sábado, 21 de junho de 2025

Libertinagem, poema

 

 


 

   

 

A memória roda gigante

e faz girar a roda da fortuna do antigo

como um búzio que murmureja

o mar de concha.

O trançado da revolta

borda o pano de fundo

enquanto as cortes do povo

criam a revolução francesa

da libertinagem do pensamento.

 

O tempero da carne cozinha

o temperamento do espírito,

as especiarias dos males

salgam o pouco unguento

das secreções.

A guilhotina das pálpebras

desce para recusar o regime de terror

das crianças da pátria nesse instante.

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 19 de junho de 2025

As botas e o pêndulo, poema

 


 

 


 

Uso botas

que de tão pesadas

me aferram mais ao mundo.

Os passos de botas

não são marciais,

mas venusianos

e pisam a calçada dos anos.

Uso botas no frio,

flanam minha desídia em férias.

Quanto mais ando

mais retorno

à minha ortopédica infância.

 

Os pés chatos da asma

e a madrugada

no respiradouro das horas.

Já fui bom andarilho

– quando não tinha dois pés direitos –

e minhas pernas,

ao fim e ao cabo,

não me fincavam

ao peso da cautela.

O pêndulo das pernas

me bota no mundo

com mais gravidade.