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terça-feira, 26 de maio de 2026

O papel de cada um, poema de Matadouro de Vozes

 


 

 


 

 

 

Nem todo papel

tem o mesmo peso.

Os papéis do divórcio

têm a gramatura descabelada.

O quilo do atestado de óbito

é áspero e melancólico.

 

A saliva da máquina me azeita.

Guardo a fome na despensa.

A roda do desejo ainda me saliva.

 

A largura do mínimo.

Trago minhas opiniões,

evaporo minhas ideais,

e o que me resta são cinzas.

 

Minha pele, o papel do meu corpo,

se destitui do tempo.

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Tambores, poema de Matadouro de vozes

 


 




 Que tombos ouço

que bumbam o boi?

 

O chapéu de penas

flutua o matadouro.

 

O boi de duas pernas

zabumba

o pasto do patrão.

 

As lantejoulas polvilham

estrelas na noite mais áspera.

 

Dançam as palmeiras

com seus braços embriagados

de matracas e surdos.

 

quinta-feira, 20 de março de 2025

Pororoca


 


 

 

 

 

Os rios

como carneiros de água

caminham para o matadouro

salgado do mar.

 

Algumas vezes,

o bicho maior

espuma suas garras

e invade o ninho doce.

 

Há luto, revolto

e o que era manso

se revolta e luta.

 

A boca do mar

baba sua ferocidade

grande e humilha

a docilidade

em seu pasto marrom

de lãzinhas apascentadas.

 

Mas o pequeno

insurge-se contra a boca

monstruosa

que tudo agita,

domina e oprime

e, na luta desigual,

empurra o invasor

que recua

e se urina, borbulhante,

salgado

e entra em cólica

que é sua forma

de desconfiança.

 

Poderia ver a luta

do Bem e do Mal,

de David e Golias,

do capital e trabalho,

o sim e o não,

o dia e a noite,

se não fosse

o que em mim rumina.

 

 

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

Outro exame médico, poema RCF

 



 

 

 

 

 

Fui ao médico

para medir meu índice de felicidade.

Medi a pressão de trabalho,

tomei contraste para as evanescências,

corri sobre uma plataforma de gente esquiva

e povo sem eira nem beira

no descaso das misérias alheias,

injetaram-me uma dose intramuscular

de desejos atônitos e desvelos inauditos,

uma mistura severa e irregular

de manias e sevícias de leituras,

deram-me os comprimidos

exaustivos e prolongados das insônias

dispersas que se encapsulam em cada letra,

retiraram-me líquidos exóticos

e humores diversos e divergentes,

aplicaram-me doses supimpas

de líquidos humorais e desatinados,

vasculharam-me o pulmão dos

desvalidos,

a fraqueza dos néscios diante dos dias

obscuros, a tintura das palavras que

sedimentam o álcool do desvario

e o espumante das desavenças,

radiografaram meu espanto e desídia,

a incúria dos dias, a incompatibilidade

das horas e as cinzas dos diálogos,

eletrocefalogramaram minha angústia

existencial, meus nervos agoniados

e destemperados na luta descontínua

de prumo e disciplina das estoicas

manhãs de inverno,

cateterizaram o coração das trevas

e uma floresta densa e árdua de

árvores derruídas e amedrontadas

pela devastação de outros homens,

e, por fim, chegaram à conclusão

de que não podem me diagnosticar,

paciente que sou do hospital

das clinicas poéticas

onde vivo internado há décadas

e sem previsão de alta.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Farinha, poema RCF

 



 







Tudo o que existe se esfarinha.

Tudo o que é férreo

um dia se corrói

que é outra forma de farinha.

 

A memória

tem mais fermento das ilusões

que trigo da razão.

 

Meus olhos são dois buracos negros.

Nada me desassossega

mais que o sossego.

 

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Jogos de azar, poema

 



 

Consultei os búzios

e suas ondas sem água

a fim de revelar

o turbilhão nas conchas de minhas unhas.

 

Meu mal se afina

e não posso cortar

pela raiz dos dedos

que acusam o destino.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Palavras cruzadas, poema RCF


 


 

 

 

Meu vício

são as palavras cruzadas.

O pau de sebo

onde discos da coluna vertical

misturam as letras da História

à mitologia dos faunos.

 

O leito quadricular horizontal

onde os adjetivos dormem

e os nomes,

na batalha naval,

destróier e submarina

a enciclopédia dos tempos.

 

Meu vício

são as palavras cruzadas

da poesia.

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Geleiras, poema de Matadouro de vozes



 

 

 

O que me queima,

devora e rói,

está na carne do tempo

e se move letárgico,

espasmódico e tenro,

um veleiro na montanha.

 

As geleiras,

que águas foram

e à água voltarão,

se automutilam

na voracidade de calor

e desistência.

 

A madrugada regurgita

seu caminho de escuros

e especula a existência de pés.

Acomodados no sofá,

ouvimos a geleira do passado.

 

Minhas mãos

têm dez línguas que falam por uma.

Mas em nenhuma delas sei dizer a palavra adeus.




quarta-feira, 20 de julho de 2022

Memorial do negrume, poema RCF


 


 

 

 

O tempo com suas quatro patas de caranguejo

não pode andar para trás e para o lado

como nos sonhos? Os homens e sua imensa

perda de equilíbrio por onde se acercam

ao salitre das chaves moribundas, escondidas da lucidez,

para que não nos envergonhe

de guardar no bolso de lamúrias

a fechadura do inconsciente.

 

Difícil mergulhar no arrecife de coral no meio da insônia.

Os pássaros noturnos

têm hábito de negrume.

Todo monumento

uma estátua em homenagem ao fim.

As cidades são cemitérios

e os monumentos enormes lápides.

 

Visitar os landmarks dos lugares

e trazê-los na retina dos álbuns,

miniatura de vida, um souvenir barato

e que descasca, a remexer-se na penúria

da pequenez quando se alarga

e aumenta a prisão ao ar livre dos náufragos.

Volta o caranguejo do câncer

que decidiu submergir

na lama dos arquivos mortos.





segunda-feira, 13 de junho de 2022

Águas, poema RCF

 




 

Lara Zaukoul

 

 

 

 

Submeto-me

ao sentimento de pertencer

a duas espécies distintas:

o homem que submerge

e outro sufocado de ar.

 

Não sei se ando enforcado

ou se mergulho em mim,

onde só há água revolta,

profundidades obscuras

e peixes que jamais

viram a luz do sol.

 

Meu nado

é um verbo para nada.

Atravesso de uma margem

a outra o rio subterrâneo

dos meus lençóis d’água.

 

Afogo-me na época da seca

no pó dos caminhos errados

e na aridez dos convívios,

no leito vazio,

na poeira do tempo.

 

As piscinas

são metonímias

de represa,

sem o perigo

das comportas,

que oprimem, cessam,

coalham,

interrompem a natureza

dos rios,

sugerem a queda

manipulada e autoritária.

 

Sei dos meus rios,

das minhas piscinas

de interrupções e

redundâncias,

da pasmaceira

de pensamentos redundantes,

das marés vazantes de humores

e da lua

que vigia antes que ilumina.







 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Cerâmica de barro

 



 

 

Em cada nordeste do medo,

em cada seca das aflições,

em cada escultura fixa

dos terrores mexicanos das noites,

a terracota

abre sua porção de solo

– o solo funéreo

dos pífanos das caatingas.

 

Os bonecos

são tumbas de si mesmo,

imolados pela fixidez,

contrafação do movimento,

até que o tombo lhes dê

o destino dos homens.

 

 

 

domingo, 8 de maio de 2022

Flexões e reflexões


 


 

 

 

 

Todo dia acordo são, 

raras vezes sou.

 

Meu tempo

é o infinito presente.

Sou todos os modos,

sofro com os outros,

todo dia sou a vítima,

o morto, o genocídio.

 

Preciso ser eu,

algumas vezes, meu Deus,

me flexionar

na barra nossa de cada dia,

e ter o imperativo

de conjugar

a primeira pessoa

do meu modo

singular de ser.