
Ronaldo Costa Fernandes
domingo, 5 de abril de 2026
Um homem é muito pouco, trecho 2

ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
quarta-feira, 1 de abril de 2026
A personagem do romance, ensaio 2
(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)
(....)
Muitos
veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional
própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se
quiserem, de uma só persona. A
loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida
prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em
realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza
filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição,
preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro
para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.
A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do
mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei,
a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles
dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar
ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães.
[...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia
de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi
talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do
caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz
salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é
menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]
Esse personagem romanesco, contudo,
não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o
transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios
de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização.
Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a
oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão
fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do
personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma
constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique
e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.
É interessante observar que o
romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade
x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo
e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção
interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a
realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do
intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é
pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem,
ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais
daí para a frente na prosa de ficção.
Antissocial e irresponsável, classifica
Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não
social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não
representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua
loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de
um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.
O livro teve grande recepção e fora
traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para
o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas
espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia
incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em
países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e
muitos só o foram abolir tardiamente.
Nabokov escreve que, ao tempo de
Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.
É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria
era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também
se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo
isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se
resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e
em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]
Mas se pensamos nos
livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos
que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia
desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade
é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois
não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]
Não há, contudo, como fugir dessa
observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura
genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados
arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan.
Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me
oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas
mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a
uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo,
melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida
para servir às ciências do homem.
[1]
Introdução, de 1881, à versão
inglesa de Dom Quixote traduzida por
Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.
[2]
Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
segunda-feira, 30 de março de 2026
Plástica, poema RCF
Quero um rosto sem lágrimas, doutor.
Retirar a glândula que produz
a lágrima dos mortos.
Meus mortos surgem no trânsito,
no banho, no banco, no trabalho.
Os mortos não deviam vir ao trabalho.
Choraria em seco.
Um rosto seco, um rosto plástico,
um rosto cirúrgico.
E sem saber por que não podem
sair do cárcere seco em que os pus,
renasceriam na caixa imaginária,
que é a memória,
em outra forma que não fosse líquida.
(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)