A
literatura e o ódio da direita
Por seu lado, Jorge Luís Borges, num
momento delicado da ditatura argentina, deu entrevista defendendo os militares.
Alguns afirmam que ali perdia ele o Prêmio Nobel. O prêmio norueguês é político?
Curioso observar que Jean Paul Sartre, feroz marxista, e Albert Camus, ferrenho
crítico da União Soviética, também o ganharam. Logo, a afirmação acima perde um
pouco de lustro. A literatura de Borges é revolucionária. Mas, pode ser vista
como escapista. Quando realista, se refere preponderantemente a uma Argentina
que não é sua contemporânea. E, quando idealista, visa mundos etéreos, apresentando-se
alegórica e mitológica. Contudo, o que nos interessa aqui é observar que a literatura
de Borges não se mostra defensora de autoritarismo e, em nenhuma linha, se
poderá encontrar um laivo qualquer do homem político que foi vigorosamente
antiperonista quando Perón, ainda que populista, também podia ser visto como o
defensor dos pobres.
Bem diverso, mas dentro do mesmo
espectro, se encontra o caso de o Partido Comunista Brasileiro tentar criar uma
cartilha de escrita baseada nas teorias de Andrei Jdanov. Raquel de Queiróz e
Graciliano Ramos sofreram com a interferência do partidão que censurava obras
dos dois escritores e propunha que as reescrevessem sob a égide do realismo
socialista. “Esse Jdanov é um cavalo”, gritou certa vez Graciliano numa reunião
para discutir justamente as ideias do soviético. Os membros do partido,
inclusive um crítico tão perspicaz como Astrojildo Pereira, caíra no
lugar-comum de exigir dos escritores como Graciliano Ramos o herói positivo.
Todas os pensamentos sonambúlicos de um herói derrotado como Luís da Silva, em Angústia,
seriam desvios de um formalismo burguês.
O espanhol Camilo José Cela era um
bom vanguardista. Dois romances são especialmente modernos: o de estreia, A
família de Pascual Duarte, e A Colmeia. Este último, influenciado
por John dos Passos, mostra uma Madri dos anos de Franco sem personagem
principal. A colmeia a que se refere é a multidão anônima que percorre suas
páginas: pequenos burgueses, pobres, gente rica, tudo em vários ambientes como edifícios,
casas, ruas e transportes. A vertente social é forte em Cela, e não se
encontra, nos dois romances, deslize de cunho fascista.
Ocorre
que o cidadão Cela não tinha nenhum caráter. Sua atividade política era
desastrosa, cretina e perigosa. Foi censor, oferecia-se para criar um plano de
cooptação de escritores, buscou os órgãos de repressão sistematicamente,
elogiava o ditador. Ganhou o prêmio Nobel, o que causou repulsa ainda maior
daqueles que sofriam a repressão sanguinolenta do regime franquista. Foi o
fundador da editora Alfaguara em 1964. Em 1997, com a restauração democrática,
posou de liberal. O rei o nomeou senador para a Constituinte.
Mais
difuso é o caso de Euclides da Cunha. Até hoje, o autor de Os sertões é visto
como um vingador social. Denunciou a violência de Estado, a histeria da
sociedade, o genocídio de Canudos. Entre dois polos, ele seria posto na
esquerda. Mas Euclides é mais que o erudito que escreveu sobre um morticínio. É
o estilista genial, o construtor de uma linguagem própria, o fundador de uma
escola que se esgota em si mesmo.
Nos
últimos tempos, de revisionismo, surge outro: o Euclides racista. O problema
aqui não é o homem e a obra. É a obra e a obra. Euclides condenou a mestiçagem.
“A mistura das raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial.” “O
mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se
comprimem esforços seculares – é quase sempre um desequilibrado”, escreve. Como
afirma Luís Cláudio Villafañe, na sua biografia de Euclides: “Na sua famosa
frase ‘O sertanejo é antes de tudo um forte’, se esquece da frase seguinte: ‘Não
tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral’”.
A
seu favor conta que se definia como “misto de celta (branco), de tapuia e
grego”. Para Euclides, ao contrário da
luta de classes marxista, baseado em Gumplowicz, o motor da história era a luta
de raças. Com “o esmagamento inevitável
das raças fracas pelas raças fortes”. Cabe dizer aí que a raça forte é o
branco.
Também
não lhe cabe a primazia da denúncia. Euclides, que não presenciou a luta, fez
paráfrases de livro de 1898 de Dantas Barreto, este, sim, testemunha ocular. Ou
dos artigos, em 1897, de Siqueira de Menezes em O paiz.
Gilberto
Freyre já havia “inocentado” Euclides da desatualização metodológica, do
anacronismo de vários conceitos sobre antropologia, sociologia, botânica e
geologia. O poeta havia se sobreposto ao cientista. O artista havia
interpretado com palavras cheias de força... “os sertões abandonados, os
sertanejos esquecidos”.
Ronaldo
Costa Fernandes é poeta e romancista. Vieira na ilha do Maranhão é um
dos seus romances. Em poesia, ganhou o Prêmio da Academia Brasileira de Letras
com A máquina das mãos (2009, 7Letras). É doutor em Literatura pela UnB.
Mora em Barcelona.
