A
imagem e as várias leituras
Para Sartre, apoiando-se em Leibniz,
a imagem “continua sendo um fato semelhante aos outros fatos, a cadeira em
imagem não é outra coisa senão a cadeira em realidade”.
... eis aí as três soluções que nos propõem as três
grandes correntes da filosofia clássica. Nessas três soluções, a imagem
conserva uma estrutura idêntica. Ela continua sendo uma coisa. Somente suas relações com o pensamento se modificam,
conforme o ponto de vista adotado sobre as relações do homem com o mundo, do
universal com o singular, da existência como objeto com a existência como
representação, da alma com o corpo. Seguindo o desenvolvimento contínuo da
teoria da imagem através do século XIX, constataremos talvez que essas três
soluções são as únicas possíveis desde que aceito o postulado de que a imagem é
apenas uma coisa e de que todas elas são igualmente
possíveis e igualmente defeituosas.[1]
O autor, que detém uma imagem da
realidade, que apreende mais que coisas da realidade, que busca expressar
ideias ou comportamentos mentais, vê-se num labirinto. O que o autor relata já
é uma apreensão de segundo grau. Ao repassar para o leitor, este terá uma
leitura da leitura da realidade feita pelo autor. O leitor apreendera a cadeira
que é “coisa”, que já é imagem da cadeira, e que será repassada para o leitor
que, por sua vez, terá a imagem da imagem da cadeira. Sendo, porém, que a
cadeira da realidade, a imagem da cadeira do autor, e a imagem da cadeira projetada
na mente do leitor se concertem como coisas
que por sua vez são realidades próprias.
O que nos interessa neste momento é
ressaltar o caráter abstrato e idealizado de uma realidade que é a realidade do
leitor. Cada leitor elabora sua percepção do texto literário. Esta percepção é
única e válida. Não representa, vale lembrar, que não estamos falando de interpretações
críticas ou análises. Referimo-nos simplesmente à leitura do texto feita pelo leitor.
Há um grande livro geral que se
chama, por exemplo, Dom Casmurro e as
leituras de cada leitor. A grande caracterização dos personagens permanece como
um código comum. Os ciúmes de Bentinho e a descrição insinuante dos olhos de
ressaca de Capitu. Os olhos que atraem e podem ser mortais como as águas
conturbadas, violentas e traiçoeiras do mar. Mas a metáfora de Machado vai
penetrar a imaginação de cada leitor de modo distinto e evocativo. Ao acessar a
informação de olhos de ressaca, o leitor tentará alcançar a releitura da
realidade feita por Machado, colocado na pena do seu narrador Bentinho. Esta
leitura especial e unívoca do leitor é também coisa, realidade imaginativa em si.
Certo ator de teatro brasileiro
exprimiu o domínio do personagem. Disse ele que havia determinados personagens
que ele sabia mais da psicologia daquela figura do que o próprio dramaturgo. Tanto
estudara o personagem, tanto fizera laboratório, tanto se esforçara para
reproduzir seus gestos e sua voz, que fora tomado por um conhecimento que o
autor desconhecia. Eu diria que muitas vezes alguns leitores dominam mais o
personagem, sabem mais dele, supõe informações complementares que o próprio
escritor. O fato é que determinados leitores agregam às descrições físicas e
mentais do personagem sua própria experiência com aquele tipo de pessoa.
Essa complementaridade não é
gratuita, intempestiva ou extemporânea. O autor lança outros dados,
voluntariamente ou não, que lhe permitem expandir sua ambição narrativa – o
leitor também tem sua narratividade. A narratividade do leitor diz respeito ao
fato de que o leitor vocacionado também tem a disciplina do devaneio. Para que
a leitura se torne efetiva, é necessário que o leitor tenha a capacidade também
de ficcionar a ficção que está lendo. A narratividade do leitor faz parte do
pacto da leitura, mas também é uma característica da personalidade do leitor.
Esta habilidade e vocação narrativa do leitor são o que permite ao leitor
interagir com a literalidade da narração.
