sábado, 20 de junho de 2026
As ilhas derrotadas, poema RCF
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Um homem é muito pouco 13


ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
quinta-feira, 18 de junho de 2026
A personagem do romance, ensaio
(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)
As
leituras sobre o personagem de Vicent Jouve, Michel Zérrafa e Philippe Hamon
Na escassa bibliografia que trata
apenas do personagem, Philippe Hamon tentou abordar o personagem dentro do
romance de Zola. Embora seu esforço para construir uma teoria do personagem
estivesse subjacente ao estudo, Hamon se apoiou somente numa expressão reduzida
do comportamento do personagem zoliano. Buscou procedimentos, comportamentos
repetitivos, isolou caracteres, analisou modelos que, infelizmente, ainda que
não diminua seu trabalho, reduziu-se à esfera romanesca do naturalismo do autor
francês. Sua intenção, como ele mesmo afirma em seu livro, não é tratar da
psicologia do personagem, uma psicologia social, ou de uma estética, campos de
atuação de Michel Zeraffa. Mas
... privilegiar um estudo que dê conta do personagem
como objetivo de uma estética romanesca, estudo que, contudo, poderá integrar,
mas sem privilegiar, o ponto de vista do autor da criação, logo, igualmente e
por esse ângulo, uma certa concepção do personagem histórica e ideologicamente
datada. Simplesmente, nós escolheremos chegar a essa determinação histórica e
ideológica assimilando a um tipo e pacto de comunicação (comunicação
realista – plausível – pedagógica) e a um estilo de época (a escritura
artista-impressionista), antes que um dado filosófico ou moral. [1]
Hamon entende, como vários outros, o
ideológico como sinônimo de ideias e, aqui, as ideias do autor e não como um
sistema de operação que é traiçoeiro até mesmo para o criador revelando
contradições sobre o que ele expressa e até mesmo escreve.
Outro que estuda apenas o personagem
é Vicent Jouve, teórico da leitura. Seu livro não se afasta tanto, ele
reconhece, do estruturalismo, mas acrescenta que sua vocação é o estudo da
recepção do personagem pelo leitor. Não deixa de incluir a psicanálise, o
cinema e outras manifestações que influem e interferem na captação da imagem do
personagem durante a leitura. O estudo da recepção não se opõe à aproximação
imanente, é complemento indispensável. Sem categorias não se pode pensar a
experiência, segundo ele.
Nosso estudo não despreza a interpretação
e o modo como o leitor é afetado pela leitura. Tampouco despreza a psicanálise.
Mas há diferenças. A psicanálise, para Jouve, tende à apreensão do leitor,
enquanto nós trabalhamos com a produção e recepção. Além de tratar a
psicanálise não apenas do ponto de vista freudiano ou da terapia convencional,
mas incluindo aí a ideologia, a sociologia e as manifestações míticas. A
angustiosa produção da fábula nos interessa tanto quanto a “leitura”
internalizada pelo leitor. O personagem é uma simbiose de projeções mentais
profundamente arraigadas na produção da mitologia pessoal e social.
Da mesma maneira não descartamos as
teorias da leitura dos hermeneutas como Jauss, Iser e Ricoeur sobre o impacto
do leitor, incluímos também aí as projeções idealistas feitas pelos leitores em
relação aos autores. Da mesma forma que vimos os efeitos das projeções do texto
sobre o leitor, também queremos enxergar um comportamento mítico e múltiplo no
promotor da emissão da leitura: o autor, como ser social e sua ontologia. Nosso
propósito seria também entender esses dois elementos, autor e leitor, como “personagens”,
um ao produzir o texto ficcional e outro a cumprir uma tarefa que sem ela não
existe a literatura.
O livro de Jouve, pelo próprio
título, já explicita sua concepção e sua intenção de estudo: o efeito que o
personagem provoca no leitor. É o livro mais completo sobre o personagem a que
tive acesso, aí incluindo o estudo sobre o personagem levado a cabo por Michel
Zéraffa. Embora mais didático, mais “estruturalista”, mais comprometido com a
leitura, o livro de Jouve é provocativo e aponta para várias questões
inquietantes relativas ao nosso tema.
Já havia escrito três quartos do
livro quando tomei conhecimento de Jouve. Nossa concepção do efeito da
psicanálise em certas horas converge, em outras toma caminhos diferentes. Nossa
visão trabalha com a sistemática produção do autor – não a sua intenção – e com
o mecanismo de engano de toda produção mitológica e inconsciente. O certo é que
não conheço até agora livro mais completo do que L’effet-personnage dans le
roman[2],
apesar de minha discordância com tantas formalizações, esquemas e gráficos.
Operando apenas com a análise do
personagem, Zéraffa investe pesadamente na tentativa de apreender o fenômeno da
passagem de uma figura de papel, um ator, um representante de um comportamento
humano, e adentrar-se na psicologia do personagem, tanto e convicentemente, até
que ele se torne uma pessoa. Buscou o recorte de quarenta anos dos
romances vanguardistas do século passado e que fez uma revolução, das maiores,
na expressividade romanesca (nada mais nada menos do que os romances de Joyce,
Proust, Mann, Gide, Kafka e os outros da modernidade). Uma das grandes teses de
Zéraffa é que modificando a psique dos personagens logo haveria uma mudança de
expressão estética. A interiorização do personagem levou a maior complexidade
experimental e expressional. A necessidade de aprofundar-se na mente dos personagens,
torná-los mais vizinhos a nós, fazê-los íntimos e densos, levou a uma estética
mais pessoal e que a estética do século XIX não podia mais comportar ou
representar esse mergulho no inconsciente do personagem.
... nosso estudo conjuga duas pesquisas: uma de ordem
psicossociológica – tendo por objeto a pessoa – e outra de caráter estético –
tomando por objeto a vida das formas. Associando essas duas pesquisas, nossa
maneira de proceder irá distinguir-se daquela do sociólogo, que, com justiça,
concebe o romance como o significante privilegiado do estado de uma sociedade,
e pode descobrir relações necessárias entre as estruturas de uma obra e os
traços essenciais de um momento de uma civilização; distinguir-se-á também
daquela do psicólogo que, legitimamente, encontra num romance a descrição de
fatos psíquicos. De nossa parte, consideramos a pessoa, mas no romance; isto é,
tal como a traduz uma linguagem que tem suas próprias leis e estruturas, a
linguagem de uma arte.[3]
Não nos interessa, como vários já fizeram, estudar o
personagem como percurso ou historiar sua trajetória. Não apenas o bom e
despretensioso livro de Forster, as manifestações folclóricas em Propp e as
categorias dos estruturalistas, apontaram para uma tipologia do personagem, o
que muito contribui para o conhecimento do surgimento das figuras no texto.
Várias tentativas de criar uma tipologia para os personagens já existiram,
mesmo no florescer do gênero romanesco. Elas esclarecem e ajudam a
classificação, mas não resolvem, para nós, o problema do fenômeno do
personagem, sua caracterização como elemento visceral da obra de arte
literária, instrumento de prática e exercício de fabulação. Logo nas primeiras
manifestações dos grandes romances do século XVIII, “Johnson chamava
‘personagens de costumes’ e ‘personagens de natureza’”, definindo com a
primeira expressão os de Fielding, com a segunda os de Richardson:
Há uma diferença completa entre personagens de
natureza e personagens de costumes, e nisto reside a diferença entre as de
Fielding e as de Richardson. As personagens de costumes são muito divertidas;
mas podem ser mais bem compreendidas por um observador superficial do que as de
natureza, nas quais é preciso ser capaz de mergulhar nos recessos do coração
humano. (...) A diferença entre eles (Richardson e Fielding) é tão grande
quanto a que há entre um homem que sabe como é feito um relógio e um outro que
sabe dizer as horas olhando para o mostrador[4]
Entre outros autores que usaram o
personagem para estudar algum fenômeno sociológico-literário está o de Ian Watt
com seu Mitos do individualismo moderno, onde estuda alguns
protagonistas de clássicos para marcar a ascensão do romance (outro título
seu), a afirmação da modernidade e, ao mesmo tempo, entender a projeção de
concepções do personagem que permaneceram no imaginário dos leitores e passaram
de personagens a mitos sociais. Eles são Fausto, Dom Quixote, Dom Juan e
Robinson Crusoé. Watt e Campbell muito se aproximam, embora o primeiro trabalhe
com uma visão antropológica e o segundo com um modelo junguiano. Acreditava eu
que os mitos já correspondiam não apenas à necessidade de dar respostas não
científica aos fenômenos naturais e, como Malinowski, os mitos mantinham a união
grupal e ratificavam e sacralizavam as instituições sociais. Campbell, ainda
que o próprio Ian Watt o veja como redutor, analisa o mito como modelos que se
repetem desde as mais prístinas expressões. Desta maneira, os mitos revelam um
inconsciente coletivo, o que não aproveitamos de todo, mas nos alertou para uma
possível gramática de formação do personagem. Por isso, distinguimos a
mitologia de forma geral e as mitologias individuais dos autores literários
para formação de seus personagens. “A primeira tarefa do herói consiste em
retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas
regiões causais da psique”, afirma Campbell. Não usamos de forma assertiva as
conclusões de Campbell, mas sua presença permanece aqui e ali.
Os arquétipos a serem descobertos e assimilados são
precisamente aquele que inspiraram, nos anais da cultura humana, as imagens
básicas dos rituais, da mitologia e das visões. Esses “seres eternos do sonho”
não devem ser confundidos com a figuras simbólicas, modificadas
individualmente, que surgem num pesadelo ou na insanidade mental do indivíduo
ainda atormentado. O sonho é o mito personalizado e o mito é o sonho
despersonalizado; o mito e o sonho simbolizam, da mesma maneira geral, a
dinâmica da psique.[5]
Reconhecemos que só esta afirmação – que é
a única de Campbell, já que o restante do livro é para provar com exemplos sua
tese – é simplista e, por essa razão, utilizamos também, entre outros, citados
e não citados, pressupostos de Cassirer em relação ao mito. A concepção do mito
como linguagem, e que “a consciência teórica, prática e estética, o mundo da
linguagem e do conhecimento, da arte [...] todas elas se encontram
originalmente ligadas à consciência mítico-religiosa”[6], insinuou-se em nossa
análise para sugerir que haveria uma gramática do personagem. A ficção, é
óbvio, não é uma criação coletiva, mas a formação gestáltica do personagem como
elemento constitutivo de uma protonarrativa que, junto a uma criação
idiossincrática e de “mitologia pessoal”, forneceria um modelo que o leitor já teria
incorporado a sua dinâmica mental.
Aponta Cassirer:
O caráter comum dos
resultados, das configurações que produzem, indica, aqui também, que deve haver
uma comunhão última na função do próprio configurar. Para reconhecer esta
função como tal e expô-la em sua pureza abstrata, cumpre percorrer os caminhos
do mito e da linguagem, não para a frente, mas sim para trás – cumpre
retroceder até o ponto de onde irradiam ambas as linhas divergentes. E este
ponto comum parece ser realmente demonstrável, já que por mais que se
diferenciem entre si os conteúdos do mito e da linguagem, atua neles uma mesma
forma de concepção mental. Trata-se daquela forma que, para abreviar, podemos
denominar o pensamento metafórico. Portanto, parece que devemos partir da
natureza e do significado da metáfora, se quisermos compreender, por um lado, a
unidade dos mundos míticos e linguísticos e, por outro, sua diferença[7].
Não se procura aqui uma análise do
personagem preso a uma linha crítica específica, mas entender o fenômeno
utilizando todo o material a que tivemos acesso para formular sua gênese, sua
conformação e sua atuação. Diferentemente do personagem das artes dramáticas
que se corporificam, o personagem da literatura não dispõe de mecanismos
visuais e sua corporificação advém de um mecanismo complexo e requer do leitor
uma outra experiência ontológica e epistemológica. Ao mesmo tempo que não pode
funcionar sozinho e ter de atuar num espaço/tempo e mover-se para promover uma
cinese que permita que a trama se concretize, o personagem não é apenas mais um
elemento da narração, mas o catalizador de uma série de experiências emotivas e
sensoriais que leva autor e leitor a um mundo de provocações existenciais.
Este livro é mais especulativo que
afirmativo. Não desejamos que nossa análise seja vista como um estudo fechado,
mas que tenha a simpatia do leitor para uma aventura inquieta e interativa. O
que em alguns momentos pode soar como pretencioso ou indiscutível é apenas um
descuido da escrita. Nosso propósito é o compartilhamento de inquietações sobre
este fenômeno que nos fascina e que foi preciso escrever sobre ele a fim de
sossegar algumas perguntas que ao longo de anos nos perseguiam.
[1] “Notre intention est plutôt de nous situer
sur un terrain autre que celui d’une psychologie sociale, ou d’une esthétique,
terrains qui sont ceux de M. Zeraffa, pour privilégier une étude que rende au
personnage sa détermination d’objet stylistique romanesque, étude qui cependant
pourra intégrer, mais sans privilégier, le “point de vue” de l’auteur sur sa
creátion, donc, également et par ce biais, une certaine conception de la
“personnage” historiquement et idéologiquement datée. Simplement, nous
choisirons d’accéder à cette détermination historique et idéologique en
l’assimilant à un type et pacte de communication (communication realiste
– vraisemblable – pédagogique) et à un style d’epoque (l’escriture
artiste-impressionniste), plutôt qu’à une donnée philosohique ou morale.”
HAMON, Philippe. Le personnel du roman. Le sistème des personnages dans les
Rougon-Macquart d’Emile Zola.
Genève: Droz, 2011. p. 14.
[2]
“Pour reprendre la termonologie de W.Iser, nous allons attacher au pôle esthétique
du roman, non à son pôle artistique: ‘on peut dire que l’ouvre
littéraire a deux pôles: le pôle artistique et le pôle esthétique. Le pôle
artistique se réfère au texto produit par l’auteur tandis que le pôle
esthétique se rapporte à la concrétisation réalisée par le lecteur’. En termes
linguistiques, nous étudierons la force perlocutoire du texte (as
capacite à agir sur le lecteur) plutôt que son aspect illocutoire (l’a
intention manifestée par le auteur).” A citação de Iser vem do seu livro O
ato de leitura, teoria do efeito estético. Vicent Jouve o cita em seu livro
L’effet-personnage dans le roman. Paris: Press Universitaire de France,
1992. p. 14.
[3]
ZÉRAFFA. Michel. Pessoa e personagem. O romanesco dos anos de 1920 aos anos
de 1950. Tradução Luiz João Gaia e J Guinsburg. São Paulo: Perspectiva,
2010. p. 9.
[4]
Citado por Antonio Candido ap. CANDIDO, A., ROSENFELD, A., PRADO, Decio de A.,
GOMES, Paulo E. S, in A personagem da ficção. 3ª ed. São Paulo:
Perspectiva, 1972. p. 61.
[5]
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução Adail Ubirajara Sobral.
São Paulo: Pensamento-Cultrix, 1989. p.27
[6]
CASSIRER, Ernest. Mito e linguagem. 3ª ed. Tradução J. Guinsburg e Miriam
Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 64.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
A personagem do romance, ensaio 2
(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)
(....)
Muitos
veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional
própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se
quiserem, de uma só persona. A
loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida
prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em
realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza
filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição,
preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro
para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.
A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do
mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei,
a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles
dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar
ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães.
[...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia
de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi
talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do
caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz
salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é
menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]
Esse personagem romanesco, contudo,
não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o
transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios
de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização.
Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a
oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão
fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do
personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma
constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique
e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.
É interessante observar que o
romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade
x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo
e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção
interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a
realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do
intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é
pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem,
ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais
daí para a frente na prosa de ficção.
Antissocial e irresponsável, classifica
Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não
social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não
representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua
loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de
um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.
O livro teve grande recepção e fora
traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para
o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas
espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia
incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em
países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e
muitos só o foram abolir tardiamente.
Nabokov escreve que, ao tempo de
Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.
É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria
era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também
se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo
isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se
resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e
em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]
Mas se pensamos nos
livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos
que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia
desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade
é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois
não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]
Não há, contudo, como fugir dessa
observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura
genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados
arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan.
Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me
oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas
mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a
uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo,
melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida
para servir às ciências do homem.
[1]
Introdução, de 1881, à versão
inglesa de Dom Quixote traduzida por
Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.
[2]
Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
terça-feira, 16 de junho de 2026
Antropofagia, poema
Antropofagia
é
a vida mesmo
que
vai nos comendo
o
corpo até que nada sobre dele.
Antropofagia
é
a morte
que
lança na terra
o
sal que a seca
e
nada nela medra.
Aproveito
do corpo da vida
a
vida morta do passado
que
– cadáver – sempre
alimenta
o presente
–
deliquescente –
e
o futuro –
antropófago
por natureza
na
linguagem dos tempos.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
domingo, 14 de junho de 2026
As travesseiras, poema
As travesseiras alvoraçam
mãos de pluma
ou cabelo de penas:
não costumo adormecer
se minha cabeça
está pousada na pena.
Nada dói mais que o dó próprio.
Um dó em stacatto.
Meus cabelos
dormem em pé como cavalos.
No sono, as cabeças
são mais leves que o ar.
Por isso, levitam e baloneiam.
As travesseiras os penteiam
com seu algodão que curam feridas.
Transformam
os cabelos em águas-vivas
e os levam à correnteza das medusas.
As travesseiras
são mulheres rendeiras
que fiam o sono bordado
das silhuetas e caligrafias.
Adormecem
as iluminações sombrias,
embora haja muito sol
nas travesseiras
que bordam a aurora dos tristes.
A anatomia das travesseiras
só comporta cabeças.
Ó incêndio marítimo
feito de algodão
das núpcias
entre o céu e o inferno.
Elas não contam carneirinhos
e tudo o que tosquiam
são os cabelos da noite,
os labirintos das medinas do sonho.
São mulheres
que fazem rendas dos pesadelos,
ovelhas no cio da imaginação,
bordando histórias,
costurando os corpos.
As travesseiras
são ouvidos de pano
que ouvem minhas confissões masculinas.
As travesseiras não nos atravessam
de uma margem à outra
– da razão ao sono.
Não, não nos ouvem
nas águas passageiras da vigília.
Tenho de tampar os ouvidos
com cera para não ouvir
o canto das travesseiras
que estão nuas em uma nave
– uma naufragata –
que a qualquer momento
me prende ao mastro da realidade.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)