quarta-feira, 1 de julho de 2026

Fábio Lucas sobre Um homem é muito pouco













































"O leitor de Um homem é muito pouco (São Paulo, Ed. Nankin)já sabe que o escritor é competente e se prepara para a trama que se complica logo a seguir. Eis o ficcionista imaginoso, que não abandona o espaço empírico, o chão concreto no qual a imaginação criadora campeia. A ação dramática se emoldura sem descuidar da autenticidade diegética."
Fábio Lucas












terça-feira, 30 de junho de 2026

A peste em Vieira no Maranhão, RCF










         O governador aceitou a realidade. Pediu que Vieira comandasse um grupo de sábios para estudar como atacar a peste. No Colégio dos Jesuítas, sentaram-se em volta da mesa o padre Ambrósio, o físico Rui, o mouro Omar Zahen, o inaciano Pierre Millet, ou Pedro Milé, o sargento-mor António dos Prazeres e Gualberto Espanhol, agora chamado de Gualberto o Enforcado. Este último era entendido em astros celestes e nas ciências de Klépero. Não tinha conhecimento das ciências do corpo humano. Vieira tinha-o como sábio. E era o que bastava. Um homem inteligente como ele poderia a qualquer momento, diante de uma polêmica, apontar um caminho ou colocar-se a favor da razão e da lógica.

            Rui apresentou o problema. Mostrou um mapa improvisado. Ali estavam as ocorrências maiores da doença. O relato de que a peste invadira os sertões e dizimava os gentios não intrigou os participantes da assembleia.

O médico também mostrou livros, entre eles, o do médico Morão, de Galelo e de Hipócrates. Classificou em duas espécies a enfermidade devastadora e má: a peste negra, fatal e ruim; alastrim, bexiga branca, indolente e fraca. Era a primeira que descera suas asas sarcófagas sobre a ilha.  Carcavaz ponderou que a peste significava o desdouro do povo. Os colonos estavam sendo punidos por sua arrogância, vícios graves e profanos, culpas horrendas e atos de desonra e heresia. Vieira passou a mão na testa, arfou como se estivesse enfarado. A peroração religiosa de Carcavaz cabia nos sermões, mas não resolvia o problema de saúde pública.

            O mouro foi chamado para opinar. Al Campelo lembrou que Al-Razi, o médico muçulmano, utilizava cânfora nas epidemias. Além disso, empregava tintura de mirra, o óxido de mercúrio e a água de alcatrão.

            – Al-Razi recomendava a utilização de benzoares.

            – E vós podeis explicar, mestre Omar, o que vêm a ser os benzoares?

            –São pedrinhas encontradas nos intestinos de todo e qualquer animal que rumine.

            Na Europa, disse padre Millet, há quem acredite que a bexiga provenha do calor excessivo do corpo e que, portanto, há que esfriá-lo, colocando o enfermo à exposição de correntes de ar, tisanas frias, eméticos e sangrias. Outros creem que o doente tem de enfrentar o calor para expulsar a doença. Então se usam bebidas sudoríferas, vinho quentíssimo, cidra com pau de sassafrás e pimenta ardente, licores exsudantes.

            Rui permanecia calado. Vieira desgostava daquele grêmio que ele mesmo escolhera. Virou-se para o padre Ambrósio. Com aceno de cabeça, solicitou a opinião do jesuíta. Ambrósio servira no Bispado do Japão. Lá, cuidavam os empesteados com o tratamento rubro.

            – Cobriam os quartos do doente com sedas vermelhas, o chão com tapetes de um vinho tinto tão forte que escurecia o ambiente. Balões vermelhos, colchas vermelhas, louças vermelhas, lanternas vermelhas, velas vermelhas.

            – É isto que vós sugeris para o tratamento dos enfermos?

            – Padre Vieira, sou apenas um servo de Deus, e se a medicina pratico é por lume e direção da mão do Senhor. Se vós todos acreditais na utilização do método asiático para as mazelas da bexiga, como tratamento coadjuvante, então é porque se fará o desígnio divino.

            – Um tratamento caro – opinou Rui. – Não temos seda, balões, velas, lanternas, colchas e alfaias vermelhos.

            Carcavaz voltou à carga:

            – Aqui em nossa biblioteca encontrei um livro de ensino da medicina de nossa congregação. Os antigos jesuítas utilizavam fezes de cavalo, não secas, mas recentes, composto de papoulas vermelhas, bagas de sabugo e beoártico do Curvo.

            – E vós podeis explicar ao grupo, padre Carcavaz, o que vem a ser o tal do beoártico do Curvo?

            – Chifre de unicórnio, olhos de caranguejo, raízes e folhas de ouro fino.

            – Muito bem – interrompeu Rui. – Vós sabeis onde poderemos encontrar no Maranhão chifres de unicórnio?

            Calado até aquele momento, Gualberto, outrora de apelido Espanhol, levantou-se. Todos viraram o rosto em sua direção. Tinha a trunfa alourada, crespa e metade comida pelos cabelos brancos, as roupas rotas e turvas, as sandálias emporcalhadas de lama, as unhas negras dos pés e mãos engrandecidas e tortas, a barba de anacoreta dava-lhe por fim o aspecto de um insano. Não se dirigia à mesa daquele pequeno parlamento. Olhava difuso e ausente para um horizonte que ia além da parede.

            – Tenho estudado a influência da lua sobre os homens. A peste que nos assola tem a ver com os líquidos do corpo. A lua chupa as marés para o alto. Meus estudos me levam a acreditar que os homens ficam mais leves durante as luas cheias.

            Sentou-se e nada mais falou. 



(do romance Vieira na ilha do Maranhão. Rio: 7Letras, 2019)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Capítulo 11 de O viúvo

















            Meus olhos agora são de papel. Gosto da ideia de pensar em meus olhos como papel. Passei a vida inteira lendo, não tenho nada contra o cristalino, a retina, veias e músculos se transformarem em papel. Há realidade bastante no barco pregado na parede. É um Portugal de papel. O norte de Portugal transmuda-se nas janelas absurdas de Magritte. Fixo meus olhos ali. Meus olhos não navegam, mas enchem-se de maresia. Meu alheamento também tem cheiro – de mim.

            Ali está o porto, precário, diminuto, de pedra, antigo. É um pequeno píer de uma vila. Lá no fundo estão os casarios gregos da vila portuguesa. Não há gente. O barco mesmo posa sua fisionomia de madeira para a foto.

            O casario é branco e sobe encostas. Cada casa é um degrau branco. E as janelinhas, mais parecem escotilhas em terra seca, nos miram abertas ao sol quente e atlântico. Há uma secura ancestral na foto, embora em primeiro plano esteja o mar. Há também enorme doçura, uma doçura tão compacta e palatável que a sinto nos lábios, na língua mesma seca. E não o salgado da água que vejo. Só a maresia cheira; o casario adoça minha boca aberta.

           A mesa é meu cais. Em volta dela, discutem. Por que discutem um processo se pescadores cuidam de separar os peixes, abrir-lhes o bucho, destripá-los, escamá-los? onde o processo cabe neste mundo de guelras, barbatanas e água salgada? O processo não é náutico, mas é salgado. Nele cabem as escamas, nele estão as escamas que devem ser separadas do corpo do bicho de papel. Como o barco da foto, que parece balançar ao sabor das minúsculas ondulações da água, oscilo sob uma onda sonora.

            A foto está um pouco amarelada. Eu mesmo também perco a cor. Queria um espelho. Meu rosto decomposto e azul como o rosto do meu pai. Logo, contudo uma paz vilareja volta a me invadir. Receio que a paz, como a luz fugitiva, também escape de mim. Não terei mãos, nada que possa conter, segurar, prender, colocar em caixa, a paz que se escama.

            Uma inexistente onda, saída da foto, me balança. Agora não tenho dúvida: estou no porto de pedra e não em volta da mesa. Chego a sentir enjoo, a sensação ondulatória, o piso mole das águas ou o piso desequilibrado das embarcações.

            Aquele Portugal de papel me saca da mesa de modo arrebatador. O único elemento agora da foto de casarios brancos e do cais antigo sou eu. O que se fixa na minha mente não é a foto, mas a reunião que passa a ser apenas uma fotografia. Estão todos imobilizados. O barulho que ouço não são as vozes deles. É o barulho do mar. O rumor grande e atlântico do mar aberto.




(disponível também em e-book)

O viúvo, Brasília, Lge, 2004.