quarta-feira, 20 de maio de 2026

Lavoura, poema

 


 

 


 

 

 

Em todo outono

minha mão desabrocha.

Rego-me com dúvidas

que são bom adubo.

 

Abaúla-se meu tronco,

alguns paradoxos                                          

penduram-se nos galhos

e roubam-me

os frutos da certeza.

 

O outono ara meus pés

plantados no chão.

 

Meus braços espigam,

meus olhos d’água

me brotam de ternura

pelos bichos da terra

tão pequenos.

 

 

                                          

 

 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A chuva



Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem retirada da internet: chuva

terça-feira, 12 de maio de 2026

A inquietude, poema

 




 

 

 

 

 

A inquietude se hospeda

em quartos separados entre ímpares

que não tenham pares.

Hospedo vários sentimentos

na mesma habitação

registrada no livro das horas.

 

O check-in começa

logo ao acordar

e não dou baixa

de ser meu hospedeiro.

 

O serviço de quarto

não atende à voracidade

da imaginação passageira.

 

Há uma piscina

onde nadam desejos submarinos

em meio ao cômodo.

 

De vez em quando,

a banheira submerge

os incômodos do not disturb.

 

Todos têm o mesmo abajur lilás

e o leito ambulatório

do hospital dos intermitentes.

 

Os mais jovens saem mais secos

pelos líquidos que deixaram impressos

na folha de algodão.

 

Famílias se burburinham

na farândola da vacância.

E homens de negócio

investem seu tempo

no memorial das horas tortas.

 

Todos os corredores são lentos

e enganam os sentidos.