quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O quarto tempo, poema

 




 

Vivo em um quarto tempo,

carregado de esperança

que, concedo,

é uma mania de futuro;

retalhos sucessivos

de cenas que me arremessam

à parede móvel dos anos

e à matéria corrupta

que é um torniquete

para as delícias

do mundo, meu amor.

 

 

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O cheiro, poema

 





Teu cheiro é vegetal,

está nas pétalas dos

meus dedos

que te tocaram.

Te abres e te proteges

como uma tocadora

de violoncelo.

O perigo do gás letal

que tudo inflama.

Como se faz para

esquecer o mapa

do teu corpo nas letras

miúdas do teu cheiro?

 

 


reescrito de O cheiro, in Estrangeiro, (1997)

 


sábado, 8 de agosto de 2026

Aluguel do poema

 





O que em mim mora

e que me deixa imóvel

é este poema que se inquilina

e, de favor, ameaça, mas não sai.

É dos meus nervos locatário.

Tal poema me habita,

quando penso que o crio

sou por ele criado,

quando penso que dele sou dono

por ele sou escravizado.