sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O amor perfeito, poema

 







A que ramo pertence

o amor perfeito?

Às obsessões

que são tubérculos?

À submissão

que são plantas aéreas?

Ao ramo dos exuberantes

como os girassóis?

O amor perfeito

viceja apenas

nas delicadezas da alma,

na suprema aspiração

onde brota a flor

mais díspar, metafísica,

desarmoniosa e triste.

Uma abstração

no jardim secreto

dos homens crédulos

na serenidade

e no círculo da vida.

 

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A palafita, poema

 




No campo amazônico,

as casas de varandas

arregaçadas

molham as canelas na água.

O bicho de pernas finas,

torna-se hospedeiro

do micróbio homem

que ali secreta seus humores

e a palafita, bicho anfíbio,

passa a ser transmissor

das pequenas misérias humanas.

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Festa do interior, poema

 





Dentes sujos da sanfona,

alto-falante fanho,

rabeca de pouca corda,

como boca de um só dente.

Abc do cantor analfabeto,

visão do cego.

Onde termina

o couro da alpargata,

onde começa o couro do pé?

Curto-circuito dos busca-pés,

camponês chinês:

relógio de pilha

no braço sem pulso.