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domingo, 21 de junho de 2026

A personagem do romance 3

 







O personagem ausente

 

 

    Durante a maior parte do romance O coração das trevas, Kurtz não aparece, mas paira constante e acusativo. É um personagem perverso, o homem do horror, aquele civilizado que na África se transformou num monstro. Conrad demora-se na viagem, na descrição da paisagem, na dificuldade de avançar em rios tortuosos e armadilhas diversas, desde as naturais até as humanas.

            A perícia narrativa de Conrad é admirável. Uma construção pela negação. Os detalhes são absorvidos como se já pudessem dar o perfil de Kurtz e como se pudesse também antecipar a solução dos conflitos. O leitor espera, a qualquer momento, a revelação. Quem é o personagem principal em O coração das trevas? Para mim, não é o narrador, mas ainda e definitivamente Kurtz. Então o que se constrói não se o faz por acúmulo de informações, mas por somatório de desvios, negaças, recusas, sugestões e descrição de um ambiente sufocante.

            A grande discussão do livro de Conrad é a dualidade barbárie x civilização. Naquele momento em que a Europa acabava de repartir o continente africano, o processo de descolonização se precipitava, Conrad contrapõe a pretensa superioridade do homem europeu diante da selvageria. E conclui que o convívio de Kurtz entre os nativos do Congo o fez regredir a um estágio de animalidade que está presente em todo homem dito civilizado. O horror a que todo homem está sujeito ao deixar aflorar em si sua parte mais primitiva foi condenado pelo escritor Chinua Achebe que viu no romance do inglês-polonês mais uma vez o preconceito do homem branco em relação à África. Achebe argumenta que Conrad colocou a selvageria num modo de vida tribal, mostrando uma visão ainda colonizadora e superior do homem europeu. O africano seria aquele que estaria tomado não só pela selvageria como também potencialmente perigoso. O convívio com o lado negro da África poderia levar o homem à loucura e ao animalesco.[1]

            Ainda que pertinente a crítica de Achebe, Conrad que acreditava estar denunciando o colonialismo, criou o denso personagem de Kurtz com toda a sua simbologia e marcante configuração mental.

 

            Kurtz, isto deve estar claro, não escolheu a vida selvagem fora de qualquer ilusão sentimental que isso seja nobre ou virtuoso. Pelo contrário, ele fica horrorizado – um dos seus lúcidos relatórios sobre os nativos que Marlow leu depois de sua morte é interrompido de repente com o grito “Exterminar todos os brutos!”. E Marlow mesmo, embora em uma ocasião sinta a apavorante fascinação pela vida selvagem, não proporciona nenhum charme que antropólogos comumente descobrem nos hábitos de uma tribo; ele não pode deixar de admirar alguns comportamentos dos nativos mas vê a cultura que os alimentou como sórdida e terrível, uma cultura europeia que oprime. Sua palavra para isso é bíblica e conclusiva: isto é “abominação”. Nem Marlow sugere que Kurtz, encantado pela selvageria, tenha encontrado salvação em sentido moral: ele não se livra de nenhum dos vícios europeus, nem mesmo avareza. Para Marlow, contudo, Kurtz é um herói do espírito que ele valoriza como Teseu em Colona valorizou Édipo: ele pecou por toda humanidade.[2]

 

            O personagem ausente na verdade se revela altamente presente, seja no discurso do narrador, seja na criação de ambientes. Ou ainda ao relatar como os personagens que conviveram com ele sofreram a sua influência, são por ele modificadas, o que lhes resta da experiência do convívio. Há mesmo personagens como filhos ou parentes distantes ou próximos que nunca chegaram a conhecer o personagem, mas são profundamente impactados por ele. É muito comum este tipo de personagem naquelas ficções em que um filho busca reconstituir a trajetória dos pais a fim de entender determinada situação ou resolver seus dramas íntimos.

            O personagem ausente é uma criação de outro personagem ou a recriação de várias vozes que recontam as experiências do personagem que não aparece, mas a todos perturba por várias razões. Não há necessidade de recompor o passado a fim de caracterizar o personagem ausente. Ele apenas pode surgir ou pairar em toda a narrativa. A presença de forças políticas como nas ditaduras, o personagem do ditador que permeou a literatura da América Latina alimentava a presença do déspota em cada ato dos personagens sem que o tirano surgisse em cena.

            A ausência é um manuseio de presenças fortes. Geralmente estes personagens têm uma influência perturbadora. Não são meros personagens, mas as molas, se não mestras, mobilizadoras das ações. Como caracterizar fisicamente estas ausências? Muitas vezes, o personagem não é descrito fisicamente, pois sua presença é psicológica em outros personagens. Desta maneira, ele pode ter diversas configurações de aparência física e detalhes anatômicos que só interessam se fazem parte da história. Um rosto queimado, um cacoete qualquer, a loucura do personagem encarcerado em sótão e sua aparência de abandono e descaso.

            Embora não seja personagem, lembro do conto A casa tomada, de Cortázar, em que a família percebe que a casa está sendo invadida e não se sabe por quem. Por certo, a casa não é invadida por uma força física da natureza: areia, vento, furacão. A casa, num momento de violência política na Argentina, lastreada por vários governos autoritários quando não ditatoriais, pode ter a leitura de uma invasão de privacidade pelas forças de segurança ou mesmo o acuo dos personagens tomados de pânico e encurralados no único lugar que pensam estar a salvo.

 

 



[1] ACHEBE, Chinua. “An image of Africa”, The Massachusetts Review, 1977. In: CONRAD, Joseph. Heart of darkness and selections from Congo Diary. New York: Modern Library, 1999. ps. xlv-lii.

[2] “Kurtz, is must be clear, did not choose the live of savarery out of any sentimental illusion that it is noble and virtuos. On the contrary, he is appalled by it – one of his high-minded reports on the natives which Marlow reads after his death breaks off suddenly with scrawl, “Exterminate all the brutes!”. And Marlow himself, although on one occasion he feels the frightening fascination of the savage life, allows it none of the charm that anthropologists commonly discover in the tribal ways, he cannot  withhold admiration from the manly grace of the natives but he looks upon the culture that bred them sordid and terrible , in its own fashion as evil as the European culture which oppresses it. Nor does Marlow sugest that Kurtz, by embracing savagery, has found redemption in any personal moral sense: he has purged himself of none of the European vices, nor even greed. Fro Marlow, neverthelesss, Hurtz is a hero of the spirit whom he cherishes as Theseus at Colonus cherised Oedipus: he sinned for all mankind.” TRILLING, Lionel. “Society and Authenticity”. In: Sincerity and Authenticity, 1971. Ibiden, ps.xlii-xliv.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A personagem do romance, ensaio 2

 






(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)



(....)


               Muitos veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se quiserem, de uma só persona. A loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição, preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.

 

            A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei, a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães. [...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]

 

            Esse personagem romanesco, contudo, não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização. Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.

            É interessante observar que o romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem, ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais daí para a frente na prosa de ficção.

            Antissocial e irresponsável, classifica Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.

            O livro teve grande recepção e fora traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e muitos só o foram abolir tardiamente.

            Nabokov escreve que, ao tempo de Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.

 

            É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]

Mas se pensamos nos livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]

 

Não há, contudo, como fugir dessa observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan. Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo, melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida para servir às ciências do homem.



[1] Introdução, de 1881, à versão inglesa de Dom Quixote traduzida por Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.

[2] Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.