sábado, 26 de setembro de 2026

Cavalo, poema

 



O cavalo,

com seus músculos

de corda,

relincha

ao pardo couro

do pasto queimado.

 

De rabo a raso

o cavalo é um soldado

na infantaria de seu dono.

Nada comanda,

nem mesmo seu corpo.

Aprendeu na caserna

da fazenda a disciplina,

o mando e a marcha.

 

O cavalo escova suas crinas

no pente do vento.

Quem inventou o cavalo

– besta de carga –

não foi a natureza e seu lombo

mas o furor utilitário,

o gosto humano

de servir-se do outro.

                                  

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ilusionismo, poema

 




Tudo falseia

num mundo de águas.

No aquário

existe a imitação da vida

marinha no estelionato

das ostras de plástico

que borbulham suas

pérolas de oxigênio.

Que ilusionismo é este?

Um poço de fundo falso,

um relógio sem ponteiros,                            

um trem sem trilhos

e o jogo de xadrez

– imóvel e eterno –

jogado sem peças.

Tenho medo de acabar

falando sozinho

como os loucos e os rádios.

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Bagaço, poema

 




A moenda dos dias

tritura o que já é bagaço.

Sem rosto,

não me encontro

em nada que faço.

Não sei se chego

ou se estou de partida.

Aqui fico, espectador,

a vida passa,

recolho minhas dores civis;

conclusão:

fui um fazedor que nada fez.

 

 


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Putas, poema

 



Os carros passam

trotando os pneus.

As mulheres, espantalhos

na plantação das calçadas.

A língua ofídica.

A arma branca

soltada das braguilhas.

O medo é melado.

As cores baças escondem

as estrias da vida.

O gemido buzina.

A vida cortante,

como o vento das esquinas,

escorre pelas pernas.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Diabo, poema

 

 


 

 

O lobo é o diabo do cordeiro

o capitão do seu sargento

o cachorro do gato

o inspetor do transgressor

na ciranda dos diabos e

dos pobres

todos somos pobres diabos.

O diabo é que o rico

é diabo mas não é pobre.

E se tem um diabo

para o diabo rico

- que o pode fazer pobre diabo –

é seu espírito atormentado,

que empobrece o diabo rico

e o torna um pobre diabo.

 

 

  

Tempo, poema

 

Botero



Quero ser como o tempo:

seco.

Quero ser como o tempo:

pedra no deserto

que se desgasta

indiferente à intempérie.

 

 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

Giralua, poema

 

 


 

A canga do sereno

trepa nos meus ombros,

olho o jardim das giraluas,

que é o parente noturno

do girassol.

Tenho a disciplina rebelde

das águas encanadas,

o aquartelamento

dos sentidos,

a hipótese das velhas

cadernetas de telefone.