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sábado, 20 de junho de 2026

As ilhas derrotadas, poema RCF









No Maranhão, como no Titicaca,
e, dizem, também no México,
há ilhas que frei dos Prazeres
chamou de andantes.
São ilhas desnorteadas,
ilhas sem âncoras.
Vão cansadas de tanto migrar
e nunca chegar a termo,
prontas para invadir o fulcro da surpresa.
As ilhas viajantes são andarilhas de mato,
o desejo submerso de limo,
a busca constante do vício e do único.
Incomodam o homem as ilhas
que vagam além de sua inércia
e, estando um dia aqui,
outro dia acolá, as ilhas flutuantes
lembram-lhes que nem toda terra
é firme, nem toda ilha tem sua localização
exata e que os homens, se não são ilhas,
tampouco têm terra firme
e, flutuantes, andantes e viajantes,
podem dormir num canto de rio pacífico
e acordar na máquina de água
que são as cachoeiras,
trituradoras de homem e terra,
que desabam em si e findam mundo.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Destilaria (e fermentados)


O que se destila neste barril
que se subordina ao grão?
O que se aprisiona nessa caixa de pandora
é o mover dos dentes do lúpulo,
o cavalo fermentado de músculo e remorso.
A cevada do nojo
ou o levedo do fim
amadurece
a máscara de rapina
a cada manhã ou forno do dia.
Rum de carícias,
uísque de negaças,
cerveja negra do esquivo,
a destilaria (e fermentados) vai envelhecendo
o vinho amargo do recuo.
A régua improvável
que menos mede que encomprida,
menos risca que corta,
menos dá lucidez que desafio.
Longa é a jornada dos tonéis
que decantam em seu bucho
e madeira a passagem silenciosa
do tempo maturado no escuro
que por si só é outro barril,
não de madeira, mas de decomposição,
borra e recusa – nada destila
ou fermenta mais que a recusa.                               
(do livro O difícil exercício das cinzas)

quarta-feira, 13 de março de 2024

Doador de tempo, poema RCF












 
Sou doador de tempo.
Uma vez ao ano, estiro o braço
e de mim colhem tempo.
O coração o bombeia
e sinto o tempo subir à cabeça.
Mas quase sempre
entre a nodosa manhã
e o início serpenteante da noite,
mantenho o tempo frio.
Meu tempo segue seu labirinto
que pensa antes apresá-lo no corpo
quando na verdade por ele é prisioneiro.
Meço a pressão:
alta realidade.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

terça-feira, 24 de maio de 2022

Supermercado, poema RCF














Aqui também há outra cidade
com avenidas e gôndolas,
veneza de cores, mares, matadouros,
tudo reduzido a suas metonímias,
o horto vertical das leguminosas,
o pomar das caixas penduradas
nos galhos das prateleiras.

O mundo reduzido
– a vida, sempre a vida
imperiosa como a sede –
ao ar preso e condicionado
de um quilômetro quadrado.





(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

terça-feira, 22 de março de 2022

Considerações sobre a vizinhança, RCF


 Resultado de imagem para freud pintor

De quem somos vizinhos?
Mais do que senhor da vacuidade
que mora em frente à dúvida,
somos vizinhos da indefinição das portas
dos elevadores que não se abrem.
Vizinhos das luzes a interrogar o passado,
o quadro sem tela da janela.
Do inquieto permanecer
das coisas em repouso.
Do rumor dos móveis
e da carnagem das paredes.
Somos vizinhos dos rostos anônimos,
principalmente o que vemos ao nos barbear.
As escadas são duas faces do mesmo degrau,
tanto ascende quanto nos leva
ao rés do chão.
Somos vizinhos dos prudentes
e dos pudicos com suas higienes da vida,
o medo de ser contaminado pelos sujos humores,
a aderência do fim, o apelo esponjoso do remorso,
a imundície da liberdade,
afundar-se na lama dos desejos
ou nos dejetos do pensamento.
E aí vem a mania de limpeza:
lavar as mãos 
o Poncio Pilatos dos nossos erros
a crucificação da culpa
a nos pregar as mãos
nos jatos das pias.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

A arca das consequências






nesta minha barca, só entrarão
os animais distorcidos pela aspereza
que dá substância ao ar
e ao viver um ato de roçar a cautela dos dias
haverá uma ninhada de desculpas
as aves irrequietas dos volúveis
paquidermismo da embriaguez
uma avareza em forma de cão
anônimas e sumidas vidas de insetos
répteis dos desejos
duas almas desgastadas
uma família de ânsias
um herdeiro do fim
duas medidas de despejo
o animal disforme da utopia
e muita água uterina
a nos afundar na origem
até que venha a pomba do apocalipse
a mostrar que ainda há vida
sobre a face da terra
e nenhuma salvação nos versículos que escrevo.


(do livro O difícil exercício das cinzas)


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Estudo das chuvas, poema RCF










A primeira chuva é da natureza
que do céu provém
e cai em voo livre
cada gota um pássaro de água. 

A segunda chuva
pode  ser a ducha
que desaba artificial
torrente e fabricada
um chuva particular.

A terceira não é chuva
são pingos que dos olhos despencam,
em vez de escalar montanha
escorregam pelas encostas do rosto,
são poucas, sem asas,
gotas de chuva do choro,
uma chuva íntima,
tempestade miúda
a devastar o campo
de outro rosto:
a outra face do homem
o céu nebuloso que dentro traz.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

União civil de afetos e maneiras, poema RCF



 Resultado de imagem para stanislav plutenko
Ah, eu prometo nunca mais me abandonar,
ouvirei minhas queixas
e prometerei não me tratar mal.
Serei sempre atento comigo,
viajarei  junto comigo
a lugares novos e exóticos
e, nas fotos, sorrirei comigo
para que, no futuro, meus filhos
vejam que sempre estive
acompanhado de mim.
Estarei comigo, na alegria e na dor,
na bonança e na pobreza,
na saúde ou na doença,
e serei, por fim, fiel a mim
até que a morte nos junte
definitivamente ao nada.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

domingo, 5 de dezembro de 2021

Nadar quando se voa, poema RCF




Um pequeno ser – vespa
ou algo parecido – bate
asas no ar pesado da água.
O ser alado não entende
como seu habitat  se tornou
denso e líquido
e que voa na horizontal,
sem fôlego, à beira da exaustão.
Nunca imaginou que existir
exigisse tamanho esforço
e aquilo que era fluido e gasoso
passou a ser um tormento aquoso.
Retirado da água,
longe do pesadelo molhado
esquece que um dia esteve
preso a sua própria precariedade
e que nadou numa piscina
como um peixe que voasse.
A vespa nos lembra
que, como uma gravidez de pânico,
às vezes esquecemos a dor do parto
de nadar quando se deveria voar
ou voar quando nadar é preciso.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

O comprimento do homem simples, RCF




O homem simples mede apenas um palmo.
Um palmo de pouco,
um acúmulo de resto.
O homem simples
também pouco se cumpre.

O tempo simples
não se adorna
de passado
ou anseia por futuro,
regula-se pelo presente
exíguo, descarnado,
tempo de ponteiros nus,
tempo de relógios de ponto
que marcam a entrada na vida
até o final do expediente na morte.


Nasce de um desleixo
e termina num descaso.


(O difícil exercício das cinzas. 2014)
(foto: can dagarslani)

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Leveza do escuro

gaveta


O sol mancha as árvores
com suas sombras longas.
A natureza se espreguiça
com seus braços de galhos.
Nada é fixo e tudo muda.

Queria ser ligeiro
como um dia após o outro,
mas consigo apenas
andar ao longo dos meses,
que são paquidermes do tempo,
embora, ao fim e ao cabo,
percebo a metamorfose:
foi apenas uma andorinha
e seu verão que rápido alçaram voo.
E então sinto que passo feito sombra:
intermitente, incorpóreo e obscuro.





(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Zoologia da vida e da morte, O difícil exercício das cinzas


 

A vida e a morte
não deveriam ser femininas.
Não há nada mais neutro 
e pessoal a uma só vez.
A vida é híbrida
como  mula
e a morte é de dois gêneros,
comum e anfíbia,
um jacaré que habita
a água da escaramuça
e sobrevive na terra da surpresa.
O homem é também anfíbio:
regurgita na placenta das casas
e se oferece à ambulatória morte
em cada palmo de terra que pisa.
A mesma condenação dos rios
que não logram fugir do seu destino.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio, 7Letras, 2014)


terça-feira, 10 de agosto de 2021

Planalto em chamas, O difícil exercício das cinzas




 
O cerrado é fechado a quatro chaves.
A chave da seca, a chave do deserto,
a chave das queimadas, a chave das cinzas.
Os lábios racham, as palavras racham.
Mede-se a pressão alta dos incêndios
do cerrado hipertenso.


O cerrado vai comendo a si próprio,
na dieta incendiária.
A névoa seca engana os olhos
com seu véu de noiva incandescente
que se banha no rio de fogo.
O cerrado tem amor próprio,
aqui e ali brotoejam ipês
como mãozinhas amarelas
a acenar para olhos
também secos, também rudes,
também cerrados, também cardíacos.

(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio, 7Letras, 2014)

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A intimidade das coisas no mundo





Há as intimidades viscerais
como o lápis e o dedo,
o cão e a coleira,
o pente e seu cabelo
e a morte e seus vermes.
Há intimidades que são prolongações
como ainda o lápis e a mão
– o lápis seria um só dedo
que escreve ou o sexto dedo de grafite –,
a bengala e o cego
que enxerga por uma terceira perna;
a pedra e o estilingue
que lança a primeira
num voo mecânico e lembra
que o avião também é uma pedra
lançada por um bodoque
de tecnologia e querosene.


Mas a intimidade maior
está no homem e suas pernas
que o levam aonde quer chegar.
Mais íntimo do homem
é o seu desejo,
que é íntimo do seu corpo
e mais íntimo ainda do espírito,
mas o desejo leva o homem a enxergar,
a desenhar sua profissão,
a arrumar-se ao espelho da modéstia,
a lançar-se no voo livre,
lograr o sonho, íntimo dos destinos desfeitos.        


(O difícil exercício das cinzas. 2014)              

sábado, 5 de junho de 2021

Ato do fim, poema RCF


Arte | Antonio Lee
Antonio Lee





Gosto dos parques sem diversão.
As cortinas das minhas pálpebras
cerram a última peça do quebra-cabeça.
Domingo é uma palavra preguiçosa.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Diálogo entre Setembro e Outubro, O difícil exercício das cinzas






Perguntei a Setembro por que ele era um mês triste.
E ele me respondeu que Fevereiro
tampouco é fanfarrão e antiescolástico,
pois se aqui é carnaval,
há seis meses de noite no norte do mundo,
que é uma árvore que parte do ano planta bananeira.

E ainda me disse Setembro:
os homens são meses, alegres ou tristes,
cumprindo o calendário das soturnidades,
faça domingo, faça dia de semana,
feriado do corpo ou útil da alma.
Assim Setembro se retirou,
como soe acontecer com os meses,
e fiquei pasmo a mirar  folhinha apática e muda
até quando Outubro surgiu túrgido e obeso
e cuspiu a exasperante interrogação sobre males e descampados.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Aos dezoito anos, poema RCF

radu belcin

Aos dezoito anos,
havia mais noite em meus dias,
aos dezoito, tropicalizei-me,
aos dezoito, fui recruta e recrutei,
aos dezoito, rock enrolei-me,
alberguei-me nas esquinas, onde a
cidade é mais cidade,
aos dezoito, pari desertos,
a periferia virou centro,
aos dezoito anos de idade,
vendi um jipe e comprei
um sol a pino para
aparafusar minha velocidade,
aos dezoito anos,
desde o começo namorei o fim,
li Whitman e Álvaro de Campos
e acreditei que uma máquina
triturava minhas manhãs,
as rodas dentadas na maçã
e o coração flamejante de coca-cola,
o sangue a 24 quadros por minuto,
uma roupa brilhante de futuro
e não perdi a ternura,
faca que se amola
sem nunca chegar a ter gume,
aos dezoito anos,
mimeografei meus dedos
e encarcerei-me na liberdade.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)
                                                                                             

quinta-feira, 4 de março de 2021

A ofensa de existir, poema RCF

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Existir é uma grande ofensa.
Morro melhor quando morro pela manhã.
De tarde há muito sol
e meu corpo defunto sua
as maldades do mundo.


(do livro O difícil exercício das cinzas)

(imagem: rebecca drautemer)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

O fazedor de fragmentos, O difícil exercício das cinzas




O facho da lanterna é um filete de luz
que desafia a ordem da noite.
Um vaga-lume espichado de luz contínua,
um bicho iluminado em suas entranhas,
que aponta para um longo dedo de luz artificial.
E como não é elétrico, o facho é uma invenção
das pilhas dos olhos que também se espicham
num terceiro olho de ciclope noturno.
O facho de luz se revela: é um facho de surpresa
e busca, ninguém acende uma lanterna
para fazer o dia como a luz elétrica
fornece um solzinho particular. 
 
A lanterna traz o facho do medo,
é um dia de bolso e, principalmente, o facho mostra
a precariedade do dono,
a luz presa na mão,
a luz que escapa da mão,
a luz que nos reduz à condição menos humana,
há menos carne e matéria e tudo é recortado
um álbum de fotografia de objetos
ou um pesadelo de fragmentos.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)