(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)
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Muitos
veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional
própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se
quiserem, de uma só persona. A
loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida
prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em
realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza
filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição,
preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro
para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.
A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do
mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei,
a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles
dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar
ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães.
[...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia
de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi
talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do
caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz
salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é
menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]
Esse personagem romanesco, contudo,
não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o
transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios
de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização.
Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a
oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão
fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do
personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma
constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique
e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.
É interessante observar que o
romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade
x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo
e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção
interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a
realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do
intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é
pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem,
ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais
daí para a frente na prosa de ficção.
Antissocial e irresponsável, classifica
Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não
social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não
representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua
loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de
um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.
O livro teve grande recepção e fora
traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para
o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas
espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia
incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em
países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e
muitos só o foram abolir tardiamente.
Nabokov escreve que, ao tempo de
Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.
É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria
era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também
se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo
isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se
resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e
em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]
Mas se pensamos nos
livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos
que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia
desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade
é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois
não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]
Não há, contudo, como fugir dessa
observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura
genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados
arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan.
Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me
oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas
mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a
uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo,
melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida
para servir às ciências do homem.
[1]
Introdução, de 1881, à versão
inglesa de Dom Quixote traduzida por
Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.
[2]
Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.