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sábado, 3 de outubro de 2026

Cidade, poema

 




Deus é silencioso e calmo

na madrugada de letreiros

iluminados para ninguém.

Estou cansado

da claustrofobia

do círculo

que é a cidade.

A cidade necessita de um

geômetra

que, no compasso

dos ritmos,

rejeite a imperfeição

do Centro.

                         

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Moça, poema

 

 


 

Depois, se perfuma

do líquido das glândulas.

Passeia as pernas

pelas aleias da praça

amplas como o mundo.

Na carteira da escola

onde cresce – cada ano –

a roliça madeira

das pernas dela.

Na igreja só o cheiro

de Deus: o incenso

e o corpo: em cápsula.

Haverá outras cidades

com cheiros excitados:

o cheiro dos arranha-céus.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rosa dos ventos, poema

 




Cheguei a ter uma rosa

dos ventos que apenas

floriu as cartas

que jamais recebi.

Não posso negar

que tenho a consistência

de um trem:

o meu início

pode ser meu fim

(basta que mude de lugar

a fornalha que arde

meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me

medieval e encouraçado:

era apenas a Idade Média

da adolescência.


sábado, 26 de setembro de 2026

Cavalo, poema

 



O cavalo,

com seus músculos

de corda,

relincha

ao pardo couro

do pasto queimado.

 

De rabo a raso

o cavalo é um soldado

na infantaria de seu dono.

Nada comanda,

nem mesmo seu corpo.

Aprendeu na caserna

da fazenda a disciplina,

o mando e a marcha.

 

O cavalo escova suas crinas

no pente do vento.

Quem inventou o cavalo

– besta de carga –

não foi a natureza e seu lombo

mas o furor utilitário,

o gosto humano

de servir-se do outro.

                                  

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ilusionismo, poema

 




Tudo falseia

num mundo de águas.

No aquário

existe a imitação da vida

marinha no estelionato

das ostras de plástico

que borbulham suas

pérolas de oxigênio.

Que ilusionismo é este?

Um poço de fundo falso,

um relógio sem ponteiros,                            

um trem sem trilhos

e o jogo de xadrez

– imóvel e eterno –

jogado sem peças.

Tenho medo de acabar

falando sozinho

como os loucos e os rádios.

 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Frente e verso

 






Quando ando em Paris

no meu bairro

quando corro

e não saio do lugar

quando chego

em casa no trabalho

quando choro meus mortos

que ainda estão vivos

quando tiro

o pino da granada

da fruta de conde

é que meu verso

está na minha frente.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Fuga, poema

 

 



Há muita coisa armada

no horizonte

de concreto das cidades.

Minha pupila, por sua vez,

não aprende a realidade.

Da música de que sou feito,

pouco tenho harmonia,

e, pelos cantos,

há bastante fuga em mim.

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Que pensará Deus de mim?

 





 


 

Que pensará Deus de mim?

Em muitas noites,

a insônia O atormenta.

A cama de Deus deve

ser macia como um sonho.

Os homens são seus pesadelos,

com seus pés minúsculos

e suas ambições de um metro.

Deus há de me sonhar

numa residência do pensamento.

Espero que, ao acordar,

eu não desapareça

do pensamento de Deus.

 

 

 

 


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Aventura cínica, poema RCF











Tento alisar a nervura 
selvagem da esperança
e evito os sonhos com superfície nodosa.

Meus poros são sóis abertos 
à ardência de um sentir
que gira em torno de mim.
Deito ao lençol de areia 
e me cubro de luz
para o espasmo mareado
das sensações desertoras.



(do livro Matadouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)




quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Réquiem do domingo, poema RCF










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Domingo se abrirá 
feito um féretro 
que cruza uma sala.
Meus pensamentos
começam a ter escamas
e salgam a palavra.
O único saber necessário
é viver.
O modo silencioso 
de os móveis morrerem.
As emoções desviantes 
pingam rumores no sofá.





( do livro Matadouro de vozes, 2018)

domingo, 21 de julho de 2024

A especiaria dos despojos, poema RCF







 





Tenho o temperamento das especiarias. 
Cravo os dentes na manhã.
Outras vezes, voz moscada 
a noite
como um louco amanhece nublado.

A droga dos sentidos,
a farmacologia do bem e do mal.
Nada em mim é sobrante.
A pele como um casco de navio
que separa dois mundos.



(do livro Matadouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Óculos, poema RCF









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Meus óculos se cansaram 
de me tornar nítido
e vou passando embaçado
pela miopia das gentes.

O pensamento finge ter olhos 
mas não logra mirar-se.
E embaça a mente que deveria clarear, 
me torna míope
para vigiar a vida
que insiste em me assaltar.





(do livro Matadouro de vozes, 2018)






quarta-feira, 6 de julho de 2022

O lobo do homem, poema RCF


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A mirada dos lobos
logo ao nascer do dia
entranha nos apartamentos 
e nas frinchas 
do lôbrego
Provoca o caos no desjejum
Argamassa
o largo passo dos dolentes
infringe ao pensamento
a lonjura das ambições
Faz das lâminas de barbear
o corte seco do sol
ao varrer do rosto do dia
o resto de noite

Do meu jardim
vejo uma construção austríaca
e digo a mim mesmo:
aqui é minha Viena
Os passos medidos do mundo
se alargam
nas avenidas licenciosas
abertas ao desvario
trotoir de carros vagamundos
super-homens de ferro e
suas quatro patas emborrachadas
de cimento e medo
Corta-se o pão
em pedaços miúdos
e esta é a hóstia
dos que não se confessam
ao sair para o pecado do dia




domingo, 12 de junho de 2022

A natureza das coisas


REGBIT1: #ILUSTRAÇÃO SURREAIS ´polonês RAFAL OLBINSKI




Tudo se apequena
e se ilha,
no coágulo dos meus olhos.

Tudo é natureza:
o móvel se agita no escuro,
o tapete vegeta sua grama,
as paredes gemem brancuras,
as cadeiras coaxam.
Meu pensamento saliva quedas d’água.


(Matadouro de vozes, 2018)



sábado, 30 de abril de 2022

Cozimento dos prazeres, poema RCF






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A cozinha espinafra 
o que de melhor há em mim.
As saladas de euforia 
não fazem parte da dieta
dos meus nervos
nem dos temperos de alma.

Cozinho meus pensamentos.
O sal adoça meus sentires 
e a gula pelas palavras
apimenta meu renascimento.

A carne é mais fraca 
quando a alma é tenra.
Penso nos embutidos 
de minhas veleidades,
o agridoce da juventude,
os passeios pelo mormaço
da idade adulta
e a fase inquieta 
onde asso à quentura
do forno das ideias. 

As frutas viciam-se 
em dentes 
e se oferecem, carne macia,
à lubricidade da boca,
e ao tempo maduro 
da última ceia. 




(do livro Mataduouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Os ares viciados da fortuna, poema RCF









 




Os ares são vários 
e subsistem à fúria 
dos mandos e, vira e mexe, 
são tornados em mansos 
ou solipcistas, rodam em torno
de si, como loucos que são gira.
Só necessito de outros ares, 
embora desconheça 
onde se encontram, 
pois um ar europeu
tem a mesma densidade e amargura,
a mesma textura desatinada 
e a mania que os ares têm
de uivarem como lobos. 

Os ares viajam mundo, 
desconhecem a fronteira do mal
e nos oprimem com sua dança flamenca.
Todo homem deveria produzir seu próprio 
e devastado redemoinho. 
Os pulmões fracos me inspiram o fim
e a vontade que me expele do mundo.



(do livro Matadouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)