quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Remorso, poema

 

 


Larga de mim, ó,

cãibra do remorso,

afrouxa meus pecados,

não deixa que a cadeira

do cinema seja elétrica,

as escadas da queda

rolantes,

os juízos não sejam finais

nem a matéria,

prima do perecível.

 

 

 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O susto e o redemoinho, poema

 



 

 

Um susto redemoinha meus dias,

uma correnteza carrega meus pés

num chão de água.

Sou uma cabeça que ora boia,

ora submerge aos tropeços.

Ando numa ciranda de águas.

A profundidade das calçadas

ameaça minhas margens.

Minhas pernas flutuam o acaso,

que é sempre súbito

e enforca meus dias.

Tento colocar a cabeça para fora

nessa ressaca de lutos.

Complicado se equilibrar

num meio fio.

 

sábado, 29 de agosto de 2026

Formigável, poema

 


 


 

Corto as folhas da relva

dos meus poemas.

A cabeça grande

das ideais tolas.

A fila indiana

dos meus problemas.

Em meu formigueiro

há o burburinho

animal da espécie:

o frenético trabalho

da realidade.

Formiga em mim

uma necessidade de vida. 

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Um homem é muito pouco, trecho 2





Resultado de imagem para um homem é muito pouco






    Uma das frases que Clemente mais gostava era “não era ruim, mas também não era bom”. Clemente a usava para tudo que era indistinto, consumido pelo tempo, estéril ou indiferente. Pois bem, o macarrão do restaurante do hotel não era bom, mas também não era mau. Neste exato momento, sem que Clemente percebesse a carta deslizou bolso afora e, gravitando, caiu entre o lambri que soltou e a parede. Clemente, ocupado com sua fome que subitamente retornara, não percebeu que a carta perdera seu peso. E, com seu peso normal de papel, pôde ela esgueirar-se do bolso sem que o pretenso dono se precatasse da fuga. Mateus e Clemente pela primeira vez conversaram sobre amenidades, Clemente contou uma história longa e divertida de um clandestino.
    Era um angolano, um rapaz, que Clemente pegara roubando comida. Não tinha se alimentado durante três dias e estava numa condição abaixo do animal. Assustou-se quando viu Clemente. Ficou, contudo, mais preocupado com o pedaço de pão e salame que tinha nas mãos e não queria perder do que ser descoberto e levado ao comandante. Ele, o clandestino, defenderia até a morte seu direito de comer. Pegou uma faca de cozinha e ameaçou Clemente. Este riu, mostrou mais comida e disse que não se preocupasse que não iria delatá-lo. Os olhos do menino negro eram olhos inteligentes e Clemente acobertou o angolano que desceu no cais da Praça Mauá, estudou, casou e hoje é advogado com banca e tudo. Clemente ficou pensando que o pior clandestino não era aquele angolano faminto, o pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma. Ele, Clemente, se achava clandestino, talvez por isso a solidariedade imediata e reta. Onde quer que estivesse Clemente se sentia invasor, não permitido, escondido, sujeito que pode ser expulso a qualquer momento da embarcação, dos lugares, dos restaurantes, dos hotéis, da rua mesmo. Esse sentimento de clandestinidade poucas vezes desaparecia. O que mais doía, entretanto, era sentir-se clandestino em sua própria casa.
    Depois do almoço, ambos retornaram às suas casas. Clemente, cansado de tanta agitação, deitou-se na cama, com roupa e tudo e adormeceu. Dormiu como se fosse noite, um sono árduo.
Clemente entrou na cozinha no navio ao perceber a luz acesa. Lá estavam em volta da mesa o capitão Vaz, Selma, Oswaldo e Mateus. Oswaldo, como o companheiro marinheiro lá dele, vestia-se de mulher, o capitão Vaz não tinha os braços e reclamava: Por favor, Clemente, não faça isso comigo. Selma parecia mais uma prostituta dos portos em que o navio parava e não falava em língua humana, mas na língua suína que é a língua dos porcos. Selma tinha focinho, a boca pequena, o corpo gordo e único de porca. Só Mateus não havia se transformado. Era o velho Mateus de sempre. Anos antes, num porto sujo e pobre da Ásia, com poucos guindastes e sem armazéns, Clemente vira porcos comerem um miserável. Nunca imaginara que os porcos poderiam comer um ser humano e, muito menos, que um ser humano se deixasse comer por porcos. Mas o homem era velho e fraco, um fiapo asiático de homem e os donos dos porcos, também famintos, açulavam seus porcos a se alimentarem de carne humana. Serviu os pratos e nos pratos estavam os braços do capitão Vaz que chorava, enquanto Mateus, o travesti Oswaldo Lee Oswald e a porca Selma devoravam os braços do capitão Vaz. Um baque surdo contra madeira o despertou.
    Entre o sono e a vigília, sem se dar conta ainda de onde estava, se no quarto de sua casa ou na copa da cozinha do navio, Clemente se perguntava se encontraria com o capitão Vaz aleijado, a porca Selma e Lee Oswald mulher. Ainda mal despertava quando então escutou o segundo baque. Percebeu, não desfazendo ainda por completo a alucinação do sonho, que estava na Praça 11 e aquele barulho poderia ser de alguém a invadir a casa. Levantou-se. Sentia-se tonto. Voltou-lhe o balançar de nave. O sentimento de aprisionamento caiu-lhe fundo na alma com a decisão e o peso de âncora lançada n’água. Entrou corredor adentro a procurar a fonte do ruído. Vinha da cozinha. Conhecia aquele estrépito: o esquartejamento das aves e carnes. A quem esquartejavam?
    Era d. Evelina que, com um cutelo, partia o frango. À primeira vista, lembrou-lhe um elemento a mais do pesadelo. D. Evelina era baixa e gorda, com vincos profundos no rosto, cortando a pele escamosa, que mais lembrava terem sido feitos a talho do que pela erosão da idade. Tinha mãos pequenas, mas fortes, nunca pedira a Clemente que lhe abrisse pote, nem recusara o peso de uma estante. As pernas grossas, de veias escuras serpenteando canela acima, davam-lhe o aspecto de precária estrutura, embora firmemente fixada ao chão. Os olhos saltados e as narinas de fole aberto punham fúria onde só havia humildade. A empregada se espantou ao ver o patrão entrar. Ele, ainda prisioneiro do medo, tinha o rosto sem sangue, as mãos poucas, as pernas sem apoio. Mas foi o olhar de náufrago o que assustou a empregada. De cutelo na mão, ela avançou para Clemente no intuito de socorrê-lo. Se ao menos ouvisse o que ela dizia, seu Clemente, o senhor está pálido, está doente, quer ajuda, chamo alguém, médico ou ambulância? talvez não sofresse o pânico de ver sua empregada, como no pesadelo, investir para ele a fim de matá-lo.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Desemprego das horas, poema

 


 

Emprego meus dias

no desemprego das horas.

Há muito de fabril

em meus escritos.

Chegará o dia em que

desempregarei meu corpo.

O relógio de ponto

do meu coração

marca o emprego

das vontades.

Meus temores estão de férias.

Caminho o expediente

da alegria.

 

 

 

 


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Chuvarada, poema

 





 

 

Chove tanto

que encharco minhas securas.

As ideias inundadas 

de rios sinuosos.

Mas a chuva também

é bonançosa

e, casada com o sol,

faz a vida renascer.

Que ironia!

Tudo em excesso arruína.

Por isso rego minhas fantasias

e uso a luz da razão

para não estragar as raízes

das minhas imaginações.

 



 

 


domingo, 23 de agosto de 2026

Aprendizagem do destino, poema


 






Desaprendi a aprender.

Inquieta-me ter

um nariz entre os olhos:

para ver adiante

tenho que cheirar o destino.

 

 

 


sábado, 22 de agosto de 2026

Um homem é muito pouco 32



      


          A família de Alice tinha grana. Ela é que não tinha grana. Estudara inglês e era poeta. Eu andava com os amigos poetas de Alice e não entendia aquela história de Kerouac, Ginsberg e Silvia Plath. Alice gostava dos poetas beat mas não queria ir on the road. Não era judia, gostava da poesia de Ginsberg, mas não queria ser internada no sanatório para malucos do Bellavue. Nem muito menos queria se matar como Silvia Plath. A maioria do grupo de Alice gostava mais da vida dos escritores do que propriamente dos escritores.

            Li os livros que Alice trouxe para casa. Literatura de confissão. A literatura de confissão – se você tem vida louca, on the road ou suicida – é literatura que chama a atenção. E literatura fácil de ler, mesmo para um cara que não lia muito, embora não desgostasse da leitura, nem fosse idiota. Eu apenas não tinha a pretensão de ser poeta e discutir poesia. Dos brasileiros, eles não comentavam muito. Os franceses eles tinham dificuldade de ler, mas quem eles não podiam deixar de ler eram os malditos franceses, ou melhor, os poetas malditos franceses. Alice via duas ou três sessões seguidas do mesmo filme e eu não entendia como alguém podia assistir a duas ou três sessões seguidas do mesmo filme. A impressão que eu tinha é que ela era burra e queria ver o filme para elucidar alguns detalhes. Mas é claro que Alice não era burra nem queria elucidar alguns detalhes. Alice via os filmes para que os filmes entrassem nela, fizessem parte do passado dela, que fossem como lembranças do que havia vivido e não imagens de filme feito por um diretor e passado no Metro Copacabana ou no Paissandu. Alice fugia da família e do passado, talvez fosse por isso que entrava no cinema em busca de um passado alheio que ela pudesse incorporar no repertório do passado dela.

(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

Também em e-book

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O amor perfeito, poema

 







A que ramo pertence

o amor perfeito?

Às obsessões

que são tubérculos?

À submissão

que são plantas aéreas?

Ao ramo dos exuberantes

como os girassóis?

O amor perfeito

viceja apenas

nas delicadezas da alma,

na suprema aspiração

onde brota a flor

mais díspar, metafísica,

desarmoniosa e triste.

Uma abstração

no jardim secreto

dos homens crédulos

na serenidade

e no círculo da vida.

 

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A palafita, poema

 




No campo amazônico,

as casas de varandas

arregaçadas

molham as canelas na água.

O bicho de pernas finas,

torna-se hospedeiro

do micróbio homem

que ali secreta seus humores

e a palafita, bicho anfíbio,

passa a ser transmissor

das pequenas misérias humanas.

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Festa do interior, poema

 





Dentes sujos da sanfona,

alto-falante fanho,

rabeca de pouca corda,

como boca de um só dente.

Abc do cantor analfabeto,

visão do cego.

Onde termina

o couro da alpargata,

onde começa o couro do pé?

Curto-circuito dos busca-pés,

camponês chinês:

relógio de pilha

no braço sem pulso.

 

 

 

 


domingo, 16 de agosto de 2026

O viúvo, 4º capítulo

            


         Caminho na multidão. Mas, falando sozinho assim, passo a ser um sujeito esquisito, do qual as pessoas se afastam, não pelo medo físico de serem agredidas, mas porque os esquisitos podem dizer obscenidades, despropósitos, inconveniências ou a verdade, o que vem tudo a dar no mesmo. Se as pessoas são como eu, elas terão sua pequena dose de loucura escondida, fechada, como se leva dinheiro avulso e não se quer perder e então aperta o velcro ou fecha com zíper o bolso do calção. A pequena loucura, mesmo que seja pequena, não se expõe socialmente, vive aprisionada, principalmente em forma de desejo ou pensamento proibido que surge repentino sem que se puxe por ele. Um desejo molesta a gente, chega em hora imprópria. Pode nos surpreender numa fila de banco ou dos Correios, numa loja de perfume, numa praça de alimentação ou ao ser apresentado à filha de um amigo, o desejo, ora o desejo.
            Não quero também ser descarnado, que me retirem tudo o que tenho de libido e passe a ser um sujeito anódino, máquina que anda por aí, alguém a quem cortaram os colhões.
            Entro numa farmácia, mostro a lista de remédio.
– De que o senhor está rindo?
– De nada.
– Então por que me olha assim?
– Assim como, senhor?
Há outro rapaz atrás do balcão. Ao me ver alterado – por que estou alterado? – ele vem e se coloca fora do balcão. Entendo a atitude dele. Atrás do balcão, caso eu tenha alguma reação violenta, terá entre nós o próprio balcão que dificulta ataque, mas também atrapalha a defesa. De repente percebo que toda a farmácia está com a atenção em mim. É mais um louco, devem pensar. Manias. Mas o homem gordo, rosto redondo, que me olha sério e irônico – é certo que me olha irônico – não deveria rir de minha cara, da minha receita, do meu modo de vestir, o que está olhando? Não posso me engalfinhar com o rapaz que se aproxima como quem vai expulsar um mendigo da farmácia. Insensatez. Recuo.
– Onde está minha receita?
– Ele foi buscar o remédio.
– Não quero mais o remédio.
– Ó Jorge, o cliente não quer mais o remédio – grita o gordo para dentro da farmácia.
            Não sou mais um homem jovem. Se me atraco com o rapaz, por certo ele me trucida, quebra meus ossos. Além do mais, os empregados todos da farmácia se colocam de prontidão. Percebo que sou uma ameaça. Eu, quem diria, a ameaça. Não gosto de me sentir uma ameaça. Se alguém ameaço esse alguém sou eu mesmo. Aqui está, senhor, a sua receita. Coloco a receita no bolso. Me dirijo para o shopping do outro lado da rua. Percorro as vitrines. Nada me interessa. As luzes dos jogos eletrônicos me atraem. Outra vez me pego pensando nas máquinas. São todos jovens os que estão ali.
Duas moças despertam em mim o que pensava adormecido. Não gosto de misturar outra vez máquina com desejo.
São todos fascinados pela tecnologia. A tecnologia não passa de meio mecânico de existência, por que as pessoas se fascinam tanto com a tecnologia? A máquina me leva a ser máquina, estende meu nariz, alonga meus braços, binocula meus olhos, coloca meu ouvido do outro lado do mundo, meu ser – meu ser físico – é um gigante de dimensões inimagináveis, loucura de um cérebro que não ousa pensar-se tão grande. Por trás dela está apenas o vácuo, logo o brinquedo da tecnologia é o desvio de mente enferma que se deixa dominar. Eu não quero que máquina nenhuma venha a me dizer como se comportar ou existir. O sujeito que acredita usar a máquina está enganado porque ela traz em si a contradição de sua existência. Miséria. Enquanto penso que uso a máquina, ela me transforma nela mesma e nessa metamorfose quem perde a humanidade sou eu, porque a máquina não perde sua essência de máquina, sua maquinidade.
– Quanto custa?
            – O quê, meu senhor?
– Quanto custa jogar naquela máquina?
– É uma máquina nova.
– Desculpe, perguntei quanto custa, não se a máquina é nova.
Ele me vendeu uma ficha. Coloquei-a na máquina. O bicho disparou. Perdi todos os jogos. Aborreci-me. Fui tomado por um ódio visceral, eu que costumo ser pacífico. Chutei a máquina. Puxei os fios. O segurança se aproximou.
– Emergência, setor 3 – disse no rádio. E repetiu: Emergência, setor 3.
E, virando para mim:
– O senhor pode me acompanhar?
– Já estou indo embora.
– O senhor danificou a máquina, meu senhor.
– Que máquina?
Não sei que aparência tinha. Que aparência eu tinha, diga, que aparência? Dois homens fortes, vestidos de roupa preta, me levaram para uma sala.
– O coroa é maluco – disse um deles.
– Com maluco a gente tem uma maquininha que os malucos gostam de brincar.
E tirou da gaveta a porra de uma máquina de dar choque.
– Tudo quanto é louco gosta de choque.
– O senhor gosta de estragar máquina, né? Esta aqui estraga maluco.
E me deu choques que me fizeram rolar pelo chão de dor. Desgraça. Depois a sala ficou vazia. Me recuperei. Mas já não era o mesmo. Andava entorpecido, a vista turva, o coração disparado. Andei ainda pelo shopping como autômato, mais tarde peguei um táxi.
Não sou mais eu, sou vários e não sou ninguém, um ninguém cibernético, um ninguém eletrônico e entediado. Tenho também várias cabeças, a que pensa que pensa, a que mandam pensar o que a máquina pensa, o que pensa os outros, o que pensa o que pensa, o que pensa que pensa independente do que pensam as pessoas que pensam pelos que não pensam.
Nenhuma máquina poderá viver por mim. Nenhuma, veja, nenhuma. Só me fascina o velho e destoante: o corpo. O corpo humano, mesmo aquele plastificado e vítreo, que já me horrorizava no colégio: um homem com as vísceras à vista: o corpo de plástico transparente onde se viam lá dentro o fígado azul, o pâncreas verde, o intestino marrom, o coração cor de rubi, as veias azuladas e os músculos beges.





(LGE, 2005, também em ebook Amazon)




sábado, 15 de agosto de 2026

Vale a pena, poema

 





Um poema

para que possa dar fim

que não a morte

– a rotina final –,

que não a rotina

– a morte escassa –,

mas um fiat lux

que prolongue

a delícia da vida.

E me diga que vale

a pena a pena

valer a vida.

 

 



sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O viúvo 18











          O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.


(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O quarto tempo, poema

 




 

Vivo em um quarto tempo,

carregado de esperança

que, concedo,

é uma mania de futuro;

retalhos sucessivos

de cenas que me arremessam

à parede móvel dos anos

e à matéria corrupta

que é um torniquete

para as delícias

do mundo, meu amor.

 

 

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O cheiro, poema

 





Teu cheiro é vegetal,

está nas pétalas dos

meus dedos

que te tocaram.

Te abres e te proteges

como uma tocadora

de violoncelo.

O perigo do gás letal

que tudo inflama.

Como se faz para

esquecer o mapa

do teu corpo nas letras

miúdas do teu cheiro?

 

 


reescrito de O cheiro, in Estrangeiro, (1997)