terça-feira, 29 de setembro de 2026

Lucidez, poema

 


 

As juntas do sonho

se espreguiçam

na largueza da alma.

Um facho de luz

não romperá a janela

tímida da rotina.

No espelho do banheiro,

engravatado e barba feita,

como numa foto 3 x 4.

Antes que a lucidez matutina,

que tudo expõe,

quero o esconderijo noturno

das plantas que vivem

sem saber que vivem.  

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Lenço, pooema

 




Meu coração bate

no peito como uma

máquina fotográfica.

Minha casa é uma cidade

pois nela cabem

as esquinas dos relógios,

o tumulto das praças

de alimentação,

os corredores das ruas.

Quando partir,

só os lenços brancos

me encherão os olhos

como lágrimas de pano.

 

 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Retrato, poema

 




Posso caber nos mais

míseros lugares:

nas frestas das janelas

abandonadas de um convento,

nos parafusos enferrujados

das mesas bambas,

nos vidros empoeirados

dos basculantes,

na dobra das cartas

do baralho de um jogo de pôquer.

O ínfimo, o pouco, o nada –

nenhum deserto tem a secura

de minha alma beduína.        

Ao me virem nas fotos

do álbum esquecido

na gaveta dirão:

quem é este de cabelos ralos

e óculos de aro fino?