segunda-feira, 2 de março de 2026

Oceonário, poema

 


 

 


 

 

 

De que prata

são feitos os peixes?

Eles me olham

no aquário do meu quarto.

Raramente vou à superfície.

Estou acostumado

aos obstáculos que me ponho

para me sentir no meu habitat.

De vez em quando

olho pelo vidro da janela

e o grande oceonário da cidade

entra em bulício.

Há muitas espécies

de gente e outras naturezas:

o abismo dos prédios.

 

Borbulho muitas imaginações

e escrevo no caderno das horas.

Tudo é fluido e submerso.

Não sei se sou

de escama ou de couro,

se marítimo ou fluvial.

Tudo o que tenho é a dúvida

se há mundo além do meu quarto.

Se falam a minha linguagem piscosa,

se emitem algum som

além de gemidos da espécie.

E se lhes falta ar ao ar livre.

Ou melhor, se lhes faltam guelras

ao ar dito livre das cidades.

 

 

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Capítulo 11 de O viúvo

















            Meus olhos agora são de papel. Gosto da ideia de pensar em meus olhos como papel. Passei a vida inteira lendo, não tenho nada contra o cristalino, a retina, veias e músculos se transformarem em papel. Há realidade bastante no barco pregado na parede. É um Portugal de papel. O norte de Portugal transmuda-se nas janelas absurdas de Magritte. Fixo meus olhos ali. Meus olhos não navegam, mas enchem-se de maresia. Meu alheamento também tem cheiro – de mim.

            Ali está o porto, precário, diminuto, de pedra, antigo. É um pequeno píer de uma vila. Lá no fundo estão os casarios gregos da vila portuguesa. Não há gente. O barco mesmo posa sua fisionomia de madeira para a foto.

            O casario é branco e sobe encostas. Cada casa é um degrau branco. E as janelinhas, mais parecem escotilhas em terra seca, nos miram abertas ao sol quente e atlântico. Há uma secura ancestral na foto, embora em primeiro plano esteja o mar. Há também enorme doçura, uma doçura tão compacta e palatável que a sinto nos lábios, na língua mesma seca. E não o salgado da água que vejo. Só a maresia cheira; o casario adoça minha boca aberta.

           A mesa é meu cais. Em volta dela, discutem. Por que discutem um processo se pescadores cuidam de separar os peixes, abrir-lhes o bucho, destripá-los, escamá-los? onde o processo cabe neste mundo de guelras, barbatanas e água salgada? O processo não é náutico, mas é salgado. Nele cabem as escamas, nele estão as escamas que devem ser separadas do corpo do bicho de papel. Como o barco da foto, que parece balançar ao sabor das minúsculas ondulações da água, oscilo sob uma onda sonora.

            A foto está um pouco amarelada. Eu mesmo também perco a cor. Queria um espelho. Meu rosto decomposto e azul como o rosto do meu pai. Logo, contudo uma paz vilareja volta a me invadir. Receio que a paz, como a luz fugitiva, também escape de mim. Não terei mãos, nada que possa conter, segurar, prender, colocar em caixa, a paz que se escama.

            Uma inexistente onda, saída da foto, me balança. Agora não tenho dúvida: estou no porto de pedra e não em volta da mesa. Chego a sentir enjoo, a sensação ondulatória, o piso mole das águas ou o piso desequilibrado das embarcações.

            Aquele Portugal de papel me saca da mesa de modo arrebatador. O único elemento agora da foto de casarios brancos e do cais antigo sou eu. O que se fixa na minha mente não é a foto, mas a reunião que passa a ser apenas uma fotografia. Estão todos imobilizados. O barulho que ouço não são as vozes deles. É o barulho do mar. O rumor grande e atlântico do mar aberto.

(disponível também em e-book)

O viúvo, Brasília, Lge, 2004.






sábado, 21 de fevereiro de 2026

As mãos e as linhas tortas, poema

 



 




 

Minhas mãos

são mais secas

que um deserto de carcaças.

Com elas,

afago a estreiteza

do silêncio.

Meus dedos

não cabem na luva

um número menor

da frieza das negativas.

 

O dedo acusa

a vida que desabitei.

De minhas mãos

desabam cascatas de vazio

onde me banho de impurezas.

 

As palmas querem

segurar o vazio

que não é a glória

mas a tentativa

de agarrar o futuro.

 

O futuro gosta

da prestidigitação

e não passa de um charlatão

que logo, no presente,

se percebe o logro da mágica.

 

Meus dedos,

pinças de carne,

catam os milhos

dos comprimidos.

E a pílula da felicidade

 – que é cor-de-rosa –

acolchoa as paredes do real.

 

Minha impressão

é que cada palavra

é uma digital

que deixo no poema

que minha mão me escreve

por linhas tortas.

 

Às vezes perco a mão

para contar nos dedos

os desvios do caminho

do poema que se recusa a ser escrito.

 

Por outro lado,

sei que cozinho de mão cheia

as horas espalmadas

em que encontro

o pasmo do instante.

A unha da razão

e a carne do desejo

fazem parte do mesmo

dedo acusador do destino.