domingo, 20 de setembro de 2026

Giralua, poema

 

 


 

A canga do sereno

trepa nos meus ombros,

olho o jardim das giraluas,

que é o parente noturno

do girassol.

Tenho a disciplina rebelde

das águas encanadas,

o aquartelamento

dos sentidos,

a hipótese das velhas

cadernetas de telefone.

 

 

sábado, 19 de setembro de 2026

Esperança, poema

 

 


 

 

 

Não quero ter a esperança

dos bois de matadouro.

Sobreviver

como um pássaro

pousado na boca de um cão.

Alma seca e austera.

Vou à rua.

Trago o peso das compras

e a sugestão das vendas

nos olhos.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Náufrago, poema

 

 

 

 

Roberto Magalhães

 

 

 

Os aviões

farejam na pista

o capim cinza do asfalto.

O aeroporto são luzes

gritando e soluçando

no espaço de um pouso

e de uma decolagem

– a vida entre aspas.

Para nós que sobrevivemos

ao amigo suicida, ao louco

e ao que morreu na política,

a vida é o pasmo

de saber-se náufrago do ar.