sexta-feira, 19 de junho de 2026

Um homem é muito pouco 13



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            Não era bem o que Yolanda queria para sua vida. Agora que passaram as grandes dores como a perda do pai, a perda do marido e a perda da filha com Clemente, ela olhava para o companheiro e via nele traços que antes não vira. Na casa de Juliana, ela conheceu Toninho Marcos, que era pintor e amigo de Horário. Os irmãos todos de Toninho eram metidos com negócios, ações da Bolsa, construção imobiliária e fábrica de materiais de limpeza. Dr. Macedo e o pai de Toninho Marcos tinham sido amigos e parceiros em várias associações de classe. Yolanda já conhecera Toninho Marcos numa visita que fizera à casa da família dele lá pelos fins dos anos 50, salvo engano, e Toninho Marcos era um menino que falava inglês, tinha projetor de filmes e máquina de filmar – ele mostrara a ela, tantos anos depois, fita com os dois correndo no jardim, mergulhando na piscina, subindo em árvore. Toninho Marcos também morou pelo mundo, mas ao contrário de Clemente não conhecia apenas os portos.

             Também andou em hospital psiquiátrico, foi internado e tratado pela dra. Nise da Silveira. Contudo, nunca esteve em sanatório de Bremen, largado lá como carga irregular que o navio não podia carregar e só voltaria ao navio da Mercante quando pusesse o raciocínio no lugar e pudesse ser considerado carga com a documentação em dia. Toninho Marcos pintava como Roy Liechtenstein que conheceu nos EUA e vivia como os beatniks, a quem assistira a leitura de poemas numa universidade do Novo México.

            Mas ninguém levava a sério a pintura de Toninho Marcos. A família pensava que ele era degenerado, consumidor de ácido e cogumelo, amante de blues, enquanto os outros artistas não davam crédito a ele justamente porque Toninho Marcos era filho de filho da puta como era o pai dele que financiava a repressão como o pai de Yolanda e achavam que filho de socialite e empresário filho da puta não podia ser artista aqui nem nos EUA, conhecendo ou não conhecendo Roy Liechtenstein, ouvindo ou não ouvindo poesia beatnik na universidade do Novo México.

                O que levou Toninho Marcos a ser tratado por dra. Nise é que, ao contrário do que todos pensavam que para ser drogado deveria o sujeito ter crise familiar, Toninho Marcos gostava do pai, admirava o pai, embora sabendo que o pai tinha sua face negra e ele não podia admitir que o pai tivesse face negra porque ele, Toninho Marcos, admirava o pai e o pai era carinhoso com ele e ele sabia que o pai pagava para que um monte de sujeitos violentos e reacionários não fossem carinhosos com os estudantes, os comunistas e outros rebeldes que caíam nas mãos dos homens poucos carinhosos da repressão. Toninho Marcos não gostava é da mãe.

                Ele mamava em Helena Maria Isabel Teresa de Andrada Bonifácio Souza Campos, que era o nome de solteira da mãe dele, porque socialite tem que ter o nome longo como os príncipes que tinham nome longo e Helena Souza Campos eram apenas os nomes que ela escolhera entre os vários nomes dela para se apresentar em sociedade e quando Toninho Marcos olhava não era a mãe que o amamentava mas o pai que ganhara seios e o amamentava. O pai não tinha formas femininas, nem cabelo grande, era o mesmo pai, o peito cabeludo e a voz grave e serena, mas tinha seios e o alimentava. O pai era homem culto e conversava sobre arte com Toninho.

             Várias vezes falaram de política e o pai discordava do filho, mas não se explicava e evitava o assunto e quando Toninho via estavam falando de arte abstrata, de cubismo e dos quadros que o pai queria comprar, dos leilões que frequentava e coisas desse tipo. Toninho Marques tinha então dois pais, Dr. Jekyll e Mr. Hide, o que o alimentava de leite materno e falava de artes e o outro que também fora visitado pelo intermediário do grupo Ultragás para contribuir com o delegado Fleury.

                    Toninho desenhava homens femininos com aparelhos de tortura na mão e dra. Nise queria apresentar as pinturas de Toninho como surrealistas, mas Toninho não queria aparecer nas exposições dos quadros dos loucos da dra. Nise da Silveira, porque sabia que em vez de surrealismo ele estava fazendo era realismo socialista e ele não considerava os quadros coisa que prestasse, mas acerto de contas entre emoção e razão. Toninho Marcos se chamava Pedro Augusto. Era nome de imperador da casa dos Bragança e augusto é coisa real. O nome mesmo, de artista, que ele queria era outro, mas no grupo de dra. Nise, uns o chamavam de Toninho, sabe-se lá por que cargas d’água, e outros malucos o chamavam de Marcos. Dra. Nise é quem o batizou de Toninho Marcos para acabar com aquela esquizofrenia de um ser dois. Dra. Nise da Silveira tinha a casa cheia de gatos e um bando de nomes que ela distribuía como quem distribui doce às crianças e pílulas aos loucos.





(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, dez. 2010)

terça-feira, 16 de junho de 2026

Antropofagia, poema

 


 

 


 

 

 

Antropofagia

é a vida mesmo

que vai nos comendo

o corpo até que nada sobre dele.

Antropofagia

é a morte

que lança na terra

o sal que a seca

e nada nela medra.

Aproveito do corpo da vida

a vida morta do passado

que – cadáver – sempre

alimenta o presente

– deliquescente –

e o futuro –

antropófago por natureza

na linguagem dos tempos.

 

 

 

domingo, 14 de junho de 2026

As travesseiras, poema

 


Georg Grosz













As travesseiras alvoraçam 

mãos de pluma 

ou cabelo de penas: 

não costumo adormecer 

se minha cabeça 

está pousada na pena.

Nada dói mais que o dó próprio. 

Um dó em stacatto.

Meus cabelos 

dormem em pé como cavalos.


No sono, as cabeças 

são mais leves que o ar.

Por isso, levitam e baloneiam. 


As travesseiras os penteiam 

com seu algodão que curam feridas.

Transformam 

os cabelos em águas-vivas 

e os levam à correnteza das medusas.


As travesseiras 

são mulheres rendeiras 

que fiam o sono bordado 

das silhuetas e caligrafias.

Adormecem 

as iluminações sombrias, 

embora haja muito sol 

nas travesseiras 

que bordam a aurora dos tristes. 

A anatomia das travesseiras 

só comporta cabeças.


Ó incêndio marítimo 

feito de algodão 

das núpcias 

entre o céu e o inferno.


Elas não contam carneirinhos 

e tudo o que tosquiam

são os cabelos da noite, 

os labirintos das medinas do sonho.

São mulheres 

que fazem rendas dos pesadelos, 

ovelhas no cio da imaginação, 

bordando histórias, 

costurando os corpos.


As travesseiras 

são ouvidos de pano 

que ouvem minhas confissões masculinas.

As travesseiras não nos atravessam 

de uma margem à outra

– da razão ao sono. 

Não, não nos ouvem 

nas águas passageiras da vigília.


Tenho de tampar os ouvidos 

com cera para não ouvir 

o canto das travesseiras

que estão nuas em uma nave

– uma naufragata –

que a qualquer momento

me prende ao mastro da realidade.