sábado, 7 de novembro de 2026

Migrante, poema

 

 


 

Falo saudade

em várias línguas

e com muitos sotaques.

Lavo prato, toco sax

no metrô, sirvo de babá,

dirijo bonde, limpo sapatos,

sou garçom, palhaço

e limpador de vidros,

ando tanto que meus pés

se ausentam de mim.

Sei todas as manhas

do mundo, só não sei

renascer em outra pátria.

 

 

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Lança-perfume, poema

 

 


 

Depois íamos para o campo.

As bicicletas passavam

e deixavam atrás de si

o trilho imaginário

e único dos pneus.

O mundo se resumia

a graxa, câmaras de ar

e catracas.

Queria apenas

recuperar o lança perfume

das flores do campo.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Auto-falante, poema

 


 

Se achar pouco,

darei minha alma

que põe tudo que eu faço

em caixa alta e negrita.

Escuta, amor, a música

da noite: não vem

dos grilos nem dos sapos,

é uma música fluida,

contínua e escura

e toca no pensamento

que é um auto-falante.