quinta-feira, 12 de março de 2026

Tambores, poema de Matadouro de vozes

 


 




 Que tombos ouço

que bumbam o boi?

 

O chapéu de penas

flutua o matadouro.

 

O boi de duas pernas

zabumba

o pasto do patrão.

 

As lantejoulas polvilham

estrelas na noite mais áspera.

 

Dançam as palmeiras

com seus braços embriagados

de matracas e surdos.

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Vertigem das baixezas, poema RCF




Os alpinistas escalam a morte.
Também sei o perigo do cume,
mesmo sem me deslocar,
sei o alpinismo dos olhares submersos
que me fazem perder o pino.



(Eterno passageiro, 2004)




segunda-feira, 9 de março de 2026

O amor traduzido, poema RCF


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Visitei a casa do ciúme,
onde se supõe que cada sombra
esconde encontros lúbricos
atrás de portas que se multiplicam
como espelhos postos um diante do outro.
Pensei em gestos ensandecidos:
enforcamento por pasmo,
o arsênico da fome,
o gás do flagrante.

Vesti-me de todas as maneiras,
deixei o cabelo crescer;
cortei o cabelo,
usei bigode e fiz curso noturno.
Li poemas de Shakespeare,
no original,
porque o amor
é de difícil tradução.



(poema reescrito do livro de estreia Estrangeiro, Rio, Sette Letras, 1997)