segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Garça na tarde, poema

 

 


 

 

A garça, com pescoço

interrogativo, na calçada,

espreita.

Onde estará o lago

a que ela dá costas?

A ave,

sem poder dar de ombros,

abre as asas, perplexa.

A tarde toda, empedrada,

se converte na grande

dúvida animal da garça.

Que manguezal

é aquele

de asfalto e pedra?

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Dia caminhante, poema

 






No calor dos

dias caminhantes,

os óculos escuros

de dramas.

A vida trêmula

de emoções trepidantes,

plúmbea como uma

nuvem rasteira.

Na praia, o entardecer

dos peixes, a alma

andarilha como guia

de cego.

 

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Pai eterno, poema

 

 


 

Agora que és

apenas gestos

num filme doméstico

para uma sala vazia;

agora que teus companheiros

também entram

na neblina do tempo;

agora, que teus filhos

são avós, sei porque

uma tarde, longínqua,

sedento, tomaste

um copo de água

e olhaste para mim

com desespero

de quem descobre

na sede uma submissão

ao minuto e à vida.

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Passarinho, poema

 





Viver com a displicência

do passarinho

no fio de alta tensão.

Sou místico

de tantas certezas

e lúcido de torvelinhos.

 

O dia é preciso

e uniforme

como um pão.

Necessário

mas estufado com seu

fermento das horas.

 





quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Farol, poema

 


Em algum lugar

estou parado na esquina

à espera de mim,

ansioso e torto,

os papéis voam

seu voo de vento

e os guardas de trânsito

apitam humanamente

contra a máquina de piscar.





olhos do semáforo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Pena capital, poema

 

Roberto Magalhães



Habeas corpus teu

que não me deixa livre

de tuas leis.

Só teu amor

indulta e me prende

à sursis que é viver

à espera da pena capital.




segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Porto, poema

 




Existe um porto

em que nenhum

navio atraca.

Existe um rio

sem margens

onde não brota vida.

Existe um horizonte

sem linha

que não limita o bom

e a erva daninha.

Existe uma parede

de algodão que nada

segura e tudo traspassa.



Antiquário, poema

 


O regatear do tempo

dos antiquários

e seu armazém

de metonímias do passado.

Insinuam que a vida

 – reta –  

é circular

e apenas vivêssemos

na ponta inconclusa

do círculo que

nunca se fecha.

 

sábado, 3 de outubro de 2026

Cidade, poema

 




Deus é silencioso e calmo

na madrugada de letreiros

iluminados para ninguém.

Estou cansado

da claustrofobia

do círculo

que é a cidade.

A cidade necessita de um

geômetra

que, no compasso

dos ritmos,

rejeite a imperfeição

do Centro.

                         

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Moça, poema

 

 


 

Depois, se perfuma

do líquido das glândulas.

Passeia as pernas

pelas aleias da praça

amplas como o mundo.

Na carteira da escola

onde cresce – cada ano –

a roliça madeira

das pernas dela.

Na igreja só o cheiro

de Deus: o incenso

e o corpo: em cápsula.

Haverá outras cidades

com cheiros excitados:

o cheiro dos arranha-céus.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rosa dos ventos, poema

 




Cheguei a ter uma rosa

dos ventos que apenas

floriu as cartas

que jamais recebi.

Não posso negar

que tenho a consistência

de um trem:

o meu início

pode ser meu fim

(basta que mude de lugar

a fornalha que arde

meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me

medieval e encouraçado:

era apenas a Idade Média

da adolescência.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Sou Jorge e o Dragão, poema

 





Tenho nostalgias das pontes

e gosto da ideia de estar

suspenso entre duas margens.

Nenhuma arma

fere mais como

o fogo-fátuo

das sensações.

Passo então o dia

no mundo da lua:

Sou Jorge e o Dragão.




terça-feira, 29 de setembro de 2026

Lucidez, poema

 


 

As juntas do sonho

se espreguiçam

na largueza da alma.

Um facho de luz

não romperá a janela

tímida da rotina.

No espelho do banheiro,

engravatado e barba feita,

como numa foto 3 x 4.

Antes que a lucidez matutina,

que tudo expõe,

quero o esconderijo noturno

das plantas que vivem

sem saber que vivem.  

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Lenço, pooema

 




Meu coração bate

no peito como uma

máquina fotográfica.

Minha casa é uma cidade

pois nela cabem

as esquinas dos relógios,

o tumulto das praças

de alimentação,

os corredores das ruas.

Quando partir,

só os lenços brancos

me encherão os olhos

como lágrimas de pano.

 

 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Retrato, poema

 




Posso caber nos mais

míseros lugares:

nas frestas das janelas

abandonadas de um convento,

nos parafusos enferrujados

das mesas bambas,

nos vidros empoeirados

dos basculantes,

na dobra das cartas

do baralho de um jogo de pôquer.

O ínfimo, o pouco, o nada –

nenhum deserto tem a secura

de minha alma beduína.        

Ao me virem nas fotos

do álbum esquecido

na gaveta dirão:

quem é este de cabelos ralos

e óculos de aro fino?

 

 

 

sábado, 26 de setembro de 2026

Cavalo, poema

 



O cavalo,

com seus músculos

de corda,

relincha

ao pardo couro

do pasto queimado.

 

De rabo a raso

o cavalo é um soldado

na infantaria de seu dono.

Nada comanda,

nem mesmo seu corpo.

Aprendeu na caserna

da fazenda a disciplina,

o mando e a marcha.

 

O cavalo escova suas crinas

no pente do vento.

Quem inventou o cavalo

– besta de carga –

não foi a natureza e seu lombo

mas o furor utilitário,

o gosto humano

de servir-se do outro.

                                  

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ilusionismo, poema

 




Tudo falseia

num mundo de águas.

No aquário

existe a imitação da vida

marinha no estelionato

das ostras de plástico

que borbulham suas

pérolas de oxigênio.

Que ilusionismo é este?

Um poço de fundo falso,

um relógio sem ponteiros,                            

um trem sem trilhos

e o jogo de xadrez

– imóvel e eterno –

jogado sem peças.

Tenho medo de acabar

falando sozinho

como os loucos e os rádios.

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Bagaço, poema

 




A moenda dos dias

tritura o que já é bagaço.

Sem rosto,

não me encontro

em nada que faço.

Não sei se chego

ou se estou de partida.

Aqui fico, espectador,

a vida passa,

recolho minhas dores civis;

conclusão:

fui um fazedor que nada fez.

 

 


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Putas, poema

 



Os carros passam

trotando os pneus.

As mulheres, espantalhos

na plantação das calçadas.

A língua ofídica.

A arma branca

soltada das braguilhas.

O medo é melado.

As cores baças escondem

as estrias da vida.

O gemido buzina.

A vida cortante,

como o vento das esquinas,

escorre pelas pernas.