terça-feira, 26 de maio de 2026

O papel de cada um, poema de Matadouro de Vozes

 


 

 


 

 

 

Nem todo papel

tem o mesmo peso.

Os papéis do divórcio

têm a gramatura descabelada.

O quilo do atestado de óbito

é áspero e melancólico.

 

A saliva da máquina me azeita.

Guardo a fome na despensa.

A roda do desejo ainda me saliva.

 

A largura do mínimo.

Trago minhas opiniões,

evaporo minhas ideais,

e o que me resta são cinzas.

 

Minha pele, o papel do meu corpo,

se destitui do tempo.

 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Lavoura, poema

 


 

 


 

 

 

Em todo outono

minha mão desabrocha.

Rego-me com dúvidas

que são bom adubo.

 

Abaúla-se meu tronco,

alguns paradoxos                                          

penduram-se nos galhos

e roubam-me

os frutos da certeza.

 

O outono ara meus pés

plantados no chão.

 

Meus braços espigam,

meus olhos d’água

me brotam de ternura

pelos bichos da terra

tão pequenos.

 

 

                                          

 

 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A chuva



Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem retirada da internet: chuva