quarta-feira, 1 de abril de 2026

A personagem do romance, ensaio 2

 






(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)



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               Muitos veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se quiserem, de uma só persona. A loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição, preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.

 

            A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei, a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães. [...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]

 

            Esse personagem romanesco, contudo, não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização. Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.

            É interessante observar que o romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem, ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais daí para a frente na prosa de ficção.

            Antissocial e irresponsável, classifica Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.

            O livro teve grande recepção e fora traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e muitos só o foram abolir tardiamente.

            Nabokov escreve que, ao tempo de Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.

 

            É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]

Mas se pensamos nos livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]

 

Não há, contudo, como fugir dessa observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan. Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo, melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida para servir às ciências do homem.



[1] Introdução, de 1881, à versão inglesa de Dom Quixote traduzida por Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.

[2] Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.


segunda-feira, 30 de março de 2026

Plástica, poema RCF








A única plástica que me serve
não é na face, mas nas lágrimas.
Quero um rosto sem lágrimas, doutor.
Retirar a glândula que produz
a lágrima dos mortos.
Meus mortos surgem no trânsito,
no banho, no banco, no trabalho.
Os mortos não deviam vir ao trabalho.
Choraria em seco.
Um rosto seco, um rosto plástico,
um rosto cirúrgico.
E sem saber por que não podem
sair do cárcere seco em que os pus,
renasceriam na caixa imaginária,
que é a memória,
em outra forma que não fosse líquida.




(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Outubro, poema de Ronaldo Costa Fernandses





Odeio as geladeiras
que conservam corpos esquartejados;
as agendas que escrevem à mão o futuro.
Os cães daqui de casa latem para o sol
como os lobos para a lua.
Não são duas faces da mesma moeda,
mas as duas moedas da mesma face da vida.

Quero ser uno e dois,
aprender com a disciplina dos becos,
lá onde a saída é a entrada.
Quero ser estático e andarilho,
aprender com a disciplina dos rios
que se movem sem sair do lugar.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)