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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Um homem é muito pouco, trecho 2





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    Uma das frases que Clemente mais gostava era “não era ruim, mas também não era bom”. Clemente a usava para tudo que era indistinto, consumido pelo tempo, estéril ou indiferente. Pois bem, o macarrão do restaurante do hotel não era bom, mas também não era mau. Neste exato momento, sem que Clemente percebesse a carta deslizou bolso afora e, gravitando, caiu entre o lambri que soltou e a parede. Clemente, ocupado com sua fome que subitamente retornara, não percebeu que a carta perdera seu peso. E, com seu peso normal de papel, pôde ela esgueirar-se do bolso sem que o pretenso dono se precatasse da fuga. Mateus e Clemente pela primeira vez conversaram sobre amenidades, Clemente contou uma história longa e divertida de um clandestino.
    Era um angolano, um rapaz, que Clemente pegara roubando comida. Não tinha se alimentado durante três dias e estava numa condição abaixo do animal. Assustou-se quando viu Clemente. Ficou, contudo, mais preocupado com o pedaço de pão e salame que tinha nas mãos e não queria perder do que ser descoberto e levado ao comandante. Ele, o clandestino, defenderia até a morte seu direito de comer. Pegou uma faca de cozinha e ameaçou Clemente. Este riu, mostrou mais comida e disse que não se preocupasse que não iria delatá-lo. Os olhos do menino negro eram olhos inteligentes e Clemente acobertou o angolano que desceu no cais da Praça Mauá, estudou, casou e hoje é advogado com banca e tudo. Clemente ficou pensando que o pior clandestino não era aquele angolano faminto, o pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma. Ele, Clemente, se achava clandestino, talvez por isso a solidariedade imediata e reta. Onde quer que estivesse Clemente se sentia invasor, não permitido, escondido, sujeito que pode ser expulso a qualquer momento da embarcação, dos lugares, dos restaurantes, dos hotéis, da rua mesmo. Esse sentimento de clandestinidade poucas vezes desaparecia. O que mais doía, entretanto, era sentir-se clandestino em sua própria casa.
    Depois do almoço, ambos retornaram às suas casas. Clemente, cansado de tanta agitação, deitou-se na cama, com roupa e tudo e adormeceu. Dormiu como se fosse noite, um sono árduo.
Clemente entrou na cozinha no navio ao perceber a luz acesa. Lá estavam em volta da mesa o capitão Vaz, Selma, Oswaldo e Mateus. Oswaldo, como o companheiro marinheiro lá dele, vestia-se de mulher, o capitão Vaz não tinha os braços e reclamava: Por favor, Clemente, não faça isso comigo. Selma parecia mais uma prostituta dos portos em que o navio parava e não falava em língua humana, mas na língua suína que é a língua dos porcos. Selma tinha focinho, a boca pequena, o corpo gordo e único de porca. Só Mateus não havia se transformado. Era o velho Mateus de sempre. Anos antes, num porto sujo e pobre da Ásia, com poucos guindastes e sem armazéns, Clemente vira porcos comerem um miserável. Nunca imaginara que os porcos poderiam comer um ser humano e, muito menos, que um ser humano se deixasse comer por porcos. Mas o homem era velho e fraco, um fiapo asiático de homem e os donos dos porcos, também famintos, açulavam seus porcos a se alimentarem de carne humana. Serviu os pratos e nos pratos estavam os braços do capitão Vaz que chorava, enquanto Mateus, o travesti Oswaldo Lee Oswald e a porca Selma devoravam os braços do capitão Vaz. Um baque surdo contra madeira o despertou.
    Entre o sono e a vigília, sem se dar conta ainda de onde estava, se no quarto de sua casa ou na copa da cozinha do navio, Clemente se perguntava se encontraria com o capitão Vaz aleijado, a porca Selma e Lee Oswald mulher. Ainda mal despertava quando então escutou o segundo baque. Percebeu, não desfazendo ainda por completo a alucinação do sonho, que estava na Praça 11 e aquele barulho poderia ser de alguém a invadir a casa. Levantou-se. Sentia-se tonto. Voltou-lhe o balançar de nave. O sentimento de aprisionamento caiu-lhe fundo na alma com a decisão e o peso de âncora lançada n’água. Entrou corredor adentro a procurar a fonte do ruído. Vinha da cozinha. Conhecia aquele estrépito: o esquartejamento das aves e carnes. A quem esquartejavam?
    Era d. Evelina que, com um cutelo, partia o frango. À primeira vista, lembrou-lhe um elemento a mais do pesadelo. D. Evelina era baixa e gorda, com vincos profundos no rosto, cortando a pele escamosa, que mais lembrava terem sido feitos a talho do que pela erosão da idade. Tinha mãos pequenas, mas fortes, nunca pedira a Clemente que lhe abrisse pote, nem recusara o peso de uma estante. As pernas grossas, de veias escuras serpenteando canela acima, davam-lhe o aspecto de precária estrutura, embora firmemente fixada ao chão. Os olhos saltados e as narinas de fole aberto punham fúria onde só havia humildade. A empregada se espantou ao ver o patrão entrar. Ele, ainda prisioneiro do medo, tinha o rosto sem sangue, as mãos poucas, as pernas sem apoio. Mas foi o olhar de náufrago o que assustou a empregada. De cutelo na mão, ela avançou para Clemente no intuito de socorrê-lo. Se ao menos ouvisse o que ela dizia, seu Clemente, o senhor está pálido, está doente, quer ajuda, chamo alguém, médico ou ambulância? talvez não sofresse o pânico de ver sua empregada, como no pesadelo, investir para ele a fim de matá-lo.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O viúvo 18











          O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.


(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Um homem é muito pouco 13



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            Não era bem o que Yolanda queria para sua vida. Agora que passaram as grandes dores como a perda do pai, a perda do marido e a perda da filha com Clemente, ela olhava para o companheiro e via nele traços que antes não vira. Na casa de Juliana, ela conheceu Toninho Marcos, que era pintor e amigo de Horário. Os irmãos todos de Toninho eram metidos com negócios, ações da Bolsa, construção imobiliária e fábrica de materiais de limpeza. Dr. Macedo e o pai de Toninho Marcos tinham sido amigos e parceiros em várias associações de classe. Yolanda já conhecera Toninho Marcos numa visita que fizera à casa da família dele lá pelos fins dos anos 50, salvo engano, e Toninho Marcos era um menino que falava inglês, tinha projetor de filmes e máquina de filmar – ele mostrara a ela, tantos anos depois, fita com os dois correndo no jardim, mergulhando na piscina, subindo em árvore. Toninho Marcos também morou pelo mundo, mas ao contrário de Clemente não conhecia apenas os portos.

             Também andou em hospital psiquiátrico, foi internado e tratado pela dra. Nise da Silveira. Contudo, nunca esteve em sanatório de Bremen, largado lá como carga irregular que o navio não podia carregar e só voltaria ao navio da Mercante quando pusesse o raciocínio no lugar e pudesse ser considerado carga com a documentação em dia. Toninho Marcos pintava como Roy Liechtenstein que conheceu nos EUA e vivia como os beatniks, a quem assistira a leitura de poemas numa universidade do Novo México.

            Mas ninguém levava a sério a pintura de Toninho Marcos. A família pensava que ele era degenerado, consumidor de ácido e cogumelo, amante de blues, enquanto os outros artistas não davam crédito a ele justamente porque Toninho Marcos era filho de filho da puta como era o pai dele que financiava a repressão como o pai de Yolanda e achavam que filho de socialite e empresário filho da puta não podia ser artista aqui nem nos EUA, conhecendo ou não conhecendo Roy Liechtenstein, ouvindo ou não ouvindo poesia beatnik na universidade do Novo México.

                O que levou Toninho Marcos a ser tratado por dra. Nise é que, ao contrário do que todos pensavam que para ser drogado deveria o sujeito ter crise familiar, Toninho Marcos gostava do pai, admirava o pai, embora sabendo que o pai tinha sua face negra e ele não podia admitir que o pai tivesse face negra porque ele, Toninho Marcos, admirava o pai e o pai era carinhoso com ele e ele sabia que o pai pagava para que um monte de sujeitos violentos e reacionários não fossem carinhosos com os estudantes, os comunistas e outros rebeldes que caíam nas mãos dos homens poucos carinhosos da repressão. Toninho Marcos não gostava é da mãe.

                Ele mamava em Helena Maria Isabel Teresa de Andrada Bonifácio Souza Campos, que era o nome de solteira da mãe dele, porque socialite tem que ter o nome longo como os príncipes que tinham nome longo e Helena Souza Campos eram apenas os nomes que ela escolhera entre os vários nomes dela para se apresentar em sociedade e quando Toninho Marcos olhava não era a mãe que o amamentava mas o pai que ganhara seios e o amamentava. O pai não tinha formas femininas, nem cabelo grande, era o mesmo pai, o peito cabeludo e a voz grave e serena, mas tinha seios e o alimentava. O pai era homem culto e conversava sobre arte com Toninho.

             Várias vezes falaram de política e o pai discordava do filho, mas não se explicava e evitava o assunto e quando Toninho via estavam falando de arte abstrata, de cubismo e dos quadros que o pai queria comprar, dos leilões que frequentava e coisas desse tipo. Toninho Marques tinha então dois pais, Dr. Jekyll e Mr. Hide, o que o alimentava de leite materno e falava de artes e o outro que também fora visitado pelo intermediário do grupo Ultragás para contribuir com o delegado Fleury.

                    Toninho desenhava homens femininos com aparelhos de tortura na mão e dra. Nise queria apresentar as pinturas de Toninho como surrealistas, mas Toninho não queria aparecer nas exposições dos quadros dos loucos da dra. Nise da Silveira, porque sabia que em vez de surrealismo ele estava fazendo era realismo socialista e ele não considerava os quadros coisa que prestasse, mas acerto de contas entre emoção e razão. Toninho Marcos se chamava Pedro Augusto. Era nome de imperador da casa dos Bragança e augusto é coisa real. O nome mesmo, de artista, que ele queria era outro, mas no grupo de dra. Nise, uns o chamavam de Toninho, sabe-se lá por que cargas d’água, e outros malucos o chamavam de Marcos. Dra. Nise é quem o batizou de Toninho Marcos para acabar com aquela esquizofrenia de um ser dois. Dra. Nise da Silveira tinha a casa cheia de gatos e um bando de nomes que ela distribuía como quem distribui doce às crianças e pílulas aos loucos.





(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, dez. 2010)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Um homem é muito pouco 12


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        Dias depois, Mateus se arrependeu de não ter ido ao enterro judeu de Menuhim no Caju, mas não conseguia se levantar da cama. Clemente não foi visitar o amigo, não desejava se encontrar com o passado. A gente tem que viver pelos cantos e andar se esgueirando pelas ruas porque é muito difícil você viver sem encontrar o passado. O passado está em todo canto e a toda hora lembra você que sim ele é passado e que você tem que conviver com ele. Ou então o passado prega peça e quando você vê está diante do passado, você, que tanto evitou o passado. Mas quando se pode prever que a gente vai encontrar o passado, como é o caso, por exemplo, de Clemente que, caso vá visitar o amigo Mateus, vai dar de cara com o passado que é a irmã dele Matilde, então o melhor é evitar encontrar o passado.
        Quem foi ao enterro judeu de Menuhim ficou espantado com a mistura de gente que foi velar o homem. Estavam presentes gente da comunidade israelita, gente da bandidagem que também tem seu afeto e sua maneira de demonstrar pêsames, gente simples que não se sabia seu Menuhim, armênio e joalheiro, ajudava e a parentada toda que havia crescido desordenada e múltipla em vários estados do Brasil.
        A loja do seu Menuhim poderia ter sido investigada pela polícia. Ali existia toda espécie de transgressão e poderia fornecer o nome de muita gente do crime que era freguês do velho armênio. Existia um livro ensebado de capa escura onde Menuhim escrevia o nome de quem lhe vendera a joia, a quantia paga e a possível origem. Mas ninguém deu nada pelo livro de capa escura de Menuhim. A mulher dele recolheu as peças, vendeu-as, passou o ponto e mandou dar faxina vigorosa e definitiva no negócio de joalheria do velho Menuhim e o caderno de capa escura acabou no lixo junto com outras porcarias que não interessavam à polícia.
        Menuhim era um corpo como outro corpo qualquer. Mas a mente de Menuhim era mente privilegiada que a vida torceu para o crime, enquanto se fosse empregada a inteligência para o fabrico de joias, ele seria o designer mais famoso e admirado. Mas Menuhim não queria saber da fama. Gostava de saber que estava envolvido em algo perigoso, que tirava a vida das pessoas como pequeno deus perverso.
        Agora estava ali, não entre duas portas, mas entre quatro paredes de madeira, só e abandonado, a mente criminosa desligada como se desliga a luz ao acabar o expediente. Outra perversão de Menuhim era gostar das mocinhas pobres, mulatinhas, de subúrbio, malcheirosas, sujas, mal alimentadas que ele, vira e mexe, e tome vira e mexe, engravidava e nascia um sarará a quem ele dava nome judeu e pensão por mês, embora não perfilhasse e negasse a paternidade a quem visse o menino na loja, um Menuhim condensado e mais escuro, esperto como expatriado, ladino como o velho armênio.
        A mulher de Menuhim de vez em quando recebia a visita do filho e da mãe do menino a pedir para que a velha armênia mulher de Menuhim continuasse a pagar comida, roupa e escola do menino e a velha armênia mulher de Menuhim já nem brigava mais, nem saía pela rua a gritar palavrões em português, em iídiche e em armênio, expulsando as amantes do marido que ele deixou entre os bens restantes e testamentários. Agora pegava o telefone e ligava para o advogado e punha a menina escura e já com outros filhos de outros homens na linha e o advogado falava alguma coisa tão convincente ou ameaçadora que elas desligavam o telefone, davam adeus e iam embora carregando o menino pendurado pelo braço e aos safanões como se o garoto meio judeu armênio, meio brasileiro de Franco da Rocha ou do Jacarezinho fosse culpado pela penúria da mãe.




(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O viúvo, capítulo 16


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            Há muito que desconheço a relação entre minha voz e o que ela diz. Às vezes acredito que falo coisas que são independentes. Que as palavras já estão dentro de mim, que basta abrir a boca para que elas saiam, sem esforço. As palavras seriam independentes. Um apêndice, um órgão autônomo. Ou uma digestão malfeita. Ou ainda algo que é secretado como um hormônio que a mente não controla.

            Sempre me pautei pelo bom senso. O bom senso é a norma do viver, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo. O bom senso é claro seria o mediano e o mediano é o medíocre. Minhas palavras são medíocres como o branco. Minhas palavras enfim são brancas. Mas me pagam por elas. Pelas palavras ditas. Poucas vezes ganhei pela palavra impressa.

            A palavra escrita também é um hormônio. Sinto como ela se espalha pelo cérebro como um remédio que anestesia os circuitos nervosos. A palavra escrita tem circuitos curtos.

            Guardo comigo, como quem guarda uma tara, a origem das minhas palavras. As pessoas se enfadam se você fala de si mesmo. As pessoas se enfadam muito mais se você fala que suas palavras estão no mesmo campo da serotonina, da dopamina ou da nora-adrenalina.

            Às vezes minha palavra sofre de carência. De menos. De não secreção. Fica seca, não há líquido, não há circuito nervoso, muito menos curto. Então me afundo numa ausência que lembra braço amputado, metade do pulmão arrancado, próstata extirpada, fratura craniana.

            A palavra, a minha palavra, fica assim fraturada. Por dias não há conserto, nada que a engesse, amoleça, costure, opere ou extirpe. Minha palavra então sofre de desvios, de trânsito, de incômodo por não saber onde se encontra. Outros órgãos falam. As mãos, que são falastronas por natureza. A cabeça, que gosta de sublinhar e pontuar. O corpo mesmo, amplo, musculoso, de voz grave.

            Nasci para repetir o pensamento alheio. Queria ter meu próprio pensamento, mas o pensamento dos outros é mais forte.

            Com o pensamento dos outros consigo comer, vestir e ter uma casa para morar. É forte o pensamento dos outros.

           

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( O viúvo. Brasília: LGE, 2005)


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Um homem é muito pouco 9









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Outro amigo de Juliana ele identificava como Ian, o que fuma cachimbo. O cheiro de cachimbo irritava os pulmões de Horácio e ele pedira para Juliana dizer, muito gentilmente, para que o diabo do Ian não fumasse cachimbo na frente dele, Horácio. E toda vez que Ian puxava o cachimbo, Horácio se retirava da sala. Mas Horácio não queria destratar o fumador de cachimbo, Ian possuía dois ou três cavalos de Horácio. E, de vez em quando, levava algum amigo ou conhecido para visitar o ateliê de Horácio. E quando Ian levava um amigo para visitar o ateliê aí então Horário suportava a fumaça cinza do cachimbo de Ian.
Outra aproximação mnemônica era a de Lúcia Vera, que morara na África de língua portuguesa, viajava muito, trabalhava como tradutora e o jeito que Horácio encontrou de associá-la com algo foi com as cabeças empalhadas que os caçadores de bichos grandes trazem na parede como troféu. Era mulher pequena e magra, que falava português com sotaque não identificado, embora fosse pernambucana. Vera Lúcia aparecia uma vez por ano, trazia presentes para Juliana e conversavam horas a fio lembrando amigos comuns quando trabalhavam na Unesco como tradutoras. Horácio não gostava de Vera Lúcia e um dia teve um sonho em que, em vez de esculpir cavalos, ele esculpia a cabeça do animal Vera Lúcia. Vinham os compradores e ele vendia as cabeças de Vera Lúcia que acabavam na casa dos colecionadores milionários, geralmente numa sala dedicada a animais empalhados e cabeças de veado, tigres, rinoceronte e Vera Lúcia.
Horácio alimentava ciúme de homem e ciúme de mulher. Se Alexandre, o que jogava pôquer, ele achava que era um amigo de Juliana que dava em cima dela, com Vera Lúcia, a africana de cabeça empalhada, ele sentia que a mulher, quem sabe, não teria tido um caso com ela. O certo é que nutria ciúme de Vera Lúcia, inclusive porque Vera Lúcia podia ser empalhada, mas sabia fazer muito carinho na sua mulher e até mesmo massagem e beijá-la de modo lúbrico, com os olhos duros e empalhados, porém com brilho diferente e aquoso que não tinham os animais empalhados.
Havia também Amélia. Horácio gostava de Amélia, que era mulher bonita e modelo e que dava alegria à casa. Falava alto e contava casos picantes da alta sociedade que frequentava na baixa condição de modelo e amante de magnatas. Desbocada e nervosa, sem conseguir parar num lugar, Horário associou-a com a música do Mário Lago. Com tanta exuberância e transbordando de energia, Horácio foi identificar Amélia justamente com seu oposto: a que era mulher de verdade.
Quanto a Ambrósio relacionava com sonho que o paulista lhe contou: gostava tanto de cães que certas manhãs acordava e não sabia se estava na própria cama ou em algum canil. Quando estava no pesadelo, ele se encontrava no canil público, na fila de espera para ser sacrificado, da mesma maneira que havia nos EUA o corredor da morte para os condenados a cadeira elétrica.
0Tão logo Horácio terminava de descrever o elenco de associações e de amizades da mulher que ele usava para guardar na cabeça, entrou na sala um sujeito baixo, de voz de barítono, que andava de um lado para o outro examinando as peças de Horácio, sem olhar Clemente quando foi apresentado a ele.
Vestia-se com apuro. Apuro europeu e com o irritante lenço de seda preso ao pescoço, a substituir a gravata. O paletó azul-marinho estava impecavelmente bem cortado e o sujeito era pernóstico e, por ser baixo, como é comum acontecer com os homens baixos, mantinha a coluna ereta a fim de crescer míseros centímetros que não lhe alteravam a altura. Mas o baixo cresce psicologicamente e, se a postura lhe dava altura superior, que fizesse uso do expediente de empertigar-se.
O desconcertante é que a voz grave e cava saía daquela esfera. O homem, além de pequeno, era gordo, o que lhe dava um contraste exótico como se a voz já estivesse gravada dentro dele, e logo não lhe pertencia. Ou como se algo estivesse avariado como caixa de música que, abrindo-se, não tocasse o que se esperava, melodiazinha enjoada e repetitiva. Geralmente clássico erudito diluído e remanchão.
O nome do homenzinho era Bob, pelo menos assim o chamava Horácio. Devia se chamar Roberto, ou melhor, Robert, porque havia sotaque nele e o rosto rosado e sanguíneo traía origem acima da linha do Equador.
Por onde passava, ou ainda, por cada cavalo que passava ia dando os preços, Por este aqui pago quarenta, Bem aqui podemos dar uns vinte, Este quem sabe poderia até pagar bem mais regiamente, quem sabe noventa ou duzentos.
Tanto Clemente quanto Horário haviam parado de se balançar nos cavalos e olhavam assustados para o pequeno reizinho que ia distribuindo preços e fantasticamente comprando os cavalos de Horácio como se estivesse num frenético leilão. E não se discute, disse por fim, colocando a mão na barriga qual Napoleão de opereta.
Clemente estava desnorteado, como se já não bastasse estar ali naquela estrebaria fantasmagórica de cavalos de madeira, a extravagância mnemônica de Horácio e agora a presença daquele homem elegante, mas rude, que parecia não dar importância a Clemente.
Não dava importância nem mesmo a Horácio, embora quisesse adquirir todas as obras que ali estavam num afã milionário que estonteava qualquer um.
Bob, Bob, tentou Horácio interromper o comprador.
Não se discute, você sabe, disse ele, que comigo preço não se discute. Hoje você tem uma cotação, amanhã os preços explodirão, estive conversando com um amigo meu parisiense que me disse que agora entraremos numa fase da arte moderna onde não existirá mais cavalete e tudo virá de Duchamp, as obras são conceituais, body art e o que mais houver, estamos vivendo uma revolução tão séria no campo das artes plásticas como foi a vanguarda do fim do século passado com o impressionismo e com o surrealismo do princípio do século, uma nova era, senhor Horácio, e o senhor será quem sabe o Picasso brasileiro ou o Duchamp carioca dessa nova era da arte moderna no Brasil e no mundo.
O homenzinho, o Bob, o Robert, falava alto, agigantara-se, discursava, punha-se na ponta dos pés, vibrava o dedo acusatório e definitivo para um ser ali inexistente. Estava tão apoplético que Horário temeu que o homem tivesse um ataque.
Bob virou-se para Clemente e continuou ameaçando, Então o senhor vem aqui e quer pechinchar preço, desconfia da qualidade desse artista genial, desse homem que é modesto por natureza, mas que traz dentro dele uma genialidade infernal, ora, meu amigo, vamos e venhamos, o senhor está no ateliê de um grande artista, saiba disso, e essa visita o senhor nunca mais esquecerá , eu lhe juro, nunca mais esquecerá.
Bo0b, repetiu Horácio, escute-me, homem.
Pela primeira vez, quem sabe para tomar ar ou porque exagerara, Robert sentou-se, ofegante, pediu um copo d’água.
Você não precisava continuar nessa encenação toda, homem de Deus. O Clemente aqui não é comprador, é amigo da Juliana. Você precisa ser mais previdente e menos maluco. Assim nossa sociedade não dará certo.
Foi aí que Clemente percebeu o que ocorrera. O pobre do Bob ou Robert encenava ser comprador de obra de arte que irrompia no ateliê de Horácio a fim de influenciar na venda das peças que um desavisado visitante pudesse ainda estar em dúvida. Nem sempre dava resultado. Nem sempre a performance de Bob era tão enfática como foi aquela. Uma pena Robert ter gastado tanto conhecimento de artes plásticas para apenas uma visita familiar. Era preciso tomar mais cuidado e saber quem realmente estava no ateliê e não entrar porta adentro, enlouquecido.



(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


sábado, 10 de janeiro de 2026

Um homem é muito pouco 17





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Ouvia-os falar de body art, de Duchamp, das instalações de Hélio Oiticica e de Lígia Pape e outros e Clemente nunca tinha ouvido falar naqueles nomes, embora se considerasse sujeito informado e que conhecia o mundo e era leitor de livro. Mas aquele universo de artes plásticas ele não dominava e as palavras queimavam, esquentavam-no, logo se tornavam cinzas e o significado delas eram apenas borralho. Clemente percebeu que era o mais velho do grupo, que ficava calado, com o copo de vinho tinto na mão – o velho olfato de Clemente percebia o buquê, mas era falácia associar olfato com paladar –, que ouvia a gargalhada do grupo e via que Yolanda trocava olhares com Toninho Marcos, ela abaixava os olhos com sorriso nos lábios e Clemente percebia que aquela linguagem ele conhecia. Estava embarcado num navio estrangeiro, que falavam língua estrangeira, tinham gestos estrangeiros, risos estrangeiros, olhares estrangeiros. Clemente tinha medo de desembarcar em Bremen. Não queria ficar em Bremen na casa de Juliana. Diabo de profissão que afasta a gente da família. Quando se volta se é quase um estranho. E a mulher não pode ir pra cama com um estranho, tomar café da manhã na cozinha com um estranho, usar o banheiro com um estranho dentro dele. Yolanda tinha bebido demais.
Vamos embora, disse Clemente.
Não, quero ficar mais um pouco, a gente nunca sai e quando sai você quer ir embora logo.
Yolanda tanto riu que deitou a cabeça no ombro de Toninho Marcos. Clemente não teve ciúme. O que sentiu foi enorme solidão. Estava ali solitário. Solidão tão ampla e desprotegida que o fazia desembarcar em cidade que não conhecia, nem tinha porto para desembarcar.
O espírito de Clemente foi ficando fraquinho. O espírito dele precisava de cama, adoentado, débil dos pulmões, as pernas inchadas de tanto dar voltas e voltas com a cabeça dele. O quarto – a gente não deve duvidar dos quartos – estava cheio de ruas, de beijos, de risos, de olhares furtivos. Os olhos mostram a alma. Como a alma não tem braço e não tem pernas, como a alma não tem músculos e não tem quadris, o modo de a alma mostrar descontentamento é pelos olhos que têm seus músculos, pernas, braços, intenções, medidas, carências e outras partes do corpo e do repertório das emoções.
(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)




sábado, 20 de dezembro de 2025

Balaiada, romance

 





Caxias, Maranhão

 

Atravessar aquele umbral da porta da fazenda significava deixar para trás três cidades, ingressar no passado como se tudo o que vivera fora um sonho do qual acordaria ainda sem distinguir vigília e devaneio. Voltava a Macaúbas da minha infância, os campos a perder de vista, as moendas, os trabalhadores no eito, as plantações de milho, de algodão.

A raiva do meu pai era severa, embaraçosa. Temia beijar o homem iracundo ou ter medo do pai amoroso. Este último me ensinava a criar bicho de seda, orgulhoso da semente de amoreira que fizera vir de Portugal, a cultivar entre nós mais que a transmissão do conhecimento, senão tecer a cumplicidade da descoberta do mundo.

À noite, meu pai montava o cenário para os músicos amigos dele. O dr. Morizot na flauta; no piano, o Pinho Gonçalves; no violino, o boticário Arlindo e outros mais, todos servidos de vinho que meu pai mandava trazer do Porto por intermédio dos irmãos Guimarães. Da baixada, vinham os jaçanãs e os queijos de São Bento.

Meu pai não era tão alto. Quando me tornei adulto, me dei conta que meu pai era mais baixo que eu, parecia que me roubavam parte da minha infância, com ela parte do meu pai. De barba cerrada, os bigodes grandes, retorcidos, a fragrância de água de cheiro que passava após tomar o banho frio com um aparato que mandara construir para que, de dentro da bacia pendurada, saísse um fluxo de pingos contínuos e gelados.

Vestia-se com aprumo naquele calor infernal de Caxias. Relaxava um pouco na Macaúbas. Calçava as botas, punha camisa branca sem gola, colete com quatro bolsos –, a maior invenção da humanidade para meu pai não fora a roda, mas o bolso – e neles punha de tudo que podia lá caber. Em Macaúbas, andava armado. Minha mãe não gostava de que me mostrasse arma.



(Balaiada. São Luís: Academia Maranhense de Letras, 2021)


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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O viúvo, 2º capítulo



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    Não sou dos que pensam que a noite apazigua. Mesmo protegido, a sensação é de que há um furto qualquer e que a noite está cheia de roubos que se perpetuam sem que se saiba o quê exatamente foi roubado. Sonhei com ela de forma diminuta. É a vontade que tenho de diminuí-la, digo logo, ela que é tão gigantesca para mim. Então no sonho ela tem o tamanho e a espessura de um cartão de telefone. Coloco-a no bolso da camisa.
     Ando com ela pela cidade. Entro num armarinho que em vez de ilhoses, zíperes, botões e colchetes, vende apenas pernas, mãos, braços e pés mecânicos. O senhor deseja algo, posso ajudá-lo? pergunta o senhor careca com forte sotaque alemão. É o gerente da loja. Enquanto fala comigo esfrega ansioso as mãos. Os lábios são constantemente umedecidos pela língua. Encaro aquilo como licenciosidade. Recuo dois passos, olho para trás, não existe mais a porta por onde entrei.
    O armarinho se transforma em imenso galpão e as pernas, pés, mãos e braços mecânicos passam a ser de carne. Estão pendurados como num açougue. Toda a movimentação é de matadouro. Esteiras, ganchos, operários de jaleco e barrete cortam, examinam, selecionam pedaços de gente. Ela, como está no meu bolso, sente meu coração bater mais rápido e pergunta se estou nervoso.
    – Você está nervoso, meu bem.
    – E não era para estar?
    – Eu, ao teu lado, não te dou paz.
    – Esta é a maneira de estar ao meu lado?
    –Fica calmo.
    – Este homem é um maluco.
    – Que homem?
    – O alemão.
    – E por quê?
    – Não está vendo?
    – Sei, pelos membros expostos.
    – São restos de pessoas, é carne humana, e você acha tudo natural. Estou num matadouro, açougue, frigorífico ou coisa que o valha e tudo aqui é perna, coxa, pedaços de gente e você acha tudo isso natural?
    – Você se escandaliza com tudo.
    – E não é para me horrorizar?
    – O horror está aqui.
    – Aqui onde?
    – Em casa.
    – Em casa?
    – Olha as frestas.
    – Que tem as frestas?
    – É uma forma de corte.
    – As rachaduras na parede então são cortes como um corte na pele, é isso que você quer dizer?
    – Os cortes...
    – Você diz as rachaduras.
    – As rachaduras são daninhas e nervosas.
    – É um apodrecimento das paredes.
    – Não, é uma forma das paredes respirarem.
    – Se você meter a mão vai esfarelar tudo. A umidade estragou a parede.
    – Não é umidade. A parede sua. 
    – Ah, a parede sua.
    – E outra coisa.
    – Diga.
    – A casa é um grande intestino.
    – Ora, me deixe.
    – Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora.
    – Me deixe em paz.
    – Você já está em paz.
    – Desde que você se foi que não tenho mais paz.
    – Não seja sentimental.
    – E você sabe disso.
    A sujeira está sempre em carne viva. Os lençóis são redundantes. Eles têm o meu cheiro. Então me sinto em mim, deito sobre mim, cheiro-me, empapo-me do que sou, do suor do bicho gosmento que à noite rumina. O que em mim rumina não é coisa aproveitável, é o bolo gástrico do pensamento que não me deixa dormir, faz insones as paredes, dá voz à pia. Quando D. Benedita não está aí não entro na cozinha porque posso ser tragado pela fedentina da casa. Todo meu lixo é orgânico. Não existe casca de laranja ou a laranja mesmo. O que está ali é um pouco da boca que a chupou. Do estômago embrulhado que a deglutiu. Sou um animal gorduroso e fescenino, por isso não gosto do bicho cozinha que pode me engolir e não me vomitar mais.

domingo, 16 de novembro de 2025

Um homem é muito pouco 24


    
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            A casa tem mais habitantes. 
            Está cheia de percevejos, baratas e outros insetos. 
            Nunca vi um percevejo. Se percevejo é bicho redondo de várias patas, já vi percevejo. A impressão que tenho é que estão dentro de mim. De noite me coço e não sei que família de bicho me ataca. Passei muito tempo inerte, paralisado, alimentando-me do sangue das sopas ralas. Não tenho os nervos abalados, não, tenho poucos nervos. E meus nervos estão cheios de percevejos.

            Eu contratara uma empregada que vinha aqui duas vezes por semana. D. Etiópia. Eu dizia pra ela que o nome dela era nome de país, ela ficava me olhando e talvez pensando que eu era meio gira. D. Etiópia é uma branca gorda e forte e não tem nada a ver com a Etiópia. Como a Itália, na Segunda Guerra Mundial, invadiu a Etiópia, numa ópera bufa, d. Etiópia podia muito bem ser filha de emigrante pobre italiano que deu o nome atravessado para a filha. Mas Etiópia não tinha nada de italiana, a não ser a gordura napolitana e a força mafiosa de suas mãos capaz de suspender um homem em cada mão. Depois não tive como pagar d. Etiópia e a casa foi sendo tomada pelos bichos. Toda minha louça está suja e engordurada na pia. As baratas se equilibram sobre o copo, outras sobre o cabo das panelas, outras até fizeram ninho no interior de uma lata aberta. As formigas passam por mim indiferentes e sem medo. As formigas não têm medo. Não há na fisiologia da formiga nenhuma glândula que excrete o medo. Se pudesse arrancava a minha glândula que secreta medo. Iria até o dentista e pediria ao dr. Máximo que me tirasse a glândula do medo e ele responderia que não era cirurgião, o que fazia era extrair dente e, além do mais, não queria se meter em minha vida, mas nunca tinha ouvido falar em extrair a tal glândula do medo. Dr. Máximo é tão velho que a glândula do medo dele deve ter secado. A loucura e a velhice devem entupir a glândula do medo. Só um sujeito com a idade de dr. Máximo ia até o puteiro de d. Sereja sem medo. E a razão era que a glândula do medo dele não excretava mais líquido nenhum.


(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010.)

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terça-feira, 25 de março de 2025

Um homem é muito pouco 7





E bem, ali estavam os três, Clemente, Yolanda e Aninha para fazer visita a Juliana. Clemente ficou impressionado com a casa. Não pelo luxo que não havia, Juliana era intelectual e não cuidava muito da casa. Havia livros e papéis por todos os cantos e os móveis pareciam estar fora de lugar por alguma razão desconhecida. E além do mais, em todas as partes havia cavalos de pau.

O marido de Juliana não gostava de ser chamado de marceneiro, acreditava que os móveis que fazia, muitos deles desenhados por ele mesmo, eram obra de arte. Copiava modelos ingleses, franceses e italianos, mas também impunha aos fregueses os traços do seu desenho, que poderia nunca chegar a ser grife, mas que lhe dava a paz de realizar trabalho artístico e não meramente mecânico e operário.

Mas a fascinação do marido de Juliana eram os cavalos. Então havia na sala em que foram recebidos cavalos de todos os tamanhos, pequeninos, médios, grandes. Clemente mesmo se sentou numa cadeira que tinha forma de cavalo. Do mesmo modo, Yolanda e Aninha também sentaram em cadeiras-cavalo, enquanto Juliana se estirava numa chaise-long, depois de recolher pratos jogados sobre a mesma, papéis espalhados em cima do sofá como se tivesse sido pega de surpresa e não ter convidados para o chá. Yolanda já estava acostumada com Juliana e com a casa de Juliana. Aninha sempre gostava de ir à casa de Juliana, que lhe parecia enorme casa de brinquedo que, lamentavelmente, só tinha o brinquedo do cavalo.

Quem estava incomodado era Clemente, que não se sentia à vontade sobre uma cadeira que era cavalo ou sobre um cavalo que era cadeira.

O marido de Juliana era um cavalo. Era um cavalo grande. Homem cinza. Todo ele era cinza. E ainda por cima fazia questão de se vestir de cinza. Horácio era o nome dele. Mas Horácio não é nome de cavalo. Horácio deveria ter nascido com o nome de cavalo. Ele levou Clemente para outra sala com pé-direito alto.

Lá havia outros cavalos. Era a “cocheira” de Horácio. Era ali que ele esculpia e guardava os cavalos, principalmente os cavalos maiores. Horácio devia se chamar Homero e tornar verdade a história do cavalo de Troia. Horácio era o único homem que Clemente conheceu que podia ter construído, nos tempos modernos, o cavalo de Troia. Horácio era um homem espichado, magro de tanto cavalgar seus cavalos, alimentando-se pouco e raramente. A cabeça de Horácio cobria-se de cabelos cinza, as crinas de Horácio comportavam o cinza. Horácio colocou Clemente num cavalo grande e ele também sentou num cavalo grande.

A impressão que Clemente reteve foi não que os cavalos fossem grandes, mas que os dois, Horácio e ele, haviam diminuído. Clemente se sentia um pouco criança, mas não se importava de se sentir um pouco criança. Os cavalos enormes, gigantes, de Troia, os cavalos grandes de Horácio eram estilizados, logo não se sentia cavalgando na madeira da oficina de Horácio. Coerente com os cavalos de pau, não havia capim no chão da oficina, ou melhor, o capim também era de madeira.

Os cavalos ficavam distantes um do outro e Horácio falava alto e espichado, falava magro e cinza. Clemente respondia no mesmo tom e altura.

Era uma conversa desencontrada e magra. Dois meninos se balançando em dois balanços numa praça, de vez em quando as vozes e os ouvidos se cruzavam, mas no resto ele falava uma coisa, mas Clemente não escutava, estava no alto, logo Clemente falava outra que ele não escutava, estava lá embaixo e vice-versa ou versa-vice, como o próprio Horácio gostava de dizer. O versa-vice para Horácio era a conversa secundária. Ele perguntou a Clemente o que ele fazia, Clemente lhe disse e ele confessou que gostaria de ter sido marinheiro, que quando criança pensava em entrar para a Marinha, mas depois tomou gosto de cavalos e no mar não havia cavalos e era besteira de chamar de cavalo-marinho o cavalo-marinho que era marinho mas não era cavalo.

Eu joguei todos os meus livros fora, ele gritou.

E por quê?

Os livros, como aconteceu com Dom Quixote, estavam me enlouquecendo. Eu não gosto de enlouquecer, ele completou.

Clemente não disse para ele que também não gostava de enlouquecer, aliás Clemente não conhecia ninguém que gostasse de enterro e de enlouquecer.

Não, Horário não se parecia com Dom Quixote, embora tivesse o rosto também espigado e cabelo com topete que alongava o rosto dele. Horácio era tão magro que Clemente via não somente as veias dos braços como também os feixes mínimos de tendões e músculos que seguram as carnes.

Sabe quanto custa um cavalo desses?, perguntou apontando para os cavalos em que estavam sentados. Quase um carro popular.

Clemente não sabia a razão de Horácio falar aquilo de os cavalos custarem os olhos da cara. Queria se valorizar, é claro. Mostrava seus laivos de artista e de artista plástico com exposição montada e cavalos vendidos. Clemente, não por maldade, e sim por ingenuidade, perguntou se Horário já vendera algum daqueles cavalos.

Alguns, poucos, respondeu com sinceridade Horácio.

Clemente gostou da sinceridade de Horácio. Se fosse homem rico, somente pela sinceridade de Horácio, compraria o cavalo que valia carro popular embora ninguém ainda tivesse pagado o preço de carro popular para um cavalo daqueles.

Você gosta de amêndoas?, perguntou de súbito Horácio, sem que nada que tivessem conversado antes levasse a tal pergunta.

Gosto, gosto de amêndoas. Clemente pensou que Horácio ia lhe oferecer amêndoas. Mas não. Feita a pergunta, se calou.

E um tempo depois disse: As amêndoas são muito boas.

Clemente não havia escutado direito e pediu que ele repetisse. E Horácio disse: As amêndoas são muito boas. Clemente balançou a cabeça afirmativamente. E pensou que talvez não estivesse ali em Botafogo, na casa de Juliana, conversando com o marido cinza dela, sentado num cavalo gigante, e sim que estava no sanatório em Bremen. Horácio explicou que aquele era seu método mnemônico para guardar os nomes das pessoas. De agora em diante, Clemente se chamaria “Clemente, o que gosta de amêndoas”. Ele, Horácio, já provara o método inclusive numa visita que o casal fizera a amigos dela em Santa Tereza. Horácio se prometeu que sairia de lá sabendo o nome de todos os amigos dela. Eram quase vinte pessoas. Horácio foi apresentado a todos e pediu que Juliana ao apresentá-lo lhe dissesse o nome. Na hora de partir, Horácio se despediu um por um pelo nome.

Boa noite, Otávio. Boa noite, dona Marina. Boa noite, seu Cláudio. Boa noite, seu Antonio Carlos. Horácio, ao ser apresentado, juntava o nome do sujeito ou da mulher com algo aleatório, como Otávio com piano, Mariana com fruta-pão e por aí vai.

Ao sair da festa, Horácio estava se despedindo era do piano, da dona fruta-pão, do seu manteiga, da sua graminha, do seu novato, do doutor capacho, de dona língua grande. Horácio não gostava de associar traços físicos com o nome, para ele era o mais fácil de confundir. Nariz grande servia pra um bando de pessoas ali mesmo na festa.

O método que Horácio consagrara – embora não fosse inventado por ele – se estendia aos amigos de Juliana. Se Clemente era o que gostava de amêndoas, Alexandre era o sujeito que gostava de jogar pôquer. Horácio não gostava muito de Alexandre, pensava que ele dava em cima da mulher dele, o que não era de todo descabido.

Juliana era uma mulher muito bonita. O dinheiro do pai de Yolanda podia comprar qualquer miss, por isso não ia gastar tempo e dinheiro com uma secretária que recitava Le dormeur du val, de Rimbaud. Se fosse feia, poderia discorrer sobre toda a literatura francesa, de Rabelais a Flaubert, que não levaria nenhuma bicota na boca murcha.

O pai de Yolanda conhecia o mundo e o mundo era belo. O mundo não era belo para os pobres, mas o que o dinheiro que o pai de Yolanda comprava era belo. Era bela a literatura do pai de Yolanda, eram belas a mulher e a amante do pai de Yolanda, eram belas a casa e as viagens do pai de Yolanda, era bela a casa com piscina em Palmas de Mallorca, era imensa com quadras de tênis e uma cascata natural a mansão do pai no Alto da Boa Vista. Yolanda não conhecia tudo sobre o pai dela. Havia um lado que o dinheiro não comprava e que ele escondia da família.

O pai de Yolanda tinha muito a ver com o capitão Vaz. Não, não, nunca se encontraram e agora que o pai de Yolanda estava morto só se encontrariam na vida eterna, caso os dois acreditassem na vida eterna e, principalmente, se existisse a vida eterna. O pai de Yolanda foi procurado por um empresário paulista do grupo Ultragás e ele pensou que o empresário fosse convidá-lo para o pai de Yolanda fazer parte da companhia que estava de pernas bambas. Mas o negócio que empresário paulista propôs foi ser sócio do Brasil.

O senhor é um patriota, dr. Macedo.

É claro que sou.

Muito bem, venho lhe propor se associar ao Brasil.

Mas o Brasil não tem dono.

É aí que o senhor se engana, disse o empresário paulista. O país é de todos, mas há uma canalha que pensa que o país é deles e que eles vão tomar o Brasil só para eles.

Meu Deus, exclamou com verdadeira surpresa. O pai de Yolanda era o sujeito mais esperto e safado que se conhecia, mas às vezes deixava passar ingenuidade.

Depois dessa conversa no Golden Room do Copacabana Palace, o pai de Yolanda passou a contribuir para armar a repressão contra os comunistas que queriam o Brasil só pra eles. O que jamais o pai de Yolanda ia imaginar é que a amante querida e que ele cuidava como quem cuida da educação de filha na Suíça fosse casar com comunista que militara antes de conhecer a arte de esculpir cavalos.

Mas voltando à questão mnemônica de Horácio, o homem cinza que vinha a ser Horácio – o rosto apresentava-se macilento, viam-se os pomos da face e até mesmo os olhos apresentavam tonalidade cinza como de certos felinos – contou para Clemente que Juliana tinha um amigo chamado Alfredinho e que ele identificava Alfredinho como corretor da Bolsa. Certa vez chegou mesmo a misturar as coisas e perguntar a Alfredinho como iam as ações na Bolsa e que conselhos Alfredinho dava para quem, como ele inexperiente, quisesse se meter a aplicar na Bolsa e foi quando Alfredinho disse que não era corretor da Bolsa e que trabalhava numa imobiliária como corretor, não da Bolsa, mas de imóveis.


domingo, 15 de setembro de 2024

Um homem é muito pouco 11



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O último caso lhe deixou rombo formidável e uma bala encravada entre os pulmões que os médicos não quiseram retirar. Menuhim sempre pensava na bala quando abria as portas. A bala dentro do peito, entre os pulmões, esfriava e dor úmida, arfante, gelada, vinha de dentro dele como presságio ou mau agouro. Quando a bala se fazia sentir, ele recusava o cliente sem dar explicações e as portas se fechavam para quem ele sempre as abriu.

Mateus e Clemente viram a primeira porta se abrir. Os dois entraram, a porta de ferro fechou-se atrás deles e a porta da frente não se moveu.

Não se moveu porque o velho armênio passou mal, não alcançou o botão que abria a segunda porta de ferro. A intenção de Menuhim era destrancar a segunda porta, agora não apenas por confiar na visita, mas porque sabia que estava prestes a sofrer ataque do coração ou outro de igual potência e queria que a porta se descerrasse não para atender o cliente, mas para que fosse salvo pelos visitantes.

Mas antes que alcançasse o botão, o relojoeiro dobrou as pernas, o olho fixo e arregalado na tela da televisão que mostrava os dois, Clemente e Mateus, ali postos entre ferros de porta e ele, Menuhim, à beira da morte. Quanto a Clemente e Mateus os dois não se moviam, olhavam-se, batiam na porta como se a porta fosse porta de se abrir no trinco e não de forma eletrônica. As batidas na porta não chegavam ao ouvido de Menuhim, mesmo que os ouvidos de Menuhim estivessem prontos para ouvir, mesmo que os ouvidos pudessem ouvir o que não se podia ouvir porque os murros na porta de ferro não ultrapassam a mesma porta de ferro.

Os dois, Clemente e Mateus, por sua parte, desconheciam o que acontecia com o velho armênio que estava estirado e desmaiado no chão. Acreditavam que o relojoeiro não queria abrir e os deixava ali naquele purgatório de ferro.

A luz ficava mais amarela, os tons marrons sobressaíam. Nenhum dos dois tinha claustrofobia, embora Clemente fosse dado a imaginar a cama do camarote como ataúde sempre que ali deitava e o sono não vinha. Os murros de Clemente e Mateus ressoavam apenas dentro da pequena cela. Não gritavam, os gritos doíam-lhe nos ouvidos.

     Menuhim perdia o fôlego, também ia ficando sem a vista das coisas, os mostruários, as ferramentas e as joias todas rodando na sua cabeça. Vinha-lhe um ladrão que chegava perto dele e dizia: Vim buscar o roubo final. As peças estão todas aí, leve-as todas, respondia Menuhim. Mas o ladrão que estava diante do joalheiro não era ladrão de joias. O ladrão que estava diante do velho viera buscar outro objeto do armênio que não esperava tão cedo encontrar a tal porta e muito menos ser assaltado por um bandido de outra espécie que não queria coisas materiais, ou melhor, a única matéria que satisfazia o ladrão era a matéria corrompida do corpo de Menuhim.
       O porteiro tentou arrombar a porta principal, a que dava para o corredor, mas logo percebeu que não conseguiria, mesmo com instrumentos de arrombamento. Se o porteiro tivesse conseguido teria ruído por terra toda a segurança de anos. Clemente e Mateus perceberam que havia movimentação no corredor e agora gritavam para quem estava no corredor e não mais para o joalheiro. Que diabo Menuhim havia feito com eles, que brincadeira era aquela de deixá-los prisioneiros. Menuhim era homem sem humor. Eles não acreditavam que aquela prisão entre portas de ferro fosse mera brincadeira do velho armênio. Era essa certeza, a falta de humor, mesmo que fosse humor rude, inexperto, camponês como o espírito de Menuhim que nunca deixou a velha aldeia onde nascera e fora criado antes de vir para o Brasil, mesmo que fosse esse tipo de humor, o velho armênio era incapaz de cometer. Logo o que viviam era o inferno. Do purgatório ao inferno. Clemente olhou para o companheiro que havia mostrado a vida inteira coragem inteiriça e agora só via um sujeito vítima do próprio horror.


(Um homem é muio pouco. São Paulo: Nankin, 2010)