domingo, 5 de abril de 2026

Um homem é muito pouco, trecho 2





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    Uma das frases que Clemente mais gostava era “não era ruim, mas também não era bom”. Clemente a usava para tudo que era indistinto, consumido pelo tempo, estéril ou indiferente. Pois bem, o macarrão do restaurante do hotel não era bom, mas também não era mau. Neste exato momento, sem que Clemente percebesse a carta deslizou bolso afora e, gravitando, caiu entre o lambri que soltou e a parede. Clemente, ocupado com sua fome que subitamente retornara, não percebeu que a carta perdera seu peso. E, com seu peso normal de papel, pôde ela esgueirar-se do bolso sem que o pretenso dono se precatasse da fuga. Mateus e Clemente pela primeira vez conversaram sobre amenidades, Clemente contou uma história longa e divertida de um clandestino.
    Era um angolano, um rapaz, que Clemente pegara roubando comida. Não tinha se alimentado durante três dias e estava numa condição abaixo do animal. Assustou-se quando viu Clemente. Ficou, contudo, mais preocupado com o pedaço de pão e salame que tinha nas mãos e não queria perder do que ser descoberto e levado ao comandante. Ele, o clandestino, defenderia até a morte seu direito de comer. Pegou uma faca de cozinha e ameaçou Clemente. Este riu, mostrou mais comida e disse que não se preocupasse que não iria delatá-lo. Os olhos do menino negro eram olhos inteligentes e Clemente acobertou o angolano que desceu no cais da Praça Mauá, estudou, casou e hoje é advogado com banca e tudo. Clemente ficou pensando que o pior clandestino não era aquele angolano faminto, o pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma. Ele, Clemente, se achava clandestino, talvez por isso a solidariedade imediata e reta. Onde quer que estivesse Clemente se sentia invasor, não permitido, escondido, sujeito que pode ser expulso a qualquer momento da embarcação, dos lugares, dos restaurantes, dos hotéis, da rua mesmo. Esse sentimento de clandestinidade poucas vezes desaparecia. O que mais doía, entretanto, era sentir-se clandestino em sua própria casa.
    Depois do almoço, ambos retornaram às suas casas. Clemente, cansado de tanta agitação, deitou-se na cama, com roupa e tudo e adormeceu. Dormiu como se fosse noite, um sono árduo.
Clemente entrou na cozinha no navio ao perceber a luz acesa. Lá estavam em volta da mesa o capitão Vaz, Selma, Oswaldo e Mateus. Oswaldo, como o companheiro marinheiro lá dele, vestia-se de mulher, o capitão Vaz não tinha os braços e reclamava: Por favor, Clemente, não faça isso comigo. Selma parecia mais uma prostituta dos portos em que o navio parava e não falava em língua humana, mas na língua suína que é a língua dos porcos. Selma tinha focinho, a boca pequena, o corpo gordo e único de porca. Só Mateus não havia se transformado. Era o velho Mateus de sempre. Anos antes, num porto sujo e pobre da Ásia, com poucos guindastes e sem armazéns, Clemente vira porcos comerem um miserável. Nunca imaginara que os porcos poderiam comer um ser humano e, muito menos, que um ser humano se deixasse comer por porcos. Mas o homem era velho e fraco, um fiapo asiático de homem e os donos dos porcos, também famintos, açulavam seus porcos a se alimentarem de carne humana. Serviu os pratos e nos pratos estavam os braços do capitão Vaz que chorava, enquanto Mateus, o travesti Oswaldo Lee Oswald e a porca Selma devoravam os braços do capitão Vaz. Um baque surdo contra madeira o despertou.
    Entre o sono e a vigília, sem se dar conta ainda de onde estava, se no quarto de sua casa ou na copa da cozinha do navio, Clemente se perguntava se encontraria com o capitão Vaz aleijado, a porca Selma e Lee Oswald mulher. Ainda mal despertava quando então escutou o segundo baque. Percebeu, não desfazendo ainda por completo a alucinação do sonho, que estava na Praça 11 e aquele barulho poderia ser de alguém a invadir a casa. Levantou-se. Sentia-se tonto. Voltou-lhe o balançar de nave. O sentimento de aprisionamento caiu-lhe fundo na alma com a decisão e o peso de âncora lançada n’água. Entrou corredor adentro a procurar a fonte do ruído. Vinha da cozinha. Conhecia aquele estrépito: o esquartejamento das aves e carnes. A quem esquartejavam?
    Era d. Evelina que, com um cutelo, partia o frango. À primeira vista, lembrou-lhe um elemento a mais do pesadelo. D. Evelina era baixa e gorda, com vincos profundos no rosto, cortando a pele escamosa, que mais lembrava terem sido feitos a talho do que pela erosão da idade. Tinha mãos pequenas, mas fortes, nunca pedira a Clemente que lhe abrisse pote, nem recusara o peso de uma estante. As pernas grossas, de veias escuras serpenteando canela acima, davam-lhe o aspecto de precária estrutura, embora firmemente fixada ao chão. Os olhos saltados e as narinas de fole aberto punham fúria onde só havia humildade. A empregada se espantou ao ver o patrão entrar. Ele, ainda prisioneiro do medo, tinha o rosto sem sangue, as mãos poucas, as pernas sem apoio. Mas foi o olhar de náufrago o que assustou a empregada. De cutelo na mão, ela avançou para Clemente no intuito de socorrê-lo. Se ao menos ouvisse o que ela dizia, seu Clemente, o senhor está pálido, está doente, quer ajuda, chamo alguém, médico ou ambulância? talvez não sofresse o pânico de ver sua empregada, como no pesadelo, investir para ele a fim de matá-lo.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


quarta-feira, 1 de abril de 2026

A personagem do romance, ensaio 2

 






(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)



(....)


               Muitos veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se quiserem, de uma só persona. A loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição, preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.

 

            A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei, a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães. [...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]

 

            Esse personagem romanesco, contudo, não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização. Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.

            É interessante observar que o romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem, ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais daí para a frente na prosa de ficção.

            Antissocial e irresponsável, classifica Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.

            O livro teve grande recepção e fora traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e muitos só o foram abolir tardiamente.

            Nabokov escreve que, ao tempo de Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.

 

            É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]

Mas se pensamos nos livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]

 

Não há, contudo, como fugir dessa observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan. Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo, melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida para servir às ciências do homem.



[1] Introdução, de 1881, à versão inglesa de Dom Quixote traduzida por Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.

[2] Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.


segunda-feira, 30 de março de 2026

Plástica, poema RCF








A única plástica que me serve
não é na face, mas nas lágrimas.
Quero um rosto sem lágrimas, doutor.
Retirar a glândula que produz
a lágrima dos mortos.
Meus mortos surgem no trânsito,
no banho, no banco, no trabalho.
Os mortos não deviam vir ao trabalho.
Choraria em seco.
Um rosto seco, um rosto plástico,
um rosto cirúrgico.
E sem saber por que não podem
sair do cárcere seco em que os pus,
renasceriam na caixa imaginária,
que é a memória,
em outra forma que não fosse líquida.




(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)