(publicado pela Academia Maranhense de Letras, 2023, ou ebook na Amazon)
Personagem:
mito e ficção
O personagem como produto da
imaginação responde a um ato descritivo do autor com outro ato reativo do
leitor. Não chega a ser um diálogo, é mais bem uma provocação. A sugestão de
modos de comportamento, descrição física, abundante ou mínima, traços grossos,
pinceladas rápidas ou detalhes abundantes da psicologia ou do físico, geram no
leitor uma remota recorrência a seu repertório emocional.
A leitura, tanto quanto a escrita, é
uma vocação. Nem todos são leitores de ficção. Como não são todos os homens
escritores. É certo que a capacidade interpretativa e leitora é muito mais
ampla e requer menos habilidades. Como a leitura é um ato da imaginação e da
capacidade do leitor de supor um cenário, uma vida de papel, uma sugestão de
imagens e o acompanhamento de uma história, nem todos estão aparelhados para
exercer o processo de projeção ficcional.
Para
se ouvir música ou ver uma pintura, não se precisa ser alfabetizado. Ao ver uma
pintura, um filme ou algo visual, o espectador não precisa de uma
pré-habilidade como o domínio do alfabeto. Para consumir literatura exige-se
que, no mínimo, o leitor seja leitor. Ou seja, alfabetizado. O leitor precisa
dominar um código. E, além disso, ao passar para a fase seguinte, o leitor de
ficção deverá ter a habilidade para exercer a imaginação.
Cito Iser:
Apenas a imaginação é capaz de captar o não-dado, de
modo que a estrutura do texto, ao estimular uma sequência de imagens, se traduz
na consciência receptiva do leitor. O conteúdo dessas imagens continua sendo
afetado pelas experiências dos leitores. Essas experiências constituem o quadro
de referências que permite apropriar-se do não-familiar ou ao menos fundamentar
sua imagem. A concepção do leitor implícito descreve, portanto, um processo de
transferência pelo qual as estruturas do texto se traduzem nas experiências do
leitor através dos atos de imaginação.[1]
O processo de decodificação e a eleição
ficcional não são fáceis nem comuns a todos. A eleição ficcional requer do
leitor que ele passe da condição de mero decodificador de mensagens como a leitura
do jornal a um patamar de abstração. A abstração é um requisito tão necessário
quanto a alfabetização e para ele não há código a ser aprendido.
O código da abstração exige do
leitor uma imaginação desafogada. Não se lê um romance como um ensaio ou uma notícia.
Os dados objetivos da leitura, no que toca ao que nos interessa, ao personagem,
leva o leitor para outra categoria de código. O pacto da verossimilhança e da suspensão
da descrença não é ensinado por ninguém. Ele já está internalizado no leitor ou
não estará. Esta capacidade, que parece se estender universalmente, vai
desaparecendo ou se acentuando com a vida adulta.
O personagem é uma ilusão real que
gera para o pacto narrativo uma função fundamental que é a de provocar
“realidade” mesmo em relatos fantásticos. É o personagem que concretiza ações,
provoca situações, desvela ou cria conflitos. É ele também, junto com as
situações que promove, que pode desestimular a verossimilhança se o autor não
for eficaz em compô-la dentro do âmbito da própria narrativa como a teoria da literatura
há mais de um século está acostumada a apontar.
O personagem de ficção não se
comporta como um mito, ou melhor, cada personagem é um mito em particular. Cada
personagem de seu autor é um mito próprio, criado por uma arquetipia não
freudiana, nem junguiana, mas produzida por suas múltiplas vivências, traumas, frustrações,
perdas e lutos. Se esse personagem alcança o arquétipo universal poderá ter
algum êxito maior, mas não necessariamente o criador necessita buscar um mito
para nele se apoiar. O princípio maior da narrativa é a qualidade estética e fabuladora.
O autor pode elevar à categoria de mito ou arquétipo o que antes nunca foi
visto como mito ou arquétipo. Várias obras ao longa da história usaram os mitos
e se perderam, outras não se preocuparam em repetir nenhum padrão deste gênero
e tiveram seus leitores e perduram[2].
Ulisses,
de James Joyce, ficou na literatura não por causa de ser uma paródia moderna da
odisseia de Homero. Permanece e permanecerá em virtude de sua alta dosagem
estética inovadora e criação de técnicas (o stream
of consciounesss não foi como todos sabem uma invenção sua, mas sim de
Edouard Monjardin, mas por certo ele a utilizou de maneira mais aguda e
performática), jogos de linguagem, recortes, citações à cultura universal, um
estilo único.
O personagem seria então fruto de
uma mitologia pessoal. Mas como o homem não é um ser solitário e, por mais que
se isole da sociedade, traz com ele os confrontos que teve na sua socialização
e dela aprendeu a fazer seu personagem ter emprego, relações familiares,
amores, desditas, ambições e tantas outras experiências de um grupo social e,
por isso, ele consegue escrever sobre a “realidade”. Logo ele traz também uma
grande dose de uma mitologia coletiva.
Quanto à informação que o narrador
sugere do personagem, ela não apenas é objetiva como também envolve toda uma
gama de sensações. O autor conduz o leitor para um embate entre informação
objetiva e informação emocional. Esta última está dividida entre aquela à superfície
e outras entranhadas. As de superfícies são claras. O autor quer traçar o
perfil do personagem como um sujeito bonito, nobre e que conquista as mocinhas
levianamente. Este personagem pode ser o Vronski de Ana Karênina. Por trás da informação, transmitida pelos pensamentos
e comportamentos do personagem, além da informação do narrador, como nas
narrativas realistas do século XIX, o leitor terá tido suas experiências com um
tipo deste na vida real. Ainda estamos à superfície da emoção. Outras experiências
que não são lógicas ou imediatamente recordadas pelo leitor podem-no levar a
ter outro tipo de apreensão do personagem. Esta formação de imagem é
inconsciente, jaz submersa. Ou como o escritor argentino Ernesto Sabato
expressou: “obriga o leitor a exercitar suas forças instintivas, os recursos de
seu inconsciente”.[3]
Há uma relação obscura entre a
projeção de conhecimento oferecida pelo autor e a apreensão difusa de
recebimento e introjeção da informação pelo leitor. O entendimento é fato
objetivo, a apreensão emocional é algo subjetivo, íntimo, particular, não
compartilhado pelo conjunto dos leitores.
[1]
Iser, Wolfgang. O ato de leitura,
vol. 1. Tradução de Johannes Krestschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996.p. 79.
[2]
Ian Watt caracteriza sete ou oito visões sobre o mito ao estudar personagens
que saíram das páginas do livro e se tornaram até mesmo adjetivos nas línguas
cultas. No primeiro grupo, ele lembra James Frazer e seu The Golden Bough: a
Study in Comparative Religion, de 1890, que procura dar respostas às
questões mais ou menos factuais ou racionais. No segundo, está Cassirer que
“via os mitos como projeções da realidade humana: o pensamento mítico, Cassirer
escreveu: ‘é um modo de estruturar simbolicamente o mundo.’” No terceiro, se
coloca a leitura psicanalítica e lembra das Mil faces de um herói, de
Joseph Campbell que Watt se refere como “uma tendência redutora na crítica
psicanalista do mito”. No quarto grupo, agrega Durkheim e Malinowski, este
último investiga a solidariedade social, mas observa como os mitos ratificam e
sacralizam instituições sociais, mágicas e até o direito à propriedade. No
quinto, estaria Edmund Leach e no seu entender “mito e ritual são igualmente
simbólicos e de seus conteúdos fazem parte declarações enigmáticas sobre as
estruturas sociais”. Sexto, Lévi-Straus e o estruturalismo. Além de outras
leituras míticas que não são feitas por antropólogos profissionais, mas
teóricos da literatura como, entre outros, Northrope Frye. “Mito e individualismo”.
In: WATT, Ian. Mitos do individualismo moderno. Fausto, dom Quixote, dom
Juan, Robinson Crusoé. Rio: Zahar, 1997. pps 228-240.
[3]
SABATO, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. Tradução Pedro Maia
Soares. São Paulo: Companhia das letras, 2003.
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