sexta-feira, 7 de maio de 2021
Cartão Poético III

quinta-feira, 6 de maio de 2021
Outubro, poema de Ronaldo Costa Fernandses
Odeio as geladeiras
que conservam corpos esquartejados;
as agendas que escrevem à mão o futuro.
Os cães daqui de casa latem para o sol
como os lobos para a lua.
Não são duas faces da mesma moeda,
mas as duas moedas da mesma face da vida.
Quero ser uno e dois,
aprender com a disciplina dos becos,
lá onde a saída é a entrada.
Quero ser estático e andarilho,
aprender com a disciplina dos rios
que se movem sem sair do lugar.
(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)
imagem retirada da internet: francis bacon

terça-feira, 4 de maio de 2021
Procura-se, poema de Matadouro de vozes
![]() |
Otto Dix |
O muro das minhas lamentações
tem um cartaz de busca-se vivo ou morto.
A única recompensa
é um saco cheio de vazio,
a cara de esfinge
e a coroa dos deserdados.
Como perseguir
o que se esconde em nós?
Pássaros negros
e distúrbios turcos
murmurejam na juventude das janelas
e me perguntam se já encontrei
o que não havia perdido.
O faroeste que não me deixa em paz
e o vilarejo do pó ao pó voltarás.
O deserto de atirar nas sombras
e acertar o alvo móvel dos afetos.
Uma grade é uma imagem de lápis
com os quais não se pode escrever.
Buscar vivo ou morto
o sentimento de recompensa.
E para isso é preciso encarcerar,
este sim, o falsário das emoções
e deixar de infringir
as leis da natureza.

domingo, 2 de maio de 2021
Les morts, poema Os mortos, tradução francesa de Manuela Colombo
Les morts
Tous les morts sont un seul mort,
tout mort est tous les morts.
Chaque mort est une métonymie ensevelie.
La splendeur dorée des églises
me dit que Dieu a ordonné
que le paradis soit d'or,
lui qui a tant aimé faire
les choses terrestres à l'égal des choses divines.
Ou l'homme est-il seulement à Son image et ressemblance ?
Et l'enfer est-il à l'image et ressemblance de la terre ?
Là, dans cette splendeur dorée,
sont mes morts,
silencieux, étonnés
sans comprendre combien douloureuse
était cette soi-disant vie.
Tradução: Manuela Colombo

Exílio, poema RCF

Nascer foi uma guerra,
com sangue, suor e lágrimas.
A porta da rua
– minha fronteira –
faz de casa minha pátria.
Fora dela , vivo na ilegalidade.
Ao fim do dia, me tranco
no meu campo de refugiado.
Sei, contudo, que só estarei
em total privacidade na morte.
Estou farto de revistar
minha alma clandestina.
Me contrabandeio
cada vez que passo
na aduana da rotina.
Tenho medo de que não carimbem
o visto de entrada na vida.
Amanhã lerei o jornal
– dossiê das violências –
que não traz o nada consta
da minha vazia existência.
(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)
(foto: hreinn friöfinnsson)

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