quinta-feira, 9 de julho de 2026

A personagem do romance 5

 







 

(pode ser pedido por correio para a Academia Maranhense de Letras, 2023, ou ebook na Amazon)


A vocação do leitor

 

            Haveria outro nível de apreensão e decodificação da informação. É aquela feita pelo crítico que busca descobrir mecanismos de significação que ficaram despercebidos na informação objetiva, na transmissão de conhecimento do personagem. A observação do crítico pode levar a se assemelhar à apreensão íntima e difusa, emocional e individual do leitor. Há, contudo, diferença de códigos. O leitor tem seu código particular e emocional. O crítico busca um código inconsciente produzido pelo imaginário particular do autor que ao mesmo tempo pertence, sem que o autor disso se dê conta, ao imaginário coletivo.  O código coletivo também é difuso, ambíguo e dissimulado. Para isso o crítico vai buscar conexões, atos falhos narrativos, símbolos escondidos, estruturas mentais subjacentes à historinha da ficção apresentada.

            O leitor neste caso seria um crítico involuntário e não busca mais que a estesia, mas ao longo da narrativa se envolve numa série de emoções que o remetem a outro patamar, deixam-no seduzido, e a uma só vez intrigado com a perturbação que o texto lhe causou. Não irá buscar, como o crítico, comportamentos escamoteados voluntariamente ou não pelo autor. Sentirá que o poder da ficção foi além da história contada e que, durante a leitura, não apenas se transportou para outros ambientes, países ou situações, mas que esteve envolvido num processo silencioso e perturbador de remexer emoções ocultas.

            Seria o caso de perguntar se a razão é emotiva e se a emoção produzida pela leitura poderá ser racional. Não há resposta, embora seja sugerido aqui que nenhuma razão narrativa está desprovida de carga simbólica e poucas vezes a emoção pode descartar a objetividade da informação.

            Num jogo de espelhos, o personagem atua numa via de mão dupla: a projeção e introjeção. Aquele que primeira projeta as características físicas e mentais do personagem é o autor. E aquele que recebe as informações sobre estas é o leitor. O leitor logo elabora, reduz, induz e reescreve aquilo de que foi destinatário. Não se finda aí o processo de assimilação. O próprio autor também foi corrompido pelo processo projeção/introjeção.

            No caso do autor, a realidade, ou a dita realidade, é aquela que ele introjetou inicialmente. O autor passou de ativo, ou melhor, antes de ser um ator ativo, o autor é um elemento passivo da realidade. Sabemos, contudo, que ninguém recebe passivamente o que vem de fora e que o processo de reelaboração do que é visto e sentido é complexo.

            Posto que o autor também elabora seu personagem, recebendo informação de fora e o introjeta, o papel ativo de relatar o personagem não é apenas um ato ativo e uma atitude sem conflitos de comunicação. O leitor não tem a possibilidade de responder às informações do autor e devolvê-las a ele. Mas também é um ente ativo e dinâmico, cujo processo, vimos apontando, não é nada sereno e direto.

            Voltemos então ao autor: este entra em embate com o seu personagem. Também tem angústias, dúvidas, ódio e amor. Não é incomum alguns autores relatarem terem chorado ao matar determinado personagem ou descrever uma cena. O autor, indagado, relatara superficialmente a construção do seu personagem. Ocorre que o autor também desconhece o processo difícil e belicoso de criação de criaturas de papel. Fazê-las moverem-se, interagirem, crescerem e definhar. Também não é nada incomum o autor relatar que determinados personagens que eram secundários passarem a ter certo protagonismo contra a ideia inicial.

            Emerge do inconsciente e da mecânica ficcional um vulcanismo devastador. Muitos autores desconhecem profundamente sua personagem, embora passem uma imagem cabal sobre ela. Atuam no processo de criação mecanismos que nem mesmo Freud conseguiu descobrir. Freud estudou alguns livros. Analisou puerilmente personagens, e, de forma distorcida e redutora, o parricídio em Dostoiéviski e tentou entender o inconsciente de Goethe. As reflexões sobre Gradiva de Jensen são de uma precariedade tanto crítica, quanto do ponto de vista psicanalítico, em que reafirma seus princípios teóricos sem nada acrescentar. Em O Estranho, o artigo sobre o fantástico, Freud traz contribuições para uma leitura de um fenômeno literário.

            Este livro não pretende discutir a contribuição da crítica psicanalítica para a teoria da literatura. As observações que aqui faço a respeito do personagem diz mais à relevância, sim, das ideias de Freud e outros pesquisadores sobre o inconsciente e outras manifestações da psique diante de mecanismos de transferência e cerceamento da liberação de angústias de traumas. O volume de Freud O chiste e sua relação com o inconsciente nos fala mais que psicanalisar personagens e/ou classificá-los sob a ótica de comportamentos mentais.

            Não está no propósito da crítica literária fazer a análise do autor pelo personagem. É uma aventura perigosa, em vão, e que nada contribui para o desenvolvimento do estudo da literatura. O personagem não é uma pessoa viva. E para passar por um processo de leitura deste gênero teria que se deitar no divã três vezes por semana durante vários anos.

            Contudo, o autor aqui e ali sinaliza com seus conflitos e pode ser, sim, interpretado, não o autor, mas o comportamento do personagem, com elementos da análise psicanalítica. Contradição? Não. Digo que termos e mecanismos descobertos pela psicanálise podem e devem ser usados na crítica literária, mas que não é possível se “analisar” o autor através de sua proposta ficcional, que está carregada, na criação, de processos dolorosos e inconscientes, mas que não cabem à crítica literária chegar até o autor por intermédio do seu personagem.

            O próprio Freud foi, dentro de sua modéstia, salutar em reconhecer a dificuldade de trabalhar com a obra literária. No final do livro Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, ele alerta que talvez o autor não concordasse com sua análise. E cita duas hipóteses. A primeira seria que

 

            Talvez tenhamos produzido apenas uma caricatura de uma interpretação, atribuindo a uma inocente obra de arte propósitos desconhecidos pelo autor, e demonstrando assim, mais uma vez, como é fácil vermos em toda a parte aquilo que se procura e que está ocupando nossa mente – possibilidade da qual a história da literatura nos fornece os exemplos mais estranhos.

 

            Na segunda, Freud, que refuta a primeira hipótese em nome de um desconhecimento do processo psicanalítico do próprio autor, aponta que tanto o autor quanto ele trabalharam “com o mesmo método”.

 

            Acreditamos que o autor não necessitava conhecer essas regras e propósitos, podendo então tê-las refutado de boa-fé, mas acreditamos também que nada descobrimos em sua obra que ali não exista. Provavelmente bebemos na mesma fonte e trabalhamos com o mesmo objetivo, embora cada um com seu próprio método. A concordância entre nossos resultados parece garantir que ambos trabalhamos corretamente. Nosso processo consiste na observação consciente de processos mentais anormais em outras pessoas, com o objetivo de poder deduzir e mostrar suas leis. Sem dúvida o autor procede de forma diversa. Dirige sua atenção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas possíveis manifestações, e expressando-as através da arte, em vez de suprimi-las por uma crítica consciente. Desse modo, experimenta a partir de si mesmo o que aprendemos de outros: as leis a que as atividades do inconsciente devem obedecer. Mas ele não precisa expor essas leis nem dar-se claramente conta delas; como resultado da tolerância de sua inteligência, elas se incorporam à sua criação.[1] [grifo nosso]

 

           

 



[1] FREUD. Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Tradução Maria Aparecida Moraes Rego. Rio: Imago, 2003. p. 97.


sábado, 4 de julho de 2026

Borges, Vargas LLosa, Euclides da Cunha: dá para sepatar o homem e o criador?

 

                                               A literatura e o ódio da direita

 

 

 


 

             Dá para separar o homem e o criador? Até certo ponto, dá. Mario Vargas Llosa, que já defendeu pautas da esquerda, durante boa parte da vida adulta e da velhice se tornou um reacionário, vergonhosamente defendendo figuras autoritárias da direita e extrema direita internacional. Ocorre, contudo, que Llosa, em seus livros, não demonstra nenhum viés ideológico, não há em seus romances uma defesa de regimes ditatoriais ou simpatia por personagens de extrema-direita, pelo contrário, os regimes autoritários são apresentados de forma crua e condenáveis e suas tramas estão mais para o elogio da liberdade e de causas sociais como a “biografia” da avó comunista de Gauguin, em O paraíso na outra esquina ou a biografia do diplomata irlandês Roger Casement, que denunciou o genocídio belga no Congo, em O sonho do celta.

            Por seu lado, Jorge Luís Borges, num momento delicado da ditatura argentina, deu entrevista defendendo os militares. Alguns afirmam que ali perdia ele o Prêmio Nobel. O prêmio norueguês é político? Curioso observar que Jean Paul Sartre, feroz marxista, e Albert Camus, ferrenho crítico da União Soviética, também o ganharam. Logo, a afirmação acima perde um pouco de lustro. A literatura de Borges é revolucionária. Mas, pode ser vista como escapista. Quando realista, se refere preponderantemente a uma Argentina que não é sua contemporânea. E, quando idealista, visa mundos etéreos, apresentando-se alegórica e mitológica. Contudo, o que nos interessa aqui é observar que a literatura de Borges não se mostra defensora de autoritarismo e, em nenhuma linha, se poderá encontrar um laivo qualquer do homem político que foi vigorosamente antiperonista quando Perón, ainda que populista, também podia ser visto como o defensor dos pobres.

            Bem diverso, mas dentro do mesmo espectro, se encontra o caso de o Partido Comunista Brasileiro tentar criar uma cartilha de escrita baseada nas teorias de Andrei Jdanov. Raquel de Queiróz e Graciliano Ramos sofreram com a interferência do partidão que censurava obras dos dois escritores e propunha que as reescrevessem sob a égide do realismo socialista. “Esse Jdanov é um cavalo”, gritou certa vez Graciliano numa reunião para discutir justamente as ideias do soviético. Os membros do partido, inclusive um crítico tão perspicaz como Astrojildo Pereira, caíra no lugar-comum de exigir dos escritores como Graciliano Ramos o herói positivo. Todas os pensamentos sonambúlicos de um herói derrotado como Luís da Silva, em Angústia, seriam desvios de um formalismo burguês.  

            O espanhol Camilo José Cela era um bom vanguardista. Dois romances são especialmente modernos: o de estreia, A família de Pascual Duarte, e A Colmeia. Este último, influenciado por John dos Passos, mostra uma Madri dos anos de Franco sem personagem principal. A colmeia a que se refere é a multidão anônima que percorre suas páginas: pequenos burgueses, pobres, gente rica, tudo em vários ambientes como edifícios, casas, ruas e transportes. A vertente social é forte em Cela, e não se encontra, nos dois romances, deslize de cunho fascista.

Ocorre que o cidadão Cela não tinha nenhum caráter. Sua atividade política era desastrosa, cretina e perigosa. Foi censor, oferecia-se para criar um plano de cooptação de escritores, buscou os órgãos de repressão sistematicamente, elogiava o ditador. Ganhou o prêmio Nobel, o que causou repulsa ainda maior daqueles que sofriam a repressão sanguinolenta do regime franquista. Foi o fundador da editora Alfaguara em 1964. Em 1997, com a restauração democrática, posou de liberal. O rei o nomeou senador para a Constituinte.

Mais difuso é o caso de Euclides da Cunha. Até hoje, o autor de Os sertões é visto como um vingador social. Denunciou a violência de Estado, a histeria da sociedade, o genocídio de Canudos. Entre dois polos, ele seria posto na esquerda. Mas Euclides é mais que o erudito que escreveu sobre um morticínio. É o estilista genial, o construtor de uma linguagem própria, o fundador de uma escola que se esgota em si mesmo.

Nos últimos tempos, de revisionismo, surge outro: o Euclides racista. O problema aqui não é o homem e a obra. É a obra e a obra. Euclides condenou a mestiçagem. “A mistura das raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial.” “O mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é quase sempre um desequilibrado”, escreve. Como afirma Luís Cláudio Villafañe, na sua biografia de Euclides: “Na sua famosa frase ‘O sertanejo é antes de tudo um forte’, se esquece da frase seguinte: ‘Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral’”.

A seu favor conta que se definia como “misto de celta (branco), de tapuia e grego”.  Para Euclides, ao contrário da luta de classes marxista, baseado em Gumplowicz, o motor da história era a luta de raças.  Com “o esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes”. Cabe dizer aí que a raça forte é o branco.

Também não lhe cabe a primazia da denúncia. Euclides, que não presenciou a luta, fez paráfrases de livro de 1898 de Dantas Barreto, este, sim, testemunha ocular. Ou dos artigos, em 1897, de Siqueira de Menezes em O paiz.

Gilberto Freyre já havia “inocentado” Euclides da desatualização metodológica, do anacronismo de vários conceitos sobre antropologia, sociologia, botânica e geologia. O poeta havia se sobreposto ao cientista. O artista havia interpretado com palavras cheias de força... “os sertões abandonados, os sertanejos esquecidos”.

 

 

 

 

 

Ronaldo Costa Fernandes é poeta e romancista. Vieira na ilha do Maranhão é um dos seus romances. Em poesia, ganhou o Prêmio da Academia Brasileira de Letras com A máquina das mãos (2009, 7Letras). É doutor em Literatura pela UnB. Mora em Barcelona.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Aventura cínica, poema RCF











Tento alisar a nervura 
selvagem da esperança
e evito os sonhos com superfície nodosa.

Meus poros são sóis abertos 
à ardência de um sentir
que gira em torno de mim.
Deito ao lençol de areia 
e me cubro de luz
para o espasmo mareado
das sensações desertoras.



(do livro Matadouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)