quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Um homem é muito pouco 12


 Resultado de imagem para um homem é muito pouco
        



        Dias depois, Mateus se arrependeu de não ter ido ao enterro judeu de Menuhim no Caju, mas não conseguia se levantar da cama. Clemente não foi visitar o amigo, não desejava se encontrar com o passado. A gente tem que viver pelos cantos e andar se esgueirando pelas ruas porque é muito difícil você viver sem encontrar o passado. O passado está em todo canto e a toda hora lembra você que sim ele é passado e que você tem que conviver com ele. Ou então o passado prega peça e quando você vê está diante do passado, você, que tanto evitou o passado. Mas quando se pode prever que a gente vai encontrar o passado, como é o caso, por exemplo, de Clemente que, caso vá visitar o amigo Mateus, vai dar de cara com o passado que é a irmã dele Matilde, então o melhor é evitar encontrar o passado.
        Quem foi ao enterro judeu de Menuhim ficou espantado com a mistura de gente que foi velar o homem. Estavam presentes gente da comunidade israelita, gente da bandidagem que também tem seu afeto e sua maneira de demonstrar pêsames, gente simples que não se sabia seu Menuhim, armênio e joalheiro, ajudava e a parentada toda que havia crescido desordenada e múltipla em vários estados do Brasil.
        A loja do seu Menuhim poderia ter sido investigada pela polícia. Ali existia toda espécie de transgressão e poderia fornecer o nome de muita gente do crime que era freguês do velho armênio. Existia um livro ensebado de capa escura onde Menuhim escrevia o nome de quem lhe vendera a joia, a quantia paga e a possível origem. Mas ninguém deu nada pelo livro de capa escura de Menuhim. A mulher dele recolheu as peças, vendeu-as, passou o ponto e mandou dar faxina vigorosa e definitiva no negócio de joalheria do velho Menuhim e o caderno de capa escura acabou no lixo junto com outras porcarias que não interessavam à polícia.
        Menuhim era um corpo como outro corpo qualquer. Mas a mente de Menuhim era mente privilegiada que a vida torceu para o crime, enquanto se fosse empregada a inteligência para o fabrico de joias, ele seria o designer mais famoso e admirado. Mas Menuhim não queria saber da fama. Gostava de saber que estava envolvido em algo perigoso, que tirava a vida das pessoas como pequeno deus perverso.
        Agora estava ali, não entre duas portas, mas entre quatro paredes de madeira, só e abandonado, a mente criminosa desligada como se desliga a luz ao acabar o expediente. Outra perversão de Menuhim era gostar das mocinhas pobres, mulatinhas, de subúrbio, malcheirosas, sujas, mal alimentadas que ele, vira e mexe, e tome vira e mexe, engravidava e nascia um sarará a quem ele dava nome judeu e pensão por mês, embora não perfilhasse e negasse a paternidade a quem visse o menino na loja, um Menuhim condensado e mais escuro, esperto como expatriado, ladino como o velho armênio.
        A mulher de Menuhim de vez em quando recebia a visita do filho e da mãe do menino a pedir para que a velha armênia mulher de Menuhim continuasse a pagar comida, roupa e escola do menino e a velha armênia mulher de Menuhim já nem brigava mais, nem saía pela rua a gritar palavrões em português, em iídiche e em armênio, expulsando as amantes do marido que ele deixou entre os bens restantes e testamentários. Agora pegava o telefone e ligava para o advogado e punha a menina escura e já com outros filhos de outros homens na linha e o advogado falava alguma coisa tão convincente ou ameaçadora que elas desligavam o telefone, davam adeus e iam embora carregando o menino pendurado pelo braço e aos safanões como se o garoto meio judeu armênio, meio brasileiro de Franco da Rocha ou do Jacarezinho fosse culpado pela penúria da mãe.




(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Sapatarias, poema


 

 


 

 

 

As sapatarias guardam

à noite o diálogo

das promessas

de passos que não se dão

e os caminhos sem medidas.

 

Por sua vez, os sapatos,

a oferta da espécie,

que se acostumou

à trilha dos nômades,

mudam-se em couros.

 

Todas as viagens

são feitas na memória.

E as sapatarias

o verdadeiro

museu do futuro.

 

Às vezes, calço a manhã

e ela me aperta.

À noite, me calço

do generoso que não fui.

 

São ex-votos

essa aberração

de pares sem pernas.

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Meu coração é uma máquina fotográfica , poema RCF

 



 

Tua fotografia,

                                    espelho fixo,

                        entre a película e a íris

                        expõe a luz do negativo.

 

As cidades, ó, as cidades

                        – Amsterdam, Piza, Cairo –

                        sonhos, anseios e desejos

                        antes que ruas, edifícios e cafés.

Meu coração salta do peito

                        um coração como uma máquina fotográfica

                        que pulsa a cada chapa

                        e

                        rebobina em estertores.

 

                        As línguas todas estiradas

                                    nas folhas vermelhas do bico-de-papagaio

                                    tagarelando

                                                           a manhã vegetal.

                        Minha casa é uma cidade

                                    pois nela cabem

                                                           as esquinas dos relógios,

                                                                       o tumulto dos corredores,

                                                                       os elevadores de cabo roto

                                                                                   do pesadelo.

 

Caminho

            de dia

            e

            o monóculo da Lua

                                               branca e mimética

            fecha um olho

            como quem atira

                        no alvo da minha

                                                           pele.

 

Sou um percevejo feliz

            e pródigo

            – cato moedas e acenos –

            quando partir

                        só o gosto dos lenços

            brancos

            me encherão os olhos

                        como lágrimas de

                                                           pano.




(do livro de estreia Estrangeiro, 1997)