Ronaldo Costa Fernandes
As
mulheres em Memórias estão hierarquizadas. São elas Virgília, Marcela e
Eugênia e Nhã-Loló. A de classe mais baixa é Eugênia, moça de dezesseis anos
que nunca tivera nem mesmo a experiência do beijo. É bonita, graciosa,
charmosa, mas tem dois defeitos: é pobre, filha de uma experiência amorosa
espúria da mãe, e coxa. Está, pois, no último degrau social da hierarquia. Não
pertence à classe ociosa e dominante, não vive de rendas nem tem família com
títulos e posições dentro da estrutura social do Império. Virgília está no
topo, de boa família, pai importante, com grandes relações de poder que poderá
levar Brás Cubas à carreira política. Aliam-se nela o pragmatismo das relações
com a beleza da criatura. Nela, o personagem não encontra nenhum obstáculo para
levar a cabo sua ascensão social. No
meio das duas se encontra a lascívia. Brás Cubas teve seu primeiro intercurso
amoroso com Marcela, uma espanhola de hábitos livres. Sugere-se que ela
mantinha amantes e amava joias. É dela que o narrador diz “Marcela amou-me
durante quinze meses e onze contos de réis”. É ela o lado outsider, os
instintos, a luxúria, a vida entre luxos, gastos exorbitantes, ganância e
interesse monetário, o vício e a vida desbragada. E por fim Nhã-loló, sobrinha
do Cotrim, moça bonita e que a família deseja casada com o protagonista e que
morre prematuramente de febre amarela.
Enquanto
no romance naturalista o sexo e o amor eram emulados pela tara, o destempero, o
desejo imperioso da carne, no romance realista flaubertiano o adultério é mais
um fenômeno psicológico, fruto do descaso do parceiro e das aspirações
sonhadoras de viver um grande amor como é o caso de Madame Bovary. Ora, no caso
de Brás Cubas o que vamos encontrar é uma mulher, Virgília, que trai o marido
sem grande motivo aparente. Se antes não queria muita coisa com Brás, depois de
casada passa a viver um amor tórrido. Machado não cria um aprofundamento
psicológico em relação a Virgília. Sofia, personagem do romance Quincas
Borba, é mais bem desenhada. É fútil, ambiciosa – ambiciosa Virgília também
é –, com o pensamento de traição difuso, sem se fixar em nenhum amante, antes
buscando mais sonhadoramente do que realizando o ato do adultério, Virgília é
sem pudores, instintiva, arrebatadora e arrebatada. Se pensarmos que mesmo
criando uma linhagem de personagem Flaubert não conseguiu realizar ainda o
intento de uma mulher livre – procedimento que os autores libertinos do século
anterior haviam realizado como, entre outros, Choderlos de Laclos em Ligações
perigosas – pois irá ao final do romance “condenar” Madame Bovary ao
suicídio, Machado não “julga” Virgília. Neste sentido, também não julgará
Capitu, pois o julgamento e condenação de adúltera vem do narrador do romance,
Bentinho, seu marido, de onde nascem todas as dúvidas em relação ao personagem.
No
ensaio que escrevi sobre os contos fantásticos de Machado de Assis – que não
são poucos – observei que o exorbitante, o mágico e o próprio fantástico
passavam pelo filtro da cultura, ou seja, estava permeado de considerações,
causas e provocações da cultura. Não eram ingênuos, gratuitos ou fruto da
fabulação popular, mas fruto do pensar e da cultura.
Entre
outros, os maiores temas de Machado são a obsessão pelo status, a luta pelo
poder, a loucura e o adultério. Em alguns momentos os três temas se confundem.
A ânsia de permanência e de glória levará Brás Cubas ao desconcerto das ideias.
Quincas Borba, que morre no romance do mesmo nome, é um desvairado filósofo com
sua teoria do Humanitismo. A busca da fama e de posição política, título
nobiliárquico, como o baronato de Santos em Quincas Borba, ou alcançar o
cargo de ministro, transtornam os homens. O adultério – ou o quase adultério,
como chama o próprio narrador também em Quincas Borba, de Sofia – ou a
desconfiança do adultério de Capitu, está mesclado nessa ambiência de poder e
loucura.
Não
encontrei nenhum crítico (Bosi, Roberto Schwarcz, Faoro, Augusto Meyer etc.)
que aproximasse “O delírio” à teoria do Humanitas de Quincas Borba. Ambos estão
muito próximos por várias circunstâncias. A primeira se refere a manifestações
da loucura, uma do inconsciente mostrando suas vísceras, a segunda, através da
loucura – ou seja, ainda do inconsciente – do autor da teoria do “Ao vencedor,
as batatas!”. O que expõe Quincas Borba em sua teoria do mais adaptado e do
mais forte, e de que tudo se explica pela voracidade animal que não julga as
ações humanas, também pode ser visto no aparecimento de Pandora ou Natureza que
explica todas as misérias humanas pelo caráter fatalista e instintivo do ser
humano. Embora “O delírio” esteja mais próximo do inconsciente, a teoria
filosófica de Quincas Borba é elaborada por um sujeito tomado pela loucura. O
curioso é que a filosofia de Quincas Borba não é de todo disparatada. É uma
crítica muito lúcida, ainda que eivada de humor ácido. O inconsciente aqui é
deslocado do objeto – a filosofia – para o sujeito – Quincas Borba.
E
por fim ambas estão, como disse ao início, dentro do espectro da cultura. O
delírio de Brás Cubas é culto, e o discurso de Quincas Borba está dentro do
marco da filosofia, ou seja, de um instrumento de conhecimento elaborado pela
cultura.
A
razão é caricata na ridicularização do positivismo, do darwinismo social, mas
ao mesmo tempo é com a razão que instrumentaliza sua crítica da razão. A razão
exacerbada, a razão cultuada pela filosofia é a mesma razão de que se utiliza
Machado para criticá-la. Não é a emoção, não são os sentidos, não é a vontade,
estado primário do conhecimento, como queria Schopenhauer, mas aquilo que o
filósofo alemão chamou de conhecimento secundário, o intelecto, que permite a
Machado colocá-la no plano do ridículo e do escárnio. É a crítica da razão e da
ciência elevada a um grau de divindade e método infalível que leva o niilista
Machado descrer das conquistas do homem e de seu repertório de receitas para o
salvamento do gênero humano, como diz a carta que Quincas Borba escreve para
Brás Cubas para antecipar o seu método. O Humanitismo descreve “a origem e a
consumação das cousas [...] retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura
felicidade”. E num último arroubo, a se igualar a vários personagens
machadianos que são ambiciosos e lutam pela fama e poder, o Humanistas “enche
de glória o nosso país”.
Leitor
e admirador de Schopenhauer, conhecido pela filosofia do império da vontade
sobre a razão, Machado chega mesmo a ser crítico de quem o influenciou com seu
pessimismo e desalento em relação à espécie humana. Dar naturalidade às
vontades espúrias ou não do homem, expondo sua luta sangrenta – atenuada pelos
avanços civilizatórios, mas ainda assim sangrentos à sua maneira moderna – é
relato da luta pela vida apresentada por Darwin. Levado ao plano social do
convívio entre os povos e entre os homens, o darwinismo afirma a prevalência do
mais forte e do mais adaptado. Entre dois grupos humanos que guerreiam ganha
aquele que é mais forte, ou seja, o grupo que conquistou seu direito às
batatas. Ao vencedor as batatas! Machado não é contra ou a favor do darwinismo
social, até porque não é um filósofo nem muito menos um ensaísta. O que lhe
cabe é o descrédito de quem acredita que a humanidade possa ser explicada em
poucas linhas ou que uma só visão dê respostas às complexidades da vida humana
e da vida em sociedade.
A
loucura, como vimos, principalmente representada por Quincas Borba, é um desvio
mental ligado ao conhecimento universal. Não é apenas uma paranoia, uma
depressão severa, um desacordo lírico entre a realidade e o sonho, não, a
loucura em Machado está incrustrada na cultura e na filosofia como um diamante
no seu suporte de anel. Quase está a dizer que pensar, e pensar
filosoficamente, não é uma operação de cientistas, mas uma doença do filosofar.
O pensamento da cultura e a cultura do pensamento levam à loucura. Não levam à
loucura, como em outros autores, o amor desbragado, o amor incompreendido, as
paixões, ou mesmo as doenças físicas, ou psicofísicas, mas o ato de tentar
compreender o mistério da vida, os desvãos do raciocínio humano, o exercício do
intelecto e a ambição de abarcar o conhecimento universal. Há por certo, no
romance Quincas Borba, o personagem principal, Rubião, que acaba louco,
imaginando ser Napoleão III. Mas a se contrapor a esta exceção haverá a Casa
Verde de O alienista e seu idealizador, dr. Simão Bacamarte, e todos os
contos fantásticos, alegóricos e delirantes ocorridos por meio de sonhos,
delírios ou enganos da percepção da realidade.
Está
incluída no pensamento machadiano a ideia de que a loucura é parte componente
da sanidade mental dos homens, em graus maiores e menores. Existe a percepção
de que o mundo não é organizado, mas, sim, uma série de eventos que tendem ao
disperso, inusitado e, em alguns casos, à irrealidade. As relações sociais não
são saudáveis e, se servem para manter o equilíbrio da sociedade, mostram o
desconcerto das emoções e razões mesquinhas, algumas beirando a insanidade. As
disparidades de classe e de comportamento amoral são desculpadas pela
sociedade. Vimos o Cotrim, rico senhor impiedoso de escravos, mas benemérito de
ações beneficentes, homem honrado e pai amoroso que por sua vez recebeu
benesses do governo por intermédio justamente de Brás Cubas. Esta classe
dominante tende ao desequilíbrio e ao desconcerto. Não é apenas a hipocrisia,
mas a constatação de que os peões mexidos no jogo de xadrez social estão plenos
de contradições e de desacertos mentais.