segunda-feira, 8 de junho de 2026

O guerrilheiro George Orwell

 


 


 

                                                                                                                                                                                                                                Ronaldo Costa Fernandes

 

 

 

Olho em volta da Praça Catalunya, onde em 1937, no prédio da companhia Telefónica, entrincheiravam-se e trocavam tiros com a polícia stalinista local os trotskistas e anarquistas. Excetuando-se alguns prédios novos como o Corte Inglês, a praça é a mesma. É difícil acreditar que, em plena guerra civil, os de esquerda não lutavam em Barcelona contra os franquistas, mas entre si. Havia um homem, por volta de seus trinta e poucos anos, que não havia muitos dias estivera na frente de batalha, em Huesca, entrincheirado numa vala, em meio ao frio de princípio de ano, sujo, faminto, com armas velhas, uma granada na cintura que podia explodir a qualquer momento mesmo sem ser acionada. Seu nome era Eric Blair. Ou melhor, George Orwell.

Os stalinistas perseguiam seus inimigos políticos – era a guerra dentro da guerra. Ao final de sua temporada em Barcelona, Eric Blair procurava fugir das mãos dos comunistas pró-moscou que haviam prendido vários de seus companheiros de aventura guerrilheira. Por fim, o casal Blair consegue atravessar a fronteira de trem até o sul da França. Só em Perpignan se sentirá livre, pois ainda Banyuls até o garçom era um refugiado franquista.

Mesmo nos anos 70, Orwell ainda era visto com desconfiança na militância comunista dos jovens que lutavam contra o agonizante regime franquista. Viam-no como um sonhador, bem-intencionado, romântico e que não havia entendido as correlações de força e muito menos o espírito espanhol. Por outro lado, Orwell também rechaçava aqui e ali o comportamento dos milicianos de esquerda, mesmo aqueles pelos quais lutava, os trotskistas do POUM. A visão do britânico era a percepção convencional dos anglo-saxões a respeito dos povos de origem latina: preguiçosos, dispersos, indisciplinados. Mesmo habitando o coração da luta antifranquista, a percepção de George era a mesma de um cidadão do império britânico, sentado em sua sala de estar, tomando placidamente sua chávena de chá.

Editores espanhóis tentaram em vão publicar a tradução de Homenagem à Catalunha. Somente em 1970 chegou a versão espanhola, subtraída de importantes adjetivos e alguns parágrafos. A censura de Franco deve ter entendido que a crítica de Orwell ao caos ideológico e a briga intestina da esquerda poderia superar as duras linhas contra o franquismo associado obviamente ao fascismo. O texto é um dos documentos mais lidos e comentados da Guerra Civil (1936-1939). Apenas em 2003, a versão completa da obra será editada. O historiador Pierre Vilar sugere que Orwell, de uma ou outra forma, contribuiu para a História da Catalunha. A vendagem do livro na Inglaterra foi um fiasco: os 1 500 exemplares da primeira edição ainda não se haviam esgotado quando da morte do autor.

A importância deste livro (obviamente, o relato da experiência existencial de Orwell vem em primeiro lugar) na bibliografia do autor é a demonstração de sua persona política que vai influenciar sua obra posterior. Não deve haver dúvida de que o britânico já estava maduro quanto a sua visão de mundo. A experiência de guerra na Catalunha só veio ratificar sua posição diante do mundo conturbado em que viveu: as idiossincrasias e conflitos do comunismo internacional. O que escreverá depois da sua militância na Espanha se mostrará vivamente nas parábolas 1984 e A fazenda dos animais. Seria talvez despiciendo perguntar como Orwell escreveria os dois romances se não tivesse experimentado o abalo emocional e intelectual depois da sua aventura na Guerra Civil. Muito particularmente, creio que Orwell não teria sido tão cáustico e ferino se não tivesse lutado como miliciano (termo que mudou de sentido no Brasil) nas montanhas de Huesca e depois respirado o clima de completa insanidade política na Barcelona de 1937.

É preciso avisar aos reacionários e vociferantes fascistas de hoje, que desavisadamente leem 1984 ou A fazenda dos bichos como libelo contra o comunismo, que o inglês Eric Blair nunca abandonou os ideais socialistas. Aldous Huxley foi professor de francês, aos 23 anos, na escola em que o magrelo Eric Blair estudava: a elitizada Eton College. Só se encontraram nos corredores. Anos mais tarde, trocaram cartas. Huxley defendia sua visão de uma sociedade ditatorial anestesiada pelo prazer (Admirável mundo novo) mais eficaz que a bota no pescoço de Orwell. Um era homem de laboratório, outro de guerra. Cada um escreve o que vive. Um tiro de um franco-atirador dado na trincheira fascista o atingiu no pescoço, o que o fez dar baixar e, depois, abandonar a luta antifranquista. O tiro que poderia ter sido fatal não apenas o retirou da frente de batalha, mas também lhe trouxe vários problemas de saúde e enterrou de vez os sonhos de ganhar a vida como locutor de rádio. Isolado na remota ilha escocesa de Jura, onde até hoje, para alcançá-la, deve-se enveredar por um caminho de dez quilômetros de difícil acesso, gravemente doente de tuberculose, Orwell escreveu durante dois anos 1984, o romance que o consagraria. Homenagem à Catalunha merece ser lido como o livro que ajudou a criar no escritor britânico as parábolas do terror autocrático e servir como um grito de liberdade. 

 

 




domingo, 7 de junho de 2026

Oratório

 


 

 


 

 

 

Que pensará Deus de mim?

Deus tem Suas angústias.

E, em muitas noites,

a insônia O atormenta,

embora não saiba onde Ele passa as noites.

A cama de Deus deve ser macia como um sonho.

Os homens são seus pesadelos,

com seus pés minúsculos

e suas ambições de um metro.

Deus há de me sonhar

numa residência do pensamento.

Espero que quando Deus acordar

eu não desapareça

do pensamento de Deus.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Machado de Assis: loucura e erotismo

 

 





 

Ronaldo Costa Fernandes

 

 

  

As mulheres em Memórias estão hierarquizadas. São elas Virgília, Marcela e Eugênia e Nhã-Loló. A de classe mais baixa é Eugênia, moça de dezesseis anos que nunca tivera nem mesmo a experiência do beijo. É bonita, graciosa, charmosa, mas tem dois defeitos: é pobre, filha de uma experiência amorosa espúria da mãe, e coxa. Está, pois, no último degrau social da hierarquia. Não pertence à classe ociosa e dominante, não vive de rendas nem tem família com títulos e posições dentro da estrutura social do Império. Virgília está no topo, de boa família, pai importante, com grandes relações de poder que poderá levar Brás Cubas à carreira política. Aliam-se nela o pragmatismo das relações com a beleza da criatura. Nela, o personagem não encontra nenhum obstáculo para levar a cabo sua ascensão social.  No meio das duas se encontra a lascívia. Brás Cubas teve seu primeiro intercurso amoroso com Marcela, uma espanhola de hábitos livres. Sugere-se que ela mantinha amantes e amava joias. É dela que o narrador diz “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. É ela o lado outsider, os instintos, a luxúria, a vida entre luxos, gastos exorbitantes, ganância e interesse monetário, o vício e a vida desbragada. E por fim Nhã-loló, sobrinha do Cotrim, moça bonita e que a família deseja casada com o protagonista e que morre prematuramente de febre amarela.

Enquanto no romance naturalista o sexo e o amor eram emulados pela tara, o destempero, o desejo imperioso da carne, no romance realista flaubertiano o adultério é mais um fenômeno psicológico, fruto do descaso do parceiro e das aspirações sonhadoras de viver um grande amor como é o caso de Madame Bovary. Ora, no caso de Brás Cubas o que vamos encontrar é uma mulher, Virgília, que trai o marido sem grande motivo aparente. Se antes não queria muita coisa com Brás, depois de casada passa a viver um amor tórrido. Machado não cria um aprofundamento psicológico em relação a Virgília. Sofia, personagem do romance Quincas Borba, é mais bem desenhada. É fútil, ambiciosa – ambiciosa Virgília também é –, com o pensamento de traição difuso, sem se fixar em nenhum amante, antes buscando mais sonhadoramente do que realizando o ato do adultério, Virgília é sem pudores, instintiva, arrebatadora e arrebatada. Se pensarmos que mesmo criando uma linhagem de personagem Flaubert não conseguiu realizar ainda o intento de uma mulher livre – procedimento que os autores libertinos do século anterior haviam realizado como, entre outros, Choderlos de Laclos em Ligações perigosas – pois irá ao final do romance “condenar” Madame Bovary ao suicídio, Machado não “julga” Virgília. Neste sentido, também não julgará Capitu, pois o julgamento e condenação de adúltera vem do narrador do romance, Bentinho, seu marido, de onde nascem todas as dúvidas em relação ao personagem.

No ensaio que escrevi sobre os contos fantásticos de Machado de Assis – que não são poucos – observei que o exorbitante, o mágico e o próprio fantástico passavam pelo filtro da cultura, ou seja, estava permeado de considerações, causas e provocações da cultura. Não eram ingênuos, gratuitos ou fruto da fabulação popular, mas fruto do pensar e da cultura.

Entre outros, os maiores temas de Machado são a obsessão pelo status, a luta pelo poder, a loucura e o adultério. Em alguns momentos os três temas se confundem. A ânsia de permanência e de glória levará Brás Cubas ao desconcerto das ideias. Quincas Borba, que morre no romance do mesmo nome, é um desvairado filósofo com sua teoria do Humanitismo. A busca da fama e de posição política, título nobiliárquico, como o baronato de Santos em Quincas Borba, ou alcançar o cargo de ministro, transtornam os homens. O adultério – ou o quase adultério, como chama o próprio narrador também em Quincas Borba, de Sofia – ou a desconfiança do adultério de Capitu, está mesclado nessa ambiência de poder e loucura.  

Não encontrei nenhum crítico (Bosi, Roberto Schwarcz, Faoro, Augusto Meyer etc.) que aproximasse “O delírio” à teoria do Humanitas de Quincas Borba. Ambos estão muito próximos por várias circunstâncias. A primeira se refere a manifestações da loucura, uma do inconsciente mostrando suas vísceras, a segunda, através da loucura – ou seja, ainda do inconsciente – do autor da teoria do “Ao vencedor, as batatas!”. O que expõe Quincas Borba em sua teoria do mais adaptado e do mais forte, e de que tudo se explica pela voracidade animal que não julga as ações humanas, também pode ser visto no aparecimento de Pandora ou Natureza que explica todas as misérias humanas pelo caráter fatalista e instintivo do ser humano. Embora “O delírio” esteja mais próximo do inconsciente, a teoria filosófica de Quincas Borba é elaborada por um sujeito tomado pela loucura. O curioso é que a filosofia de Quincas Borba não é de todo disparatada. É uma crítica muito lúcida, ainda que eivada de humor ácido. O inconsciente aqui é deslocado do objeto – a filosofia – para o sujeito – Quincas Borba.

E por fim ambas estão, como disse ao início, dentro do espectro da cultura. O delírio de Brás Cubas é culto, e o discurso de Quincas Borba está dentro do marco da filosofia, ou seja, de um instrumento de conhecimento elaborado pela cultura.

A razão é caricata na ridicularização do positivismo, do darwinismo social, mas ao mesmo tempo é com a razão que instrumentaliza sua crítica da razão. A razão exacerbada, a razão cultuada pela filosofia é a mesma razão de que se utiliza Machado para criticá-la. Não é a emoção, não são os sentidos, não é a vontade, estado primário do conhecimento, como queria Schopenhauer, mas aquilo que o filósofo alemão chamou de conhecimento secundário, o intelecto, que permite a Machado colocá-la no plano do ridículo e do escárnio. É a crítica da razão e da ciência elevada a um grau de divindade e método infalível que leva o niilista Machado descrer das conquistas do homem e de seu repertório de receitas para o salvamento do gênero humano, como diz a carta que Quincas Borba escreve para Brás Cubas para antecipar o seu método. O Humanitismo descreve “a origem e a consumação das cousas [...] retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura felicidade”. E num último arroubo, a se igualar a vários personagens machadianos que são ambiciosos e lutam pela fama e poder, o Humanistas “enche de glória o nosso país”.

Leitor e admirador de Schopenhauer, conhecido pela filosofia do império da vontade sobre a razão, Machado chega mesmo a ser crítico de quem o influenciou com seu pessimismo e desalento em relação à espécie humana. Dar naturalidade às vontades espúrias ou não do homem, expondo sua luta sangrenta – atenuada pelos avanços civilizatórios, mas ainda assim sangrentos à sua maneira moderna – é relato da luta pela vida apresentada por Darwin. Levado ao plano social do convívio entre os povos e entre os homens, o darwinismo afirma a prevalência do mais forte e do mais adaptado. Entre dois grupos humanos que guerreiam ganha aquele que é mais forte, ou seja, o grupo que conquistou seu direito às batatas. Ao vencedor as batatas! Machado não é contra ou a favor do darwinismo social, até porque não é um filósofo nem muito menos um ensaísta. O que lhe cabe é o descrédito de quem acredita que a humanidade possa ser explicada em poucas linhas ou que uma só visão dê respostas às complexidades da vida humana e da vida em sociedade.

A loucura, como vimos, principalmente representada por Quincas Borba, é um desvio mental ligado ao conhecimento universal. Não é apenas uma paranoia, uma depressão severa, um desacordo lírico entre a realidade e o sonho, não, a loucura em Machado está incrustrada na cultura e na filosofia como um diamante no seu suporte de anel. Quase está a dizer que pensar, e pensar filosoficamente, não é uma operação de cientistas, mas uma doença do filosofar. O pensamento da cultura e a cultura do pensamento levam à loucura. Não levam à loucura, como em outros autores, o amor desbragado, o amor incompreendido, as paixões, ou mesmo as doenças físicas, ou psicofísicas, mas o ato de tentar compreender o mistério da vida, os desvãos do raciocínio humano, o exercício do intelecto e a ambição de abarcar o conhecimento universal. Há por certo, no romance Quincas Borba, o personagem principal, Rubião, que acaba louco, imaginando ser Napoleão III. Mas a se contrapor a esta exceção haverá a Casa Verde de O alienista e seu idealizador, dr. Simão Bacamarte, e todos os contos fantásticos, alegóricos e delirantes ocorridos por meio de sonhos, delírios ou enganos da percepção da realidade.

Está incluída no pensamento machadiano a ideia de que a loucura é parte componente da sanidade mental dos homens, em graus maiores e menores. Existe a percepção de que o mundo não é organizado, mas, sim, uma série de eventos que tendem ao disperso, inusitado e, em alguns casos, à irrealidade. As relações sociais não são saudáveis e, se servem para manter o equilíbrio da sociedade, mostram o desconcerto das emoções e razões mesquinhas, algumas beirando a insanidade. As disparidades de classe e de comportamento amoral são desculpadas pela sociedade. Vimos o Cotrim, rico senhor impiedoso de escravos, mas benemérito de ações beneficentes, homem honrado e pai amoroso que por sua vez recebeu benesses do governo por intermédio justamente de Brás Cubas. Esta classe dominante tende ao desequilíbrio e ao desconcerto. Não é apenas a hipocrisia, mas a constatação de que os peões mexidos no jogo de xadrez social estão plenos de contradições e de desacertos mentais.