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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Um homem é muito pouco 13



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            Não era bem o que Yolanda queria para sua vida. Agora que passaram as grandes dores como a perda do pai, a perda do marido e a perda da filha com Clemente, ela olhava para o companheiro e via nele traços que antes não vira. Na casa de Juliana, ela conheceu Toninho Marcos, que era pintor e amigo de Horário. Os irmãos todos de Toninho eram metidos com negócios, ações da Bolsa, construção imobiliária e fábrica de materiais de limpeza. Dr. Macedo e o pai de Toninho Marcos tinham sido amigos e parceiros em várias associações de classe. Yolanda já conhecera Toninho Marcos numa visita que fizera à casa da família dele lá pelos fins dos anos 50, salvo engano, e Toninho Marcos era um menino que falava inglês, tinha projetor de filmes e máquina de filmar – ele mostrara a ela, tantos anos depois, fita com os dois correndo no jardim, mergulhando na piscina, subindo em árvore. Toninho Marcos também morou pelo mundo, mas ao contrário de Clemente não conhecia apenas os portos.

             Também andou em hospital psiquiátrico, foi internado e tratado pela dra. Nise da Silveira. Contudo, nunca esteve em sanatório de Bremen, largado lá como carga irregular que o navio não podia carregar e só voltaria ao navio da Mercante quando pusesse o raciocínio no lugar e pudesse ser considerado carga com a documentação em dia. Toninho Marcos pintava como Roy Liechtenstein que conheceu nos EUA e vivia como os beatniks, a quem assistira a leitura de poemas numa universidade do Novo México.

            Mas ninguém levava a sério a pintura de Toninho Marcos. A família pensava que ele era degenerado, consumidor de ácido e cogumelo, amante de blues, enquanto os outros artistas não davam crédito a ele justamente porque Toninho Marcos era filho de filho da puta como era o pai dele que financiava a repressão como o pai de Yolanda e achavam que filho de socialite e empresário filho da puta não podia ser artista aqui nem nos EUA, conhecendo ou não conhecendo Roy Liechtenstein, ouvindo ou não ouvindo poesia beatnik na universidade do Novo México.

                O que levou Toninho Marcos a ser tratado por dra. Nise é que, ao contrário do que todos pensavam que para ser drogado deveria o sujeito ter crise familiar, Toninho Marcos gostava do pai, admirava o pai, embora sabendo que o pai tinha sua face negra e ele não podia admitir que o pai tivesse face negra porque ele, Toninho Marcos, admirava o pai e o pai era carinhoso com ele e ele sabia que o pai pagava para que um monte de sujeitos violentos e reacionários não fossem carinhosos com os estudantes, os comunistas e outros rebeldes que caíam nas mãos dos homens poucos carinhosos da repressão. Toninho Marcos não gostava é da mãe.

                Ele mamava em Helena Maria Isabel Teresa de Andrada Bonifácio Souza Campos, que era o nome de solteira da mãe dele, porque socialite tem que ter o nome longo como os príncipes que tinham nome longo e Helena Souza Campos eram apenas os nomes que ela escolhera entre os vários nomes dela para se apresentar em sociedade e quando Toninho Marcos olhava não era a mãe que o amamentava mas o pai que ganhara seios e o amamentava. O pai não tinha formas femininas, nem cabelo grande, era o mesmo pai, o peito cabeludo e a voz grave e serena, mas tinha seios e o alimentava. O pai era homem culto e conversava sobre arte com Toninho.

             Várias vezes falaram de política e o pai discordava do filho, mas não se explicava e evitava o assunto e quando Toninho via estavam falando de arte abstrata, de cubismo e dos quadros que o pai queria comprar, dos leilões que frequentava e coisas desse tipo. Toninho Marques tinha então dois pais, Dr. Jekyll e Mr. Hide, o que o alimentava de leite materno e falava de artes e o outro que também fora visitado pelo intermediário do grupo Ultragás para contribuir com o delegado Fleury.

                    Toninho desenhava homens femininos com aparelhos de tortura na mão e dra. Nise queria apresentar as pinturas de Toninho como surrealistas, mas Toninho não queria aparecer nas exposições dos quadros dos loucos da dra. Nise da Silveira, porque sabia que em vez de surrealismo ele estava fazendo era realismo socialista e ele não considerava os quadros coisa que prestasse, mas acerto de contas entre emoção e razão. Toninho Marcos se chamava Pedro Augusto. Era nome de imperador da casa dos Bragança e augusto é coisa real. O nome mesmo, de artista, que ele queria era outro, mas no grupo de dra. Nise, uns o chamavam de Toninho, sabe-se lá por que cargas d’água, e outros malucos o chamavam de Marcos. Dra. Nise é quem o batizou de Toninho Marcos para acabar com aquela esquizofrenia de um ser dois. Dra. Nise da Silveira tinha a casa cheia de gatos e um bando de nomes que ela distribuía como quem distribui doce às crianças e pílulas aos loucos.





(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, dez. 2010)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Um homem é muito pouco 17





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Ouvia-os falar de body art, de Duchamp, das instalações de Hélio Oiticica e de Lígia Pape e outros e Clemente nunca tinha ouvido falar naqueles nomes, embora se considerasse sujeito informado e que conhecia o mundo e era leitor de livro. Mas aquele universo de artes plásticas ele não dominava e as palavras queimavam, esquentavam-no, logo se tornavam cinzas e o significado delas eram apenas borralho. Clemente percebeu que era o mais velho do grupo, que ficava calado, com o copo de vinho tinto na mão – o velho olfato de Clemente percebia o buquê, mas era falácia associar olfato com paladar –, que ouvia a gargalhada do grupo e via que Yolanda trocava olhares com Toninho Marcos, ela abaixava os olhos com sorriso nos lábios e Clemente percebia que aquela linguagem ele conhecia. Estava embarcado num navio estrangeiro, que falavam língua estrangeira, tinham gestos estrangeiros, risos estrangeiros, olhares estrangeiros. Clemente tinha medo de desembarcar em Bremen. Não queria ficar em Bremen na casa de Juliana. Diabo de profissão que afasta a gente da família. Quando se volta se é quase um estranho. E a mulher não pode ir pra cama com um estranho, tomar café da manhã na cozinha com um estranho, usar o banheiro com um estranho dentro dele. Yolanda tinha bebido demais.
Vamos embora, disse Clemente.
Não, quero ficar mais um pouco, a gente nunca sai e quando sai você quer ir embora logo.
Yolanda tanto riu que deitou a cabeça no ombro de Toninho Marcos. Clemente não teve ciúme. O que sentiu foi enorme solidão. Estava ali solitário. Solidão tão ampla e desprotegida que o fazia desembarcar em cidade que não conhecia, nem tinha porto para desembarcar.
O espírito de Clemente foi ficando fraquinho. O espírito dele precisava de cama, adoentado, débil dos pulmões, as pernas inchadas de tanto dar voltas e voltas com a cabeça dele. O quarto – a gente não deve duvidar dos quartos – estava cheio de ruas, de beijos, de risos, de olhares furtivos. Os olhos mostram a alma. Como a alma não tem braço e não tem pernas, como a alma não tem músculos e não tem quadris, o modo de a alma mostrar descontentamento é pelos olhos que têm seus músculos, pernas, braços, intenções, medidas, carências e outras partes do corpo e do repertório das emoções.
(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)




quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O viúvo, 2º capítulo



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    Não sou dos que pensam que a noite apazigua. Mesmo protegido, a sensação é de que há um furto qualquer e que a noite está cheia de roubos que se perpetuam sem que se saiba o quê exatamente foi roubado. Sonhei com ela de forma diminuta. É a vontade que tenho de diminuí-la, digo logo, ela que é tão gigantesca para mim. Então no sonho ela tem o tamanho e a espessura de um cartão de telefone. Coloco-a no bolso da camisa.
     Ando com ela pela cidade. Entro num armarinho que em vez de ilhoses, zíperes, botões e colchetes, vende apenas pernas, mãos, braços e pés mecânicos. O senhor deseja algo, posso ajudá-lo? pergunta o senhor careca com forte sotaque alemão. É o gerente da loja. Enquanto fala comigo esfrega ansioso as mãos. Os lábios são constantemente umedecidos pela língua. Encaro aquilo como licenciosidade. Recuo dois passos, olho para trás, não existe mais a porta por onde entrei.
    O armarinho se transforma em imenso galpão e as pernas, pés, mãos e braços mecânicos passam a ser de carne. Estão pendurados como num açougue. Toda a movimentação é de matadouro. Esteiras, ganchos, operários de jaleco e barrete cortam, examinam, selecionam pedaços de gente. Ela, como está no meu bolso, sente meu coração bater mais rápido e pergunta se estou nervoso.
    – Você está nervoso, meu bem.
    – E não era para estar?
    – Eu, ao teu lado, não te dou paz.
    – Esta é a maneira de estar ao meu lado?
    –Fica calmo.
    – Este homem é um maluco.
    – Que homem?
    – O alemão.
    – E por quê?
    – Não está vendo?
    – Sei, pelos membros expostos.
    – São restos de pessoas, é carne humana, e você acha tudo natural. Estou num matadouro, açougue, frigorífico ou coisa que o valha e tudo aqui é perna, coxa, pedaços de gente e você acha tudo isso natural?
    – Você se escandaliza com tudo.
    – E não é para me horrorizar?
    – O horror está aqui.
    – Aqui onde?
    – Em casa.
    – Em casa?
    – Olha as frestas.
    – Que tem as frestas?
    – É uma forma de corte.
    – As rachaduras na parede então são cortes como um corte na pele, é isso que você quer dizer?
    – Os cortes...
    – Você diz as rachaduras.
    – As rachaduras são daninhas e nervosas.
    – É um apodrecimento das paredes.
    – Não, é uma forma das paredes respirarem.
    – Se você meter a mão vai esfarelar tudo. A umidade estragou a parede.
    – Não é umidade. A parede sua. 
    – Ah, a parede sua.
    – E outra coisa.
    – Diga.
    – A casa é um grande intestino.
    – Ora, me deixe.
    – Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora.
    – Me deixe em paz.
    – Você já está em paz.
    – Desde que você se foi que não tenho mais paz.
    – Não seja sentimental.
    – E você sabe disso.
    A sujeira está sempre em carne viva. Os lençóis são redundantes. Eles têm o meu cheiro. Então me sinto em mim, deito sobre mim, cheiro-me, empapo-me do que sou, do suor do bicho gosmento que à noite rumina. O que em mim rumina não é coisa aproveitável, é o bolo gástrico do pensamento que não me deixa dormir, faz insones as paredes, dá voz à pia. Quando D. Benedita não está aí não entro na cozinha porque posso ser tragado pela fedentina da casa. Todo meu lixo é orgânico. Não existe casca de laranja ou a laranja mesmo. O que está ali é um pouco da boca que a chupou. Do estômago embrulhado que a deglutiu. Sou um animal gorduroso e fescenino, por isso não gosto do bicho cozinha que pode me engolir e não me vomitar mais.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Um homem é muito pouco 20



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          Há também moças em flor. Mas as moças em flor do apartamento do andar de cima são flores murchas. Também são flores vadias. A verdadeira flor vadia é a do campo. Posta aqui, sem tomar sol, trabalhando de pernas para o ar, as flores logo pegam doença venérea. E doença venérea não é boa pras flores. A polícia já apareceu aqui para conferir o jardim. A polícia queria saber se era jardim de infância. Mas como não tinha nenhuma menor a polícia decidiu pegar um pouco de grama. A grama que a senhora dona do estabelecimento dá pros guardas também é verde e vale uma nota. Toda semana a polícia vem visitar o jardim de d. Sereja: as moças não desabrocham, embora tenham pernas firmes e andem sem raízes.
            Fui duas vezes lá. Pensei até que uma delas, Marilene, deixava escapar um botão de Rosa. Eu a chamava de Rosilene, ela ria. Ela ria mais, depois tossia. Uma tosse vadia. Não era doença de pulmão. Os peitos de Rosilene tinham duas camélias de dar inveja a qualquer expositor. D. Sereja cultiva pecado e doença. Por isso as flores dela não duram muito. Ele tem que plantar outras mudas, que logo adoecem. Se não adoecem de doença venérea, adoecem de droga.
            Certa vez encontrei dr. Máximo na floricultura de d. Sereja.
            O que o senhor faz aqui?
            Vim descansar.
            O senhor está louco, aqui não se descansa, o que tem mais é suor, não sente o cheiro de suor?
            O cheiro de suor que eu sentia não era cheiro de sexo. O cheiro de suor que eu sentia era cheiro de animal que trabalha muito. O cheiro do lombo do cavalo, por exemplo. O lombo de cavalo das meninas ficava suado e aquela exuberância de coxas e peitos era falsa como pivô dos dentes do dr. Máximo. Elas tinham que cavalgar a tarde inteira e a noite inteira.
            Não voltei lá, é uma furada se apaixonar por puta. Elas dormem quando você acorda, elas acordam quando você vai dormir. D. Sereja aluga cinco apartamentos. D. Sereja também dá grama para o síndico. E não o deixa pagar quando ele arranca as flores do pé do jardim dela. Tenho muito grama na cabeça, às vezes me pego pensando erva daninha. Não gosto de pensar coisas daninhas que podem apodrecer meu pensamento. Por isso evito qualquer coisa que possa tirar seiva da minha cabeça.


(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)




segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O viúvo, 5º capítulo


Otto Dix. DER KRIEG ("WAR") The Dresden Triptych - YouTube
Estava na casa da doutora quando escutei os gritos. Perguntei pra empregada o que era aquilo. A moça disse que não sabia. Não sei do que se trata. A casa aqui, continuou ela, é muito sossegada. Os pacientes são nervosos, mas nunca atacam, gritam ou fazem escândalo. O homem aí deve ser um estranho. Nunca vi ele aqui, disse ela. Olha como estou nervosa. E pegou minha mão e ia colocar no peito, mas recuei, era um gesto muito íntimo, geralmente as mulheres que fizeram isso comigo era para eu tocar os mamilos por cima da blusa, mas a empregada não tinha essa intenção e eu não podia me permitir abusar do nervosismo da mocinha para tocar os seios dela.
A casa tem dois andares. Desperdício. Ali moram apenas duas velhas. Uma, minha psicanalista; a outra, irmã dela. A irmã da minha psicanalista não faz nada na vida. Sempre cuidou da irmã, foi uma secretária, mas hoje nem mesmo cumpre as funções de secretária. Que vida besta. É apenas um vulto vestido de saia que vaga pela casa, dá ordens desconexas para a empregada – vai ao supermercado e compra mamão, a empregada vai e quando volta ela pergunta por que a empregada comprou mamão. Por que comprou mamão? A senhora mesmo pediu... Eu? Você pensa que me engana, que tô gagá, pensa?
O cabelo das duas me impressiona. Os homens se tornam carecas, mas as mulheres vão perdendo cabelo e fica aquela coisa rarefeita, que a gente vê o couro cabeludo quando fica contra a luz. Tenho a teoria de que as mulheres que perdem cabelo também perdem outras substâncias, então os músculos ficam ralos, geralmente são miúdas como minha psicanalista e perdem a força da voz, que saem fracas, tão fracas como as palavras suspiradas num segredo ao pé do ouvido.
Estou na garagem, transformada em consultório. O consultório de vozes encarceradas. Ali sim estão as vozes em seu estado primitivo, porque saem, mas não saem, ficam ali, depositadas, aéreas, esparsas, presas para sempre no ouvido da doutora. A garagem é um ventre de vozes, estão amortecidas, esperam que nós as busquemos, há um repertório também de outras vozes, viciadas, lidas, eruditas, que a doutora recolhe do ar, borboletas rebeldes, que se cruzam, formando outro bando de borboletas.
– Onde está o filho da puta?
– O senhor, por favor, se controle.
– A senhora tem parte da culpa em tudo isso.
– Culpa?
– Se desestimulasse o cretino, ele não ia atrás de minha mulher.
– O senhor está passando dos limites.
– Por que tinha que se meter na vida alheia?
– O senhor está falando de quê?
– Da senhora.
– Se o senhor não se retirar da minha casa, chamo a polícia.
            O nome dele é Manfredo. Esse sujeito me persegue há um bom tempo. Chame a polícia, chame – e tirou o celular do bolso – vamos, liga, liga. Tenho medo de enfrentá-lo porque é um brutamontes. Mas ele não tem certeza de que eu estou ali na casa. Onde está ele? Onde está ele? O sujeito que sabe onde está o desafeto não precisa ficar perguntando onde está o desgraçado que persegue. Encolho-me instintivamente, mas não vou cometer o ridículo de me esconder atrás de cortina ou me abaixar atrás da mesa. Ele não domina a planta da casa, por isso não sabe por onde ir. Sobe até o segundo andar, vasculha o escritório, entra na cozinha e não encontra nada. Jamais vai supor que estou na garagem. Porque é na garagem, transformada em consultório, que a doutora atende.
            Manfredo é judeu. Não conviveu com a família, não herdou hábitos judaicos ainda que tenha feito o bar mitzvah. Mas, mesmo assim, ele tem um pesadelo recorrente: está numa câmara de gás num campo de concentração. Não é fácil você viver com uma lembrança que não é sua, um passado que pertence a sua raça. Se fossem só os pesadelos, ele poderia se livrar deles ao acordar. Mas os pesadelos continuam durante o dia. Aterroriza-o a possibilidade de ser transformado num daqueles seres esquálidos que saem nas fotos e nos documentários sobre a Segunda Guerra. Oh, Deus, foi apenas um pesadelo. Os judeus aparecem em preto-e-branco, barba por fazer, uma barba desamparada, os ossos espetando a carne, que não é função dos ossos fazer parte da parte de fora do corpo. A fila descomunal e desumana, vigiada por cachorros, enfileirados para o absurdo do crime oficial, a foto mostrando os oficiais nazistas tão ferozes quanto seus cães.
            A geografia da casa cria ouvidos. Um homem não pode ser incompleto o tempo todo.
            No banho, me contou a mulher dele, a ameaça era o vapor que subia e se tornava o mesmo gás, passado de geração a geração, que por fim o alcançava, o mesmo gás carrasco, o Zyklon-B, cuspido das torneiras secas. As torneiras vaporizavam o terror. As torneiras expulsavam o genocídio, o crime industrial, a máquina de morte. O vapor do banheiro transformava o boxe num galpão, onde outros homens despidos se banhavam de fumaça.
            A mulher dele era bem mais nova. Não era judia. Não estava preocupada com aquilo que ensandecia o marido.
– Você está suando?
– São os gases.
– Onde você vê os gases?
– Os gases a gente não vê. Os gases a gente sente o cheiro.
– Não havia cheiro no Zyklon-B.
– Como você sabe disso?
– Eu não sei se li ou não li. O que importa é que é infernal viver com um homem que se sente perseguido por algo que nunca viveu.
Cantos, danças, músicas, homens abraçados, Manfredo apenas conhecia o mundo judeu nas festas, não freqüentava sinagoga, não rezava pela mesma Torá, não jejuava o mesmo festim de ritos, de dogmas, de manias, de proibições ancestrais. Por que os gases vinham perturbá-lo como lei divina, castigo do diabo antes que de Deus? Por que os vapores o perseguiam e ele se sentia na fila para o banho? A imaginação, sim, tinha dentes, abocanhava. Era isso que a mulher dele não compreendia. Só quem vive um pavor igual pode compreender o pavor do outro. Você é capaz de entender o horror, hein, me diga, é capaz de entender o horror?
            Sempre esteve fora das minhas cogitações existenciais o sofrimento dos judeus. A gente tem pena, é solidário, se revolta com os crimes dos nazistas. Mas é algo distante, não faz parte do cotidiano. Curioso como a vida nos coloca frente a realidades que nunca imaginamos presenciar. Jamais imaginei que teria que conviver com alguém que vivera os horrores da guerra, mesmo que essa guerra já tivesse acabado há mais de cinqüenta anos e que ele não tivesse ainda nascido quando ela acabou. Então, é capaz?

domingo, 28 de março de 2021

Imolação. poema RCF




O sol se imola
qual corpo em chamas
para cumprir seu alvoroço de hélio.

Ó tempo incendiário,
sem minudências, sem delicadezas,
os corredores da morte das calçadas,
a discórdia fahrenheit em seus mais altos graus.

 
(do livro Eterno passageiro, 2004)
 
imagem retirada da internet: van gogh


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Um homem é muito pouco 18


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SEGUNDA PARTE
Sempre odiei os dentistas. Tenho horror a tudo que se corta no corpo. Mesmo o ato diminuitório de cortar as unhas. Toda vez que corto as unhas é como se cortasse uma parte de mim. Ninguém gosta de que cortem as partes da gente. Um pedaço de dedo, um pedaço de perna, uma orelha ou coisa que o valha. Sinto o cheiro de minhas unhas cortadas. O dentista arranca os dentes e arrancar os dentes é uma forma de mutilação. O dentista mesmo é mutilado. Usa dentadura. É um velho. Um velho já foi muito mutilado. Talvez viver seja ser mutilado ano a ano. Tenho medo de ser mutilado.

Fui duas ou três vezes nele. Não vou mais. Ele treme. Deu-me injeção. Perdi o queixo. Gosto de perder o queixo. Porque perder o queixo quando não se perde o queixo é uma coisa boa. A anestesia é uma brincadeira dos sentidos. A gente brinca de perder o corpo ou partes do corpo. Perdi o queixo durante duas horas. Depois o queixo voltou. Queria era anestesiar meu corpo todo. E não sentir medo. Se a gente não tem corpo, como alguém pode ofender o corpo da gente? O sujeito vem cortar a vida do corpo da gente e não encontra corpo. Quando ele vai embora, o corpo volta.



(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O viúvo 17


          

            Onde ficam as minhas portas da percepção? Nos olhos? Então se fecho os olhos, fecho as minhas portas da percepção? Não posso perceber as coisas de olhos fechados? E mais ainda: a percepção é visual? Tenho que ver as coisas para entendê-las? Onde está o poder da minha abstração? As coisas não existem como conceito, tenho de tocá-las? E se as portas da minha percepção estiverem no tato? Ou em órgão interno? Não precisarei ver as coisas para tê-las comigo. As coisas existem no mundo. Para obtê-las, para ter a percepção delas, não necessito de um olhar.
Essas considerações vieram a partir da minha leitura de As portas da percepção, de Huxley. Mas não li As portas da percepção há pouco tempo. Li já há alguns anos. E minha parceira perceptiva foi D. Benedita.
E voltaram as questões depois de um demorado desmaio. E uma dolorosa recuperação. Uma lenta, paulatina, arrastada e doída volta à realidade ou volta à percepção das coisas. Minha percepção não está nos olhos, embora Huxley fale de olhar para as coisas com novos olhos. Todos os livros de auto-ajuda falam em olhar as coisas com novos olhos. Parece anúncio de ótica. Ou coisa tibetana. Há algo de tibetano no livro de Huxley. Ele estava entusiasmado com a mescalina. Fizera experiências assistido por médicos, fazia aquelas maluquices como se já não fosse suficiente ter escrito o que tinha escrito. E não era só ele, porque a época pedia aquela nova sensibilidade e o relato com experiências com drogas já vinha desde o século de De Quincey e de Baudelaire e os artistas buscavam inusitadas formas de apreensão da realidade a fim de ficarem geniais e descobrirem zonas nãotocadasdamente.
Há algo de tibetano em D. Benedita. Mas ela desconhece que sua mente virgem, ainda não desbravada, só pode alcançar o conhecimento pleno se ela modificar-se e abrir suas portas da percepção. Onde estariam as portas da percepção de D. Benedita? Nos olhos fracos e míopes? nas pernas finas e bambas, no sexo desusado e desbeiçado pelo tempo?
O inglês relatava suas experiências alucinógenas com mescalina e propunha, entre inúmeras outras formas de experimentar o inusitado, que nos deitássemos no chão da sala. Tentei deitar no chão da sala para ver os móveis de outra perspectiva. Não descobri nada novo, nada me foi revelado, a sala aqui tomava outra figuração, mas não apresentava nenhuma descoberta espantosa.
Os objetos pequenos se escondem debaixo do sofá. Eu podia perder outros objetos pequenos debaixo do sofá: a pequena preguiça, o pequeno tédio, o pequeno orgulho. Não sou bobo de acreditar que Huxley falava de modo literal. Queria apenas que a gente visse o mundo de maneira distinta e não a rotineira e habitual.
Também meus objetos pequenos – oh eu não falava de modo literal. O orgulho mesmo é tão pouco, ínfimo, tamanho de botão que não sei se o perdi ou mesmo nunca o tive.
Tornei a deitar no chão da sala. Ali estava eu, estatelado, braços abertos, uma estrela humana, sem brilho, o teto sobre meu espanto. O espanto é a palavra de que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento. Se algo não passa pelo meu espanto, não me afeta. O pasmo é que faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade.
Em vez de tomar mescalina, eu tomo pasmo.
Havia poeira nos móveis, uma cadeira estava com o pé descascado e por aí vai. Não era isso que Huxley chamava de as portas da percepção.
Eu não ia reclamar com D. Benedita, dizer, olhe, deitei aqui pra ver o mundo de forma diferente e descobri que a senhora varre pelos caminhos, não limpa direito os móveis ou coisa parecida. Era uma mistura muito exótica e incompatível entre Huxley e sua mescalina e D. Benedita e seu pano úmido com lustra-móveis.
Nada de nova sensibilidade. Não houve pasmo, não houve descobrimento. De repente tudo sumiu. Anoiteceu na minha porta. Desmaiei. Quando abri os olhos, apareceu o carão velho e vincado de rugas de D. Benedita.
O que faz D. Benedita nas portas da minha percepção?
(do livro O viúvo. Brasília: LGE, 2005)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Ronaldo Cagiano sobre O Viúvo no Rascunho

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Ronaldo Cagiano
A resistência a uma realidade claustrofóbica e delineada por uma solidão nostálgica constitui o pano de fundo do novo livro de Ronaldo Costa Fernandes, O viúvo, quinto romance desse escritor premiado, autor de poesia, contos e novelas, natural de São Luís (MA) e radicado em Brasília. O personagem central da obra é um professor universitário, sem nome e sem direção, recolhido em sua depressão e preso às suas lembranças desde a morte da mulher, Lídia, consumida por um câncer. No confronto entre o mundo plausível e o imaginário, ele tenta aliviar suas perdas e tristezas, num sucessivo acerto de contas com a vida que, na sua concepção, foi severa demais, privando-o de seu maior patrimônio: o amor.
A tentativa de interdição de sua melancolia esbarra na impossibilidade psicológica de fuga desse universo, porque a memória traz à tona o fantasma de Lídia reproduzido nos mínimos detalhes da casa, nos gestos cotidianos, na inviabilidade da vida lá fora, na presença da empregada que restou como única herança tangível, e com quem tenta um diálogo quase surdo, deprimente, incapaz de levá-lo ao apaziguamento. Em todos os momentos o que se constata é a ressonância de suas neuroses e delírios, que vão compondo um labirinto de angústias e tornando mais agressiva e mórbida a realidade. O desespero em que vive empana sua lucidez e decreta uma dor incurável, impondo um sem-rumo em tudo.
A vida exterior do personagem é a extensão de sua paranóia. Não conseguindo se desvencilhar de seus fantasmas domésticos, a vida prática emperra, não há lugar para novos contatos, seja na universidade ou em qualquer ambiente físico, mesmo quando surge Fernanda, aluna com quem inicia uma relação intelectual, que poderia funcionar como um escape ou sopro de renovação, mas logo faz ressurgir um antigo sentimento de culpa por uma traição à mulher. Isso porque tudo reverbera o inferno da sua casa, dos objetos, cheiros, vozes, etc., como projeção de seu cárcere interior: um homem perdido em seu labirinto existencial, sem um fio de Ariadne que o consiga trazer de volta à lucidez, à poesia, a respirar e reverter os vazios que o circundam.
A narrativa descontínua, que alterna imagens, metáforas e citações, assimilada por uma linguagem intimista, requintada e atraente, acaba por suscitar no leitor tamanho envolvimento, que o torna cúmplice das dores e tormentas do protagonista enclausurado, que não faz outra coisa senão decretar aos poucos seu indesviável destino, o derradeiro declínio pessoal. Ao deslindar seus pensamentos, num ritmo fragmentário, caótico e provocante, a narrativa nos remete aos bons momentos de Édouard Dujardin, em A canção dos loureiros, obra que inaugurou o monólogo interior e o fluxo de consciência, depois adotados por Joyce, em Ulisses.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes, traz no bojo da linguagem o exorcismo dos fantasmas de um espírito conturbado pelas contingências da vida, sem o apelo escatológico das costumeiras tragédias, mas fiel ao crônico sofrimento humano, dentro daquela perspectiva que Marinetti anteviu na escritura dos futuristas, que consiste na "reprodução na obra de arte da simultaneidade dos estados da alma". Como atesta Ligia Cademartori, na apresentação da obra, este livro também homenageia a linguagem, que encontrou na forma o abrigo para a expressão de um desassossego.

Prisioneiro do medo
Há uma similaridade de atmosferas nos romances de Dujardin e Costa Fernandes. Enquanto naquele, o personagem se apresenta nas primeiras linhas, extravasando seu pensamento em meio à desordem de seu ambiente para declarar depois o cortejo à mulher amada ("sob o caos das aparências entre as durações e os lugares, na ilusão das coisas que se engendram e que se concebem, um entre outros, um como outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um mesmo e um a mais, do infinito de possíveis existências, surjo..."), o professor delirante, penumbrista e agônico de O viúvo despeja um fluxo hemorrágico e disparatado de reflexões, a fratura da própria consciência que emana de sua introspecção para denunciar a estupidez da vida negada a partir do desaparecimento da esposa ("O espanto é a palavra que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento... O pasmo é que me faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade..." ou "Eu mesmo me sinto inconstruído"). Sintoma do transbordamento do eu e da instauração do ceticismo como profissão de fé, em contraponto ao protagonista de Dujardin, que simboliza a esperança. Ambos, porém, se utilizaram do discurso confessional para dar fluência ao mesmo caudal de inquietações afetivas.
Com ausência consumada de Lídia, surge o contraponto da empregada Benedita, estabelecendo um elo de ligação com o passado ou um pretexto para perenizar a imagem da finada, e que se interpõe como uma espécie de trampolim para os mergulhos delirantes do professor. Ela consegue esticar a vida desse protagonista que já declarou sua falência espiritual, psicológica e amorosa e não vê mais saídas. Dividindo com ela e o jardineiro um espaço que era da mulher, ambos contribuem para impedir sua libertação daquele espectro quase kafkiano, de autocondenação e mutilações sucessivas. No fundo são anteparos inconscientes, que o impedem de enfrentar a realidade, porque ele prefere retroalimentar suas neuras a enfrentar os seus sonhos, o mundo novo depois de Lídia, pois ainda é prisioneiro do "medo que o maltrata e corrói".
O viúvo é um romance candente, profundamente humano e crítico, uma obra-prima da prosa contemporânea brasileira, verdadeira tessitura que toca em valores tão exíguos na sociedade pós-moderna, utilitarista e suscetível a tantos fetiches, que tem levado o homem a ilhar-se, tanto socialmente quanto de si mesmo. Um livro para ser celebrado, sobretudo quando vivemos uma crise generalizada de valores em nosso país (moral, ética, estética, criativa e social), porque toca em feridas e acende um novo farol sob o terrível pântano em que estamos embebidos e lança um olhar ao mesmo tempo cirúrgico e poético sobre a nossa condição.