sexta-feira, 26 de junho de 2026

A personagem do romance 4

 








(publicado pela Academia Maranhense de Letras, 2023, ou ebook na Amazon)



Personagem: mito e ficção

 

            O personagem como produto da imaginação responde a um ato descritivo do autor com outro ato reativo do leitor. Não chega a ser um diálogo, é mais bem uma provocação. A sugestão de modos de comportamento, descrição física, abundante ou mínima, traços grossos, pinceladas rápidas ou detalhes abundantes da psicologia ou do físico, geram no leitor uma remota recorrência a seu repertório emocional.

            A leitura, tanto quanto a escrita, é uma vocação. Nem todos são leitores de ficção. Como não são todos os homens escritores. É certo que a capacidade interpretativa e leitora é muito mais ampla e requer menos habilidades. Como a leitura é um ato da imaginação e da capacidade do leitor de supor um cenário, uma vida de papel, uma sugestão de imagens e o acompanhamento de uma história, nem todos estão aparelhados para exercer o processo de projeção ficcional.

            Para se ouvir música ou ver uma pintura, não se precisa ser alfabetizado. Ao ver uma pintura, um filme ou algo visual, o espectador não precisa de uma pré-habilidade como o domínio do alfabeto. Para consumir literatura exige-se que, no mínimo, o leitor seja leitor. Ou seja, alfabetizado. O leitor precisa dominar um código. E, além disso, ao passar para a fase seguinte, o leitor de ficção deverá ter a habilidade para exercer a imaginação.

            Cito Iser:

 

            Apenas a imaginação é capaz de captar o não-dado, de modo que a estrutura do texto, ao estimular uma sequência de imagens, se traduz na consciência receptiva do leitor. O conteúdo dessas imagens continua sendo afetado pelas experiências dos leitores. Essas experiências constituem o quadro de referências que permite apropriar-se do não-familiar ou ao menos fundamentar sua imagem. A concepção do leitor implícito descreve, portanto, um processo de transferência pelo qual as estruturas do texto se traduzem nas experiências do leitor através dos atos de imaginação.[1]

 

            O processo de decodificação e a eleição ficcional não são fáceis nem comuns a todos. A eleição ficcional requer do leitor que ele passe da condição de mero decodificador de mensagens como a leitura do jornal a um patamar de abstração. A abstração é um requisito tão necessário quanto a alfabetização e para ele não há código a ser aprendido.

            O código da abstração exige do leitor uma imaginação desafogada. Não se lê um romance como um ensaio ou uma notícia. Os dados objetivos da leitura, no que toca ao que nos interessa, ao personagem, leva o leitor para outra categoria de código. O pacto da verossimilhança e da suspensão da descrença não é ensinado por ninguém. Ele já está internalizado no leitor ou não estará. Esta capacidade, que parece se estender universalmente, vai desaparecendo ou se acentuando com a vida adulta.

            O personagem é uma ilusão real que gera para o pacto narrativo uma função fundamental que é a de provocar “realidade” mesmo em relatos fantásticos. É o personagem que concretiza ações, provoca situações, desvela ou cria conflitos. É ele também, junto com as situações que promove, que pode desestimular a verossimilhança se o autor não for eficaz em compô-la dentro do âmbito da própria narrativa como a teoria da literatura há mais de um século está acostumada a apontar.

            O personagem de ficção não se comporta como um mito, ou melhor, cada personagem é um mito em particular. Cada personagem de seu autor é um mito próprio, criado por uma arquetipia não freudiana, nem junguiana, mas produzida por suas múltiplas vivências, traumas, frustrações, perdas e lutos. Se esse personagem alcança o arquétipo universal poderá ter algum êxito maior, mas não necessariamente o criador necessita buscar um mito para nele se apoiar. O princípio maior da narrativa é a qualidade estética e fabuladora. O autor pode elevar à categoria de mito ou arquétipo o que antes nunca foi visto como mito ou arquétipo. Várias obras ao longa da história usaram os mitos e se perderam, outras não se preocuparam em repetir nenhum padrão deste gênero e tiveram seus leitores e perduram[2].

            Ulisses, de James Joyce, ficou na literatura não por causa de ser uma paródia moderna da odisseia de Homero. Permanece e permanecerá em virtude de sua alta dosagem estética inovadora e criação de técnicas (o stream of consciounesss não foi como todos sabem uma invenção sua, mas sim de Edouard Monjardin, mas por certo ele a utilizou de maneira mais aguda e performática), jogos de linguagem, recortes, citações à cultura universal, um estilo único.

            O personagem seria então fruto de uma mitologia pessoal. Mas como o homem não é um ser solitário e, por mais que se isole da sociedade, traz com ele os confrontos que teve na sua socialização e dela aprendeu a fazer seu personagem ter emprego, relações familiares, amores, desditas, ambições e tantas outras experiências de um grupo social e, por isso, ele consegue escrever sobre a “realidade”. Logo ele traz também uma grande dose de uma mitologia coletiva.

            Quanto à informação que o narrador sugere do personagem, ela não apenas é objetiva como também envolve toda uma gama de sensações. O autor conduz o leitor para um embate entre informação objetiva e informação emocional. Esta última está dividida entre aquela à superfície e outras entranhadas. As de superfícies são claras. O autor quer traçar o perfil do personagem como um sujeito bonito, nobre e que conquista as mocinhas levianamente. Este personagem pode ser o Vronski de Ana Karênina. Por trás da informação, transmitida pelos pensamentos e comportamentos do personagem, além da informação do narrador, como nas narrativas realistas do século XIX, o leitor terá tido suas experiências com um tipo deste na vida real. Ainda estamos à superfície da emoção. Outras experiências que não são lógicas ou imediatamente recordadas pelo leitor podem-no levar a ter outro tipo de apreensão do personagem. Esta formação de imagem é inconsciente, jaz submersa. Ou como o escritor argentino Ernesto Sabato expressou: “obriga o leitor a exercitar suas forças instintivas, os recursos de seu inconsciente”.[3]

            Há uma relação obscura entre a projeção de conhecimento oferecida pelo autor e a apreensão difusa de recebimento e introjeção da informação pelo leitor. O entendimento é fato objetivo, a apreensão emocional é algo subjetivo, íntimo, particular, não compartilhado pelo conjunto dos leitores.

 

 



[1] Iser, Wolfgang. O ato de leitura, vol. 1. Tradução de Johannes Krestschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996.p. 79.

[2] Ian Watt caracteriza sete ou oito visões sobre o mito ao estudar personagens que saíram das páginas do livro e se tornaram até mesmo adjetivos nas línguas cultas. No primeiro grupo, ele lembra James Frazer e seu The Golden Bough: a Study in Comparative Religion, de 1890, que procura dar respostas às questões mais ou menos factuais ou racionais. No segundo, está Cassirer que “via os mitos como projeções da realidade humana: o pensamento mítico, Cassirer escreveu: ‘é um modo de estruturar simbolicamente o mundo.’” No terceiro, se coloca a leitura psicanalítica e lembra das Mil faces de um herói, de Joseph Campbell que Watt se refere como “uma tendência redutora na crítica psicanalista do mito”. No quarto grupo, agrega Durkheim e Malinowski, este último investiga a solidariedade social, mas observa como os mitos ratificam e sacralizam instituições sociais, mágicas e até o direito à propriedade. No quinto, estaria Edmund Leach e no seu entender “mito e ritual são igualmente simbólicos e de seus conteúdos fazem parte declarações enigmáticas sobre as estruturas sociais”. Sexto, Lévi-Straus e o estruturalismo. Além de outras leituras míticas que não são feitas por antropólogos profissionais, mas teóricos da literatura como, entre outros, Northrope Frye. “Mito e individualismo”. In: WATT, Ian. Mitos do individualismo moderno. Fausto, dom Quixote, dom Juan, Robinson Crusoé. Rio: Zahar, 1997. pps 228-240.

[3] SABATO, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. Tradução Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das letras, 2003.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Fuga, poema RCF










Quem inventou a medida do palmo
queria ter o mundo em suas mãos.

As palmas me causam horror:
o ato vazio de nada pegar.

Tudo no rio me remete
à fuga: o escorrer quase cismático

 
(do livro A máquina das mãos, Rio, 7Letras, 2009)
 
imagem retirda da internet: otto dix

domingo, 21 de junho de 2026

A personagem do romance 3

 







O personagem ausente

 

 

    Durante a maior parte do romance O coração das trevas, Kurtz não aparece, mas paira constante e acusativo. É um personagem perverso, o homem do horror, aquele civilizado que na África se transformou num monstro. Conrad demora-se na viagem, na descrição da paisagem, na dificuldade de avançar em rios tortuosos e armadilhas diversas, desde as naturais até as humanas.

            A perícia narrativa de Conrad é admirável. Uma construção pela negação. Os detalhes são absorvidos como se já pudessem dar o perfil de Kurtz e como se pudesse também antecipar a solução dos conflitos. O leitor espera, a qualquer momento, a revelação. Quem é o personagem principal em O coração das trevas? Para mim, não é o narrador, mas ainda e definitivamente Kurtz. Então o que se constrói não se o faz por acúmulo de informações, mas por somatório de desvios, negaças, recusas, sugestões e descrição de um ambiente sufocante.

            A grande discussão do livro de Conrad é a dualidade barbárie x civilização. Naquele momento em que a Europa acabava de repartir o continente africano, o processo de descolonização se precipitava, Conrad contrapõe a pretensa superioridade do homem europeu diante da selvageria. E conclui que o convívio de Kurtz entre os nativos do Congo o fez regredir a um estágio de animalidade que está presente em todo homem dito civilizado. O horror a que todo homem está sujeito ao deixar aflorar em si sua parte mais primitiva foi condenado pelo escritor Chinua Achebe que viu no romance do inglês-polonês mais uma vez o preconceito do homem branco em relação à África. Achebe argumenta que Conrad colocou a selvageria num modo de vida tribal, mostrando uma visão ainda colonizadora e superior do homem europeu. O africano seria aquele que estaria tomado não só pela selvageria como também potencialmente perigoso. O convívio com o lado negro da África poderia levar o homem à loucura e ao animalesco.[1]

            Ainda que pertinente a crítica de Achebe, Conrad que acreditava estar denunciando o colonialismo, criou o denso personagem de Kurtz com toda a sua simbologia e marcante configuração mental.

 

            Kurtz, isto deve estar claro, não escolheu a vida selvagem fora de qualquer ilusão sentimental que isso seja nobre ou virtuoso. Pelo contrário, ele fica horrorizado – um dos seus lúcidos relatórios sobre os nativos que Marlow leu depois de sua morte é interrompido de repente com o grito “Exterminar todos os brutos!”. E Marlow mesmo, embora em uma ocasião sinta a apavorante fascinação pela vida selvagem, não proporciona nenhum charme que antropólogos comumente descobrem nos hábitos de uma tribo; ele não pode deixar de admirar alguns comportamentos dos nativos mas vê a cultura que os alimentou como sórdida e terrível, uma cultura europeia que oprime. Sua palavra para isso é bíblica e conclusiva: isto é “abominação”. Nem Marlow sugere que Kurtz, encantado pela selvageria, tenha encontrado salvação em sentido moral: ele não se livra de nenhum dos vícios europeus, nem mesmo avareza. Para Marlow, contudo, Kurtz é um herói do espírito que ele valoriza como Teseu em Colona valorizou Édipo: ele pecou por toda humanidade.[2]

 

            O personagem ausente na verdade se revela altamente presente, seja no discurso do narrador, seja na criação de ambientes. Ou ainda ao relatar como os personagens que conviveram com ele sofreram a sua influência, são por ele modificadas, o que lhes resta da experiência do convívio. Há mesmo personagens como filhos ou parentes distantes ou próximos que nunca chegaram a conhecer o personagem, mas são profundamente impactados por ele. É muito comum este tipo de personagem naquelas ficções em que um filho busca reconstituir a trajetória dos pais a fim de entender determinada situação ou resolver seus dramas íntimos.

            O personagem ausente é uma criação de outro personagem ou a recriação de várias vozes que recontam as experiências do personagem que não aparece, mas a todos perturba por várias razões. Não há necessidade de recompor o passado a fim de caracterizar o personagem ausente. Ele apenas pode surgir ou pairar em toda a narrativa. A presença de forças políticas como nas ditaduras, o personagem do ditador que permeou a literatura da América Latina alimentava a presença do déspota em cada ato dos personagens sem que o tirano surgisse em cena.

            A ausência é um manuseio de presenças fortes. Geralmente estes personagens têm uma influência perturbadora. Não são meros personagens, mas as molas, se não mestras, mobilizadoras das ações. Como caracterizar fisicamente estas ausências? Muitas vezes, o personagem não é descrito fisicamente, pois sua presença é psicológica em outros personagens. Desta maneira, ele pode ter diversas configurações de aparência física e detalhes anatômicos que só interessam se fazem parte da história. Um rosto queimado, um cacoete qualquer, a loucura do personagem encarcerado em sótão e sua aparência de abandono e descaso.

            Embora não seja personagem, lembro do conto A casa tomada, de Cortázar, em que a família percebe que a casa está sendo invadida e não se sabe por quem. Por certo, a casa não é invadida por uma força física da natureza: areia, vento, furacão. A casa, num momento de violência política na Argentina, lastreada por vários governos autoritários quando não ditatoriais, pode ter a leitura de uma invasão de privacidade pelas forças de segurança ou mesmo o acuo dos personagens tomados de pânico e encurralados no único lugar que pensam estar a salvo.

 

 



[1] ACHEBE, Chinua. “An image of Africa”, The Massachusetts Review, 1977. In: CONRAD, Joseph. Heart of darkness and selections from Congo Diary. New York: Modern Library, 1999. ps. xlv-lii.

[2] “Kurtz, is must be clear, did not choose the live of savarery out of any sentimental illusion that it is noble and virtuos. On the contrary, he is appalled by it – one of his high-minded reports on the natives which Marlow reads after his death breaks off suddenly with scrawl, “Exterminate all the brutes!”. And Marlow himself, although on one occasion he feels the frightening fascination of the savage life, allows it none of the charm that anthropologists commonly discover in the tribal ways, he cannot  withhold admiration from the manly grace of the natives but he looks upon the culture that bred them sordid and terrible , in its own fashion as evil as the European culture which oppresses it. Nor does Marlow sugest that Kurtz, by embracing savagery, has found redemption in any personal moral sense: he has purged himself of none of the European vices, nor even greed. Fro Marlow, neverthelesss, Hurtz is a hero of the spirit whom he cherishes as Theseus at Colonus cherised Oedipus: he sinned for all mankind.” TRILLING, Lionel. “Society and Authenticity”. In: Sincerity and Authenticity, 1971. Ibiden, ps.xlii-xliv.