sexta-feira, 7 de junho de 2024

Desfazimento


 

 

 


 

 

Desfazem-se os tempos ásperos,

mas também se desfaz a ternura.

Desfaz-se o coração mole

e até mesmo o carinho

que é o amor em forma de mão.

Desfaz-se tudo,

nada perdura,

só o minuto murmura

em seu esplendor de gota

que logo se esturra.

 

Desfaz-se a voz

que se dilui

no córrego do vento.

Desfaz-se a rude estrada,

a pedra dura.

 

 

 

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Os amantes, poema

 


 

 


 

 

 

O corpo é tão presente

que a alma se regala.

Que bom andar pelas calçadas

contaminados pela boa doença:

o estar febril do outro.

Nossos corpos

estão expostos à combustão.

Cada toque inflama,

cada carícia põe a mão no fogo.

Para os que amam

toda carne é viva.

 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Rio de ferro, poema

 


 

 


 

 

 

Vai o rio de ferro

com os peixes sentados.

Os leitos férreos

até sobem montanhas.

 

São sempre perenes

e não sofrem com seca

ou a inundação dos ferros.

Jamais chegam ao mar,

mas despacham seus peixes

nas estações da margem.

Também carregam minérios

ou grãos em seu leito de ferro

 – dois dormentes sempre acordados –

e seguem em frente obcecados

como o louco por sua loucura

e o ímã pela sua limalha.