domingo, 31 de maio de 2026

A chuva



Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem retirada da internet: chuva

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Destilaria (e fermentados)


O que se destila neste barril
que se subordina ao grão?
O que se aprisiona nessa caixa de pandora
é o mover dos dentes do lúpulo,
o cavalo fermentado de músculo e remorso.
A cevada do nojo
ou o levedo do fim
amadurece
a máscara de rapina
a cada manhã ou forno do dia.
Rum de carícias,
uísque de negaças,
cerveja negra do esquivo,
a destilaria (e fermentados) vai envelhecendo
o vinho amargo do recuo.
A régua improvável
que menos mede que encomprida,
menos risca que corta,
menos dá lucidez que desafio.
Longa é a jornada dos tonéis
que decantam em seu bucho
e madeira a passagem silenciosa
do tempo maturado no escuro
que por si só é outro barril,
não de madeira, mas de decomposição,
borra e recusa – nada destila
ou fermenta mais que a recusa.                               
(do livro O difícil exercício das cinzas)

terça-feira, 26 de maio de 2026

O papel de cada um, poema de Matadouro de Vozes

 


 

 


 

 

 

Nem todo papel

tem o mesmo peso.

Os papéis do divórcio

têm a gramatura descabelada.

O quilo do atestado de óbito

é áspero e melancólico.

 

A saliva da máquina me azeita.

Guardo a fome na despensa.

A roda do desejo ainda me saliva.

 

A largura do mínimo.

Trago minhas opiniões,

evaporo minhas ideais,

e o que me resta são cinzas.

 

Minha pele, o papel do meu corpo,

se destitui do tempo.