quinta-feira, 4 de junho de 2026

Machado de Assis: loucura e erotismo

 

 





 

Ronaldo Costa Fernandes

 

 

  

As mulheres em Memórias estão hierarquizadas. São elas Virgília, Marcela e Eugênia e Nhã-Loló. A de classe mais baixa é Eugênia, moça de dezesseis anos que nunca tivera nem mesmo a experiência do beijo. É bonita, graciosa, charmosa, mas tem dois defeitos: é pobre, filha de uma experiência amorosa espúria da mãe, e coxa. Está, pois, no último degrau social da hierarquia. Não pertence à classe ociosa e dominante, não vive de rendas nem tem família com títulos e posições dentro da estrutura social do Império. Virgília está no topo, de boa família, pai importante, com grandes relações de poder que poderá levar Brás Cubas à carreira política. Aliam-se nela o pragmatismo das relações com a beleza da criatura. Nela, o personagem não encontra nenhum obstáculo para levar a cabo sua ascensão social.  No meio das duas se encontra a lascívia. Brás Cubas teve seu primeiro intercurso amoroso com Marcela, uma espanhola de hábitos livres. Sugere-se que ela mantinha amantes e amava joias. É dela que o narrador diz “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. É ela o lado outsider, os instintos, a luxúria, a vida entre luxos, gastos exorbitantes, ganância e interesse monetário, o vício e a vida desbragada. E por fim Nhã-loló, sobrinha do Cotrim, moça bonita e que a família deseja casada com o protagonista e que morre prematuramente de febre amarela.

Enquanto no romance naturalista o sexo e o amor eram emulados pela tara, o destempero, o desejo imperioso da carne, no romance realista flaubertiano o adultério é mais um fenômeno psicológico, fruto do descaso do parceiro e das aspirações sonhadoras de viver um grande amor como é o caso de Madame Bovary. Ora, no caso de Brás Cubas o que vamos encontrar é uma mulher, Virgília, que trai o marido sem grande motivo aparente. Se antes não queria muita coisa com Brás, depois de casada passa a viver um amor tórrido. Machado não cria um aprofundamento psicológico em relação a Virgília. Sofia, personagem do romance Quincas Borba, é mais bem desenhada. É fútil, ambiciosa – ambiciosa Virgília também é –, com o pensamento de traição difuso, sem se fixar em nenhum amante, antes buscando mais sonhadoramente do que realizando o ato do adultério, Virgília é sem pudores, instintiva, arrebatadora e arrebatada. Se pensarmos que mesmo criando uma linhagem de personagem Flaubert não conseguiu realizar ainda o intento de uma mulher livre – procedimento que os autores libertinos do século anterior haviam realizado como, entre outros, Choderlos de Laclos em Ligações perigosas – pois irá ao final do romance “condenar” Madame Bovary ao suicídio, Machado não “julga” Virgília. Neste sentido, também não julgará Capitu, pois o julgamento e condenação de adúltera vem do narrador do romance, Bentinho, seu marido, de onde nascem todas as dúvidas em relação ao personagem.

No ensaio que escrevi sobre os contos fantásticos de Machado de Assis – que não são poucos – observei que o exorbitante, o mágico e o próprio fantástico passavam pelo filtro da cultura, ou seja, estava permeado de considerações, causas e provocações da cultura. Não eram ingênuos, gratuitos ou fruto da fabulação popular, mas fruto do pensar e da cultura.

Entre outros, os maiores temas de Machado são a obsessão pelo status, a luta pelo poder, a loucura e o adultério. Em alguns momentos os três temas se confundem. A ânsia de permanência e de glória levará Brás Cubas ao desconcerto das ideias. Quincas Borba, que morre no romance do mesmo nome, é um desvairado filósofo com sua teoria do Humanitismo. A busca da fama e de posição política, título nobiliárquico, como o baronato de Santos em Quincas Borba, ou alcançar o cargo de ministro, transtornam os homens. O adultério – ou o quase adultério, como chama o próprio narrador também em Quincas Borba, de Sofia – ou a desconfiança do adultério de Capitu, está mesclado nessa ambiência de poder e loucura.  

Não encontrei nenhum crítico (Bosi, Roberto Schwarcz, Faoro, Augusto Meyer etc.) que aproximasse “O delírio” à teoria do Humanitas de Quincas Borba. Ambos estão muito próximos por várias circunstâncias. A primeira se refere a manifestações da loucura, uma do inconsciente mostrando suas vísceras, a segunda, através da loucura – ou seja, ainda do inconsciente – do autor da teoria do “Ao vencedor, as batatas!”. O que expõe Quincas Borba em sua teoria do mais adaptado e do mais forte, e de que tudo se explica pela voracidade animal que não julga as ações humanas, também pode ser visto no aparecimento de Pandora ou Natureza que explica todas as misérias humanas pelo caráter fatalista e instintivo do ser humano. Embora “O delírio” esteja mais próximo do inconsciente, a teoria filosófica de Quincas Borba é elaborada por um sujeito tomado pela loucura. O curioso é que a filosofia de Quincas Borba não é de todo disparatada. É uma crítica muito lúcida, ainda que eivada de humor ácido. O inconsciente aqui é deslocado do objeto – a filosofia – para o sujeito – Quincas Borba.

E por fim ambas estão, como disse ao início, dentro do espectro da cultura. O delírio de Brás Cubas é culto, e o discurso de Quincas Borba está dentro do marco da filosofia, ou seja, de um instrumento de conhecimento elaborado pela cultura.

A razão é caricata na ridicularização do positivismo, do darwinismo social, mas ao mesmo tempo é com a razão que instrumentaliza sua crítica da razão. A razão exacerbada, a razão cultuada pela filosofia é a mesma razão de que se utiliza Machado para criticá-la. Não é a emoção, não são os sentidos, não é a vontade, estado primário do conhecimento, como queria Schopenhauer, mas aquilo que o filósofo alemão chamou de conhecimento secundário, o intelecto, que permite a Machado colocá-la no plano do ridículo e do escárnio. É a crítica da razão e da ciência elevada a um grau de divindade e método infalível que leva o niilista Machado descrer das conquistas do homem e de seu repertório de receitas para o salvamento do gênero humano, como diz a carta que Quincas Borba escreve para Brás Cubas para antecipar o seu método. O Humanitismo descreve “a origem e a consumação das cousas [...] retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura felicidade”. E num último arroubo, a se igualar a vários personagens machadianos que são ambiciosos e lutam pela fama e poder, o Humanistas “enche de glória o nosso país”.

Leitor e admirador de Schopenhauer, conhecido pela filosofia do império da vontade sobre a razão, Machado chega mesmo a ser crítico de quem o influenciou com seu pessimismo e desalento em relação à espécie humana. Dar naturalidade às vontades espúrias ou não do homem, expondo sua luta sangrenta – atenuada pelos avanços civilizatórios, mas ainda assim sangrentos à sua maneira moderna – é relato da luta pela vida apresentada por Darwin. Levado ao plano social do convívio entre os povos e entre os homens, o darwinismo afirma a prevalência do mais forte e do mais adaptado. Entre dois grupos humanos que guerreiam ganha aquele que é mais forte, ou seja, o grupo que conquistou seu direito às batatas. Ao vencedor as batatas! Machado não é contra ou a favor do darwinismo social, até porque não é um filósofo nem muito menos um ensaísta. O que lhe cabe é o descrédito de quem acredita que a humanidade possa ser explicada em poucas linhas ou que uma só visão dê respostas às complexidades da vida humana e da vida em sociedade.

A loucura, como vimos, principalmente representada por Quincas Borba, é um desvio mental ligado ao conhecimento universal. Não é apenas uma paranoia, uma depressão severa, um desacordo lírico entre a realidade e o sonho, não, a loucura em Machado está incrustrada na cultura e na filosofia como um diamante no seu suporte de anel. Quase está a dizer que pensar, e pensar filosoficamente, não é uma operação de cientistas, mas uma doença do filosofar. O pensamento da cultura e a cultura do pensamento levam à loucura. Não levam à loucura, como em outros autores, o amor desbragado, o amor incompreendido, as paixões, ou mesmo as doenças físicas, ou psicofísicas, mas o ato de tentar compreender o mistério da vida, os desvãos do raciocínio humano, o exercício do intelecto e a ambição de abarcar o conhecimento universal. Há por certo, no romance Quincas Borba, o personagem principal, Rubião, que acaba louco, imaginando ser Napoleão III. Mas a se contrapor a esta exceção haverá a Casa Verde de O alienista e seu idealizador, dr. Simão Bacamarte, e todos os contos fantásticos, alegóricos e delirantes ocorridos por meio de sonhos, delírios ou enganos da percepção da realidade.

Está incluída no pensamento machadiano a ideia de que a loucura é parte componente da sanidade mental dos homens, em graus maiores e menores. Existe a percepção de que o mundo não é organizado, mas, sim, uma série de eventos que tendem ao disperso, inusitado e, em alguns casos, à irrealidade. As relações sociais não são saudáveis e, se servem para manter o equilíbrio da sociedade, mostram o desconcerto das emoções e razões mesquinhas, algumas beirando a insanidade. As disparidades de classe e de comportamento amoral são desculpadas pela sociedade. Vimos o Cotrim, rico senhor impiedoso de escravos, mas benemérito de ações beneficentes, homem honrado e pai amoroso que por sua vez recebeu benesses do governo por intermédio justamente de Brás Cubas. Esta classe dominante tende ao desequilíbrio e ao desconcerto. Não é apenas a hipocrisia, mas a constatação de que os peões mexidos no jogo de xadrez social estão plenos de contradições e de desacertos mentais.

 

 

 

 

Jó, romance de um homem simples, de Joseph Roth

A DIÁSPORA QUE ESTÁ EM NÓS








Ronaldo Costa Fernandes



        A diáspora está por trás de toda literatura feita por judeus sobre temática judia, seja de maneira explícita, seja de maneira implícita. No caso de Joseph Roth, sua literatura contém todos os elementos da literatura de cunho judaico, sem perder a modernidade e ser um dos grandes livros da literatura de língua alemã. E mais ainda quando sua história é uma declarada paródia à bíblica história de Jó que desafiou Deus. Jó não é o único personagem da Bíblia a ser testado por Deus. Deus gosta de colocar seus filhos mais amados numa provação que chega ao limite do desespero. Não é diferente aqui com esse Jó russo e judeu, chamado Mendel Singer, que emigra de um vilarejo pobre da Rússia, onde é simplório professor, para os Estados Unidos, para se tornar pária. Sua recompensa virá ao final, depois de sofrer provação e blasfemar severamente.
Jó, romance de um homem simples é tradicional em sua forma de apresentação linear e contínua, tendo um só narrador onisciente. Mas a aparente fábula e paródia de Roth tem tanto vigor narrativo e sua construção em ritmo trepidante, emocional e direta carrega muito da modernidade de outros seus contemporâneos. O livro, dizem alguns críticos, se insere entre as grandes narrativas do princípio do século XX.
        Joseph Roth (1894-1939) nasceu em Brody, cidade que integrava o Império Austro-Húngaro, hoje pertencente à Ucrânia. Jornalista de êxito, dedicou-se à literatura no final dos anos vinte. Tem outras narrativas, entre elas o romance A marcha de Radetzky. A Cia das Letras publicou, em 2006, Berlim, em sua série de jornalismo literário. Em 1933, emigra para a França onde irá falecer no final da mesma década. Querem colocá-lo entre os renovadores da literatura moderna, mas Joseph Roth é um grande narrador, excelente romancista, um dos grandes mestres do século XX, mas não se enquadra na tropa vanguardista de Proust, Kafka e Joyce, em que querem alistá-lo.
Jó, romance de um homem simples trabalha também com um dos elementos primordiais das antigas narrativas: a metamorfose. Não a metamorfose fantástica, mas a transformação inesperada e a surpresa a partir da transformação. Muito utilizada nas narrativas até o romantismo, a transformação radical, não a lenta maturação psicológica do personagem ou a mudança de comportamento, deixa no romance um traço da tradição – laica e religiosa – que permeia a história de escrita por Roth.
        Não são poucos os que criticam a América como lugar de sonho e de degradação, das perdas dos valores fundamentais. América é a fuga e o mal, Deus e o Diabo. O país da oportunidade e da propalada igualdade social é aquele que manda o filho de Mendel para morrer na guerra por uma pátria que supostamente não é a dele. Mendel Singer é mais que um imigrante judeu: Singer é a desilusão com o mundo da terra prometida. América não é Canaã
        Um espírito de fábula moderna permeia o romance e o insere na tradição das narrativas moralistas. São moralistas os escritores ingleses e franceses do séc. XVIII: Stern, Fielding, na Inglaterra, e, na França, Diderot e Voltaire. Embora todos esses citados tenham influenciado o nosso Machado e sejam irônicos, o caráter moralista da fábula de Roth não é isento de outro tipo de ironia: a ironia ácida, o destino visto como trapaça irônica. Não há sarcasmo nem humour, mas o que o povo chama de ironia do destino. A fábula de Roth, como toda fábula, também torna o particular coletivo. O drama de Mendel Singer não é só o drama individual, mas o drama de seu povo. Roth amplia a condição humana. E Jó    passa a ser todo o povo sofrido e perseguido.
        Nesse sentido mais amplo, diria que a fábula explícita de Roth torna-se um dos paradigmas do romance moderno. O romance moderno é uma fábula moralista em que é elidido o segundo elemento de comparação. Moralistas são os escritores modernos na medida em que não querem apenas deliciar seu público leitor (falo dos escritores sérios e não autores de outro gênero e espécie), mas ao transgredir estética e tematicamente estão apontando para uma degradação social. E, mesmo quando são autores intimistas ou solipsistas, a moralidade está em rejeitar a massificação e condená-la por rejeitar o humanismo. O mergulho na subjetividade não é alienação, mas o recurso para buscar no fundo do homem sua humanidade última como quem recolhe água barrenta do fundo de um poço vazio. Mas Jó, romance de um homem simples é garantia de emoção e beleza, de uma história rica de encantamento como nas fábulas antigas e que agradará a leitor comum e a leitor exigente, pois Roth tem a magia de um povo milenar cujas narrativas já seduziram todo gênero de público.




domingo, 31 de maio de 2026

A chuva



Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem retirada da internet: chuva