
Ronaldo Costa Fernandes
terça-feira, 14 de julho de 2026
Vieira na ilha do Maranhão 2

ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
quinta-feira, 9 de julho de 2026
A personagem do romance 5
(pode ser pedido por correio para a Academia Maranhense de Letras, 2023, ou ebook na Amazon)
A vocação do leitor
Haveria outro nível de apreensão e
decodificação da informação. É aquela feita pelo crítico que busca descobrir mecanismos
de significação que ficaram despercebidos na informação objetiva, na transmissão
de conhecimento do personagem. A observação do crítico pode levar a se
assemelhar à apreensão íntima e difusa, emocional e individual do leitor. Há,
contudo, diferença de códigos. O leitor tem seu código particular e emocional.
O crítico busca um código inconsciente produzido pelo imaginário particular do
autor que ao mesmo tempo pertence, sem que o autor disso se dê conta, ao
imaginário coletivo. O código coletivo
também é difuso, ambíguo e dissimulado. Para isso o crítico vai buscar conexões,
atos falhos narrativos, símbolos escondidos, estruturas mentais subjacentes à
historinha da ficção apresentada.
O leitor neste caso seria um crítico
involuntário e não busca mais que a estesia, mas ao longo da narrativa se
envolve numa série de emoções que o remetem a outro patamar, deixam-no seduzido,
e a uma só vez intrigado com a perturbação que o texto lhe causou. Não irá
buscar, como o crítico, comportamentos escamoteados voluntariamente ou não pelo
autor. Sentirá que o poder da ficção foi além da história contada e que,
durante a leitura, não apenas se transportou para outros ambientes, países ou situações,
mas que esteve envolvido num processo silencioso e perturbador de remexer
emoções ocultas.
Seria o caso de perguntar se a razão
é emotiva e se a emoção produzida pela leitura poderá ser racional. Não há
resposta, embora seja sugerido aqui que nenhuma razão narrativa está desprovida
de carga simbólica e poucas vezes a emoção pode descartar a objetividade da
informação.
Num jogo de espelhos, o personagem
atua numa via de mão dupla: a projeção e introjeção. Aquele que primeira
projeta as características físicas e mentais do personagem é o autor. E aquele
que recebe as informações sobre estas é o leitor. O leitor logo elabora, reduz,
induz e reescreve aquilo de que foi destinatário. Não se finda aí o processo de
assimilação. O próprio autor também foi corrompido pelo processo
projeção/introjeção.
No caso do autor, a realidade, ou a
dita realidade, é aquela que ele introjetou inicialmente. O autor passou de
ativo, ou melhor, antes de ser um ator ativo, o autor é um elemento passivo da
realidade. Sabemos, contudo, que ninguém recebe passivamente o que vem de fora
e que o processo de reelaboração do que é visto e sentido é complexo.
Posto que o autor também elabora seu
personagem, recebendo informação de fora e o introjeta, o papel ativo de
relatar o personagem não é apenas um ato ativo e uma atitude sem conflitos de
comunicação. O leitor não tem a possibilidade de responder às informações do
autor e devolvê-las a ele. Mas também é um ente ativo e dinâmico, cujo
processo, vimos apontando, não é nada sereno e direto.
Voltemos então ao autor: este entra
em embate com o seu personagem. Também tem angústias, dúvidas, ódio e amor. Não
é incomum alguns autores relatarem terem chorado ao matar determinado
personagem ou descrever uma cena. O autor, indagado, relatara superficialmente
a construção do seu personagem. Ocorre que o autor também desconhece o processo
difícil e belicoso de criação de criaturas de papel. Fazê-las moverem-se,
interagirem, crescerem e definhar. Também não é nada incomum o autor relatar
que determinados personagens que eram secundários passarem a ter certo
protagonismo contra a ideia inicial.
Emerge do inconsciente e da mecânica
ficcional um vulcanismo devastador. Muitos autores desconhecem profundamente
sua personagem, embora passem uma imagem cabal sobre ela. Atuam no processo de
criação mecanismos que nem mesmo Freud conseguiu descobrir. Freud estudou
alguns livros. Analisou puerilmente personagens, e, de forma distorcida e
redutora, o parricídio em Dostoiéviski e tentou entender o inconsciente de
Goethe. As reflexões sobre Gradiva de
Jensen são de uma precariedade tanto crítica, quanto do ponto de vista
psicanalítico, em que reafirma seus princípios teóricos sem nada acrescentar. Em
O Estranho, o artigo sobre o
fantástico, Freud traz contribuições para uma leitura de um fenômeno literário.
Este livro não pretende discutir a
contribuição da crítica psicanalítica para a teoria da literatura. As observações
que aqui faço a respeito do personagem diz mais à relevância, sim, das ideias
de Freud e outros pesquisadores sobre o inconsciente e outras manifestações da
psique diante de mecanismos de transferência e cerceamento da liberação de
angústias de traumas. O volume de Freud O chiste e sua relação com o
inconsciente nos fala mais que psicanalisar personagens e/ou classificá-los
sob a ótica de comportamentos mentais.
Não está no propósito da crítica
literária fazer a análise do autor pelo personagem. É uma aventura perigosa, em
vão, e que nada contribui para o desenvolvimento do estudo da literatura. O
personagem não é uma pessoa viva. E para passar por um processo de leitura
deste gênero teria que se deitar no divã três vezes por semana durante vários
anos.
Contudo, o autor aqui e ali sinaliza
com seus conflitos e pode ser, sim, interpretado, não o autor, mas o
comportamento do personagem, com elementos da análise psicanalítica.
Contradição? Não. Digo que termos e mecanismos descobertos pela psicanálise
podem e devem ser usados na crítica literária, mas que não é possível se
“analisar” o autor através de sua proposta ficcional, que está carregada, na
criação, de processos dolorosos e inconscientes, mas que não cabem à crítica literária
chegar até o autor por intermédio do seu personagem.
O próprio Freud foi, dentro de sua
modéstia, salutar em reconhecer a dificuldade de trabalhar com a obra
literária. No final do livro Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, ele
alerta que talvez o autor não concordasse com sua análise. E cita duas
hipóteses. A primeira seria que
Talvez tenhamos produzido apenas uma caricatura de uma
interpretação, atribuindo a uma inocente obra de arte propósitos desconhecidos
pelo autor, e demonstrando assim, mais uma vez, como é fácil vermos em toda a
parte aquilo que se procura e que está ocupando nossa mente – possibilidade da
qual a história da literatura nos fornece os exemplos mais estranhos.
Na segunda, Freud, que refuta a
primeira hipótese em nome de um desconhecimento do processo psicanalítico do
próprio autor, aponta que tanto o autor quanto ele trabalharam “com o mesmo
método”.
Acreditamos que o autor não necessitava conhecer essas
regras e propósitos, podendo então tê-las refutado de boa-fé, mas acreditamos
também que nada descobrimos em sua obra que ali não exista. Provavelmente
bebemos na mesma fonte e trabalhamos com o mesmo objetivo, embora cada um com
seu próprio método. A concordância entre nossos resultados parece garantir que
ambos trabalhamos corretamente. Nosso processo consiste na observação
consciente de processos mentais anormais em outras pessoas, com o objetivo de
poder deduzir e mostrar suas leis. Sem dúvida o autor procede de forma diversa.
Dirige sua atenção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas
possíveis manifestações, e expressando-as através da arte, em vez de
suprimi-las por uma crítica consciente. Desse modo, experimenta a partir de si
mesmo o que aprendemos de outros: as leis a que as atividades do inconsciente
devem obedecer. Mas ele não precisa expor essas leis nem dar-se claramente
conta delas; como resultado da tolerância de sua inteligência, elas se
incorporam à sua criação.[1] [grifo nosso]
[1]
FREUD. Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Tradução Maria
Aparecida Moraes Rego. Rio: Imago, 2003. p. 97.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)
sábado, 4 de julho de 2026
Borges, Vargas LLosa, Euclides da Cunha: dá para separar o homem e o criador?
A
literatura e o ódio da direita
Por seu lado, Jorge Luís Borges, num
momento delicado da ditatura argentina, deu entrevista defendendo os militares.
Alguns afirmam que ali perdia ele o Prêmio Nobel. O prêmio norueguês é político?
Curioso observar que Jean Paul Sartre, feroz marxista, e Albert Camus, ferrenho
crítico da União Soviética, também o ganharam. Logo, a afirmação acima perde um
pouco de lustro. A literatura de Borges é revolucionária. Mas, pode ser vista
como escapista. Quando realista, se refere preponderantemente a uma Argentina
que não é sua contemporânea. E, quando idealista, visa mundos etéreos, apresentando-se
alegórica e mitológica. Contudo, o que nos interessa aqui é observar que a literatura
de Borges não se mostra defensora de autoritarismo e, em nenhuma linha, se
poderá encontrar um laivo qualquer do homem político que foi vigorosamente
antiperonista quando Perón, ainda que populista, também podia ser visto como o
defensor dos pobres.
Bem diverso, mas dentro do mesmo
espectro, se encontra o caso de o Partido Comunista Brasileiro tentar criar uma
cartilha de escrita baseada nas teorias de Andrei Jdanov. Raquel de Queiróz e
Graciliano Ramos sofreram com a interferência do partidão que censurava obras
dos dois escritores e propunha que as reescrevessem sob a égide do realismo
socialista. “Esse Jdanov é um cavalo”, gritou certa vez Graciliano numa reunião
para discutir justamente as ideias do soviético. Os membros do partido,
inclusive um crítico tão perspicaz como Astrojildo Pereira, caíra no
lugar-comum de exigir dos escritores como Graciliano Ramos o herói positivo.
Todas os pensamentos sonambúlicos de um herói derrotado como Luís da Silva, em Angústia,
seriam desvios de um formalismo burguês.
O espanhol Camilo José Cela era um
bom vanguardista. Dois romances são especialmente modernos: o de estreia, A
família de Pascual Duarte, e A Colmeia. Este último, influenciado
por John dos Passos, mostra uma Madri dos anos de Franco sem personagem
principal. A colmeia a que se refere é a multidão anônima que percorre suas
páginas: pequenos burgueses, pobres, gente rica, tudo em vários ambientes como edifícios,
casas, ruas e transportes. A vertente social é forte em Cela, e não se
encontra, nos dois romances, deslize de cunho fascista.
Ocorre
que o cidadão Cela não tinha nenhum caráter. Sua atividade política era
desastrosa, cretina e perigosa. Foi censor, oferecia-se para criar um plano de
cooptação de escritores, buscou os órgãos de repressão sistematicamente,
elogiava o ditador. Ganhou o prêmio Nobel, o que causou repulsa ainda maior
daqueles que sofriam a repressão sanguinolenta do regime franquista. Foi o
fundador da editora Alfaguara em 1964. Em 1997, com a restauração democrática,
posou de liberal. O rei o nomeou senador para a Constituinte.
Mais
difuso é o caso de Euclides da Cunha. Até hoje, o autor de Os sertões é visto
como um vingador social. Denunciou a violência de Estado, a histeria da
sociedade, o genocídio de Canudos. Entre dois polos, ele seria posto na
esquerda. Mas Euclides é mais que o erudito que escreveu sobre um morticínio. É
o estilista genial, o construtor de uma linguagem própria, o fundador de uma
escola que se esgota em si mesmo.
Nos
últimos tempos, de revisionismo, surge outro: o Euclides racista. O problema
aqui não é o homem e a obra. É a obra e a obra. Euclides condenou a mestiçagem.
“A mistura das raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial.” “O
mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se
comprimem esforços seculares – é quase sempre um desequilibrado”, escreve. Como
afirma Luís Cláudio Villafañe, na sua biografia de Euclides: “Na sua famosa
frase ‘O sertanejo é antes de tudo um forte’, se esquece da frase seguinte: ‘Não
tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral’”.
A
seu favor conta que se definia como “misto de celta (branco), de tapuia e
grego”. Para Euclides, ao contrário da
luta de classes marxista, baseado em Gumplowicz, o motor da história era a luta
de raças. Com “o esmagamento inevitável
das raças fracas pelas raças fortes”. Cabe dizer aí que a raça forte é o
branco.
Também
não lhe cabe a primazia da denúncia. Euclides, que não presenciou a luta, fez
paráfrases de livro de 1898 de Dantas Barreto, este, sim, testemunha ocular. Ou
dos artigos, em 1897, de Siqueira de Menezes em O paiz.
Gilberto
Freyre já havia “inocentado” Euclides da desatualização metodológica, do
anacronismo de vários conceitos sobre antropologia, sociologia, botânica e
geologia. O poeta havia se sobreposto ao cientista. O artista havia
interpretado com palavras cheias de força... “os sertões abandonados, os
sertanejos esquecidos”.
Ronaldo
Costa Fernandes é poeta e romancista. Vieira na ilha do Maranhão é um
dos seus romances. Em poesia, ganhou o Prêmio da Academia Brasileira de Letras
com A máquina das mãos (2009, 7Letras). É doutor em Literatura pela UnB.
Mora em Barcelona.
ganhou, entre outros, os prêmios de Revelação de Autor da APCA, o Casa de las Américas e o Guimarães Rosa. No ano de 1998, edita Terratreme, poesia, livro que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Fundação Cultural do DF. Durante nove anos dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. É Doutor em Literatura pela UnB. Em 2000, publica o livro de poemas Andarilho, da ed. 7Letras. Em 2004, sai Eterno Passageiro (Ed. Varanda). Em 2005, pela Ed. LGE, lança o romance O viúvo, que o crítico Adelto Gonçalves chamou “de uma das primeiras obras primas da literatura brasileira do séc. XXI”. Em 2007 lançou dois livros: Manual de Tortura (Esquina da Palavra, contos, 2007) e A Ideologia do personagem brasileiro (Editora da UnB, ensaio, 2007). Em 2009, sai A máquina das mãos, poemas, publicado pela 7Letras, que ganhou o Prêmio de Poesia 2010, da Academia Brasileira de Letras. Em dezembro de 2010 lança o romance Um homem é muito pouco. Memória dos Porcos é publicado em 2012. O difícil exercício das cinzas, de 2014, é seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016) e, mais recente, Matadouro de Vozes (2018)