terça-feira, 24 de março de 2026

Lorca e Dalí, uma amizade transbordante, alucinada


 


 

A relação entre Salvador Dalí e Federico García Lorca foi de uma amizade transbordante, alucinada – e, por incrível que pareça, mais solicitante da parte de Lorca – e acabou por influenciar o poeta granadino. Há um momento crucial na trajetória de Lorca ao publicar o seu Cancionero gitano. Era o momento mais alto de uma poesia enraizada no solo de Andaluzia. Ao mesmo tempo em que recebia as melhores críticas e tinha se tornado um poeta nacional, Lorca recebia uma admoestação devastadora de Dalí que lhe escrevia desde Figueres, sua cidade natal na Catalunha.

Na carta, Dalí acusava Lorca de ser passadista, de ter feito um livro “costumbrista”, uma poesia provinciana, localista, logo pouco universal. Este “gitanismo” de Lorca ia contra toda a estética do pintor catalão. Dalí gostara muito das odes que escrevera o poeta andaluz porque uma era a ele dedicada e estavam despojadas de elementos pitorescos e anedóticos e pejadas de surrealismo. “Ode a Salvador Dalí” e “Ode ao Santíssimo Sacramento” são dois poemas longos, distante da temática cigana, e construída com uma estética que não prima pelo ritmo das redondilhas e refrões típicos do “cante jondo” da sua Granada.

Antes, Salvador Dalí havia escrito um longo elogio, estranho e deslocado elogio, a São Sebastião. Os dois tinham verdadeiro fascínio pela figura jovem e despida, musculosa, de San Sebastián. A literatura de Dalí era tortuosa, com ortografia própria – e imagens desbordantes. Entre outras tantas imagens aparece, por exemplo, frases do tipo: “Cada minuto llegaba el olor del mar y anatómico como las piezas de un cangrejo”. Já era uma forma de literatura que impressionou García Lorca tanto quanto os quadros do pintor. Dalí passou a ser para o poeta um teórico não apenas da arte em geral, mas da teoria da literatura. Vale lembrar que Dalí era mais jovem que o poeta granadino e estava naquele momento se afastando de Lorca (para a tristeza e ciúmes de Federico). Outro que condenou – e chegou até mesmo a ridicularizar – foi Buñuel que por esse tempo se aproximava mais de Dalí. Ambos se reuniram, nesta época, para escrever o roteiro de Le chien andalou. A carta que Buñuel escreveu condenando Lorca com os mesmos argumentos de Dalí parece, contudo, não chegou a ser lida por Federico. 





domingo, 22 de março de 2026

O viúvo 18











          O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.


(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

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quarta-feira, 18 de março de 2026

Réquiem , poema RCF

 



 

Posso caber nos mais míseros lugares:

                        nas frestas das janelas abandonadas de um convento,

                        nos parafusos enferrujados das mesas bambas,

                        nos vidros empoeirados dos basculantes,

                        na dobra das cartas do baralho de um jogo de pôquer.

 

Indiferente aos carvalhos e às mãos longas do adeus,           

                        descerei o rio das aleias, na canoa rija.

                        A morte flui como um rio embora outras formas

                        de água sejam mares mortos.

                        Como a piscina:

                                                           estranha tumba

                                                           onde nenhuma vida viceja

                                                           na água clorada

                                                           e         

                                                           passageira dos banhistas.

 

Tudo falseia num mundo de águas.

                        No aquário existe a imitação da vida

                        marinha no estelionato da ostras       

                        de plástico que borbulham suas

                                                                       pérolas de oxigênio.

 

O ínfimo, o pouco, o nada –

                                                           nenhum deserto tem a secura

                                                           de minha alma beduína.   

 

Que ilusionismo é este? Um poço de fundo falso,

                                    um relógio sem ponteiros,                       

                                    um trem sem trilhos

                                    e

                                    o jogo de xadrez – imóvel e eterno –

                                    jogado sem peças.

                                    Tenho medo de acabar falando sozinho

                                    como os loucos e os rádios.

 

Ao me virem nas fotos do álbum esquecido

                                    na gaveta dirão:

                                                           quem é este de cabelos ralos

                                                           e

                                                           óculos de aro fino?

 

 

 (do livro Estrangeiro. Rio: Sette Letras, 1997)