sábado, 4 de julho de 2026

Borges, Vargas LLosa, Euclides da Cunha: dá para sepatar o homem e o criador?

 

                                               A literatura e o ódio da direita

 

 

 


 

             Dá para separar o homem e o criador? Até certo ponto, dá. Mario Vargas Llosa, que já defendeu pautas da esquerda, durante boa parte da vida adulta e da velhice se tornou um reacionário, vergonhosamente defendendo figuras autoritárias da direita e extrema direita internacional. Ocorre, contudo, que Llosa, em seus livros, não demonstra nenhum viés ideológico, não há em seus romances uma defesa de regimes ditatoriais ou simpatia por personagens de extrema-direita, pelo contrário, os regimes autoritários são apresentados de forma crua e condenáveis e suas tramas estão mais para o elogio da liberdade e de causas sociais como a “biografia” da avó comunista de Gauguin, em O paraíso na outra esquina ou a biografia do diplomata irlandês Roger Casement, que denunciou o genocídio belga no Congo, em O sonho do celta.

            Por seu lado, Jorge Luís Borges, num momento delicado da ditatura argentina, deu entrevista defendendo os militares. Alguns afirmam que ali perdia ele o Prêmio Nobel. O prêmio norueguês é político? Curioso observar que Jean Paul Sartre, feroz marxista, e Albert Camus, ferrenho crítico da União Soviética, também o ganharam. Logo, a afirmação acima perde um pouco de lustro. A literatura de Borges é revolucionária. Mas, pode ser vista como escapista. Quando realista, se refere preponderantemente a uma Argentina que não é sua contemporânea. E, quando idealista, visa mundos etéreos, apresentando-se alegórica e mitológica. Contudo, o que nos interessa aqui é observar que a literatura de Borges não se mostra defensora de autoritarismo e, em nenhuma linha, se poderá encontrar um laivo qualquer do homem político que foi vigorosamente antiperonista quando Perón, ainda que populista, também podia ser visto como o defensor dos pobres.

            Bem diverso, mas dentro do mesmo espectro, se encontra o caso de o Partido Comunista Brasileiro tentar criar uma cartilha de escrita baseada nas teorias de Andrei Jdanov. Raquel de Queiróz e Graciliano Ramos sofreram com a interferência do partidão que censurava obras dos dois escritores e propunha que as reescrevessem sob a égide do realismo socialista. “Esse Jdanov é um cavalo”, gritou certa vez Graciliano numa reunião para discutir justamente as ideias do soviético. Os membros do partido, inclusive um crítico tão perspicaz como Astrojildo Pereira, caíra no lugar-comum de exigir dos escritores como Graciliano Ramos o herói positivo. Todas os pensamentos sonambúlicos de um herói derrotado como Luís da Silva, em Angústia, seriam desvios de um formalismo burguês.  

            O espanhol Camilo José Cela era um bom vanguardista. Dois romances são especialmente modernos: o de estreia, A família de Pascual Duarte, e A Colmeia. Este último, influenciado por John dos Passos, mostra uma Madri dos anos de Franco sem personagem principal. A colmeia a que se refere é a multidão anônima que percorre suas páginas: pequenos burgueses, pobres, gente rica, tudo em vários ambientes como edifícios, casas, ruas e transportes. A vertente social é forte em Cela, e não se encontra, nos dois romances, deslize de cunho fascista.

Ocorre que o cidadão Cela não tinha nenhum caráter. Sua atividade política era desastrosa, cretina e perigosa. Foi censor, oferecia-se para criar um plano de cooptação de escritores, buscou os órgãos de repressão sistematicamente, elogiava o ditador. Ganhou o prêmio Nobel, o que causou repulsa ainda maior daqueles que sofriam a repressão sanguinolenta do regime franquista. Foi o fundador da editora Alfaguara em 1964. Em 1997, com a restauração democrática, posou de liberal. O rei o nomeou senador para a Constituinte.

Mais difuso é o caso de Euclides da Cunha. Até hoje, o autor de Os sertões é visto como um vingador social. Denunciou a violência de Estado, a histeria da sociedade, o genocídio de Canudos. Entre dois polos, ele seria posto na esquerda. Mas Euclides é mais que o erudito que escreveu sobre um morticínio. É o estilista genial, o construtor de uma linguagem própria, o fundador de uma escola que se esgota em si mesmo.

Nos últimos tempos, de revisionismo, surge outro: o Euclides racista. O problema aqui não é o homem e a obra. É a obra e a obra. Euclides condenou a mestiçagem. “A mistura das raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial.” “O mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é quase sempre um desequilibrado”, escreve. Como afirma Luís Cláudio Villafañe, na sua biografia de Euclides: “Na sua famosa frase ‘O sertanejo é antes de tudo um forte’, se esquece da frase seguinte: ‘Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral’”.

A seu favor conta que se definia como “misto de celta (branco), de tapuia e grego”.  Para Euclides, ao contrário da luta de classes marxista, baseado em Gumplowicz, o motor da história era a luta de raças.  Com “o esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes”. Cabe dizer aí que a raça forte é o branco.

Também não lhe cabe a primazia da denúncia. Euclides, que não presenciou a luta, fez paráfrases de livro de 1898 de Dantas Barreto, este, sim, testemunha ocular. Ou dos artigos, em 1897, de Siqueira de Menezes em O paiz.

Gilberto Freyre já havia “inocentado” Euclides da desatualização metodológica, do anacronismo de vários conceitos sobre antropologia, sociologia, botânica e geologia. O poeta havia se sobreposto ao cientista. O artista havia interpretado com palavras cheias de força... “os sertões abandonados, os sertanejos esquecidos”.

 

 

 

 

 

Ronaldo Costa Fernandes é poeta e romancista. Vieira na ilha do Maranhão é um dos seus romances. Em poesia, ganhou o Prêmio da Academia Brasileira de Letras com A máquina das mãos (2009, 7Letras). É doutor em Literatura pela UnB. Mora em Barcelona.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Aventura cínica, poema RCF











Tento alisar a nervura 
selvagem da esperança
e evito os sonhos com superfície nodosa.

Meus poros são sóis abertos 
à ardência de um sentir
que gira em torno de mim.
Deito ao lençol de areia 
e me cubro de luz
para o espasmo mareado
das sensações desertoras.



(do livro Matadouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)




quarta-feira, 1 de julho de 2026

Fábio Lucas sobre Um homem é muito pouco













































"O leitor de Um homem é muito pouco (São Paulo, Ed. Nankin)já sabe que o escritor é competente e se prepara para a trama que se complica logo a seguir. Eis o ficcionista imaginoso, que não abandona o espaço empírico, o chão concreto no qual a imaginação criadora campeia. A ação dramática se emoldura sem descuidar da autenticidade diegética."
Fábio Lucas