sexta-feira, 15 de maio de 2026

A chuva



Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem retirada da internet: chuva

terça-feira, 12 de maio de 2026

A inquietude, poema

 




 

 

 

 

 

A inquietude se hospeda

em quartos separados entre ímpares

que não tenham pares.

Hospedo vários sentimentos

na mesma habitação

registrada no livro das horas.

 

O check-in começa

logo ao acordar

e não dou baixa

de ser meu hospedeiro.

 

O serviço de quarto

não atende à voracidade

da imaginação passageira.

 

Há uma piscina

onde nadam desejos submarinos

em meio ao cômodo.

 

De vez em quando,

a banheira submerge

os incômodos do not disturb.

 

Todos têm o mesmo abajur lilás

e o leito ambulatório

do hospital dos intermitentes.

 

Os mais jovens saem mais secos

pelos líquidos que deixaram impressos

na folha de algodão.

 

Famílias se burburinham

na farândola da vacância.

E homens de negócio

investem seu tempo

no memorial das horas tortas.

 

Todos os corredores são lentos

e enganam os sentidos.

 





quinta-feira, 7 de maio de 2026

O viúvo 18











          O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.


(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

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domingo, 3 de maio de 2026

Desertos, poema

 


 


 

 

 

 

Um homem carrega

suas vidas como lagartos

mudam de cor.

E assim vai o homem marrom

na estrada de terra do trabalho

ou verde

entre a folhagem do amor.

Um homem carrega

sua morte

como um camelo

carrega um deserto.

Quando a morte

lhe vem

é apenas um encontro marcado.

 

 

 

 

 

 

sábado, 25 de abril de 2026

Peritagem dos enganos

 


 


 

 

 

 

Sou experto em vazio

e perito em erros.

Minha lupa diminui

as chances de descoberta.

Ignoro todas as certezas,

pois sofro com a peritagem

dos microcosmos alheios.

Meu microscópio

só dilui minha cosmovisão.

Sei desenhar

na ponta de um alfinete:

a perícia do desacerto.

Todos os meus instrumentos

têm lâmina cega

– não se pode escrever

sem tinta ou ponta de lápis,

sem teclas ou esperança –

a esperança é a única pedra

de amolar a lâmina

cega do desânimo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Réquiem , poema RCF

 



 

Posso caber nos mais míseros lugares:

                        nas frestas das janelas abandonadas de um convento,

                        nos parafusos enferrujados das mesas bambas,

                        nos vidros empoeirados dos basculantes,

                        na dobra das cartas do baralho de um jogo de pôquer.

 

Indiferente aos carvalhos e às mãos longas do adeus,           

                        descerei o rio das aléias, na canoa rija.

                        A morte flui como um rio embora outras formas

                        de água sejam mares mortos.

                        Como a piscina:

                                                           estranha tumba

                                                           onde nenhuma vida viceja

                                                           na água clorada

                                                           e         

                                                           passageira dos banhistas.

 

Tudo falseia num mundo de águas.

                        No aquário existe a imitação da vida

                        marinha no estelionato da ostras       

                        de plástico que borbulham suas

                                                                       pérolas de oxigênio.

 

O ínfimo, o pouco, o nada –

                                                           nenhum deserto tem a secura

                                                           de minha alma beduína.   

 

Que ilusionismo é este? Um poço de fundo falso,

                                    um relógio sem ponteiros,                       

                                    um trem sem trilhos

                                    e

                                    o jogo de xadrez – imóvel e eterno –

                                    jogado sem peças.

                                    Tenho medo de acabar falando sozinho

                                    como os loucos e os rádios.

 

Ao me virem nas fotos do álbum esquecido

                                    na gaveta dirão:

                                                           quem é este de cabelos ralos

                                                           e

                                                           óculos de aro fino?

 

 

sábado, 18 de abril de 2026

A peste em Vieira no Maranhão, RCF










         O governador aceitou a realidade. Pediu que Vieira comandasse um grupo de sábios para estudar como atacar a peste. No Colégio dos Jesuítas, sentaram-se em volta da mesa o padre Ambrósio, o físico Rui, o mouro Omar Zahen, o inaciano Pierre Millet, ou Pedro Milé, o sargento-mor António dos Prazeres e Gualberto Espanhol, agora chamado de Gualberto o Enforcado. Este último era entendido em astros celestes e nas ciências de Klépero. Não tinha conhecimento das ciências do corpo humano. Vieira tinha-o como sábio. E era o que bastava. Um homem inteligente como ele poderia a qualquer momento, diante de uma polêmica, apontar um caminho ou colocar-se a favor da razão e da lógica.

            Rui apresentou o problema. Mostrou um mapa improvisado. Ali estavam as ocorrências maiores da doença. O relato de que a peste invadira os sertões e dizimava os gentios não intrigou os participantes da assembleia.

O médico também mostrou livros, entre eles, o do médico Morão, de Galelo e de Hipócrates. Classificou em duas espécies a enfermidade devastadora e má: a peste negra, fatal e ruim; alastrim, bexiga branca, indolente e fraca. Era a primeira que descera suas asas sarcófagas sobre a ilha.  Carcavaz ponderou que a peste significava o desdouro do povo. Os colonos estavam sendo punidos por sua arrogância, vícios graves e profanos, culpas horrendas e atos de desonra e heresia. Vieira passou a mão na testa, arfou como se estivesse enfarado. A peroração religiosa de Carcavaz cabia nos sermões, mas não resolvia o problema de saúde pública.

            O mouro foi chamado para opinar. Al Campelo lembrou que Al-Razi, o médico muçulmano, utilizava cânfora nas epidemias. Além disso, empregava tintura de mirra, o óxido de mercúrio e a água de alcatrão.

            – Al-Razi recomendava a utilização de benzoares.

            – E vós podeis explicar, mestre Omar, o que vêm a ser os benzoares?

            –São pedrinhas encontradas nos intestinos de todo e qualquer animal que rumine.

            Na Europa, disse padre Millet, há quem acredite que a bexiga provenha do calor excessivo do corpo e que, portanto, há que esfriá-lo, colocando o enfermo à exposição de correntes de ar, tisanas frias, eméticos e sangrias. Outros creem que o doente tem de enfrentar o calor para expulsar a doença. Então se usam bebidas sudoríferas, vinho quentíssimo, cidra com pau de sassafrás e pimenta ardente, licores exsudantes.

            Rui permanecia calado. Vieira desgostava daquele grêmio que ele mesmo escolhera. Virou-se para o padre Ambrósio. Com aceno de cabeça, solicitou a opinião do jesuíta. Ambrósio servira no Bispado do Japão. Lá, cuidavam os empesteados com o tratamento rubro.

            – Cobriam os quartos do doente com sedas vermelhas, o chão com tapetes de um vinho tinto tão forte que escurecia o ambiente. Balões vermelhos, colchas vermelhas, louças vermelhas, lanternas vermelhas, velas vermelhas.

            – É isto que vós sugeris para o tratamento dos enfermos?

            – Padre Vieira, sou apenas um servo de Deus, e se a medicina pratico é por lume e direção da mão do Senhor. Se vós todos acreditais na utilização do método asiático para as mazelas da bexiga, como tratamento coadjuvante, então é porque se fará o desígnio divino.

            – Um tratamento caro – opinou Rui. – Não temos seda, balões, velas, lanternas, colchas e alfaias vermelhos.

            Carcavaz voltou à carga:

            – Aqui em nossa biblioteca encontrei um livro de ensino da medicina de nossa congregação. Os antigos jesuítas utilizavam fezes de cavalo, não secas, mas recentes, composto de papoulas vermelhas, bagas de sabugo e beoártico do Curvo.

            – E vós podeis explicar ao grupo, padre Carcavaz, o que vem a ser o tal do beoártico do Curvo?

            – Chifre de unicórnio, olhos de caranguejo, raízes e folhas de ouro fino.

            – Muito bem – interrompeu Rui. – Vós sabeis onde poderemos encontrar no Maranhão chifres de unicórnio?

            Calado até aquele momento, Gualberto, outrora de apelido Espanhol, levantou-se. Todos viraram o rosto em sua direção. Tinha a trunfa alourada, crespa e metade comida pelos cabelos brancos, as roupas rotas e turvas, as sandálias emporcalhadas de lama, as unhas negras dos pés e mãos engrandecidas e tortas, a barba de anacoreta dava-lhe por fim o aspecto de um insano. Não se dirigia à mesa daquele pequeno parlamento. Olhava difuso e ausente para um horizonte que ia além da parede.

            – Tenho estudado a influência da lua sobre os homens. A peste que nos assola tem a ver com os líquidos do corpo. A lua chupa as marés para o alto. Meus estudos me levam a acreditar que os homens ficam mais leves durante as luas cheias.

            Sentou-se e nada mais falou. 



(do romance Vieira na ilha do Maranhão. Rio: 7Letras, 2019)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Linguagem, poema

 


 






 

Eis que de súbito tudo se desfaz

e as maravilhas de cor e silêncio intumescido

regurgitaram a tempestade do futuro

inquieto e réptil movendo-se

em meio à indelicadeza dos sentidos.

O que era passivo imóvel e submisso objeto

se revelou a demoníaca imagem da queda

e o fascínio mortal dos espelhos,

a intemperança dos fios desalbergados,

a natureza humana dos perigos da fugitiva

floresta de navalhas e a vegetação rasteira

do dia tomado de ervas

cada qual com sua linguagem de futuro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Inventário, poema

 


 


 

 

 

Pelas manhãs, me sento no inventário

a fim de coser alguma ficção.

Costuro com a linha da trama

inventários os mais diversos.

Nos meus inventários,

também consta o tubo de ensaio

que é outra forma de lista:

no livro-caixa

a certidão imprecisa

do inventário dos outros.

Também cultivo

a linha de outro coser:

o inventário da poesia,

que é um coser de linhas tortas.

 

domingo, 12 de abril de 2026

Romance recria a vida do padre António Vieira na ilha de São Luiz do Maranhão




Wil Prado
Especial para o Jornal Opção
Se você vai ler esse livro agora, quero adverti-lo. Antes de fazê-lo, consulte sua agenda e certifique-se de que não tem nada urgente. Sim, meu amigo ou amiga, porque depois de ler o primeiro parágrafo você não vai mais conseguir largá-lo.
Começo por ressaltar que este é um romance absolutamente original, não conheço nada parecido na literatura brasileira ou estrangeira. Seu parente mais próximo seria, talvez, “Viva o Povo Brasileiro”. E não posso deixar de imaginar que, a exemplo do que João Ubaldo Ribeiro fez com a Bahia, com “Vieira na Ilha do Maranhão” Ronaldo Costa Fernandes também recriou uma importante página da história colonial do seu Estado.
Pesquisador perito e minudente, Ronaldo Fernandes escarafuncha um dos mais fecundos períodos da história — maranhense e brasileira —, os sete anos da estada do padre António Vieira (1608-1697) em São Luís. O jesuíta é, naturalmente, o protagonista do romance, que encontra, na ilha, uma sociedade moralista, mas ao mesmo tempo permissiva, que se divide entre as missas e os cabarés, os altares religiosos e as camas de adultério.
Como um títere, o autor manipula seus cordéis e dá vida a uma imensa galeria de tipos os mais pitorescos e exóticos imagináveis. Gordilho, o sapateiro profeta e sua filha Luísa, com uma cabeça enorme, presa a uma espécie de gaiola de ferro, para evitar o crescimento. Arduíno da Babel, o falso poliglota que passa a vida construindo uma torre para falar com Deus, ainda que não saiba ao menos qual o idioma divino. O padeiro que alimenta visões apavorantes de seres metade homem, metade animal. A interiorana pobre, mas robusta, que, mesmo em meio à fome trazida pela peste da bexiga negra, alimenta o filho e o marido com o único recurso que dispõe: o leite dos seus próprios peitos. Mariana, a menina-mulher que, sem ter relações com o marido, um dia pariu um rato.
Mas também ressaltam as fortes personagens femininas, como a bela viúva Ana Jacomé, a despertar a libido nos homens mesmo nos trajes discretos com que frequenta as missas.  Ou a filha do porqueiro, a ninfomaníaca Ritinha.
Mas todos os personagens, como satélites em volta de um sol, procuram o jesuíta para se aconselharem, se queixarem ou protestarem contra os desmandos da coroa, do governador ou do vizinho usurpador. E Vieira, sempre solícito e mediador, vai distribuindo bênçãos e conselhos.
O autor — “ampassã”— reproduz alguns trechos dos famosos Sermões de Vieira, com suas metáforas poderosas, suas terríveis ameaças ao fogo dos infernos, mas que, ao final, sempre abrindo uma porta de salvação para os que, largando a vida do pecado, se arrependam a tempo de serem acolhidos aos braços do Salvador.
Mas nem tudo são fores nessa passagem do jesuíta. Ronaldo Fernandes também flagra um Vieira contraditório, pois, ao mesmo tempo em que conclama os nobres da terra a soltar as “ataduras da injustiça” e deixar “ir livre os cativos e oprimidos”, referindo-se aos índios colonizados, como fez no sermão da Primeira da Primeira Dominga da Quaresma, sugere aos poderosos a aquisição de escravos negros, que, para ele, seria até uma forma de libertá-los de suas hereges práticas religiosas na incivilizada e perdida África.
Romance bem estruturado e de largo fôlego, perpassa por suas páginas um sopro de sensualidade tropical, fomentado, talvez, pelo clima quente e úmido da Ilha Maldita, como a ela se referem alguns personagens. E, com efeito, o cheiro inebriante de sexo está sempre no ar, como uma flor prestes a espocar. E todo esse erotismo latente é descrito numa linguagem viva e despojada, como a dos seus próprios personagens embriagados nos puteiros da Ilha durante toda a passagem da peste.
Não tenho, pois, qualquer dúvida de que estou diante do mais novo clássico da literatura brasileira. E mais. Sem querer dar uma de profeta-de-esquina — aliás muito em moda nesses tempos em que falsos gurus alardeiam que a terra é plana — diria que essa história qualquer dia ainda vai redundar num belo filme de época.
Wil Prado, escritor, publicou “Sob as Sombras da Agonia” (Chiado).