sábado, 21 de fevereiro de 2026

As mãos e as linhas tortas, poema

 



 




 

Minhas mãos

são mais secas

que um deserto de carcaças.

Com elas,

afago a estreiteza

do silêncio.

Meus dedos

não cabem na luva

um número menor

da frieza das negativas.

 

O dedo acusa

a vida que desabitei.

De minhas mãos

desabam cascatas de vazio

onde me banho de impurezas.

 

As palmas querem

segurar o vazio

que não é a glória

mas a tentativa

de agarrar o futuro.

 

O futuro gosta

da prestidigitação

e não passa de um charlatão

que logo, no presente,

se percebe o logro da mágica.

 

Meus dedos,

pinças de carne,

catam os milhos

dos comprimidos.

E a pílula da felicidade

 – que é cor-de-rosa –

acolchoa as paredes do real.

 

Minha impressão

é que cada palavra

é uma digital

que deixo no poema

que minha mão me escreve

por linhas tortas.

 

Às vezes perco a mão

para contar nos dedos

os desvios do caminho

do poema que se recusa a ser escrito.

 

Por outro lado,

sei que cozinho de mão cheia

as horas espalmadas

em que encontro

o pasmo do instante.

A unha da razão

e a carne do desejo

fazem parte do mesmo

dedo acusador do destino.

 

 

 

 


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