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terça-feira, 1 de setembro de 2026

O susto e o redemoinho, poema

 



 

 

Um susto redemoinha meus dias,

uma correnteza carrega meus pés

num chão de água.

Sou uma cabeça que ora boia,

ora submerge aos tropeços.

Ando numa ciranda de águas.

A profundidade das calçadas

ameaça minhas margens.

Minhas pernas flutuam o acaso,

que é sempre súbito

e enforca meus dias.

Tento colocar a cabeça para fora

nessa ressaca de lutos.

Complicado se equilibrar

num meio fio.

 

sábado, 29 de agosto de 2026

Formigável, poema

 


 


 

Corto as folhas da relva

dos meus poemas.

A cabeça grande

das ideais tolas.

A fila indiana

dos meus problemas.

Em meu formigueiro

há o burburinho

animal da espécie:

o frenético trabalho

da realidade.

Formiga em mim

uma necessidade de vida. 

 

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Desemprego das horas, poema

 


 

Emprego meus dias

no desemprego das horas.

Há muito de fabril

em meus escritos.

Chegará o dia em que

desempregarei meu corpo.

O relógio de ponto

do meu coração

marca o emprego

das vontades.

Meus temores estão de férias.

Caminho o expediente

da alegria.

 

 

 

 


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Chuvarada, poema

 





 

 

Chove tanto

que encharco minhas securas.

As ideias inundadas 

de rios sinuosos.

Mas a chuva também

é bonançosa

e, casada com o sol,

faz a vida renascer.

Que ironia!

Tudo em excesso arruína.

Por isso rego minhas fantasias

e uso a luz da razão

para não estragar as raízes

das minhas imaginações.

 



 

 


domingo, 23 de agosto de 2026

Aprendizagem do destino, poema


 






Desaprendi a aprender.

Inquieta-me ter

um nariz entre os olhos:

para ver adiante

tenho que cheirar o destino.

 

 

 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Antropofagia, poema

 


 

 


 

 

 

Antropofagia

é a vida mesmo

que vai nos comendo

o corpo até que nada sobre dele.

Antropofagia

é a morte

que lança na terra

o sal que a seca

e nada nela medra.

Aproveito do corpo da vida

a vida morta do passado

que – cadáver – sempre

alimenta o presente

– deliquescente –

e o futuro –

antropófago por natureza

na linguagem dos tempos.

 

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Linguagem, poema

 


 






 

Eis que de súbito tudo se desfaz

e as maravilhas de cor e silêncio intumescido

regurgitaram a tempestade do futuro

inquieto e réptil movendo-se

em meio à indelicadeza dos sentidos.

O que era passivo imóvel e submisso objeto

se revelou a demoníaca imagem da queda

e o fascínio mortal dos espelhos,

a intemperança dos fios desalbergados,

a natureza humana dos perigos da fugitiva

floresta de navalhas e a vegetação rasteira

do dia tomado de ervas

cada qual com sua linguagem de futuro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Inventário, poema

 


 


 

 

 

Pelas manhãs, me sento no inventário

a fim de coser alguma ficção.

Costuro com a linha da trama

inventários os mais diversos.

Nos meus inventários,

também consta o tubo de ensaio

que é outra forma de lista:

no livro-caixa

a certidão imprecisa

do inventário dos outros.

Também cultivo

a linha de outro coser:

o inventário da poesia,

que é um coser de linhas tortas.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Rupestre, poema









 

 

  

Minha imprudência
é feita de cavernas
onde caço animais
nas paredes do desejo.
 
Ando rude e encovado
nos desenhos primitivos
da minha memória
quase extinta
pelos anos de escuridão.
No meu corpo
tão áspero e rupestre
há uma pré-história de mim.
 

 

 

 

 

 

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

As mãos e as linhas tortas, poema

 



 




 

Minhas mãos

são mais secas

que um deserto de carcaças.

Com elas,

afago a estreiteza

do silêncio.

Meus dedos

não cabem na luva

um número menor

da frieza das negativas.

 

O dedo acusa

a vida que desabitei.

De minhas mãos

desabam cascatas de vazio

onde me banho de impurezas.

 

As palmas querem

segurar o vazio

que não é a glória

mas a tentativa

de agarrar o futuro.

 

O futuro gosta

da prestidigitação

e não passa de um charlatão

que logo, no presente,

se percebe o logro da mágica.

 

Meus dedos,

pinças de carne,

catam os milhos

dos comprimidos.

E a pílula da felicidade

 – que é cor-de-rosa –

acolchoa as paredes do real.

 

Minha impressão

é que cada palavra

é uma digital

que deixo no poema

que minha mão me escreve

por linhas tortas.

 

Às vezes perco a mão

para contar nos dedos

os desvios do caminho

do poema que se recusa a ser escrito.

 

Por outro lado,

sei que cozinho de mão cheia

as horas espalmadas

em que encontro

o pasmo do instante.

A unha da razão

e a carne do desejo

fazem parte do mesmo

dedo acusador do destino.

 

 

 

 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

O sagrado e o profano, poema

 

 

 


 

 

 

Entre os versículos

de que mais gosto

estão os do profeta

Carlos que foi um anjo torto.

 

Os salmos são

os de Andrade

que recitam o desvario

da cidade

e a gota de sangue

que pinga em cada aleluia.

 

Meus cânticos

são do jardineiro

Charles que cultivava

rosas do mal.

 

O meu Cântico dos cânticos

é o do cantor cego:

Homero ou Borges:

um cantou a guerra,

outro Ulisses sem mastro

ou cera de abelha

para cair na tentação

das bibliotecas.

 

Minha bíblia

é um evangelho

segundo João,

não o Batista,

mas o do Recife,

primo de Manuel,

neto de outro Cabral.

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Carnaval dos sujos, poema

 

 


 

 

Um bloco de sujos

buzina confetes.

O meu trio elétrico:

a zabumba dos meus nervos,

a batucada do meu coração solitário

e o reco-reco das idas

e vindas amorosas.

 

Aqui cruzo

as serpentinas dos braços

para o frevo do destino.

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A pirâmide e os pobres, poema

 


 







 

 

 

O poder é

um caminhão sem freio,

cheio de negros

e pobres na caçamba.

Os negros e pobres

têm vocação egípcia:

vão continuar

a ser piso da pirâmide.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Piscina dos afogados, poema

 

 

 


 

 

Qual a parte mais funda?

O medo ou a desesperança?

No medo,

os pés não alcançam o fundo.

Na desesperança,

se boia sem rumo.

Mergulho em águas passadas

que são as que não têm cloro.

Faço o possível

para não pular de um trampolim

numa piscina vazia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 6 de dezembro de 2025

A maldição do branco, poema

 










 

 

 

 

 

Estamos

parados numa estação de frio

e de descampados secos,

a vista escorre

pelo capacho marrom

feito de terra,

matéria esquiva e

o desassossego das janelas

cujo vapor não deixa que se veja

os campos errantes lá fora.

 

Sobreviveremos

às chegadas imprevistas,

a estação não dará

o canto miúdo das flores,

o tapete salsaparrilha do outono,

nem o forno dos suores da juventude

e muito menos

o cinzento livro de ponto

com suas entradas e saídas

da maldição do branco.