que nos assombram, a cada um de nós, contemporaneamente e cotidianamente. Podemos pensar também que as relações humanas que estabelecemos podem nos colocam diante de problemas que se quer chegamos à considerar:

Manfredo é judeu. Não conviveu com a família, não herdou hábitos judaicos ainda que tenha feito o bar mitzvah. Mas, mesmo assim, ele tem um pesadelo recorrente: está numa câmara de gás num campo de concentração. Não é fácil você viver com uma lembrança que não é sua, um passado que pertence a sua raça. Se fossem só pesadelos, ele poderia se livrar deles ao acordar. Mas os pesadelos continuam durante o dia. Aterroriza-o a possibilidade de ser transformado num daqueles seres esquálidos que saem nas fotos e nos documentários sobre a Segunda Guerra. Oh, Deus, foi apenas um pesadelo. Os judeus aparecem em preto-e-branco, barba por fazer, uma barba desamparada, os ossos espetando a carne, que não é função dos ossos fazer parte da parte de fora do corpo. A fila descomunal e desumana, vigiada por cachorros, enfileirados para o absurdo do crime oficial, a foto mostrando os oficiais nazistas tão ferozes quanto os seus cães.(p. 25)

A mulher de Manfredo, Fernanda, não consegue compreender o que se passa com o marido, com o que o enlouquece, com o seu terror diante das torneiras que liberam o Zyklon-B imaginário. Não-judia, mais jovem que ele, não está preocupada com o que o desestabiliza psiquicamente.
– Você está suando?
– São os gases.
- Onde você vê gases?
– Os gases a gente não vê. Os gases a gente sente o cheiro.
– Não havia cheiro no Zyklon-B.
– Como você sabe disso?
– Eu não sei se li ou não li. O que importa é que é infernal viver com um homem que se sente perseguido por algo que nunca viveu. (p. 25)

O narrador reflete sobre a angustia que atormenta Manfredo, sobre como a imaginação e a memória de fatos não-vividos por esse homem o aprisiona. Segundo o narrador:

[...] Só quem vive um pavor igual pode compreender o outro. Você é capaz de entender o horror, hein, me diga, é capaz de entender o horror?
Sempre esteve fora das minhas cogitações existenciais o sofrimento dos judeus. A gente tem pena, é solidário, se revolta com os crimes nazistas. Mas é algo distante, não faz parte do cotidiano. Curioso como a vida nos coloca frente a realidades que nunca imaginamos presenciar. Jamais imaginei que teria que conviver com alguém que vivera os horrores da guerra, mesmo que essa guerra já tivesse acabado há mais de cinqüenta anos e que ele não tivesse ainda nascido quando ela acabou. Então, é capaz? (p. 26)

O processo de evolução técnica no qual estamos imersos não é estável nem tranquilo, também não nos é possível afirmar que ele irá produzir grandes autores ou obras literariamente significativas. O que há de mais importante nesse processo é um movimento contra a corrente dos best-sellers ou gêneros apelativos como o dos livros de auto-ajuda. Na contracorrente da recusa de teorias das formas literárias citadas é possível indicarmos a afirmação do que identificamos acima como Nova Ficção Objetiva. A Nova Ficção Objetiva possui uma característica ensaística determinante na sua construção narrativa. Essa característica ensaísta dotou a narrativa da transição do século XX para o XXI de uma grande complexidade de impacto afetivo e intelectual, sem promover o esvaziamento da imaginação. (LIMA, 2004, p. 148)
A detecção da presença do ensaio na literatura aponta para a integração de uma liberdade maior ao processo de escritura do texto literário, pois o ensaio é o olhar penetrante presente no texto. É a liberdade de olhar; olhar da liberdade, conforme sugere Eduardo Portella (PORTELLA, 2000, p. 176). Essa liberdade no uso da reflexão de formatação ensaística encontramos n’O viúvo e em outras obras de Ronaldo Costa Fernandes. Acredito mesmo que essa seja uma característica de um autor já acostumado a transitar por gêneros diversos partindo do romance, passando pelo conto, pelo ensaio que reflete sobre a narrativa do romance, O narrador do romance, ou sobre a formatação ideológica de personagens importantes da literatura brasileira, A ideologia do personagem brasileiro, chegando à poesia, gênero no qual tem sido bastante produtivo, aclamado e laureado.
No seu livro Istambul: memória e cidade, Orhan Pamuk revela nunca ter deixado a sua cidade e faz referência ao fato de Nabokov, Conrad e Naipul terem migrado entre línguas, culturas, países e continentes e até mesmo civilizações. Segundo Pamuk, “suas imaginações se alimentavam do exílio, um alimento que tragavam não através das suas raízes, mas da falta delas. Minha imaginação, porém, exige que eu permaneça na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, contemplando o mesmo panorama. O destino de Istambul é o meu destino. Estou ligado a essa cidade porque foi ela que fez de mim quem eu sou.” (PAMUK, 2007, p. 14). Assim como Conrad, Naipul ou Nabokov o narrador d’O viúvo não está territorializado, não está em lugar nenhum:

[...] Pressinto os olhos dos livros sobre minhas espáduas. Não lhes basta o continente deles, querem saber do meu continente. Meu continente é inverso, dúbio, estrangeiro.
Não estou em lugar nenhum. Minha casa pode se abrir para um subúrbio no Marrocos. Encontraria uma vida árabe, eu que tenho uma existência desordenada como um bazar muçulmano. (p. 93)

O narrador d’O viúvo sabe com clareza qual é o seu papel: “Meu papel, ou seja, o que escrevo, diz respeito à literatura e ao pensamento humano” (p. 75). O viúvo é também um romance sobre a literatura e o papel do escritor, não só pelas citações literária de personagens, autores e obras estrategicamente colocadas ao longo do texto, mas porque ele reflete sobre a literatura e seu lugar e o lugar do escritor no mundo contemporâneo.





Bibliografia

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira : poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.
DELEUZE, Gilles e GATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Tradução Joana Moraes Varela e Manuel Maria Carvalho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
FERNANDES, Ronaldo Costa. O viúvo. Brasília: LGE, 2005.
FORRESTER, Viviane. O horror econômico. Tradução Álvaro Lorencini. Campinas: UNESP, 1997. (Ariadne)
GÉNÉREUX, Jacques. O horror político: o horror não é econômico. Tradução Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
KUNDERA, Milan. A cortina. Tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Cia. Das Letras, 2006.
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988. Biblioteca de Filosofia Contemporânea.
LIMA, Rogério. “Perto da máquina: a nova sensibilidade estética no final do século XX”. In COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças (Org.). Arte e Artifício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura/Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002.
_____________. “O baixo valor do diálogo e a nova sensibilidade estética ou a literatura depois das torres”. In COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças e CORRÊA, Irineu E. Jones (Org.). O labirinto finissecular e as ideias do esteta: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Sette Letras, 2004.
PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia. das Letras, 2007a.
___________. Istambul: cidade e memória. Tradução Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia. das Letras, 2007b.
PAZ, Octavio. O labirinto da solidão. Tradução Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
PORTELLA, Eduardo. “O ensaio como ensaio”. In Literatura brasileira depois das utopias. Revista Tempo Brasileiro, abril-junho, no 141, 2000, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.



Rogério da Silva Lima foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Lingüística biênio 2006/2008. Foi professor visitante na Fondation Maison des Sciences de L’homme - Paris em 2008. Atualmente é professor adjunto na Universidade de Brasília. Atua na área de Letras com ênfase em Semiologia. É autor de O dado e o obvio: a significação do romance na pós-modernidade e de O imaginário da cidade, publicados pela Editora da Universidade de Brasília.


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