sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Meu coração é uma máquina fotográfica , poema RCF

 



 

Tua fotografia,

                                    espelho fixo,

                        entre a película e a íris

                        expõe a luz do negativo.

 

As cidades, ó, as cidades

                        – Amsterdam, Piza, Cairo –

                        sonhos, anseios e desejos

                        antes que ruas, edifícios e cafés.

Meu coração salta do peito

                        um coração como uma máquina fotográfica

                        que pulsa a cada chapa

                        e

                        rebobina em estertores.

 

                        As línguas todas estiradas

                                    nas folhas vermelhas do bico-de-papagaio

                                    tagarelando

                                                           a manhã vegetal.

                        Minha casa é uma cidade

                                    pois nela cabem

                                                           as esquinas dos relógios,

                                                                       o tumulto dos corredores,

                                                                       os elevadores de cabo roto

                                                                                   do pesadelo.

 

Caminho

            de dia

            e

            o monóculo da Lua

                                               branca e mimética

            fecha um olho

            como quem atira

                        no alvo da minha

                                                           pele.

 

Sou um percevejo feliz

            e pródigo

            – cato moedas e acenos –

            quando partir

                        só o gosto dos lenços

            brancos

            me encherão os olhos

                        como lágrimas de

                                                           pano.




(do livro de estreia Estrangeiro, 1997)

 



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O ano da revolta dos desvalidos 1, romance

      


                        





                                         

 53.



            O pai de Abelardo olhava para as mãos e não entendia como elas deixaram de funcionar, não dobrava mais os dedos, doía ao tocar qualquer superfície e, caso não as olhasse, pensava que não existiam mais ao fim do braço. Talvez algum mosquito severo tivesse lhe transmitido uma moléstia qualquer, elas inchavam e, o que era antes uma máquina de fazer as coisas, haviam se transformado num estorvo. O barbeiro não sabia explicar nenhuma enfermidade tão súbita que pudesse lhe ocasionar tanto dano.

            Sem as mãos em funcionamento, a fábrica de latas, flandres, canecas, penicos e outros objetos iria soçobrar e ele não teria como alimentar a família. Enfaixou as mãos com unguento a fim de que pudessem desinchar; ele acreditava que o inchaço causava a dor e a imobilidade; se voltassem a ser magras talvez recuperasse os movimentos e elas pudessem lhe servir de máquina para a fábrica.

            Não supunha que as coisas estavam tão reviradas depois de seu retorno. Teve que ir até a câmara afirmar que não fugira da devassa e que não comparecera ao depoimento porque estava perdido na mata. Declarou que, sim, ficara muito abalado de finanças e temperamento quando soube que o estanco lhe proibiria de fabricar seus objetos de lata, e que não sabia fazer outra coisa na vida, e que a vinda de peças de latoaria do reino iria causar a fome em sua família. E que ficava contente de o rei ter suspendido o fatídico e famigerado estanco. Mas que não se envolveu em rebeldia, não participou da marcha revoltosa que o Bequimão empreendera, e que tudo o que queria era voltar a ter saúde e mãos para colocar em dia sua fábrica.

            Um homem que desconhece a floresta não deve afrontá-la e ele afrontou a mata cerrada quando os dois, ele e o pai da menina Maria, se embrenharam no mato. Estava seguro de que todo o mal que lhe advinha fora porque manuseara frutos proibidos, folhas perversas e outros elementos pérfidos da floresta.

            Andou desalentado pelas ruas, visitando um e outro padre a fim de ver se as rezas lhe traziam de volta as mãos. Havia tentado o unguento dos indígenas e pajés, os remédios da medicina, quem sabe se os santos se compadeciam de sua dor. Como nada dessa panaceia lhe resultava em cura, procurou os feitiços de Úrsula. A mulher lhe fez prometer que se o curasse pelo resto da vida ele forneceria a ela todos os objetos de latoaria que produzisse com sua mão benfazeja. E mais ainda, que não contasse nada a ninguém, nem mesmo a sua mulher, a mãe de Abelardo, que ela temia ser presa e mandada para o Gurupá.

            Mas deu em nada as mandingas de Úrsula, seus caracóis, suas mezinhas, sua bacia e seus sapos e matéria fedorenta. As mãos continuavam inchadas, pesadas e paralisadas. Dona Raimunda fez um preparado com alcatrão, cravos e sebo de porco, e aos poucos a mão desinchou, mas continuou com os dedos inservíveis. Ele pediu a Nossa Senhora da Conceição que lhe trouxesse a saúde e lhe prometeu erguer uma pequena capela, modesta, mas feita com sua própria mão curada, no alto de um monte para o lado de um descampado que ia dar num pântano.

           

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O viúvo, capítulo 16


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            Há muito que desconheço a relação entre minha voz e o que ela diz. Às vezes acredito que falo coisas que são independentes. Que as palavras já estão dentro de mim, que basta abrir a boca para que elas saiam, sem esforço. As palavras seriam independentes. Um apêndice, um órgão autônomo. Ou uma digestão malfeita. Ou ainda algo que é secretado como um hormônio que a mente não controla.

            Sempre me pautei pelo bom senso. O bom senso é a norma do viver, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo. O bom senso é claro seria o mediano e o mediano é o medíocre. Minhas palavras são medíocres como o branco. Minhas palavras enfim são brancas. Mas me pagam por elas. Pelas palavras ditas. Poucas vezes ganhei pela palavra impressa.

            A palavra escrita também é um hormônio. Sinto como ela se espalha pelo cérebro como um remédio que anestesia os circuitos nervosos. A palavra escrita tem circuitos curtos.

            Guardo comigo, como quem guarda uma tara, a origem das minhas palavras. As pessoas se enfadam se você fala de si mesmo. As pessoas se enfadam muito mais se você fala que suas palavras estão no mesmo campo da serotonina, da dopamina ou da nora-adrenalina.

            Às vezes minha palavra sofre de carência. De menos. De não secreção. Fica seca, não há líquido, não há circuito nervoso, muito menos curto. Então me afundo numa ausência que lembra braço amputado, metade do pulmão arrancado, próstata extirpada, fratura craniana.

            A palavra, a minha palavra, fica assim fraturada. Por dias não há conserto, nada que a engesse, amoleça, costure, opere ou extirpe. Minha palavra então sofre de desvios, de trânsito, de incômodo por não saber onde se encontra. Outros órgãos falam. As mãos, que são falastronas por natureza. A cabeça, que gosta de sublinhar e pontuar. O corpo mesmo, amplo, musculoso, de voz grave.

            Nasci para repetir o pensamento alheio. Queria ter meu próprio pensamento, mas o pensamento dos outros é mais forte.

            Com o pensamento dos outros consigo comer, vestir e ter uma casa para morar. É forte o pensamento dos outros.

           

também em e-book


( O viúvo. Brasília: LGE, 2005)