O
personagem ausente
Durante
a maior parte do romance O coração das
trevas, Kurtz não aparece, mas paira constante e acusativo. É um personagem
perverso, o homem do horror, aquele civilizado que na África se transformou num
monstro. Conrad demora-se na viagem, na descrição da paisagem, na dificuldade
de avançar em rios tortuosos e armadilhas diversas, desde as naturais até as
humanas.
A perícia narrativa de Conrad é
admirável. Uma construção pela negação. Os detalhes são absorvidos como se já
pudessem dar o perfil de Kurtz e como se pudesse também antecipar a solução dos
conflitos. O leitor espera, a qualquer momento, a revelação. Quem é o
personagem principal em O coração das
trevas? Para mim, não é o narrador, mas ainda e definitivamente Kurtz. Então
o que se constrói não se o faz por acúmulo de informações, mas por somatório de
desvios, negaças, recusas, sugestões e descrição de um ambiente sufocante.
A grande discussão do livro de
Conrad é a dualidade barbárie x civilização. Naquele momento em que a Europa
acabava de repartir o continente africano, o processo de descolonização se
precipitava, Conrad contrapõe a pretensa superioridade do homem europeu diante
da selvageria. E conclui que o convívio de Kurtz entre os nativos do Congo o
fez regredir a um estágio de animalidade que está presente em todo homem dito
civilizado. O horror a que todo homem está sujeito ao deixar aflorar em si sua
parte mais primitiva foi condenado pelo escritor Chinua Achebe que viu no
romance do inglês-polonês mais uma vez o preconceito do homem branco em relação
à África. Achebe argumenta que Conrad colocou a selvageria num modo de vida
tribal, mostrando uma visão ainda colonizadora e superior do homem europeu. O
africano seria aquele que estaria tomado não só pela selvageria como também potencialmente
perigoso. O convívio com o lado negro da África poderia levar o homem à loucura
e ao animalesco.[1]
Ainda que pertinente a crítica de
Achebe, Conrad que acreditava estar denunciando o colonialismo, criou o denso
personagem de Kurtz com toda a sua simbologia e marcante configuração mental.
Kurtz, isto deve estar claro, não escolheu a vida
selvagem fora de qualquer ilusão sentimental que isso seja nobre ou virtuoso. Pelo
contrário, ele fica horrorizado – um dos seus lúcidos relatórios sobre os
nativos que Marlow leu depois de sua morte é interrompido de repente com o
grito “Exterminar todos os brutos!”. E Marlow mesmo, embora em uma ocasião sinta
a apavorante fascinação pela vida selvagem, não proporciona nenhum charme que antropólogos
comumente descobrem nos hábitos de uma tribo; ele não pode deixar de admirar
alguns comportamentos dos nativos mas vê a cultura que os alimentou como
sórdida e terrível, uma cultura europeia que oprime. Sua palavra para isso é
bíblica e conclusiva: isto é “abominação”. Nem Marlow sugere que Kurtz,
encantado pela selvageria, tenha encontrado salvação em sentido moral: ele não
se livra de nenhum dos vícios europeus, nem mesmo avareza. Para Marlow,
contudo, Kurtz é um herói do espírito que ele valoriza como Teseu em Colona valorizou
Édipo: ele pecou por toda humanidade.[2]
O personagem ausente na verdade se
revela altamente presente, seja no discurso do narrador, seja na criação de
ambientes. Ou ainda ao relatar como os personagens que conviveram com ele
sofreram a sua influência, são por ele modificadas, o que lhes resta da
experiência do convívio. Há mesmo personagens como filhos ou parentes distantes
ou próximos que nunca chegaram a conhecer o personagem, mas são profundamente
impactados por ele. É muito comum este tipo de personagem naquelas ficções em
que um filho busca reconstituir a trajetória dos pais a fim de entender
determinada situação ou resolver seus dramas íntimos.
O personagem ausente é uma criação
de outro personagem ou a recriação de várias vozes que recontam as experiências
do personagem que não aparece, mas a todos perturba por várias razões. Não há
necessidade de recompor o passado a fim de caracterizar o personagem ausente.
Ele apenas pode surgir ou pairar em toda a narrativa. A presença de forças
políticas como nas ditaduras, o personagem do ditador que permeou a literatura
da América Latina alimentava a presença do déspota em cada ato dos personagens
sem que o tirano surgisse em cena.
A ausência é um manuseio de
presenças fortes. Geralmente estes personagens têm uma influência perturbadora.
Não são meros personagens, mas as molas, se não mestras, mobilizadoras das
ações. Como caracterizar fisicamente estas ausências? Muitas vezes, o
personagem não é descrito fisicamente, pois sua presença é psicológica em
outros personagens. Desta maneira, ele pode ter diversas configurações de
aparência física e detalhes anatômicos que só interessam se fazem parte da
história. Um rosto queimado, um cacoete qualquer, a loucura do personagem
encarcerado em sótão e sua aparência de abandono e descaso.
Embora não seja personagem, lembro do
conto A casa tomada, de Cortázar, em
que a família percebe que a casa está sendo invadida e não se sabe por quem.
Por certo, a casa não é invadida por uma força física da natureza: areia, vento,
furacão. A casa, num momento de violência política na Argentina, lastreada por
vários governos autoritários quando não ditatoriais, pode ter a leitura de uma invasão
de privacidade pelas forças de segurança ou mesmo o acuo dos personagens tomados
de pânico e encurralados no único lugar que pensam estar a salvo.
[1]
ACHEBE, Chinua. “An image of Africa”, The Massachusetts Review, 1977. In:
CONRAD, Joseph. Heart of darkness and selections from Congo Diary. New
York: Modern Library, 1999. ps. xlv-lii.
[2]
“Kurtz, is must be clear, did not choose the live of savarery out of any
sentimental illusion that it is noble and virtuos. On the contrary, he is
appalled by it – one of his high-minded reports on the natives which Marlow
reads after his death breaks off suddenly with scrawl, “Exterminate all the
brutes!”. And Marlow himself, although on one occasion he feels the frightening
fascination of the savage life, allows it none of the charm that
anthropologists commonly discover in the tribal ways, he cannot withhold admiration from the manly grace of
the natives but he looks upon the culture that bred them sordid and terrible ,
in its own fashion as evil as the European culture which oppresses it. Nor does Marlow sugest that Kurtz, by
embracing savagery, has found redemption in any personal moral sense: he has
purged himself of none of the European vices, nor even greed. Fro
Marlow, neverthelesss, Hurtz is a hero of the spirit whom he cherishes as
Theseus at Colonus cherised Oedipus: he sinned for all mankind.” TRILLING, Lionel. “Society and Authenticity”. In: Sincerity
and Authenticity, 1971. Ibiden, ps.xlii-xliv.
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