sexta-feira, 12 de junho de 2026

O viúvo, 4º capítulo

           


         Caminho na multidão. Mas, falando sozinho assim, passo a ser um sujeito esquisito, do qual as pessoas se afastam, não pelo medo físico de serem agredidas, mas porque os esquisitos podem dizer obscenidades, despropósitos, inconveniências ou a verdade, o que vem tudo a dar no mesmo. Se as pessoas são como eu, elas terão sua pequena dose de loucura escondida, fechada, como se leva dinheiro avulso e não se quer perder e então aperta o velcro ou fecha com zíper o bolso do calção. A pequena loucura, mesmo que seja pequena, não se expõe socialmente, vive aprisionada, principalmente em forma de desejo ou pensamento proibido que surge repentino sem que se puxe por ele. Um desejo molesta a gente, chega em hora imprópria. Pode nos surpreender numa fila de banco ou dos Correios, numa loja de perfume, numa praça de alimentação ou ao ser apresentado à filha de um amigo, o desejo, ora o desejo.
            Não quero também ser descarnado, que me retirem tudo o que tenho de libido e passe a ser um sujeito anódino, máquina que anda por aí, alguém a quem cortaram os colhões.
            Entro numa farmácia, mostro a lista de remédio.
– De que o senhor está rindo?
– De nada.
– Então por que me olha assim?
– Assim como, senhor?
Há outro rapaz atrás do balcão. Ao me ver alterado – por que estou alterado? – ele vem e se coloca fora do balcão. Entendo a atitude dele. Atrás do balcão, caso eu tenha alguma reação violenta, terá entre nós o próprio balcão que dificulta ataque, mas também atrapalha a defesa. De repente percebo que toda a farmácia está com a atenção em mim. É mais um louco, devem pensar. Manias. Mas o homem gordo, rosto redondo, que me olha sério e irônico – é certo que me olha irônico – não deveria rir de minha cara, da minha receita, do meu modo de vestir, o que está olhando? Não posso me engalfinhar com o rapaz que se aproxima como quem vai expulsar um mendigo da farmácia. Insensatez. Recuo.
– Onde está minha receita?
– Ele foi buscar o remédio.
– Não quero mais o remédio.
– Ó Jorge, o cliente não quer mais o remédio – grita o gordo para dentro da farmácia.
            Não sou mais um homem jovem. Se me atraco com o rapaz, por certo ele me trucida, quebra meus ossos. Além do mais, os empregados todos da farmácia se colocam de prontidão. Percebo que sou uma ameaça. Eu, quem diria, a ameaça. Não gosto de me sentir uma ameaça. Se alguém ameaço esse alguém sou eu mesmo. Aqui está, senhor, a sua receita. Coloco a receita no bolso. Me dirijo para o shopping do outro lado da rua. Percorro as vitrines. Nada me interessa. As luzes dos jogos eletrônicos me atraem. Outra vez me pego pensando nas máquinas. São todos jovens os que estão ali.
Duas moças despertam em mim o que pensava adormecido. Não gosto de misturar outra vez máquina com desejo.
São todos fascinados pela tecnologia. A tecnologia não passa de meio mecânico de existência, por que as pessoas se fascinam tanto com a tecnologia? A máquina me leva a ser máquina, estende meu nariz, alonga meus braços, binocula meus olhos, coloca meu ouvido do outro lado do mundo, meu ser – meu ser físico – é um gigante de dimensões inimagináveis, loucura de um cérebro que não ousa pensar-se tão grande. Por trás dela está apenas o vácuo, logo o brinquedo da tecnologia é o desvio de mente enferma que se deixa dominar. Eu não quero que máquina nenhuma venha a me dizer como se comportar ou existir. O sujeito que acredita usar a máquina está enganado porque ela traz em si a contradição de sua existência. Miséria. Enquanto penso que uso a máquina, ela me transforma nela mesma e nessa metamorfose quem perde a humanidade sou eu, porque a máquina não perde sua essência de máquina, sua maquinidade.
– Quanto custa?
            – O quê, meu senhor?
– Quanto custa jogar naquela máquina?
– É uma máquina nova.
– Desculpe, perguntei quanto custa, não se a máquina é nova.
Ele me vendeu uma ficha. Coloquei-a na máquina. O bicho disparou. Perdi todos os jogos. Aborreci-me. Fui tomado por um ódio visceral, eu que costumo ser pacífico. Chutei a máquina. Puxei os fios. O segurança se aproximou.
– Emergência, setor 3 – disse no rádio. E repetiu: Emergência, setor 3.
E, virando para mim:
– O senhor pode me acompanhar?
– Já estou indo embora.
– O senhor danificou a máquina, meu senhor.
– Que máquina?
Não sei que aparência tinha. Que aparência eu tinha, diga, que aparência? Dois homens fortes, vestidos de roupa preta, me levaram para uma sala.
– O coroa é maluco – disse um deles.
– Com maluco a gente tem uma maquininha que os malucos gostam de brincar.
E tirou da gaveta a porra de uma máquina de dar choque.
– Tudo quanto é louco gosta de choque.
– O senhor gosta de estragar máquina, né? Esta aqui estraga maluco.
E me deu choques que me fizeram rolar pelo chão de dor. Desgraça. Depois a sala ficou vazia. Me recuperei. Mas já não era o mesmo. Andava entorpecido, a vista turva, o coração disparado. Andei ainda pelo shopping como autômato, mais tarde peguei um táxi.
Não sou mais eu, sou vários e não sou ninguém, um ninguém cibernético, um ninguém eletrônico e entediado. Tenho também várias cabeças, a que pensa que pensa, a que mandam pensar o que a máquina pensa, o que pensa os outros, o que pensa o que pensa, o que pensa que pensa independente do que pensam as pessoas que pensam pelos que não pensam.
Nenhuma máquina poderá viver por mim. Nenhuma, veja, nenhuma. Só me fascina o velho e destoante: o corpo. O corpo humano, mesmo aquele plastificado e vítreo, que já me horrorizava no colégio: um homem com as vísceras à vista: o corpo de plástico transparente onde se viam lá dentro o fígado azul, o pâncreas verde, o intestino marrom, o coração cor de rubi, as veias azuladas e os músculos beges.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O guerrilheiro George Orwell

 


 


 

                                                                                                                                                                                                                                Ronaldo Costa Fernandes

 

 

 

Olho em volta da Praça Catalunya, onde em 1937, no prédio da companhia Telefónica, entrincheiravam-se e trocavam tiros com a polícia stalinista local os trotskistas e anarquistas. Excetuando-se alguns prédios novos como o Corte Inglês, a praça é a mesma. É difícil acreditar que, em plena guerra civil, os de esquerda não lutavam em Barcelona contra os franquistas, mas entre si. Havia um homem, por volta de seus trinta e poucos anos, que não havia muitos dias estivera na frente de batalha, em Huesca, entrincheirado numa vala, em meio ao frio de princípio de ano, sujo, faminto, com armas velhas, uma granada na cintura que podia explodir a qualquer momento mesmo sem ser acionada. Seu nome era Eric Blair. Ou melhor, George Orwell.

Os stalinistas perseguiam seus inimigos políticos – era a guerra dentro da guerra. Ao final de sua temporada em Barcelona, Eric Blair procurava fugir das mãos dos comunistas pró-moscou que haviam prendido vários de seus companheiros de aventura guerrilheira. Por fim, o casal Blair consegue atravessar a fronteira de trem até o sul da França. Só em Perpignan se sentirá livre, pois ainda Banyuls até o garçom era um refugiado franquista.

Mesmo nos anos 70, Orwell ainda era visto com desconfiança na militância comunista dos jovens que lutavam contra o agonizante regime franquista. Viam-no como um sonhador, bem-intencionado, romântico e que não havia entendido as correlações de força e muito menos o espírito espanhol. Por outro lado, Orwell também rechaçava aqui e ali o comportamento dos milicianos de esquerda, mesmo aqueles pelos quais lutava, os trotskistas do POUM. A visão do britânico era a percepção convencional dos anglo-saxões a respeito dos povos de origem latina: preguiçosos, dispersos, indisciplinados. Mesmo habitando o coração da luta antifranquista, a percepção de George era a mesma de um cidadão do império britânico, sentado em sua sala de estar, tomando placidamente sua chávena de chá.

Editores espanhóis tentaram em vão publicar a tradução de Homenagem à Catalunha. Somente em 1970 chegou a versão espanhola, subtraída de importantes adjetivos e alguns parágrafos. A censura de Franco deve ter entendido que a crítica de Orwell ao caos ideológico e a briga intestina da esquerda poderia superar as duras linhas contra o franquismo associado obviamente ao fascismo. O texto é um dos documentos mais lidos e comentados da Guerra Civil (1936-1939). Apenas em 2003, a versão completa da obra será editada. O historiador Pierre Vilar sugere que Orwell, de uma ou outra forma, contribuiu para a História da Catalunha. A vendagem do livro na Inglaterra foi um fiasco: os 1 500 exemplares da primeira edição ainda não se haviam esgotado quando da morte do autor.

A importância deste livro (obviamente, o relato da experiência existencial de Orwell vem em primeiro lugar) na bibliografia do autor é a demonstração de sua persona política que vai influenciar sua obra posterior. Não deve haver dúvida de que o britânico já estava maduro quanto a sua visão de mundo. A experiência de guerra na Catalunha só veio ratificar sua posição diante do mundo conturbado em que viveu: as idiossincrasias e conflitos do comunismo internacional. O que escreverá depois da sua militância na Espanha se mostrará vivamente nas parábolas 1984 e A fazenda dos animais. Seria talvez despiciendo perguntar como Orwell escreveria os dois romances se não tivesse experimentado o abalo emocional e intelectual depois da sua aventura na Guerra Civil. Muito particularmente, creio que Orwell não teria sido tão cáustico e ferino se não tivesse lutado como miliciano (termo que mudou de sentido no Brasil) nas montanhas de Huesca e depois respirado o clima de completa insanidade política na Barcelona de 1937.

É preciso avisar aos reacionários e vociferantes fascistas de hoje, que desavisadamente leem 1984 ou A fazenda dos bichos como libelo contra o comunismo, que o inglês Eric Blair nunca abandonou os ideais socialistas. Aldous Huxley foi professor de francês, aos 23 anos, na escola em que o magrelo Eric Blair estudava: a elitizada Eton College. Só se encontraram nos corredores. Anos mais tarde, trocaram cartas. Huxley defendia sua visão de uma sociedade ditatorial anestesiada pelo prazer (Admirável mundo novo) mais eficaz que a bota no pescoço de Orwell. Um era homem de laboratório, outro de guerra. Cada um escreve o que vive. Um tiro de um franco-atirador dado na trincheira fascista o atingiu no pescoço, o que o fez dar baixar e, depois, abandonar a luta antifranquista. O tiro que poderia ter sido fatal não apenas o retirou da frente de batalha, mas também lhe trouxe vários problemas de saúde e enterrou de vez os sonhos de ganhar a vida como locutor de rádio. Isolado na remota ilha escocesa de Jura, onde até hoje, para alcançá-la, deve-se enveredar por um caminho de dez quilômetros de difícil acesso, gravemente doente de tuberculose, Orwell escreveu durante dois anos 1984, o romance que o consagraria. Homenagem à Catalunha merece ser lido como o livro que ajudou a criar no escritor britânico as parábolas do terror autocrático e servir como um grito de liberdade. 

 

 




domingo, 7 de junho de 2026

Oratório

 


 

 


 

 

 

Que pensará Deus de mim?

Deus tem Suas angústias.

E, em muitas noites,

a insônia O atormenta,

embora não saiba onde Ele passa as noites.

A cama de Deus deve ser macia como um sonho.

Os homens são seus pesadelos,

com seus pés minúsculos

e suas ambições de um metro.

Deus há de me sonhar

numa residência do pensamento.

Espero que quando Deus acordar

eu não desapareça

do pensamento de Deus.