quinta-feira, 7 de agosto de 2025

O grêmio dos córregos, poema


 

 


 

 

 

Orvalho o suor,

cultivo o sereno,

um passarinho

mal me viu

vem me piar

o bem da terra.

Pastoreio meus olhos

para subir as encostas

que deveriam se chamar

as escadas da montanha.

Meus sentidos então

se cabritam

e cabeceiam o silêncio.

Sou muito rural

quando me calo.

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Um homem é muito pouco 30

anunciação por Otto Dix (1891-1969, Germany) | | WahooArt.com

            
A guerra piorou, Vicentino teve de deixar Luanda às pressas. Antes Altiva disse que ia com ele para o Rio de Janeiro. Vicentino foi morar perto da Cruz Vermelha e no apartamento não havia como enterrar ninguém porque a cova era rasa. Podia ladrilhar o chão que não havia possibilidade de enterrar o passado no chão do apartamento. Vicentino pensou que estava livre de Altiva, mas ela amaldiçoou e disse que o esprito dela ia encarnar em outra negra brasileira ou não.

            A princípio Vicentino foi trabalhar com mármore. Seu pai tinha negócio de marmoraria em Luanda e vendia muito para cemitério e piso de parede de banheiro dos colonos ricos brancos de Luanda. O sono perfurado de maldição de Altiva voltou aos poucos, mas ele não deixava de lembrar o terremoto da voz de Altiva, no baixo da sala, blasfemando e augurando desgraças brasileiras. Vicentino depois arranjou serviço na morgue e não era serviço de destripar defunto que não era médico nem tinha curso de coisa parecida. O trabalho era de escritório. Certa vez Vicentino baixou até o necrotério. Havia uma negra morta que lhe falou em linguagem de morto e com o mesmo tom de vulcão azulejado de Altiva. Ele se assustou e respondeu pra morta.

            Olha, eu gostava muito de Altiva, se pudesse eu fazia qual o príncipe português que mandou desenterrar a amada que uns crápulas da corte assassinaram para que ele não casasse com plebeia e colocou a gaja no trono para que reinasse como rainha morta ou morta rainha.

            Se pudesse desenterrava a negra Altiva de Castro e a punha na sala, vestida de roupa de mulher branca e não de roupa de mucama negra e a família dele viria e ela haveria de estar na sala, morta e vestida, sem voz vulcânica azulejada.

            Depois Vicentino trabalhou num restaurante como garçom. O que o povo não sabia é que Vicentino trabalhava em ofícios menores, mas tinha com ele boa quantia para montar negócio. Vicentino só esperava conhecer melhor o Rio de Janeiro e a maneira brasileira. Não havia guerra, os negros não eram perseguidos nem colonizados, não havia guerrilha, nem ódio. É muito complicado ter que viver com o coração furado. Vicentino começou a frequentar Copacabana para ver como funcionavam os bares e restaurantes. Numa noite, no calçadão, num bar cheio de turistas, Vicentino sentava sua tristeza angolana debaixo de um inútil guarda-sol quando se aproximou Ariana em forma de prostituta e, como ela disse, com voz de vulcão azulejado e a pele tão negra quanto a mais negra solidão.



(do romance Um homem é muito pouco. São Palo: Nankin, 2010)







segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Batedeira, poema

 

 

 


 

 

 

O imenso ventre roliço de ferro,

a batedeira cujas entranhas

são feitas de pedra e cimento,

ainda moles,

no gestar do ato,

no desenho futuro da casa fixa,

este gesto não é ainda

o gesto de viver.

Logo virá a casa

feita de casas

que se chama edifício.

Existirão outras batedeiras

e as janelas

construídas nas falésias.

A casa grande

se encherá de portas

como um grande útero

com casas geminadas.

E então haverá moradores:

desejo de abismo,

vertigens de paredes e ânsia:

a imensa batedeira da vida.