domingo, 27 de setembro de 2026

Retrato, poema

 




Posso caber nos mais

míseros lugares:

nas frestas das janelas

abandonadas de um convento,

nos parafusos enferrujados

das mesas bambas,

nos vidros empoeirados

dos basculantes,

na dobra das cartas

do baralho de um jogo de pôquer.

O ínfimo, o pouco, o nada –

nenhum deserto tem a secura

de minha alma beduína.        

Ao me virem nas fotos

do álbum esquecido

na gaveta dirão:

quem é este de cabelos ralos

e óculos de aro fino?

 

 

 

sábado, 26 de setembro de 2026

Cavalo, poema

 



O cavalo,

com seus músculos

de corda,

relincha

ao pardo couro

do pasto queimado.

 

De rabo a raso

o cavalo é um soldado

na infantaria de seu dono.

Nada comanda,

nem mesmo seu corpo.

Aprendeu na caserna

da fazenda a disciplina,

o mando e a marcha.

 

O cavalo escova suas crinas

no pente do vento.

Quem inventou o cavalo

– besta de carga –

não foi a natureza e seu lombo

mas o furor utilitário,

o gosto humano

de servir-se do outro.

                                  

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ilusionismo, poema

 




Tudo falseia

num mundo de águas.

No aquário

existe a imitação da vida

marinha no estelionato

das ostras de plástico

que borbulham suas

pérolas de oxigênio.

Que ilusionismo é este?

Um poço de fundo falso,

um relógio sem ponteiros,                            

um trem sem trilhos

e o jogo de xadrez

– imóvel e eterno –

jogado sem peças.

Tenho medo de acabar

falando sozinho

como os loucos e os rádios.