sábado, 18 de julho de 2026

A personagem do romance 6

 









pode ser pedido por correio para a Academia Maranhense de Letras, 2023, ou ebook na Amazon)






A imagem e as várias leituras

           

            Para Sartre, apoiando-se em Leibniz, a imagem “continua sendo um fato semelhante aos outros fatos, a cadeira em imagem não é outra coisa senão a cadeira em realidade”.

 

            ... eis aí as três soluções que nos propõem as três grandes correntes da filosofia clássica. Nessas três soluções, a imagem conserva uma estrutura idêntica. Ela continua sendo uma coisa. Somente suas relações com o pensamento se modificam, conforme o ponto de vista adotado sobre as relações do homem com o mundo, do universal com o singular, da existência como objeto com a existência como representação, da alma com o corpo. Seguindo o desenvolvimento contínuo da teoria da imagem através do século XIX, constataremos talvez que essas três soluções são as únicas possíveis desde que aceito o postulado de que a imagem é apenas uma coisa e de que todas elas são igualmente possíveis e igualmente defeituosas.[1]

 

O autor, que detém uma imagem da realidade, que apreende mais que coisas da realidade, que busca expressar ideias ou comportamentos mentais, vê-se num labirinto. O que o autor relata já é uma apreensão de segundo grau. Ao repassar para o leitor, este terá uma leitura da leitura da realidade feita pelo autor. O leitor apreendera a cadeira que é “coisa”, que já é imagem da cadeira, e que será repassada para o leitor que, por sua vez, terá a imagem da imagem da cadeira. Sendo, porém, que a cadeira da realidade, a imagem da cadeira do autor, e a imagem da cadeira projetada na mente do leitor se concertem como coisas que por sua vez são realidades próprias.

            O que nos interessa neste momento é ressaltar o caráter abstrato e idealizado de uma realidade que é a realidade do leitor. Cada leitor elabora sua percepção do texto literário. Esta percepção é única e válida. Não representa, vale lembrar, que não estamos falando de interpretações críticas ou análises. Referimo-nos simplesmente à leitura do texto feita pelo leitor.

            Há um grande livro geral que se chama, por exemplo, Dom Casmurro e as leituras de cada leitor. A grande caracterização dos personagens permanece como um código comum. Os ciúmes de Bentinho e a descrição insinuante dos olhos de ressaca de Capitu. Os olhos que atraem e podem ser mortais como as águas conturbadas, violentas e traiçoeiras do mar. Mas a metáfora de Machado vai penetrar a imaginação de cada leitor de modo distinto e evocativo. Ao acessar a informação de olhos de ressaca, o leitor tentará alcançar a releitura da realidade feita por Machado, colocado na pena do seu narrador Bentinho. Esta leitura especial e unívoca do leitor é também coisa, realidade imaginativa em si.

            Certo ator de teatro brasileiro exprimiu o domínio do personagem. Disse ele que havia determinados personagens que ele sabia mais da psicologia daquela figura do que o próprio dramaturgo. Tanto estudara o personagem, tanto fizera laboratório, tanto se esforçara para reproduzir seus gestos e sua voz, que fora tomado por um conhecimento que o autor desconhecia. Eu diria que muitas vezes alguns leitores dominam mais o personagem, sabem mais dele, supõe informações complementares que o próprio escritor. O fato é que determinados leitores agregam às descrições físicas e mentais do personagem sua própria experiência com aquele tipo de pessoa.

            Essa complementaridade não é gratuita, intempestiva ou extemporânea. O autor lança outros dados, voluntariamente ou não, que lhe permitem expandir sua ambição narrativa – o leitor também tem sua narratividade. A narratividade do leitor diz respeito ao fato de que o leitor vocacionado também tem a disciplina do devaneio. Para que a leitura se torne efetiva, é necessário que o leitor tenha a capacidade também de ficcionar a ficção que está lendo. A narratividade do leitor faz parte do pacto da leitura, mas também é uma característica da personalidade do leitor. Esta habilidade e vocação narrativa do leitor são o que permite ao leitor interagir com a literalidade da narração.

 



[1] Sartre, Jean-Paul. A imaginação. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 23.



sexta-feira, 17 de julho de 2026

Um homem é muito pouco 30












            A guerra piorou, Vicentino teve de deixar Luanda às pressas. Antes Altiva disse que ia com ele para o Rio de Janeiro. Vicentino foi morar perto da Cruz Vermelha e no apartamento não havia como enterrar ninguém porque a cova era rasa. Podia ladrilhar o chão que não havia possibilidade de enterrar o passado no chão do apartamento. Vicentino pensou que estava livre de Altiva, mas ela amaldiçoou e disse que o esprito dela ia encarnar em outra negra brasileira ou não.

            A princípio Vicentino foi trabalhar com mármore. Seu pai tinha negócio de marmoraria em Luanda e vendia muito para cemitério e piso de parede de banheiro dos colonos ricos brancos de Luanda. O sono perfurado de maldição de Altiva voltou aos poucos, mas ele não deixava de lembrar o terremoto da voz de Altiva, no baixo da sala, blasfemando e augurando desgraças brasileiras. Vicentino depois arranjou serviço na morgue e não era serviço de destripar defunto que não era médico nem tinha curso de coisa parecida. O trabalho era de escritório. Certa vez Vicentino baixou até o necrotério. Havia uma negra morta que lhe falou em linguagem de morto e com o mesmo tom de vulcão azulejado de Altiva. Ele se assustou e respondeu pra morta.

            Olha, eu gostava muito de Altiva, se pudesse eu fazia qual o príncipe português que mandou desenterrar a amada que uns crápulas da corte assassinaram para que ele não casasse com plebeia e colocou a gaja no trono para que reinasse como rainha morta ou morta rainha.

            Se pudesse desenterrava a negra Altiva de Castro e a punha na sala, vestida de roupa de mulher branca e não de roupa de mucama negra e a família dele viria e ela haveria de estar na sala, morta e vestida, sem voz vulcânica azulejada.

            Depois Vicentino trabalhou num restaurante como garçom. O que o povo não sabia é que Vicentino trabalhava em ofícios menores, mas tinha com ele boa quantia para montar negócio. Vicentino só esperava conhecer melhor o Rio de Janeiro e a maneira brasileira. Não havia guerra, os negros não eram perseguidos nem colonizados, não havia guerrilha, nem ódio. É muito complicado ter que viver com o coração furado. Vicentino começou a frequentar Copacabana para ver como funcionavam os bares e restaurantes. Numa noite, no calçadão, num bar cheio de turistas, Vicentino sentava sua tristeza angolana debaixo de um inútil guarda-sol quando se aproximou Ariana em forma de prostituta e, como ela disse, com voz de vulcão azulejado e a pele tão negra quanto a mais negra solidão.



(do romance Um homem é muito pouco. São Palo: Nankin, 2010)







terça-feira, 14 de julho de 2026

Vieira na ilha do Maranhão 2










          

        Meu primo alojava-se na parte de trás da casa, num avarandado no quintal. Dormia numa rede, absolutamente nu. Comia lá mesmo, acocorado feito um indígena, numa cumbuca que a empregada lhe levava. – Oh, dona Rafaela, peça a dom João que me livre dessa tarefa. – A que te referes, mocinha? – A levar comida para o senhor vosso primo. – E que mal há nisso? – É que ele deixa suas vergonhas à mostra. – E nunca viste um índio nu? – É que ele não é índio, dona Rafaela. Minha mulher me trouxe a petição da mocinha, entendi logo que não deveria tê-la incumbido de servir meu primo. A falar a verdade, desconhecia que dormia nu, nu se servisse e nu se apresentasse em minha casa, mesmo que fosse no quintal. Ele podia ser índio branco em sua tribo tremembé, mas não em minha casa. Passou a levar a comida o índio cristão José. Não levou duas horas, o primo veio reivindicar a volta da empregada que tão docemente o atendia. Pedi que se vestisse quando estivesse em minha casa, havia de respeitar a pudicícia da família. Um dos homens que se esquivavam das missas era Olegário, um brasileiro filho de português e índia tupinambá. Era dado a conviver com os negrinhos que cuidavam de sua plantação. Frei Virgílio, quando o viu entrar no convento, benzeu-se e quis expulsá-lo. O demônio podia tomar várias formas naquele ermo de mundo e uma delas, talvez a preferida, era a forma humana. 
        Olegário vivia às aforas da cidade, num sítio devastado pelo abuso da terra. Os franceses, os holandeses e agora os portugueses exaltavam a fartura de fruta e ave e a bondade da terra que tudo dava. Ele não via mais que amargura do solo, já gasto de tanto uso da coivara e abuso dos selvagens. O que fora uma floresta frondosa na ilha agora era uma vegetação baixa e apenas cresceram palmeiras que não serviam para nada. Mas Olegário tinha uma artimanha para plantar. Os portugueses ficavam intrigados com a capacidade do colono de inventar uma fertilidade para um solo arenoso, dar vigor ao que era fraco e potência ao que falia. Olegário utilizava os diabinhos negros que lhe serviam em troca de bebida, farinha abundante e outros males, como mais à frente será demonstrado. Os negrinhos, enquanto Olegário dormia, fertilizavam o solo, cuidavam da horta, aravam a terra e jogavam sementes, e as plantações do homem davam-lhe frutos. Ah, se a Inquisição lhe pusesse as mãos! Mas ali na ilha não havia mão divina ou temporal que impedisse um homem de se servir do diabo ou o diabo de se servir de um homem.